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História pra Contar: Como a cascavel ganhou seu chocalho – Fábio Sombra
História pra Contar: Como a cascavel ganhou seu chocalho – Fábio Sombra

          No início dos tempos, a cascavel era uma cobra como as outras e não tinha aquele chocalhinho na ponta do rabo. Nessa história, vamos descobrir como foi que a danada recebeu esse presente tão valioso.

Certa vez, um violeiro afamado vinha viajando a cavalo e tomou uma estrada que passava pelo meio de uma mata fechada e perigosa. Como não conhecia o lugar, o rapaz calculou mal o tempo do percurso, e a noite acabou chegando enquanto ele ainda estava na metade da travessia. Apesar da escuridão, dos pios das corujas e do rufar das asas de morcegos, o violeiro não se desesperou. Ao encontrar uma clareira, acendeu uma fogueirinha e, depois de fazer sua refeição, resolveu tocar um pouco para afastar o medo e a solidão.

Ao ouvir aqueles ponteados bonitos, os bichos da mata foram se achegando mais para perto da clareira. Lá para a meia noite, uma verdadeira multidão de macacos, antas, pacas, tamanduás e tudo quanto era bicho que morava naquela floresta já havia se arranchado para espiar o moço tocar a sua violinha. O violeiro viu aquele mundão de olhinhos brilhando no escuro e não ficou medo, pois era devoto de São Gonçalo do Amarante e sabia que o santo estaria sempre ao seu lado para protegê-lo. E continuou tocando, cada vez mais bonito.

Lá pelas duas da madrugada, sentindo que o sono chegava, o violeiro ponteou a última moda e, para sua surpresa, ao final da melodia, a mata foi invadida por um barulho ensurdecedor. Eram os Bichos. Cada um aplaudindo o violeiro da maneira que a natureza lhe permitia. Os pássaros piavam, os sapos coaxavam, os macacos gritavam, e as onças soltavam urros de aprovação. Alguns bichos batiam palmas, outros pulavam e sapateavam e outros ainda, como os tatus, esfregavam seus cascos nos troncos das árvores.

          Só uma velha cobra cascavel que morava em um oco de pau ali perto é que não conseguia agradecer ao violeiro pelo seu recital. Como não emitia sons, não tinha mãos para aplaudir , nem pernas para bater no chão, a pobre da cascavel se entristeceu e lamentou sua sorte.

Nossa Senhora, que estava no céu vendo tudo o que acontecia na floresta, teve pena da cascavel e, naquele mesmo instante, fez com que um chocalho crescesse na ponta de sua calada. Muito feliz com o presente, a cobra sacudiu o rabo com vigor e puxou mais uma onda de aplausos para o violeiro.

          Blog Violeiro Pois foi assim que a cascavel ganhou seu chocalho. E é por esse motivo que os violeiros mais tradicionais sempre guardam um guizo de cascavel no bojo de suas violas, Dizem que é para o som do instrumento ficar mais brilhante, mas, no fundo mesmo, o que todo tocador de viola gosta é de ouvir a zoadinha do chocalho aplaudindo seus ponteios lá de dentro do instrumento.

E, por ser presente de Nossa Senhora, o tocador não pode matar a cobra para ganhar o guizo. Ele tem de ser recebido das mãos de um mestre e só tem valor se for retirado de alguma serpente achada morta por esses cantos de mato.

Sombra, Fábio. Treze casos de viola e violeiros : do Baú do mestre Quilim da Braúna. Rio de janeiro: Escrita Fina, 2010.