Tag: contar histórias

Todos sabiam contar Estórias!
Todos sabiam contar Estórias!

 “Depois da ceia faziam roda para conversar, espairecer, dono da casa, filhos maiores, vaqueiros, amigos, vizinhos. Café e poranduba. Não havia diálogo mas uma exposição. Histórico do dia, assuntos do gado, desaparecimento de bois, aventuras do campeio, façanhas de um cachorro, queda num grotão, anedotas rápidas, recordações, gente antiga, valentes, tempo da guerra do Paraguai, cangaceiros, cantadores, furtos de moça, desabafos de chefes, vinganças, crueldades, alegrias, planos para o dia seguinte. Todos sabiam contar estórias. Contavam à noite, devagar, com gestos de evocação e lindos desenhos mímicos com as mãos. Com as mãos amarradas não há criatura vivente para contar uma estória. Seriam temas para pesquisas sábias de alemães e norte-americanos essa linguagem auxiliar, indispensável nos “primitivos” de todos os tempos, Gebärdensprache, manual concepts, variações de timbres, empostamento, nasalações, saltos de quinta e oitava, dando visões de voo, pompa, ferocidade, alegria, Lautbilder. Os contos tinham divisões, gêneros, espécies, tipos, iam às adivinhações, aos trava-línguas, mnemonias, parlendas. Ia eu ouvindo e aprendendo. Não tinha conhecimento anterior para estabelecer confronto nem subalternizar uma das atividades em serviço da outra. Era o primeiro leite alimentar da minha literatura. Cantei, dancei, vivi como todos os outros meninos sertanejos do meu tempo e vizinhanças, sem saber da existência de outro canto, outra dança, outra vida.Voltando a Natal, fui para o curso secundário e pude ver a diferença entre as duas literaturas, ambas ricas, antigas, profundas, interdependentes e ignorando as pontas comunicantes. Inconscientemente confrontava ritmos e gêneros, as exigências do dogma culto e a praxe dos cantadores sertanejos, setissílabos, décimas, pé-quebrado, a ciência do “desafio”. Todas as leituras subsequentes foram elementos de comparação. Compreendera a existência da Literatura Oral brasileira onde eu mesmo era um depoimento testemunhal.”

(in Literatura oral do Brasil – Luis da Câmara Cascudo)

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 Agora, lá vem uma das histórias que o povo costumava contar antigamente:

A moça e vela

– Minha Filha – dizia  sempre a mãe de uma moça que tinha por costume ficar à janela até as tantas da noite -, quem se deixa ficar à janela até alta hora vê coisas  que não deve ver. Isto é exemplo dos antigos que sabiam mais do que nós.
– Qual o quê!- Dizia a moça -, nunca vi nada de espantar. Não tenho sono, não hei de dormir com as galinhas.
A mãe repetia-lhe sempre o conselho, mas a moça, com quem  ia às vezes falar o namorado, continuou o costume.
i60381Vai por uma vez estava a teimosa à janela, quando, ao soar a última badalada  da meia-noite, viu aproximar-se uma figura envolta  num hábito muito branco, caminhando  com passo  apressado e trazendo, numa das mãos, uma vela acesa. A moça  estava tão distraída, a pensar nos seus  amores e naquele  que esperava, que nem pavor sentiu. foi como  se não tivesse visto nada.
O desconhecido saudou-a e, apagando a vela, pediu-lhe  que a guardasse até a sua volta.
Maquinalmente a rapariga  foi colocar  a vela sobre o leito e,  quando voltou, já não encontrou mais o desconhecido.
Nem se lembrou dos conselhos  da mãe nem a aparição lhe causou o menor abalo. Continuou  à janela toda preocupada  com os seus pensamentos de amores.

Às duas da madrugada, que é quando as almas penas se recolhem, ela ainda estava apreciando a noite. O Desconhecido chegou-se rapidamente  e pediu-lhe a vela.

A moça foi buscá-la ao leito, mas soltou um grito de horror. Em vez de vela, se lhe apresentou  um esqueleto, estendido na cama. A caveira  ergueu-se e foi, diante de seus olhos, saindo pela janela, como se fosse uma pluma.
Desde esse dia a moça ficou pateta, rindo ou chorando à toa, e foi exemplo para todas as moças desobedientes, no lugar onde esse causo se deu.

Lindolfo Gomes, em “Contos Populares”

Imagens de Contadores de Histórias retratados ao longo do tempo
Imagens de Contadores de Histórias retratados ao longo do tempo
 

O contador de histórias é uma figura ancestral, presente no imaginário de inúmeras gerações ao longo da História. Em um universo desprovido de recursos midiáticos, este ofício era imprescindível para a formação dos futuros adultos, conferindo às crianças, através das narrativas de histórias, ‘causos’, mitos, lendas, entre outras, uma imagem menos apavorante de uma realidade então povoada pelo desconhecido.

Ao mesmo tempo em que amenizava os medos e uma existência muitas vezes desfavorável, o narrador ajudava as pessoas a entenderem melhor o que se passava a sua volta, a enfrentar os dilemas e confrontos de natureza social e individual, extraindo das experiências o aprendizado mais profundo.

Normalmente o contador está muito presente na Era Medieval, nos castelos tantas vezes sombrios, nas moradas mais remotas, nos povoados disseminados pelas áreas rurais, com o objetivo de compartilhar suas vivências e gerar em torno do grupo magnetizado por suas histórias uma proteção gerada pelo próprio encanto do momento e pela força do coletivo. As narrativas eram tecidas pela voz mágica do contador, ao redor de fogueiras ou lareiras que contribuíam para criar uma atmosfera de intensa magia.

Mas o narrador oral é ainda mais antigo, remontando historicamente à Antiguidade greco-romana, na figura dos bardos, responsáveis pela transmissão de histórias, lendas e poemas orais na forma de canções. Quanto mais desconhecido era o mundo em que se vivia, maior necessidade se tinha de povoar este universo com imagens que pudessem, ao mesmo tempo, educar e fortalecer a coragem, predispondo as pessoas a enfrentarem os monstros, dragões e demônios que habitavam suas mentes.

O contador de histórias não era um mero reprodutor de narrativas, ele também gerava seus relatos, simplesmente mantendo-se atento à reação psicológica dos ouvintes. Conforme a disponibilidade ambiental, ele improvisava e ampliava seus contos, tendo como principal instrumento a palavra, que detém o poder de transformar o comportamento humano, como é possível perceber na mensagem transmitida pelas 1001 Noites, onde as histórias se entretecem para manter Scherazade viva e livre, e ao mesmo tempo para curar o vizir, purificando seu coração do incessante desejo de vingança contra as mulheres. Aliás, no Oriente esta tradição de curar a psique através da narrativa de estórias é amplamente preservada pelos psicoterapeutas.

O narrador, para melhor instrumentalizar as palavras, domina, mesmo que inconscientemente, boa parte das figuras de linguagem, de sintaxe e de pensamento, possibilitando ao contador, antigamente uma pessoa mais velha e sábia, magnetizar seus ouvintes, despertando no ambiente o poder da imaginação, tecida com uma linguagem encantada, apta a transportar as pessoas para reinos distantes e, de outra forma, inacessíveis.

Recentemente a imagem do contador de histórias retornou com força total, principalmente na segunda metade do século XX. Inúmeras pessoas optaram por este caminho, procurando cursos e oficinas técnicas para se habilitarem profissionalmente. Hoje, pode-se afirmar que esta ocupação começa a deixar as mãos de amadores para seguir na direção da profissionalização, pois atualmente há uma demanda crescente por este profissional, principalmente nas escolas. Algumas destas instituições chegam a reservar um espaço no currículo escolar para este evento. Às vezes até mesmo professores e bibliotecários são preparados para exercerem esta tarefa no âmbito escolar.

Por Ana Lucia Santana

Fontes
http://pontodeencontro.proinfo.mec.gov.br/O_Contador_de_Historias.pdf

http://www.infoescola.com/curiosidades/contadores-de-historias/

História pra Contar:  O Corpo Seco
História pra Contar: O Corpo Seco

A lenda do corpo seco na versão dos pescadores de Aparecida do Norte

Maria de Lourdes Borges Pinheiro

A região de Aparecida do Norte foi povoada inicialmente por pescadores e ainda hoje muitos continuam na mesma labuta, às margens do Paraíba.  São piraquaras simples e bons, honestos e trabalhadores, resignados e piedosos, que conhecem as manhas das águas e dos peixes, procurando superá-las com habilidade e destreza. Para isso, dispõem de perícia, de pertences que fabricam com as próprias mãos e de uma paciência como poucos possuem neste mundo de Deus. Nada os atemoriza, nem a noite escura, nem as tempestades. Só a rede vazia os entristece.

Vivem eles na atmosfera da magia e, religiosos que sejam, se movem entre crendices e superstições.

Entre as suas lendas — lendas para nós, para eles mitos, pois lhes determinam o comportamento — a mais conhecida é a do corpo seco, duende que vive na mata densa e fechada, à margem esquerda do Paraíba, lugar pitoresco denominado Caaparabá.

Várias foram as histórias que ouvi de pescadores, velhos ou jovens, sobre o corpo seco — “a coisa mais horrorosa, horrive, que se pode vê”, como me afirmou Eduardo Rodrigues, que tem 65 anos e nunca mentiu e só fala a verdade.

Na sua linguagem simples, o velho Eduardo me descreveu fielmente o que é o corpo seco, mantendo os característicos essenciais a todas as descrições que outros já me tinham feito. “É sempre o corpo de pessoa ruim, principarmente quem martratô ou desresoeitô pai e mãe. É um corpo tão sem graça que nem a terra não qué. Rejeita. Então o corpo seca. A ropa gruda que fica rente co’a pele. Uma situação só. As unha cresce. A pacoera e as tripa fica tudo numa bolota só. E chacoaia de todo lado. Quando chega o tempo de revirá a sepurtura pra desocupá lugá é que descobrem isso. Então o coveiro avisa o padre do lugá que tem um corpo seco. Então o padre trata de vê quem tem corage e escolhe dois home. Faz suas rezas, seus benzimento forte, mas só de noite então, ali pela meia-noite, nem antes nem depois, um dos home [vira] pro companheiro que tá de costa, co os braço erguido pra trás. E ele fica nesta pusição assim, costa com costa, nem o corpo seco óia pra frente nem quem carrega óia pra trás. Daí caminha os dois home até o mato e ao corpo seco tem que sê jogado de costas, mar joga já tem que saí andando e sem oiá pra trás, se oiá ele munta cavalo e vem. Lá no mato, despois que o pessoá vem simbora, le mesmo por si se esconde. Fica encostado num pau, toma conta dum capoeirão inteirinho. Pois foi o que acunteceu cumigo quando um dia fui lenhá. Chegue no capoeirão dele e isso ninguém tem orde de fazê. Premero, pra avisá a gente da presença dele, ele dá uma tontura na gente; Se teimá, daí ele tira a idéia. Ninguém tem força de arregisti. Ele, eu não vi, só ouvi os estralos no mato, mas quem viu contô, é da artura duma pessoa mesmo, no lugá do zóio tem dois vuracão. Uma cara medonha de feio…”

O capoeirão do corpo seco

A lenda é assim conhecida nesta região, mas os casos que contam e as histórias que surgem variam grandemente; uns, amedrontados, largam no capoeirão a lenha que colheram e os peixes que pegaram e fogem espavoridos; outros, com uma coragem que talvez lhes advenha depois de passado o susto, que os “estralos no mato” metem medo de verdade, incentam suas histórias e se tornam conhecidos como destemerosos, valentes e ousados. Mas… só na prosa mesmo, que caminho pequeno, estradinha à toa, atalho de todo o dia, quando corrido com pernas bambas se transforma em uma légua sem fim…

Pelas redondezas da cidade está o Caaparapá, onde a galharia cerra tanto lá no alto que em certos pontos, não se avista o céu. Enormes aranhas tecem suas teias fortes entre os ramos onde florescem orquídeas das mais belas. A mata se estende por onze alqueires, chegando quase à beira do rio, cujas águas entram por um valão e formam uma lagoa enorme, quase transformando o Caaparapá numa grande ilha. O lagoão é bonito e cheio de árvores que nasceram não se sabe quando, pois que os avós contam que seus avós contavam.

Mas desde quando o Caaparapá se tornou capoeirão do corpo seco, todo mundo sabe, porque ainda vivem alguns dos que o conheceram em vida, lá pelos fins do século XIX, antes de condenado a cumprir sina e sabiam que, “embora não aparecesse divulgado para ninguém”, sempre aparecia à gente dele, vinha à casa do filho, pedindo para cortar-lhe as unhas e fazer-lhe a barba e pedindo coisas também: roupa, chapéu, calçado, que ele precisa de tudo que a gente usa também. E contam, que de todos os seus, era o Pissidone quem mais o presenteava, por ser quem mais tinha dó do coitado. Daí o Pissidone ir ao Caaparapá e colocar tudo perto de uma árvore grande que nunca acabava. O chapéu era de pirizinho e muitos sabiam da altura do corpo seco porque viam os sinais de suas passadas e os estralos lá em cima, onde o chapeuzinho roçava.

Condenado ao capoeirão, dele nunca podendo retirar-se, tem como seu tudo quanto nele se encontra: as árvores do chão, os pássaros do ar e os peixes das águas. Quem vai lenhar e se embrenha na mata, ou volta abobado ou larga o feixinho e sai correndo, quando não passa a noite toda como que encantado, sem poder arredar pé do lugar; quem vai pescar e se distrai na beira da água, quase morre de susto quando ouve a voz soturno: “largue o peixe aí…” E caçador que enverede pelos trilhos apertados à procura do paturi, do frango d’água, não sabe mais voltar, precisa rezar o Creio em Deus Padre. Assim é o corpo seco, dono de quanto tenha vida em seu domicílio e de nada querendo se separar.

Um acordo com o duende

Porém, tudo depende de jeito, como disse o nosso velho amigo Agapito Pamplona da Corte Real Espíndola, piraquara de 64 anos, sempre lidando com redes e remos, e canoas e botes. Agapito me disse que ia contar um caso para provar que o “sujeito” (não gosta de falar “corpo seco”, tem medo…) não é tão ruim assim como se diz, vai do modo de se lidar com ele, porque com bom trato até nós somos bons, mas que nos queiram tirar as coisas à força… E aqui a história que ouvi de um acordo feito entre Agapito e o corpo seco do Caaparapá, com amplos poderes para a pescaria no lagoão, pelo tempo que lhe aprouvesse pescar.

“Tava uma miséria de peixe aqui na Parecida e não tinha peixe nenhum. O Gerardo (filho dele) foi e disse: “cumé, pai, bamo venturá? Bamo no Caaparapá pra nóis pescá”, que lá tinha muito peixe. Então eu disse: “cumé que nóis bamo fazê… Sá? eu vou pensá um modo e nóis bamo lá pescá”. Mandei ele comprá uma vela na venda, meia garrafinha de cachaça e saí com ele, de tardezinha, regulando no primeiro dia de pesca mais de oito hora. Fomo cedo nesse dia. Cheguemo na lagoa, custô pra nóis travessá, quase que a água dava pra molhá nóis. Lagoá funda. Eu levei junto co’a vela um vidrinho de cachaça com guiné e arruda também. Deixei ele na bera do poço e a rede e fui lá pro pé da figueira. “Óia, nóis bamo pescá agora neste poço, mas eu quero que me ajude porque nós não conhece o poço. Depois da pescaria nóis mata o bicho”. Eu disse assim. Não tinha ninguém. Cheguemo na boca do poço, demo suas redada e saiu carga de peixe que quase não pidemo carregá. Saímo no caminho. O Gerardo disse pra mim: “Ê pai, cumé agora pra nós travessá a lagoa?” O peso era muto. Eu fui disse assim: não é nada, rapaiz, o amigo aqui ajuda nóis passá pra lá e carrega o peixe”. Eu peguei a rede, pus nas costa e ele ergueu o balaio de peixe na cacunda. Eu disse: “siga na frente que eu vou atrais”. Ele embarcô na lagoa e eu também. Ele co’a carga de peixe, não chegô a batê água no joeio. E eu, co’a rede e a água deu só no tornozelo do pé. Um tremedá temeroso que dava para cobrir um home se escapasse. Cheguemo pra cá da lagoa, larguemo a rede, o peixe, e eu disse pro Gerardo: “bamo tomá uma pinguinha”. Eu deu o vinho prele, ele bebeu um gole e me deu o vidro, e eu bebi também e virei o vidro pro lado da lagoa e disse: “Isso é vosso”. Não vi buia de nada e quando peguei a oiá o vidro já estava sequinho. Tornei a pôr a rede nas costa e ele ergueu o jacá de peixe. E eu disse: “Bão, amanhã nóis vortamo, pode ir embora, obrigado, Deus que ajude, pode ser sempre assim e bamo embora vendê o peixe”. E assim seguimo. Pesquemo mês e meio dessa maneira assim. Úrtima veiz, cheguei no poço, sortemo a rede, enganchou num aramaço colosso de arame farpado. O Gerardo respondeu: “E, pai, perdemo a rede”. Eu disse: “não é nada”. Eu vi uma buinha que vinha vindo pro mato e nesse dia nóis não tinha levado a vela nem a pinga. Aí eu disse: “isso é arte desse sujeito, ele ficô com raiva, mas tem razão, porque nóis fomo curpado. Trato é trato”. E falei pro Gerardo: “afaste pra trais e estique a rede”; E chamei: “ó, amigo, você conhece a arte de sair daqui, me sorte a rede, que nois no pode pescá”. Deu um xaquaio muito grande na rede e sortou. Nóis puxemo, enrolemo e eu disse: “agora nóis num pesca mais hoje. Bamo embora”. Daí o Gerardo disse assim: “eu vô tirá aquele arame, pai, tirá pra fora, deixá limpo”. Entrô no poço, foi tirando aqueles pacote de arame farpado, cruzeta de pau, tuso feito, e muntuô em cima do guapesa. Daí saímo pra vim embora, ele sai atrais dele, co’o a rede. Quando passemo em frente a figueira, o sujeito avançô a mão na rede e soquetrô pra tirá a rede de mim. E eu expriquei pra ele: “Hoje nóis não queremo pescá mais, fica pra amanhã, amanhã nóis vorta”. E não pesquemo. Notro dia, o Gerardo, que é muito curioso, saiu bem cedo e foi lá zoiá o arame pra aproveitá argum e não achô nada… Continuemo a pescaria quando nóis quisemo, nada estorvô nóis, num tinha enrosco, num tinha nada. E terminô nisso aí…”

Câmara Cascudo registrou o mito em São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Nordeste e diz ser da tradição portuguesa. Aliás, almas penadas, com suas aparições proteiformes, correm por toda parte. Existe também em vários lugares do Brasil uma outra lenda, de que quem bate em pai ou mãe fica com a mão seca, cujo tema central é o mesmo portanto. Não sei, porém, se se corporifica em forma lendária ou aparece apenas em crendice, embora o povo não acredite nunca em abstrato, acredita porque lhe citam provas que a tradição conserva intangíveis.

(Pinheiro, Maria de Lourdes Borges. “A lenda do corpo seco na versão dos pescadores de Aparecida do Norte”. Paratodos. Rio de Janeiro; São Paulo, nº 2, novembro de 1957)
Fonte: Jangada Brasil
História pra Contar: Do tempo que Jesus andava aqui na terra
História pra Contar: Do tempo que Jesus andava aqui na terra

Onde comem dois, comem três

Lindolfo Gomes

Vai um dia, no tempo em que Nosso Senhor andava pelo mundo, por uma noite de muita chuva e muito frio, alta hora, um pobre lavrador, carregado de sua família, ouviu bater à porta de seu rancho.

— Ó de casa!

— Ó de fora! — respondeu.

Abriu a porta e deu com dois “pelingrinos” que lhe pediram pousada e junta.

Mandou preparar a ceia com o que havia e os dois pelingrinos, um velho e outro moço, aturaram-se a ela com vontade.

Vai daí, ouviu-se bater de novo à porta. O lavrador foi abrir e apresentou-se outro pelingrino em tudo semelhante aos outros. Pediu-lhe pousada e de comer.

O lavrador hesitou. Os pratos estavam quase vazios e em casa não havia mias nada.

— Mande entrar, — disse o mais velho dos viandantes. — Onde comem dois, comem três.

O que chegou tomou assento à mesa e pôs-se a comer também.

Passado um instante, outro a bater, e depois outro, mais outro. Assim, dentro em pouco, tinham chegado doze, que eram os apóstolos e mais Nosso Senhor Jesus Cristo em pessoa, em trajes de pedinte, numa pobreza nunca vista.

No dia seguinte, no “arraiar” da primeira luz, despediram-se todos muito agradecidos, e o velho, que não era senão São Pedro, disse ao lavrador que pedisse alguma coisa a Nosso Senhor, que não lhe havia de negar.

O lavrador, que era inclinado ao jogo, pediu a Nosso Senhor que lhe desse meios e modos de ganhar sempre pela certa.

Dito e feito. Aparece logo ali por milagre, um baralho com aquela virtude.

O lavrador começou, então, a desabusar todos os parceiros e a fama correu.

Mas, não levou muito tempo, morreu o homem e, no caminho de prestar contas, encontrou-se com dois diabos que levavam a alma de um escrivão, seguros com ela pelos cabelos. Era uma ventania de levar tudo para os quintos.

O lavrador teve pena da alma e ainda porque devia umas certas obrigações ao escrivão, propôs aos coisa-ruim o resgate daquela alma numa partida de jogo. Se ele ganhasse, estaria salvo o escrivão; se perdesse, já os diabos, em vez de uma, levariam duas almas. Ele tinha confiança no baralho que lhe dera Nosso Senhor Jesus Cristo.

Os diabos aceitaram. O lavrador sacou do baralho, ganhou pela certa e lá se foi com a alma do escrivão para o céu. Bateu à porta. Veio São Pedro.

— Então, que quer?

— Quero entrar. Ora, se quero.

— Entre.

— E levo o companheiro.

— Isso não. Você já viu, homem de Deus, escrivão entrar no céu?

— Pois será esta a primeira vez. Então V.S. não me conhece mais? Sou o homem do baralho, aquele que deu de dormir e de jantar a Nosso Senhor Jesus Cristo, a V.S. e aos santos apóstolos.

— E daí? Já não vai entrar?

— Daí é que palavra de rei não volta atrás, pois V.S. foi o mesmo que disse que onde comem dois, comem três…

São Pedro não teve nada que responder e ficou a coçar a barba, e lá se foram os dois entrando no céu, onde até então não constava haver entrado alma de escrivão.

(Gomes, Lindolfo. “São Pedro, escrivães e advogados”. Folha de Minas. Belo Horizonte, 30 de setembro de 1956)
História pra Contar: A velha e o Saci
História pra Contar: A velha e o Saci

Era uma vez uma velha de mais de 70 anos de idade, que costumava fumar três cachimbadas toda a noite.

O último cachimbo ela deixava cheio, em cima do fogão, para fumar mais tarde.

Mas aconteceu que o tal cachimbo aparecia só com um pouquinho de fumo. Alguma tentação estava se associando, de certo, no cachimbo da velha.

Uma noite, a velha ficou sentada. Veio o danadinho, olhou pelo buraco da chave, entrou, sentou no fogão e acendeu o cachimbo, fumando à vontade.

Ah! é o saci! — disse a velha consigo. Amanhã ele me paga.

Quando foi na outra noite, ela pôs pólvora no cachimbo e só em cima da pólvora um pouco de fumo.

O saci veio. Acendeu o cachimbo e começou a fumar. De repente: poque! foi aquele estrupício. O saci levou um susto, saiu pulando, errou a porta, homem! passou mal o talzinho para se escapar.

E nunca mais voltou a “tentar” a velha.

Contou Elze Rodrigues de Lima. Rodeio, Itapetininga.

 

(Recolhido pelo cônego Luís Castanho de Almeida, em 1958)

(Em Soares, Doralécio. “Contos populares”. O Estado. Florianópolis, 15 de junho de 1969)