Tag: contadores de histórias

Contar Histórias é o que nos move! bem vindo 2017!
Contar Histórias é o que nos move! bem vindo 2017!

Contar as histórias da nossa gente é o que nos move. Em 2017 a Cia Contacausos comemora 7 anos de caminhada.

No ano que passou realizamos 182 apresentações em 47 municípios brasileiros nos Estados de Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais, São Paulo e Mato Grosso. Tivemos a honra de participar como convidados de importantes festivais e encontros nacionais e internacionais de contadores de histórias como o Boca do Céu em São Paulo e o Ecoh em Londrina. Não é possível mensurar a quantidade de ouvintes que foram atravessados pela nossa voz. Foram diversos eventos literários, feiras de livros, maratonas de contos, grandes projetos de circulação do Sesc em Santa Catarina, Paraná e Minas Gerais. Rodas de histórias, oficinas, palestras, pessoas e chão. Muito chão. Guimarães Rosa disse que “quem elegeu a busca, não pode recusar a travessia”, atravessamos e seguimos buscando novos caminhos para caminhar. Em 2017 nós vamos caminhar para contar histórias com você também. Navegue pelo nosso site, conheça o repertório de espetáculos narrativos, a pesquisa, projetos e oficinas.

Curta a nossa página no facebook: https://www.facebook.com/ContaCausos/ 

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CONTACAUSOS leva causos de SACI para toda Santa Catarina
CONTACAUSOS leva causos de SACI para toda Santa Catarina

O Baú de Histórias é um projeto que propõe a circulação de espetáculos de contação de histórias por todas as unidades do Sesc de Santa Catarina e cidades parceiras. A escolha desses espetáculos é pautada pela qualidade da encenação e fundamentalmente pela relevância literária da proposta. Dirigido a adultos e crianças, o Projeto Baú de Histórias é uma ação em prol do incentivo à leitura, valorização do contador de histórias como profissional reconhecido e a difusão da literatura de todas as procedências. (fonte: Site Sesc) todos os anos o Sesc de Santa Catarina recebe as propostas dos contadores de histórias e faz a seleção dos espetáculos para a circulação. A Contacausos teve a honra de participar do projeto em 2011 com a circulação do espetáculo Esticando as Canelas, em 2013 com a circulação do espetáculo Nem te Conto, em 2014 com o espetáculo Tem Coroa, mas não é rei e em 2016 com o espetáculo Foi Coisa de Saci.

Circular por todas as regiões do Estado de Santa Catarina, em 32 municípios nos colocou bem perto da nossa gente, porque o projeto leva as apresentações de narração de histórias para escolas, auditórios, centros comunitários, teatros, comunidades rurais, feiras de livros, maratonas de contos… A primeira etapa da circulação aconteceu no mês de abril, quando passamos por 16 cidades. Foram 20 dias de estrada, duas apresentações por dia e oficinas para contadores de histórias aos sábados. Na segunda etapa da circulação foram mais 32 apresentações em mais 16 cidades.

Deixamos aqui  registrado nosso agradecimento ao Sesc Santa Catarina pela confiança no trabalho da Contacausos, a acolhida e parceria de trabalho de todos os técnicos e produtores culturais do Estado. Os motoristas da Van Carlos e Eduardo que nos transportaram com segurança e tranquilidade nas duas etapas, todas as pessoas que nos receberam nos locais das apresentações e deixamos aqui uma galeria recheadinha do que rolou em mais uma circulação estadual da ContaCausos.

 

 

 

 

CONTACAUSOS no Boca Do Céu – Encontro Internacional de Contadores de Histórias 2016
CONTACAUSOS no Boca Do Céu – Encontro Internacional de Contadores de Histórias 2016
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Regina Machado e crianças da Oca – Foto Pedro Napolitano Prata

“O Encontro Internacional Boca do Céu de Contadores de Histórias é um evento bienal  que promove um  espaço de reflexão, criação e ação cultural, focalizando a arte da palavra, que se move continuamente  através  da  História e da
s  diversas  culturas  humanas  na  forma  de  narrativas  orais.  A função principal desse Encontro é propiciar diferentes  situações de contato com a arte da narração que possam inspirar ações educativas, culturais, sociais e estéticas  ressaltando a  importância das narrativas no mundo de hoje.” ( fonte: Site Boca do Céu)

A curadoria é feita por Regina Machado – Contadora de estórias para adultos e crianças desde 1980. Mestre em Educational Theatre na New York University, com doutoramento na ECA-USP, em 1989. Professora Livre Docente do Departamento de Artes Plásticas da ECA-USP. Autora dos livros Acordais – Fundamentos Teórico-poéticos da Arte de Contar Histórias, pela Editora DCL, O Violino Cigano e Outros Contos de Mulheres Sábias, pela da Cia das Letras,  A Formiga Aurélia e Outros Jeitos de Ver o Mundo e Nasrudin, pela Cia das Letrinhas, e Cláudio Tozzi, da Série Mestres das Artes no Brasil, pela Editora Moderna. É a criadora e curadora do Encontro Internacional BOCA DO CÉU de Contadores de Histórias. pacodobaoba.blogspot.com.br

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Equipe de Produção!!!! Um grande time de pessoas apaixonadas e extremamente competentes!!! Pessoas “Milmaravilhosas”

A Contadora de Histórias Josiane Geroldi da Cia ContaCausos participou do Encontro nas edições de 2014 e 2016. Foram experiências incríveis de trocas com contadores de histórias do Brasil inteiro e de vários países. Em 2016 a contadora realizou apresentações na programação do Boca do Céu na Biblioteca Mário de Andrade, no Espetáculo de Abertura: Como é Grande o Autor da Natureza no Auditório Oscar Niemeyer no parque Ibirapuera, no Teatro do Itaú Cultural e nas Fábricas de Cultura das comunidades de Capão Redondo e Jardim São Luiz.

Confira a Programação completa, convidados nacionais e internacionais no link: bocadoceu.com.br/ultimas-noticias

Fotos: Pedro Napolitano Prata

Espetáculo de Abertura:  COMO É GRANDE O AUTOR DA NATUREZA –  Auditório Oscar Niemeyer Parque Ibirapuera – São Paulo.

“Peço a Deus/ Pelo bem/ De quem me ama/ E pelo bem/ De quem pode me odiar/ Pelo bem/ De quem me ajuda a sorrir/ e pelo bem/ De quem me ajuda a chorar/ Pelo bem/ De quem gosta de cantar/ Minhas toadas/ E quem/ Dá valor ao meu lugar” Humberto Barbosa Mendes

No domingo, na biblioteca Mário de Andrade rolou apresentação dos contos de adivinhação para famílias e crianças e uma conversa de contador:

Fotos: Pedro Napolitano Prata

Ainda pela programação do encontro,  o espetáculo Foi Coisa de Saci foi apresentado no Teatro do Itaú Cultural  no dia 19/05 às 10h e às 14h para público escolar.

Fotos: Pedro Napolitano Prata

 

Nas Fábricas de Cultura nas comunidades do Capão Redondo e Jardim São Luiz

fotos: Claudia Silva

Imagens de Contadores de Histórias retratados ao longo do tempo
Imagens de Contadores de Histórias retratados ao longo do tempo
 

O contador de histórias é uma figura ancestral, presente no imaginário de inúmeras gerações ao longo da História. Em um universo desprovido de recursos midiáticos, este ofício era imprescindível para a formação dos futuros adultos, conferindo às crianças, através das narrativas de histórias, ‘causos’, mitos, lendas, entre outras, uma imagem menos apavorante de uma realidade então povoada pelo desconhecido.

Ao mesmo tempo em que amenizava os medos e uma existência muitas vezes desfavorável, o narrador ajudava as pessoas a entenderem melhor o que se passava a sua volta, a enfrentar os dilemas e confrontos de natureza social e individual, extraindo das experiências o aprendizado mais profundo.

Normalmente o contador está muito presente na Era Medieval, nos castelos tantas vezes sombrios, nas moradas mais remotas, nos povoados disseminados pelas áreas rurais, com o objetivo de compartilhar suas vivências e gerar em torno do grupo magnetizado por suas histórias uma proteção gerada pelo próprio encanto do momento e pela força do coletivo. As narrativas eram tecidas pela voz mágica do contador, ao redor de fogueiras ou lareiras que contribuíam para criar uma atmosfera de intensa magia.

Mas o narrador oral é ainda mais antigo, remontando historicamente à Antiguidade greco-romana, na figura dos bardos, responsáveis pela transmissão de histórias, lendas e poemas orais na forma de canções. Quanto mais desconhecido era o mundo em que se vivia, maior necessidade se tinha de povoar este universo com imagens que pudessem, ao mesmo tempo, educar e fortalecer a coragem, predispondo as pessoas a enfrentarem os monstros, dragões e demônios que habitavam suas mentes.

O contador de histórias não era um mero reprodutor de narrativas, ele também gerava seus relatos, simplesmente mantendo-se atento à reação psicológica dos ouvintes. Conforme a disponibilidade ambiental, ele improvisava e ampliava seus contos, tendo como principal instrumento a palavra, que detém o poder de transformar o comportamento humano, como é possível perceber na mensagem transmitida pelas 1001 Noites, onde as histórias se entretecem para manter Scherazade viva e livre, e ao mesmo tempo para curar o vizir, purificando seu coração do incessante desejo de vingança contra as mulheres. Aliás, no Oriente esta tradição de curar a psique através da narrativa de estórias é amplamente preservada pelos psicoterapeutas.

O narrador, para melhor instrumentalizar as palavras, domina, mesmo que inconscientemente, boa parte das figuras de linguagem, de sintaxe e de pensamento, possibilitando ao contador, antigamente uma pessoa mais velha e sábia, magnetizar seus ouvintes, despertando no ambiente o poder da imaginação, tecida com uma linguagem encantada, apta a transportar as pessoas para reinos distantes e, de outra forma, inacessíveis.

Recentemente a imagem do contador de histórias retornou com força total, principalmente na segunda metade do século XX. Inúmeras pessoas optaram por este caminho, procurando cursos e oficinas técnicas para se habilitarem profissionalmente. Hoje, pode-se afirmar que esta ocupação começa a deixar as mãos de amadores para seguir na direção da profissionalização, pois atualmente há uma demanda crescente por este profissional, principalmente nas escolas. Algumas destas instituições chegam a reservar um espaço no currículo escolar para este evento. Às vezes até mesmo professores e bibliotecários são preparados para exercerem esta tarefa no âmbito escolar.

Por Ana Lucia Santana

Fontes
http://pontodeencontro.proinfo.mec.gov.br/O_Contador_de_Historias.pdf

http://www.infoescola.com/curiosidades/contadores-de-historias/

História pra Contar: 12 Contos Acumulativos
História pra Contar: 12 Contos Acumulativos

O macaco e o rabo (1)

Um macaco uma vez pensou em fazer fortuna. Para isso foi-se colocar por onde tinha de passar um carreiro com seu carro. O macaco estendeu o rabo pela estrada por onde deviam passar as rodeiras do carro. O carreiro, vendo isso, disse:

— Macaco, tira teu rabo do caminho, eu quero passar.

— Não tiro, — respondeu o macaco.

O carreiro tangeu os bois, e o carro passou por cima do rabo do macaco, e cortou-o fora. O macaco, então, fez um barulho muito grande:

— Eu quero meu rabo, ou então dê-me uma navalha…

O carreiro lhe deu uma navalha, e o macaco saiu muito alegre a gritar:

— Perdi meu rabo! Ganhei uma navalha!… Tinglin, tingilin, que vou para Angola!…

Seguiu. Chegando adiante, encontrou um negro velho, fazendo cestas e cortando os cipós com o dente.

O macaco:

— Oh, amigo velho, coitado de você! Ora, está cortando os cipós com o dente… tome esta navalha.

O negro aceitou, e quando foi partir um cipó, quebrou-se a navalha. O macaco abriu a boca no mundo e pôs-se a gritar:

— Eu quero minha navalha, ou então me dê um cesto!

O negro velho lhe deu um cesto e ele saiu muito contente gritando:

— Perdi meu rabo, ganhei uma navalha, perdi minha navalha, ganhei um cesto… Tinglin, tinglin, que vou pra Angola!

Seguiu. Chegando adiante, encontrou uma mulher fazendo pão e botando na saia.

— Ora, minha sinhá, fazendo pão e botando na saia! Aqui está um cesto.

A mulher aceitou, e, quando foi botando os pães dentro, caiu o fundo do cesto. O macaco abriu a boca no mundo e pôs-se a gritar:

— Eu quero o meu cesto, quero o meu cesto, senão me dê um pão!

A mulher deu-lhe o pão, e ele saiu muito contente a dizer:

— Perdi meu rabo, ganhei uma navalha, perdi minha navalha, ganhei um cesto, perdi meu cesto, ganhei um pão… Tinglin, tinglin, que vou pra Angola!

E foi comendo o pão.
Colhido por Sílvio Romero, em Sergipe.

*

O macaco e o rabo (2)

ma ocasião achavam-se na beira da estrada um macaco e uma cotia e vinha passando na mesma estrada um carro de bois cantando. O macaco disse para a cotia:

— Tira o teu rabo da estrada, senão o carro passa e corta.

Embebido nesta conversa, não reparou o macaco que ele é que corria o maior risco, e veio o carro e passou em riba do rabo dele e cortou. Estava um gato escondido dentro de uma moita, saltou no pedaço do rabo do macaco e correu. Correu também o macaco atrás, pedindo o seu pedaço de rabo. O gato disse:

— Só te dou, se me deres leite.

— Onde tiro leite? — disse o macaco.

Respondeu o gato:

— Pede à vaca.

O macaco foi à vaca e disse:

— Vaca, dá-me leite para dar ao gato, para o gato dar-me o meu rabo.

— Não dou; só se me deres capim. — disse a vaca.

— Donde tiro capim?

— Pede à velha.

— Velha, dá-me capim, para eu dar à vaca, para a vaca dar-me leite, o leite para o gato me dar o meu rabo.

— Não dou; só se me deres uns sapatos.

— Donde tiro sapatos?

— Pede ao sapateiro.

— Sapateiro, dá-me sapatos, para eu dar à velha, para a velha me dar capim, para eu dar à vaca, para a vaca me dar leite, para eu dar ao gato, para o gato me dar o meu rabo.

— Não dou; só se me deres cerda.

— Donde tiro cerda?

— Pede ao porco.

— Porco, dá-me cerda, para eu dar ao sapateiro, para me dar sapatos, para eu dar à velha, para me dar capim, para eu dar à vaca, para me dar leite, para eu dar ao gato, para me dar o meu rabo.

— Não dou; só se me deres chuva.

— Donde tiro chuva?

— Pede às nuvens.

— Nuvens, dai-me chuva, para o porco, para dar-me cerda para o sapateiro, para dar-me sapatos para dar à velha, para me dar capim para dar à vaca, para dar-me leite para dar ao gato, para dar meu rabo…

— Não dou; só se me deres fogo.

— Donde tiro fogo?

— Pede às pedras.

— Pedras, dai-me fogo, para as nuvens, para a chuva para o porco, para cerda para o sapateiro, para sapatos para a velha, para capim para a vaca, para leite para o gato, para me dar meu rabo.

— Não dou; só se me deres rios.

— Donde tiro rios?

— Pede às fontes

— Fontes, dai-me rios, os rios ser para as pedras, as pedras me dar fogo, o fogo ser para as nuvens, as nuvens me dar chuvas, as chuvas ser para o porco, o porco me dar cerda, a cerda ser para o sapateiro, o sapateiro fazer os sapatos, os sapatos ser para a velha, a velha me dar capim, o capim ser para a vaca, a vaca me dar o leite, o leite ser para o gato, o gato me dar meu rabo.

Alcançou o macaco todos os seus pedidos. O gato bebeu o leite, entregou o rabo. O macaco não quis mais, porque o rabo estava podre.

Colhido por Sílvio Romero, em Pernambuco.

*

A formiguinha e a neve

Pois é, uma formiguinha gostava muito de fofoca, gostava muito de conversar. Aí, ela, no tempo frio, no tempo de geada, — e toda formiga também gosta muito de carregar, gosta muito de roubar, não é? — ela ia no moinho roubar fubá. Aí quando ela já evinha embora, já com frio, aí a geada prendeu o pezinho dela com o bolinho de fubá dela na cabeça, não é?

Aí o sol veio, derreteu a geada, ela foi em casa, guardou o fubazinho dela e em vez de mexer o anguzinho dela, não, foi tirar pergunta.

Aí foi na casa do sol:

— Ô sol, você é tão forte que você derreteu a geada que estava presa no meu pezinho!

Aí o sol respondeu pra ela:

— Eu sou tão forte que a nuvem me tapa!

Ela foi na casa da nuvem:

— Ô nuvem, como você é tão forte que você tapa o sol e o sol derreteu a geada que prendeu o meu pezinho?

Aí a nuvem falou:

— Eu sou tão forte que o vento me toca.

Ela foi na casa do vento:

— Ô vento, como você é tão forte que sopra a nuvem, a nuvem tapa o sol, o sol derreteu a geada que estava prendendo o meu pezinho?

Aí o vento falou:

— Eu sou tão forte que a casa me tapa.

Aí ela foi na casa:

— Ô casa, como você é tão forte que você tapa o vento, o vento toca a nuvem, a nuvem tapa o sol, o sol derreteu a geada que estava prendendo o meu pezinho?

Aí a casa:

— Eu sou tão forte que o rato me fura.

Aí ela foi na casa do rato:

— Ô rato, como você é tão forte que você fura a casa, a casa tapa o vento, o vento toca a nuvem, a nuvem tapa o sol, o sol derreteu a geada que estava presa no meu pezinho?

Aí o rato falou:

— Eu sou tão forte que o cachorro me pega.

Aí ela foi na casa do cachorro:

— Ô cachorro, como você é tão forte que você pega o rato, o rato fura a parede, a parede tapa o vento, o vento toca a nuvem, a nuvem tapa o sol, o sol derreteu a geada que estava presa no meu pezinho?

Aí o cachorro falou:

— Eu sou tão forte que a onça me pega.

Aí ela foi na casa da onça:

— Ô onça, como você é tão forte que você pega o cachorro, o cachorro pega o gato, o gato pega o rato, o rato fura a parede, a parede tapa o vento, o vento toca a nuvem, a nuvem tapa o sol, o sol derreteu a geada que estava presa no meu pezinho?

Aí ela disse:

— Eu sou tão forte que o caçador me mata.

Aí ela começou a ficar brava:

— Ô caçador, como você é tão forte que você pega a onça, a onça pega o cachorro, o cachorro pega o gato, o gato pega o rato, o rato fura a parede, a parede tapa o vento, o vento toca a nuvem, a nuvem tapa o sol, o sol derreteu a geada que estava presa no meu pezinho?

Aí o caçador:

— Eu sou tão forte que a morte me mata.

Aí ela falou para a morte:

— Ô morte (gritando já), como você é tão forte que você mata o caçador, o caçador mata a onça, a onça pega o cachorro, o cachorro pega o gato, o gato pega o rato, o rato fura a parede, a parede tapa o vento, o vento toca a nuvem, a nuvem tapa o sol e o sol derreteu a geada que estava presa no meu pezinho?

Aí a morte:

— Eu sou tão forte que te mato.

Plat! Passou o pé nela, matou ela e pronto.

Ela não comeu o anguzinho dela, não é? ficou só tirando pergunta. Se ela fosse comer o anguzinho dela, quietinha, ela tinha enchido a barriga dela e não tinha morrido.

Informante: Luzia Maria Santana.

*

História da coca

Uma vez um menino foi passear no mato e apanhou uma coca; chegando em casa, deu-a de presente à avó, que a preparoiu e comeu.

Mais tarde, sentiu o menino fome e voltou para buscar a coca, cantando:

Minha vó, me dê minha coca
Coca que o mato me deu
Minha vó comeu minha coca
Coca recoca que o mato me deu

A avó, que já havia comido a coca, deu-lhe um pouco de angu.

O menino ficou com raiva, jogou o angu na parede e saiu. Mais tarde, arrependeu-se e voltou, cantando:

Parede, me dê meu angu
Angu que minha vó me deu
Minha vó comeu minha coca
Coca recoca que o mato me deu

A parede, não tendo mais o angu, deu-lhe um pedaço de sabão.

O menino andou, andou, encontrou uma lavadeira lavando roupa sem sabão e disse-lhe: — Você lavando roupa sem sabão, lavadeira? Tome este pra você.

Dias depois, vendo que a sua roupa estava suja, voltou para tomar o sabão, cantando:

Lavadeira, me dê meu sabão
Sabão que a parede me deu
Parede comeu meu angu
Angu que minha vó me deu
Minha vó comeu minha coca
Coca recoca que o mato me deu

A lavdeira já havia gasto o sabão: deu-lhe então uma navalha.

Adiante, encontrando um cesteiro cortando o cipó com os dentes. Disse-lhe: — Você cortando o cipó com os dentes?… Tome esta navalha.

O cesteiro ficou muito contente e aceitou a navalha.

No dia seguinte, sentindo o menino a barba grande, arrependeu-se de ter dado a navalha (ele sempre se arrependia de dar as coisas) e voltou para buscá-la, cantando:

Cesteiro me dê minha navalha
Navalha que lavadeira me deu
Lavadeira gastou meu sabão
Sabão que parede me deu
Minha vó comeu minha coca
Coca recoca que o mato me deu

O cesteiro, tendo quebrado a navalha, deu-lhe, em paga um cesto.

Recebeu o cesto e saiu dizendo consigo: — Que é que eu vou fazer com este cesto?

No caminho, encontrando um padeiro fazendo pão e colocando-o no chão, deu-lhe o cesto. Mais tarde, precisou do cesto e voltou para buscá-lo com a mesma cantiga.

Padeiro me dê meu cesto
Cesto que o cesteiro me deu
O cesteiro quebrou minha navalha
Navalha que a lavadeira me deu
Lavadeira gastou meu sabão
Sabão que parede me deu
Minha vó comeu minha coca
Coca recoca que o mato me deu

O padeiro, que tinha vendido o pão com o cesto, deu-lhe um pão.

Saiu o menino com o pão, e, depois de muito andar, não estando com fome, deu o pão a uma moça, que encontrou tomando café puro.

Depois, sentindo fome, voltou para pedir o pão à moça e canta:

Moça me dê meu pão
Pão que o padeiro me deu
O padeiro vendeu meu cesto
Cesto que cesteiro me deu
O cesteiro quebrou minha navalha
Navalha que a lavadeira me deu
Lavadeira gastou meu sabão
Sabão que parede me deu
Minha vó comeu minha coca
Coca recoca que o mato me deu

A moça havia comido o pão; não tendo outra coisa para lhe dar, deu-lhe uma viola.

O menino ficou contentíssimo; subiu com a viola numa árvore e se pôs a cantar:

De uma coca fiz angu
De angu fiz sabão
De sabão fiz uma navalha
Duma navalha fiz um cesto
De um cesto fiz um pão
De um pão fiz uma viola
Dinguelingue que eu vou para Angola

*

O macaco e o confeito

Macaco guariba foi lavar a casa e achou um vintém. Comprou um vintém de confeito, subiu no pau, e lá ficou comendo. Mas macaco não tem modos, pula daqui, pula dali, acabou derrubando o confeitinho dentro de um oco da árvore. Enfiou a mão, pelejou para tirar, não conseguiu, foi direto dali para o ferreiro e pediu que lhe fizesse um machado, para tirar o confeito do buraco.

— Sem dinheiro não faço machado nenhum.

— Faz — gritou o macaco — Vou contar ao rei.

Foi. Entrou no palácio, dando pulos e fazendo micagens e tropelias.

— Senhor rei — pediu —, mande o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau para tirar o confeito que caiu no oco.

O rei, nem como coisa. O macaco foi falar com a rainha:

— Senhora rainha, mande o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar meu confeito que caiu no oco.

— Mas é petulante esse macaco — disse a rainha, e não fez caso dele.

O macaco foi falar com o rato.

— Rato, roa a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar meu confeitinho que caiu no oco.

— Macaco mais bobo! — comentou o rato. Estava comendo queijo e nem se incomodou.

O macaco foi falar com o gato.

— Gato, mande o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar meu confeitinho que caiu no oco.

— Que besteira! — disse o gato, e nem se mexeu.

O macaco foi falar com o cachorro.

— Cachorro, mande o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeitinho que caiu no oco.

O cachorro deu um latido de impaciência e nem se incomodou.

O macaco foi falar com o cacete.

— Cacete, mande o cachorro mandar o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeito que caiu no oco.

— Ah! Ah! — fez o cacete.

O macaco foi falar com o fogo.

— Fogo, mande o cacete mandar o cachorro mandar o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeitinho que caiu no oco.

— Saia daqui — disse o fogo.

— O macaco foi falar com a água.

— Água, mande o fogo mandar o cacete mandar o cachorro mandar o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeitinho que caiu no oco.

— Bicho impertinente! — xingou a água.

O macaco foi falar com o boi.

— Boi, mande a água mandar o fogo mandar o cacete mandar o cachorro mandar o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeitinho que caiu no oco.

— Suma da minha vista — disse o boi, e continuou ruminando o seu capim.

O macaco foi falar com o homem.

— Homem, mande o boi mandar a água mandar o fogo mandar o cacete mandar o cachorro mandar o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeitinho que caiu no oco.

O homem resmungou:

— Hum!

O macaco foi falar com a morte. Lá estava ela no seu trono de ossos, pavorosa.

— Morte, mande o homem mandar o boi mandar a água mandar o fogo mandar o cacete mandar o cachorro mandar o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeitinho que caiu no oco.

A morte, que não estava de bom humor, pegou a foice e avançou no homem.

— Não me mate!

— Então abata o boi!

O homem foi pra cima do boi.

— Não me abata, homem!

— Então beba a água.

— Não me beba — disse a água.

— Então apague o fogo.

— Não me apague — disse o fogo.

— Então queime o cacete.

— Não me queime — disse o cacete.

— Então bata no cachorro.

— Não me bata — uivou o cachorro.

— Então morda o gato.

— Não me morda — miou o gato.

— Então morda o rato.

— Não me morda — guinchou o rato.

— Então roa a roupa da rainha.

O ratinho subiu no guarda-roupa da rainha e foi no vestido mais bonito: roquerroquerroque…

A rainha gritou:

— Não roa a minha roupa!

— Então mande o rei mandar o ferreiro fazer um machado para o macaco cortar o pau e tirar o confeitinho que caiu no oco.

A rainha mandou o rei, o rei mandou o ferreiro, o ferreiro fez o machado. O macaco derrubou a árvore, abriu o tronco, achou o confeitinho e foi embora dando pulos e fazendo trejeitos.

*

O menino e a vó gulosa

O menino só possuía um guiné. Numa ocasião de necessidade matou o guinezinho e saiu pra adquirir farinha. Quando voltou, a avó, que morava com ele, comera o guinezinho inteiro. O menino reclamou muito e avó lhe deu um machadinho.

Saiu o menino pela estrada e encontrou o pica-pau furando uma árvore com o bico.

— Pica-pau! Não se usa mais o bico para cortar pau. Usa-se um machadinho como esse…

— Oh! Menino! Empreste-me o machadinho.

O menino emprestou o machadinho ao pica-pau e este tanto bateu que o quebrou.

O menino recomeçou a choradeira:

— Pica-pau, quero meu machadinho que minha avó me deu, matei meu guinezinho e minha avó comeu.

O pica-pau deu ao menino um cabacinho de mel de abelhas. O menino continuou a viagem e lá adiante viu o papa-mel lambendo um barreiro que só tinha lama.

— Papa-mel! Não se usa mais beber lama. Usa-se beber um melzinho como esse…

— Oh! Menino! Me dê um pouquinho desse mel!

Que pouquinho foi esse que o papa-mel engoliu todo o mel e ainda quebrou o cabacinho. O menino abriu a boca no mundo, berrando. O papa-mel presenteou-o com uma linda pena de pato. O menino seguiu.

Lá na frente encontrou um escrivão escrevendo com uma pena velha e estragada.

— Escrivão! Não se usa mais escrever com uma pena estragada como essa e sim com uma boa e novinha como esta aqui…

— Oh! Menino! Empresta-me tua pena…

O bobo do menino emprestou a pena. Num instante o escrivão estragou a pena. O menino cai no prato. O escrivão lhe deu uma corda.

Depois de muito andar, o menino avistou um vaqueiro tentando laçar um boi com um cipó do mato.

— Vaqueiro! Não se usa mais laçar boi com cipó e sim com uma corda como essa.

— Oh! Menino! Me empresta essa corda.

O menino, vai, emprestou. Num minuto o vaqueiro laçou o boi mas rebentou a corda.

Novo chororô do menino. O vaqueiro lhe deu um boi.

O menino viu a onça, uma enorme, comento um resto de carniça.

— Onça! Não se usa mais comer carniça e sim um boi como esse meu!

— Oh! Menino! Me dê o seu boi!

E comeu o boi. O menino ficou no soluço, choramingando e pedindo o boi:

— Onça, me dê meu boi que o vaqueiro me deu; o vaqueiro quebrou minha cordinha, a cordinha que o escrivão me deu; o escrivão quebrou minha peninha, a peninha que o papa-mel me deu; o papa-mel bebeu meu melzinho, o melzinho que o pica-pau me deu; pica-pau quebrou meu machadinho, o machadinho que minha avó me deu; matei meu guinezinho e minha avó comeu!

A onça como não tinha coisa alguma para dar ao menino, disse, rosnando:

— O boi foi pouco e vou comer você!

E comeu o menino.

*

A formiguinha
Diz que era um dia que era uma formiguinha, foi comer pela manhã. Quando ela estava comendo, a neve pegou o pé. Ela disse:

— Neve, tu é tão valente
Que o meu pé prende?

A neve disse:

— Mais valente é o sol
Que me derrete

Ela foi à procura do sol:

— Ó, sol, tu é tão valente
Que derrete a neve
Que o meu pé prende?

O sol disse:

— Mais valente é a parede
Que me encobre

Ela foi para a parede:

— Ô, parede, tu é tão valente
Que encobre o sol
O sol derrete a neve
E a neve o meu pé prende?

A parede disse:

— Mais valente é o rato
Que me rói

Ela foi à procura do rato:

— Ô, rato, tu é tão valente
Que rói a parede
A parede encobre o sol
O sol derrete a neve
E a neve o meu pé prende?

O rato disse:

— Mais valente é o gato
Que me come

A formiguinha disse:

— Ô gato, tu é tão valente
Que come o rato
O rato rói a parede
A parede encobre o sol
O sol derrete a neve
E a neve que o meu pé prende?

Ele disse:

— Mais valente é a cobra
Que me morde

— Ô, cobra, tu é tão valente
Que morde o gato
O gato que come o rato
O rato que rói a parede
A parede que encobre o sol
O sol que derrete a neve
E a neve que o meu pé prende?

— Mais valente é o pau
Que me mata

— Ô, pau, tu é tão valente
Que mata a cobra
A cobra que morde o gato
O gato que come o rato
O rato que rói a parede
A parede que encobre o sol
O sol que derrete a neve
E a neve que o meu pé prende?

— Mais valente é o fogo
Que me queima

— Ô, fogo, tu é tão valente
Que queima o pau
O pau que mata a cobra
A cobra que morde o gato
O gato que come o rato
O rato que rói a parede
A parede que encobre o sol
O sol que derrete a neve
A neve que o meu pé prende

— Mais valente é a água
Que me apaga

— Ô, água, tu é tão valente
Que apaga o fogo
O fogo queima o pau
O pau que mata a cobra
O gato que come o rato
O rato que rói a parede
A parede que encobre o sol
O sol que derrete a neve
A neve que o meu pé prende?

— Mais valente é o boi
Que me bebe

— Ô, boi, tu é tão valente
Que bebe a água
A água apaga o fogo
O fogo que queima o pau
O pau que mata a cobra
A cobra que morde o gato
O gato que come o rato
O rato que rói a parede
A parede que encobre o sol
O sol que derrete a neve
E a neve que o meu pé prende?

— Mais valente é o homem
Que me mata

— Ô, homem, tu é tão valente
Que mata o boi
O boi que bebe a água
A água que apaga o fogo
O fogo que queima o pau
O pau que mata a cobra
A cobra que morde o gato
O gato que come o rato
O rato que rói a parede
A parede que encobre o sol
O sol que derrete a neve
E a neve que o meu pé prende?

— Mais valente é Deus
Que me criou

— Ô, Deus, vós é tão valente
Que mata o homem
O homem que mata o boi
O boi que bebe a água
A água que apaga o fogo
O fogo que queima o pau
O pau que mata a cobra
A cobra que morde o gato
O gato que come o rato
O rato que rói a parede
A parede que encobre o sol
O sol que derrete a neve
E a neve que o meu pé prende?

Ele disse:

— Ô xente!… que desaforo você vim aqui…

Aí Deus pegou, deu um cocorote — pá! — na cabeça da formiguinha… se retorceu toda, quando caiu em baixo… esses formigueiros todos que têm pelo mundo foi gerado dessa formiguinha.

Versão procedente de Maruim, SE, colhida em Aracaju, em 14 de abril de 1972. Informante: Dona Caçula.

*

Uma história sem fim

Um fazendeiro muito rico tinha um bando de patos em número que não se podia contar. Numa manhã, o menino encarregado de levar os patos para a lagoa encontrou o córrego cheio d’água, das chuvas caídas na noite anterior. Como era preciso chegar à lagoa, o menino levou os patos para o córrego e obrigou-os a atravessar o riachinho.

— E então?

— Os patos começaram nadando, nadando, atravessando o córrego.

— E então?

— Deixe os patos atravessarem o córrego.

— E depois?

— Deixe os patos atravessarem o córrego.

— E depois?

— Deixe os patos atravessarem o córrego…

— E depois?

*

A casa que Pedro fez

Esta é a casa que Pedro fez.

Este é o trigo que está na casa que Pedro fez.

Este é o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

Este é o gato que matou o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

Este é o cão que espantou o gato que matou o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

Esta é a vaca de chifre torto que atacou o cão que espantou o gato que matou o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

Esta é a moça mal vestida que ordenhou a vaca de chifre torto que atacou o cão que espantou o gato que matou o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

Este é o moço todo rasgado, noivo da moça mal vestida que ordenhou a vaca de chifre torto que atacou o cão que espantou o gato que matou o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

Este é o padre de barba feita que casou o moço todo rasgado, noivo da moça mal vestida que ordenhou a vaca de chifre torto que atacou o cão que espantou o gato que matou o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

Este é o galo que cantou de manhã que acordou o padre de barba feita que casou o moço todo rasgado, noivo da moça mal vestida que ordenhou a vaca de chifre torto que atacou o cão que espantou o gato que matou o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

Este é o fazendeiro que espalhou o milho para o galo que cantou de manhã que acordou o padre de barba feita que casou o moço todo rasgado, noivo da moça mal vestida que ordenhou a vaca de chifre torto que atacou o cão que espantou o gato que matou o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

*

A bota

Meus senhores, eu sou a bota
Meus senhores, eu sou a bota
Que leva a vidinha fazendo patota
Que leva a vidinha fazendo patota

Meus senhores, eu sou a porta
Meus senhores, eu sou a porta
Que leva a vidinha fazendo patota
Que leva a vidinha fazendo patota

Meus senhores, eu sou a corda
Meus senhores, eu sou a corda
Que marre a bota e botei na porta
Que leva a vidinha fazendo patota
Que leva a vidinha fazendo patota

Meus senhores, eu sou o sebo
Meus senhores, eu sou o sebo
Que passe na corda, que marre a bota
Que botei na porta
Que leva a vidinha fazendo patota
Que leva a vidinha fazendo patota

Meus senhores, eu sou o rato
Meus senhores, eu sou o rato
Que roeu o sebo, que passe na corda
Que marre a bota, que botei na porta
Que leva a vidinha fazendo patota
Que leva a vidinha fazendo patota

Meus senhores, eu sou o gato
Meus senhores, eu sou o gato
Que comeu o rato, que roeu o sebo
Que passe na corda, que marre a bota
Que botei na porta
Que leva a vidinha fazendo patota
Que leva a vidinha fazendo patota

Meus senhores, eu sou o cachorro
Meus senhores, eu sou o cachorro
Que comeu o gato, que matou o rato
Que roeu o sebo, que passe na corda
Que marre a bota, que botei na porta
Que leva a vidinha fazendo patota
Que leva a vidinha fazendo patota

Meus senhores, eu sou o pau
Meus senhores, eu sou o pau
Que matou o cachorro, que comeu o gato
Que matou o rato, que roeu o sebo
Que passe na corda, que marre a bota
Que botei na porta
Que leva a vidinha fazendo patota
Que leva a vidinha fazendo patota

Meus senhores, eu sou o facão
Meus senhores, eu sou o facão
Que cortô o pau, que mata o cachorro
Que comeu o gato, que matou o rato
Que roeu o sebo, que passe na corda
Que marre a bota, que botei na porta
Que leva a vidinha fazendo patota
Que leva a vidinha fazendo patota

Meus senhores, eu sou a mulher
Meus senhores, eu sou a mulher
Que pega o facão, que cortô o pau
Que matou o cachorro, que comeu o gato
Que matou o rato, que roeu o sebo
Que passe na corda, que marre a bota
Que botei na porta
Que leva a vidinha fazendo patota
Que leva a vidinha fazendo patota

Meus senhores, eu sou o homem
Meus senhores, eu sou o homem
Que vou dar na mulher, que pegou o facão
Que corto o pau, que mato o cachorro
Que comeu o gato, que matou o rato
Que roeu o sebo, que passe na corda
Que marre a bota, que botei na porta
Que leva a vidinha fazendo patota
Que leva a vidinha fazendo patota

*

Outra história sem fim

Era uma vez, três, um polaco e um português. O polaco puxou a faca, o português arrepiou. Pensa que matou? Não. Vou contar o que se passou…

Era uma vez, três, um polaco e um português. O polaco puxou a faca, o português arrepiou. Pensa que matou? Não. Vou contar o que se passou…

*

A morte de dom Ratinho

Dom Ratinho morreu
Dona Carochinha chorou
A porta abriu e fechou
A laranjeira desfolhou-se
O passarinho depenou-se
O cavalo perdeu o pelo
O boi perdeu o chifre
O rio secou a água
O menino quebrou o pote
E o mestre passou-lhe bolos
O que tendes minha porta
Perguntou a laranjeira
Que estais abrindo e fechando?
Pois não, minha laranjeira:
Dom Ratinho morreu
Dona Carochinha chorou
A porta abriu e fechou…
E responde a laranjeira:
E eu também de sentimento
Deixo cair minhas folhas
Vem o passarinho e pergunta:
O que tendes, laranjeira
Que estais tão desfolhada?
Pois não, meu passarinho
Dom Ratinho morreu
Dona Carochinha chorou
A porta abriu e fechou
E eu assim me desfolhei
Respondeu o passarinho:
E eu também de sentimento
Deixarei as minhas penas
Vem o cavalo e perguntou:
O que tendes laranjeira
Qu’inda ontem tão folhada
E hoje tão desfolhada?
E por que não, meu cavalo?
Dom Ratinho morreu
Dona Carochinha chorou
A porta abriu e fechou
A laranjeira desfolhou-se
E o passarinho depenou-se
Responde agora o cavalo:
E eu também de sentimento
Deixo cair o meu pelo
Vem o boi e pergunta:
O que tendes laranjeira
Que estais tão desfolhada?
E por que não, meu boi
Dom Ratinho morreu
Dona Carochinha chorou
A porta abriu e fechou
A laranjeira desfolhou-se
E o passarinho depenou-se
E o cavalo perdeu o pelo
Respondeu então o boi:
E eu também de sentimento
Deixo cair o meu chifre
Passa o rio e pergunta:
O que tendes laranjeira
Que estais tão desfolhada?
E ela responde ao rio:
Dom Ratinho morreu
Dona Carochinha chorou
A porta abriu e fechou
A laranjeira desfolhou-se
O passarinho depenou-se
O cavalo perdeu o pelo
E o boi perdeu o chifre
Respondeu então o rio:
E eu também de sentimento
Secarei as minhas águas
Vem o menino buscar água
E não a vendo isto pergunta:
O que tendes belo rio
Que ainda ontem tão cheio
E hoje assim tão sequinho?
E o rio respondeu:
Por que não, caro menino?
Dom Ratinho morreu
Dona Carochinha chorou
A porta abriu e fechou
A laranjeira desfolhou-se
O passarinho depenou-se
O cavalo perdeu o pelo
O boi perdeu o chifre
E o rio secou as águas
Responde então o menino:
E eu também de sentimento
O meno pote vou quebrar
Chega o menino à escola
E não levando o pote d’água
Por ele pergunta o mestre
E o menino assim responde:
Dom Ratinho morreu
Dona Carochinha chorou
A porta abriu e fechou
A laranjeira desfolhou-se
O passarinho depenou-se
O cavalo perdeu o pelo
O boi perdeu o chifre
E o rio secou as águas
E eu quebrei o meu pote
Então respondeu o mestre
Cheio de raiva e rancor:
E eu também de sentimento
Lasco-lhe as mãos de bolos

*

 

(As duas versões de O macaco e o rabo estão em Romero, Sílvio. Contos populares do Brasil. Rio de Janeiro, Livraria José Olímpio Editora, 1954 (Coleção Documentos Brasileiros). A formiguinha e a neve veio de Frade, Cáscia (org.) Contos populares fluminenses. Rio de Janeiro, Secretaria de Estado de Cultura; INEPAC, sd, v.1, p.13-16; A história da coca foi publicada por Pedreira, Ester. “História da coca”. Revista Brasileira de Folclore, ano 11, nº 31, Rio de Janeiro, setembro/dezembro de 1971, p.319-322; O macaco e o confeito, versão de Guimarães, Ruth (org.). Lendas e fábulas do Brasil. Clássicos da infância. São Paulo, Círculo do Livro, sd; O menino e a vó gulosa foi registrado por Cascudo, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil. Belo Horizonte; São Paulo, Itatiaia, Editora da Universidade de São Paulo, 1986. Reconquista do Brasil, 2ª série, 96; A formiguinha é de Lima, Jackson da Silva. O folclore em Sergipe; 1. Romanceiro. Rio de Janeiro, Livraria Cátedra; Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1977, p.417-421; A casa que Pedro fez foi contada por Ruiz, Corina Maria Peixoto. Didática do folclore. Curitiba, Editora Arco-Íris, 1995; A bota está em Lima, Rossini Tavares de. Abecê do folclore. 4ª ed. São Paulo, Ricordi, sd, p.224-225; A morte de dom Ratinho foi colhida por Costa, F. A. Pereira da. Folclore pernambucano; subsídios para a história da poesia popular em Pernambuco. Recife, Arquivo Público Estadual, 1974)