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História pra Contar: Contos Populares de Diabo Logrado
História pra Contar: Contos Populares de Diabo Logrado

As Narrativas de Diabo Logrado

O folclorista Luís da Câmara Cascudo dizia que as lendas e os contos urbanos são como “um dos altos testemunhos da atividade cultural de um povo, ensinando a conhecer diversas facetas do espírito humano, agrupando informações históricas, etnográficas, sociológicas, jurídicas e sociais, constituindo um documento vivo dos costumes, idéias e julgamentos de um grupo cultural”. Nos contos populares onde o Demônio se decepciona na impossibilidade de obter o pagamento contratual, é um dos processos de adaptação religiosa popular ao Ciclo do Demônio Logrado. Alguns apelidos para o Diabo: Afuleimado, Amaldiçoado, Arrenegado, Barzabu, Bicho-Preto, Bruxo, Cafuçu, Canheta, Capa Verde, Diogo, Diale, Diá, Diacho, Diangas, Dianho, Demo, Satã, Dedo, Ele, Esmolambado, Excomungado, Feio, Feiticeiro, Ferrabrás, Futrico, Gato-Preto, Imundo, Fedorento, Inimigo, Lúcifer, Mequetrefe, Mal-Encaracio, Mofento, Não-Sei-Que-Diga, Nojento, Pé-de-Cabra, Pé-de-Pato, Peitica, Rabudo, Sapucaio, Sarnento, Tição, Tisnado, Tinhoso.

Fonte: Os Melhores Contos Populares de Portugal, coletânea com org. e notas de Câmara Cascudo. (1944).

A seguir, compartilhamos uma das narrativas que utilizamos na construção do espetáculo de contação de histórias Nem Te Conto da Cia ContaCausos. Contos populares com esta mesma temática você pode encontrar nas seguintes obras:

O BOM PARTIDO

(do livro “Encantos e Malassombras de Jacarehy”)

     Contam que, naquele tempo, havia uma moça muito bonita chamada Olívia. Tão formosa que todos os rapazes queriam se casar com ela. Fazia fila no portão da moça, mas ela desdenhava de todo mundo.
     Se o sujeito tinha um defeitinho, a Olívia logo descartava. Ela falava que só se casaria com um homem rico, bem apessoado e que soubesse francês.
     Até que numa tarde, apareceu um moço montado num cavalo alazão, com uma sela de prata reluzente.
 
     Este cavaleiro era diferente de todos os rapazes da região. Um sujeito bem apanhado, com dente de ouro e terno de linho inglês. E ainda por cima, falava seis línguas.
 
 Foi um fuzuê.
 
     Todas as moças queriam conhecer o cavaleiro, mas assim que ele viu a Olívia na janela, já foi tirando o chapéu.
 
     A Olívia logo quis se casar com o rapaz, ele era um sonho! E daí para marcarem o casamento foi ligeiro.
 
     Dona Isaldina nem acreditava que a filha ia desencalhar, finalmente tinha aparecido um moço de que a Olívia gostasse.
 
     O casamento foi uma boniteza só e a festa durou três dias.
Porém, depois de um certo tempo, começaram a acontecer umas coisas estranhas…
 
     O moço não trabalhava, mas sempre tinha dinheiro na gaveta. E por onde ele passava ficava um cheiro forte no ar.
 
     A Olívia não estranhava nada.
 
     O rapaz era cheio de truques. Ateava fogo nos gravetos sem tocar neles, dançava numa corda bamba no quintal e fazia desaparecer algumas cartas do baralho. A Olívia ficava vermelha de tanto rir.
 
     Esse sujeito também não podia ver um bicho que já ia maltratando.Dava pimenta pro gato, cortava o rabo do cachorro, atirava em tudo quanto era passarinho.
 Num fim de tarde, assim que terminou de apurar o doce de abóbora, Dona Isaldina, chamou a Olívia num canto.
 
     – Ói, minha filha. Você tanto implicou com os moços desta cidade de, tanto escolheu, que acabou se casando com o Coisa Ruim.
 
     A Olívia escutou, até ergueu as sobrancelhas, mas não entendeu direito o que a mãe falou.
 
     – Pode deixar que eu dou um jeito nisso, filha.
 
     No dia seguinte, Dona Isaldina pegou uma rolha, fez uma reza forte, desenhou três cruzes na parte de cima da rolha e a guardou no bolso do avental.
Quando o sujeito chegou da rua, Dona Isaldina já foi passando um cafezinho e colocando o bolo de fubá na mesa.
 
     – Eu vejo que você é um moço talentoso. Faz todos esses prodígios…
 
     O rapaz pegou uma fatia de bolo e sorriu, vaidoso.
 
     Aí, Dona Isaldina mostrou uma garrafa de vidro pra ele.
 
     – Mas acho que nessa garrafa você não consegue entrar.
 
     – Ah, isso é fácil, minha sogra.
Num instante, o sujeito se desmanchou e foi pra dentro da garrafa.
 
     A sogra, mais do que depressa, pegou a rolha e tapou a garrafa. Lá estava o Coisa Ruim, presinho da silva. 
 Então, Dona Isaldina levou a garrafa pro brejo do Matutu e a enterrou. Às vezes, quando chovia e a taboa dobrava, o pessoal passava na estrada e escutava uma vozinha.
 
     – Me tira daqui, me tira daqui!
 
     Ninguém ia porque todo mundo sabia que era o diabo.
 
     O tempo passou. Dona Isaldina ficou velhinha, a Olivia não se casou mais e o alazão do cavaleiro sumiu.
Mas, como sempre tem um curioso, a história continuou…
 
     Num dia de agosto, depois de um toró, o tal do curioso foi ao brejo. Procurou, procurou, até que achou a garrafa enterrada, com o gargalo pra fora. A rolha da garrafa estava coberta de cera, que a sogra tinha colocado pra não apodrecer.
 Então, o curioso virou a garrafa de um lado, virou do outro e conseguiu tirar a rolha. Saiu o Coisa Ruim de lá, de rabo e chifre e falou:
 
     – Com sogra nem o diabo pode!
 
     E sumiu num estouro, deixando um cheiro de enxofre no ar.
História pra Contar – 10 livros de medo, espanto e mal-assombro.
História pra Contar – 10 livros de medo, espanto e mal-assombro.

O MEDO NAS HISTÓRIAS

Este fascínio que todos temos em ouvir uma história de medo bateu em cheio na intenção da ContaCausos. Personagens marginais, anti-herois, temas obscuros, temáticas como as narrativas de demônio logrado, histórias de assombração e visagem tem muita força no nosso repertório. Escolhemos (também) contar histórias de “medo” pela força que exercem no imaginário, pela curiosidade que despertam nas crianças, pelos enfrentamentos, pelas histórias assustadoras que constituem o nosso patrimônio imaterial, literário, popular e que também precisam ser narradas porque dizem respeito à experiências humanas, falam direto ao que somos e pelo prazer de ver os medos superados em nós e na plateia.

 Selecionamos 10 livros na nossa estante pra você que como nós,  adora um conto de medo, espanto e mal-assombro. 

Boa leitura!

História pra Contar: Sapo com medo d’água
História pra Contar: Sapo com medo d’água

Sapo com medo d’água    –   conto de esperteza – Ricardo Azevedo

Dois homens, fugidos da prisão, pararam na beira da lagoa para matar a sede e descansar um pouco.

Um sapo dormia debaixo da samambaia. Os bandidos agarraram o sapo.

– Olha que desengonçado! – disse um deles, apertando o bicho entre os dedos.

– É feio que dói! – completou o outro, com cara de nojo. E os dois resolveram fazer maldade.

– Vamos jogar no formigueiro?

Ouvindo isso, o sapo estremeceu. Por dentro. Por fora, abriu um sorriso indiferente.

– Que nada – respondeu o outro, percebendo que o sapo não estava nem ligando. – Pega a faca. Vamos picar ele todinho. O sapo, de olhos fechados, começou a assobiar uma linda melodia.

Os dois bandidos queriam dar um jeito de fazer o sapo sofrer.

– Sobe na árvore e atira ele lá do alto.

– Pega um fósforo e acende uma fogueira.

Vamos fazer churrasco de sapo!

O sapo espreguiçava-se tranqüilo entre os dedos do homem. Um dos bandidos teve outra idéia.

– Já sei! Vamos afogar o desgraçado na lagoa!

Foi quando o sapo deu um pulo desesperado  começou a gritar:

– Tudo menos isso!

Os malfeitores, agora sim, tinham chegado onde queriam.

– Vai pra água, sim senhor!

– Não sei nadar! – berrava o sapo.

– Então, vai morrer engasgado!

O bicho esperneava:

– Socorro!

-Vai sufocar de tanto engolir água!

-Não

-Vai virar comida de jacaré !

– Tenho mulher e filhos pra cuidar!

– Joga bem longe!

– Me acudam!

– Lá vai!

O homem atirou o sapo no fundo da lagoa. O sol estava redondo.

O sapo – ploft – desapareceu no azul bonito das águas.

Depois voltou risonho, mostrou a língua e foi embora nadando e cantando e dançando e requebrando n’água, feliz da vida.

História pra Contar: Porque os contadores de história tem boa memória
História pra Contar: Porque os contadores de história tem boa memória

Porque os contadores de histórias têm boa memória e apreciam bons vinhos

Os pássaros não podem escrever, eles têm penas demais.

Ora, conta-se na África ocidental que no início dos tempos não havia histórias e também não havia sabedoria. O mundo era muito triste. Por isso, o primeiro contador de histórias foi também o primeiro buscador de histórias que saiu pelo mundo afora acompanhado de um pássaro-escrivão: o marabu.

O marabu é o único pássaro que sabe qual das penas do seu traseiro deve ser arrancada para que, com ela, se possa escrever, o que faz dele um pássaro especial. É por isso que foi escolhido para sair pelo mundo, pousado no ombro do primeiro buscador e contador de histórias.

Andaram pelo mato afora, pela savana e ao longo dos rios para escutar os ventos, as pedras, as águas, ás árvores e os animais. E encontraram muitas pessoas até então desconhecidas que iam lhes contando suas histórias.

Munido da pena arrancada de seu traseiro e utilizando uma tinta feita de água, pó de carvão e goma-arábica, o marabu-escrivão anotava conscienciosamente todas as histórias que escutava. O buscador e contador de histórias caminhava e pensava:

“Não me será possível recordar todas essas histórias.”

Mas o marabu continuava a ouvi-las e a escrevê-las.

Pois saibam que, uma vez tendo voltado para casa, o primeiro buscador e contador de histórias obteve a solução para o problema que o atormentava. Seguindo os conselhos do marabu, encheu de água uma grande cabaça e nela mergulhou todas as histórias escritas. Durante a noite, naquela cabaça, que na África é chamada de canari, as palavras escritas com tinta se dissolveram na água. No dia seguinte, na refeição da manhã, o marabu mandou que o buscador e contador de histórias bebesse todo o conteúdo do canari como desjejum.

Assim, todas as histórias bebidas tornaram-se histórias sabidas.

Se por acaso você precisar beber uma história, escute o meu conselho: beba tudo. Não deixe nada no fundo do copo, porque isso poderia dar um branco em sua memória.

Essa é a razão pela qual, em todos os tempos, os contadores de histórias sempre foram, também, bons bebedores de vinhos.

Conto publicado no livro O Ofício do Contador de Histórias, de Gislayne Avelar Matos e Inno Sorsy

História pra Contar: O Caso de Espelho
História pra Contar: O Caso de Espelho

Era um homem que não sabia quase nada. Morava longe, numa casinha de sapé esquecida nos cafundós da mata.

Um dia, precisando ir à cidade, passou em frente a uma loja e viu um espelho pendurado do lado de fora. O homem abriu a boca. Apertou os olhos. Depois gritou, com o espelho nas mãos:

– Mas o que é que o retrato de meu pai está fazendo aqui?

– Isso é um espelho – explicou o dono da loja.

– Não sei se é espelho ou se não é, só sei que é o retrato do meu pai.

Os olhos do homem ficaram molhados.

– O senhor… conheceu meu pai? – perguntou ele ao comerciante.

O dono da loja sorriu. Explicou de novo. Aquilo era só um espelho comum, desses de vidro e moldura de madeira.

– É não! – respondeu o outro. – Isso é o retrato do meu pai. É ele, sim! Olha o rosto dele. Olha a testa. E o cabelo? E o nariz? E aquele sorriso meio sem jeito?

O homem quis saber o preço. O comerciante sacudiu os ombros e vendeu o espelho, baratinho

Naquele dia, o homem que não sabia quase nada entrou em casa todo contente. Guardou, cuidadoso, o espelho embrulhado na gaveta da penteadeira.

A mulher ficou só olhando.

No outro dia, esperou o marido sair para trabalhar e correu para o quarto. Abrindo a gaveta da penteadeira, desembrulhou o espelho, olhou e deu um passo atrás. Fez o sinal da cruz tapando a boca com as mãos. Em seguida, guardou o espelho na gaveta e saiu chorando.

– Ah, meu Deus! – gritava ela desnorteada. – É o retrato de outra mulher! Meu marido não gosta mais de mim! A outra é linda demais! Que olhos bonitos! Que cabeleira solta! Que pele macia! A diaba é mil vezes mais bonita e mais moça do que eu!

– Quando o homem voltou, no fim do dia, achou a casa toda desarrumada. A mulher, chorando sentada no chão, não tinha feito nem a comida.

– Que foi isso, mulher?

– Ah, seu traidor de uma figa! Quem é aquela jararaca lá no retrato?

– Que retrato? – perguntou o marido, surpreso.

– Aquele mesmo que você escondeu na gaveta da penteadeira!

O homem não estava entendendo nada.

– Mas aquilo é o retrato do meu pai! Indignada, a mulher colocou as mãos no peito:

– Cachorro sem-vergonha, miserável! Pensa que eu não sei a diferença entre um velho lazarento e uma jabiraca safada e horrorosa?

A discussão fervia feito água na chaleira.

– Velho lazarento coisa nenhuma! – gritou o homem, ofendido.

A mãe da moça morava perto, escutou a gritaria e veio ver o que estava acontecendo. Encontrou a filha chorando feito criança que se perdeu e não consegue mais voltar pra casa.

– Que é isso, menina?

– Aquele cafajeste arranjou outra!

– Ela ficou maluca – berrou o homem, de cara amarrada.

– Ontem eu vi ele escondendo um pacote na gaveta lá do quarto, mãe! Hoje, depois que ele saiu, fui ver o que era. Tá lá! É o retrato de outra mulher!

A boa senhora resolveu, ela mesma, verificar o tal retrato.

Entrando no quarto, abriu a gaveta, desembrulhou o pacote e espiou. Arregalou os olhos. Olhou de novo. Soltou uma sonora gargalhada.

– Só se for o retrato da bisavó dele! A tal fulana é a coisa mais enrugada, feia, velha, cacarenta, murcha, arruinada, desengonçada, capenga, careca, caduca, torta e desdentada que eu já vi até hoje!

E completou, feliz, abraçando a filha:

Fica tranqüila. A bruaca do retrato já está com os dois pés na cova!

Conto Popular recontado por Ricardo Azevedo

Fonte: Revista Nova Escola