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História pra Contar: O Bicho Folharal
História pra Contar: O Bicho Folharal

Cansada de ser enganada pela raposa e de não poder segurá-la, a onça resolveu atraí-la à sua furna. Fez para esse efeito correr a notícia de que tinha morrido e deitou-se no meio da sua caverna, fingindo-se cadáver. Todos os bichos vieram olhar o seu corpo, contentíssimos. A raposa também veio, mas prudentemente de longe. E por trás de outros animais gritou:

– Minha avó, quando morreu, espirrou três vezes. Espirrar é o sinal verdadeiro da morte.

A onça, para mostrar que estava morta de verdade, espirrou três vezes. A raposa fugiu, às gargalhadas.

Furiosa, a onça resolveu apanhá-la ao beber água. Havia seca no sertão e somente uma cacimba ao pé duma serra tinha ainda um pouco de água. Todos os animais selvagens eram obrigados a beber ali. A onça ficou à espera da adversária, junto da cacimba, dia e noite.

Nunca a raposa curtiu tanta sede. Ao fim de três dias já não agüentava mais. Resolveu ir beber, usando duma astúcia qualquer. Achou um cortiço de abelhas, furou-o e com o mel que dele escorreu untou todo o seu corpo. Depois, espojou-se num monte de folhas secas, que se pregaram aos seus pêlos e cobriram-na toda.

Ao lusco-fusco, foi à cacimba. A onça olhou-a bem e perguntou-lhe:

– Que bicho és tu que eu não conheço, que eu nunca vi?

Respondeu cinicamente:

– Sou o bicho folharal.

– Podes beber.

Desceu a rampa do bebedouro, meteu-se na água, sorvendo-a com delícia e a onça lá em cima, desconfiada, vendo-a beber demais, como quem trazia sede de vários dias, murmurava:

– Quanto bebes, folharal!

Mas a água amoleceu o mel e as folhas foram caindo às porções. Quando fartara as entranhas ressequidas, a última folha caíra, a onça reconhecera a inimiga esperta e pulara ferozmente sobre ela, mas a raposa conseguira fugir.

(BARROSO, Gustavo. Ao som da viola. Rio de Janeiro, 1921. In CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil)

Simpatias e superstições do povo Brasileiro
Simpatias e superstições do povo Brasileiro

Simpatias e superstições do povo Brasileiro

As simpatias folclóricas e superstições são crendices criadas pelo povo. Muitas pessoas acreditam nelas e as seguem como forma de evitar algo ruim em suas vidas ou até mesmo para atrair e realizar coisas boas. Não possuem nenhuma base científica, porém são interessantes exemplos da cultura popular e do folclore brasileiro. São mais comuns nas regiões rurais do que nos grandes centros urbanos. Nas simpatias a pessoa deve realizar alguma coisa para obter ou afastar algo. Já as superstições ficam apenas no campo da crendice, sem necessidade de realização de algo prático.

Passar por debaixo de uma escada traz azar.

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Quebrar um espelho resulta em sete anos de azar.

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Encontrar um trevo de quatro folhas traz muita sorte.

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Sapo morto de barriga para cima é indício de chuva.

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Encontrar um gafanhoto verde dentro da residência é indicativo de sorte futura.

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Quando uma faca cai no chão é sinal de que uma briga acontecerá no lar. Para evitar esta briga é necessário riscar uma cruz no chão, no mesmo local onde a faca caiu.

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Se uma pessoa comer carne na sexta-feira santa poderá se transformar num cavalo.

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Contar estrelas apontando-as, faz nascer verrugas nos dedos da mão.

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Desenhar um Sol no chão faz a chuva parar.

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Pio de coruja é mau agouro.

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Entrar em casa com terra de cemitério no calçado pode provocar a morte de uma pessoa da residência.


Os cuidados com a casa

 

A dona de casa deverá limpar a casa, varrendo-a de trás para frente,
deixar o lixo fora alguns segundo; outros, mandam jogar no mar.

As vassouras devem ser queimadas e as cinzas enterradas.
Nada quebrado deve ser deixado na casa (jarros de planta, garrafas,
copos, pratos e espelhos).

Lavar os batentes da casa com sal grosso e água, ou água do mar.

Borrifar a casa com água-benta nos quatro cantos.
O bom mesmo é pintar toda a casa, colocar lâmpadas novas
(não deixar lâmpadas queimadas).

Verificar se os sapatos estão desemborcados e se as roupas não estão do avesso.

E as flores da casa devem ser amarelas para chamar ouro.


Para trazer sempre muita felicidade


Em seu jardim ou quintal, plante uma muda de jasmim. E sempre que regar essa planta, fale para ela: “Meu jasmim, traga sempre as flores e o perfume da felicidade para o meu casamento”.

 

Para não ocorrerem mais brigas


Num pedaço de papel branco, escreva o nome de seu marido e, em cima do nome dele, escreva o seu. Coloque esse papel num vidro claro. Mas preste atenção: o papel tem que ficar com as bordas para cima, encostadas nas ‘paredes’ do vidro. Depois, coloque nesse vidro mel de abelha até cobrir as pontas das laterais do papel, e aí diga: “Salve o povo cigano!” Por fim, tampe o vidro e o enterre no jardim de sua casa. Se não tiver jardim, enterre-o num vaso de flores e coloque esse vaso no lado esquerdo (de quem entra) da porta de entrada de sua casa.


Simpatias para as Festas Juninas

Passe um ramo de manjericão sobre a fogueira e jogue-o sobre o telhado de sua casa.

Se na manhã seguinte ele ainda estiver verde, é sinal de casamento com pessoa jovem.

Se estiver murcho, com pessoa mais velha.

– O carvão que sobra depois que a fogueira apaga adquire poderes sobrenaturais.

– Com ele, pode-se cobrir os ovos das aves para que a ninhada seja forte e saudável.

– Andar com um pedaço de carvão da fogueira no bolso traz felicidade e dinheiro o ano todo.

– Jogar na fogueira um galho de alecrim, arruda ou uma trança de alho espanta o mau-olhado.

– Os carvões que restarem podem ser enviados a parentes e amigos, pois são considerados bentos.

– Quem possuir um carvão da fogueira viverá até o próximo São João


Colocar um quartzo rosa dentro de um copo transparente com água filtrada e deixar no sereno, na véspera de Santo Antonio,
pedindo tudo que almeja para realização afetiva tipo: felicidade, respeito, harmonia, companheirismo, cumplicidade,afeto, dedicação, carinho, amor, compreensão etc.No dia seguinte, passar a água:
Nos pulsos, para se articular sempre com equilíbrio;Nos joelhos, para ter flexibilidade e respeitar o outro;No coração, para amar com sinceridade, e que o amor seja pleno e digno.


Para Santo Antônio

 

Moças solteiras, desejosas de se casar, em várias regiões do Brasil, colocam-no de cabeça para baixo atrás da porta ou dentro do poço ou enterram-no até o pescoço.

Fazem o pedido e, enquanto não são atendidas, lá fica a imagem de cabeça para baixo.

E elas pedem:
“Meu Santo Antônio querido,
meu santo de carne e osso,
se tu não me dás marido,
não tiro você do poço.”

Amarre uma fita vermelha e outra branca no braço da imagem
de Santo Antônio, fazendo a ele o pedido.

Rezar um Pai-Nosso e uma Salve-Rainha.
Pendurar a imagem de cabeça para baixo sob a cama.

Ela só deve ser desvirada quando a pessoa alcançar o pedido.


Pimenteira


A moça deve apanhar pimentas num pé de pimenteira com os olhos vendados. Caso ela colha pimenta verde, seu noivo será jovem; se for madura, o casamento será com velho ou viúvo; se a pimenta for de verde para madura, o casamento será com homem de meia-idade.

 


Saber com quem vai casar

 

No dia de Santo Antônio, em cada refeição que fizer, deve deixar um pouco de comida no prato.

No final do dia, ela precisa rezar para Nossa Senhora e pedir para que o homem amado venha comer os restos

que deixou durante o dia. Depois é só adormecer, o amado aparecerá em seus sonhos comendo a comida.

ou na noite de São João, escrever o nome de quatro pretendentes em cada ponta do lençol e dar um nó em cada uma delas.

De manhã, o nó que estiver desmanchado tem o nome daquele com quem a pessoa vai se casar.

Não vale proteção !



Imagem do ovo


Na noite de 23 de junho, quebrar um ovo dentro de um copo e deixá-lo ao relento. Na manhã seguinte, interpretar o que está desenhado na clara: torre de igreja é casamento

(em algumas regiões do Brasil)

ou ingresso na vida religiosa (Maranhão);

túmulo, caixão de defunto ou rede de defunto significa morte na certa em algumas regiões;

em outras, a rede também pode ser interpretada como renda, de que é feito o véu de noiva; significa, portanto, casamento.

 



Na fogueira de São João


Com um papel branco à mão, coloca-se por cima da fogueira, sem queimar. Vai-se rezando uma Salve Rainha, girando o papel e a fumaça vai fazendo um desenho, cuja figura é o rosto do homem com quem vai se casar.

 



Sabedoria de bananeira

Na noite de São João, de 23 para 24, deve-se enfiar uma faca virgem (nova) na bananeira.

No dia seguinte, de manhã bem cedo, retire a faca que nela aparecerá o nome do(a) futuro(a) noivo(a).

Outra variante dessa simpatia diz que o nome do(a)

futuro(a) marido/mulher aparecerá escrito no caule da bananeira.

Alguns preferem ver o nome escrito no tronco da bananeira.

Ainda há outra variante, mais rápida: enfia-se a faca na bananeira e, ao retirá-la, você ouvirá o nome do(a) futuro(a) companheiro(a).

 



Papéis mágicos


Na noite de São João, escreva em pequenos papéis o nome de vários(as) pretendentes.

Enrole-os e jogue-os em uma bacia ou copo d’água.

O papel que se desenrolar primeiro indicará o nome do(a) futuro(a) companheiro(a).



Energia do santo


Regue as plantas antes de o Sol nascer, no dia de São João.

As plantas crescerão bem mais fortes.


Umbigo

 

– Para evitar o mal-dos-sete-dias, coloque-se fumo no umbigo da criança.
– Se o rato comer o umbigo da criança, o menino será ladrão
– umbigo de menino enterrado no hospital fará dele um médico
– dar umbigo de criança para um boi comer, torna a criança forte
– enterrar o umbigo junto ao fogão torna o filho desagarrado da mãe
– Umbigo de menina enterrado ao pé da roseira faz com que ela se torne bonita



Contra inveja e mau-olhado

– vestir a criança de amarelo evita mau-olhado e dá sorte
– banhar com três ramos de arruda protege contra mau-olhado.



Contra pipi na cama

 

– urinar em formigueiro
– urinar na brasa
– urinar no tijolo quente.


Pode atrasar a fala da criança

– criança que põe chave na boca demora a falar.



Para criança aprender a falar logo

– beber água em campainha de igreja, três vezes
– beber água na casca de ovo.


 

Para andar depressa

– socar com a roupa da criança no pilão três sextas-feiras seguidas. [
– cortar o medo de andar, com o machado: a criança vai dando puxada por alguém e outra pessoa [de preferência a madrinha] vai atrás com um machado, simulando machadadas em cruz nos rastinhos
– varrer o medo: a madrinha de batismo vai amparando a criança a alguém vai simulando varrer-lhe os rastos na direção da porta da cozinha; se o fizer em direção à porta da sala, a criança fica “rueira”
– passar ovo de aranha na “curva da perna” da criança: passá-lo em cruz



Para crescer

– dar de beber à criança chá de grelo de bambu.


 

Para desengasgar

– soprar no rosto da criança
– virar a criança de cabeça para baixo
– soprar na moleira
– virar o tição ao contrário.


 

Combatendo soluço

– dar à criança três gotas de água fria
– colocar na testa da criança pêlo de manta molhado na saliva da mãe
– colocar na testa da criança papel de pão molhado na saliva da mãe
– beber água e jogar o resto três vezes para trás
– recitar: “soluço vai, soluço vem, soluço traz para quem não tem”.


 

Contra sapinho

– passar a chave do sacrário na boca da criança: contra sapinho
– passar bicarbonato com mel na boca da criança: contra sapinho
– pôr os paninhos para secar na chaminé: contra sapinho
– banhar a criança com água fervida na panela de angu contra brotoeja.

Galeria de Mitos brasileiros
Galeria de Mitos brasileiros

Os mitos são narrativas que possuem um forte componente simbólico. Como os povos da antiguidade não conseguiam explicar os fenômenos da natureza, através de explicações científicas, criavam mitos com este objetivo: dar sentido as coisas do mundo. Os mitos também serviam como uma forma de passar conhecimentos e alertar as pessoas sobre perigos ou defeitos e qualidades do ser humano. Deuses, heróis e personagens sobrenaturais se misturam com fatos da realidade para dar sentido a vida e ao mundo.

Vale destacar que essa galeria está em construção e se você é apaixonado como nós e quiser contribuir é só mandar uma mensagem. 😉

Pisadeira

Ilustração de Marcos Jardim“Esta é ua muié muito magra, que tem os dedos cumprido e seco cum cada unhão! Tem as perna curta, cabelo desgadeiado, quexo revirado pra riba e nari magro munto arcado; sombranceia cerrado e zóio aceso… Quando a gente caba de ciá e vai durmi logo, deitado de costa, ele desce do teiado e senta no peito da gente, arcano… arcano… a boca do estámo… Purisso nunca se deve dexá as criança durmi de costa.”
(Cornélio Pires. Conversas ao pé do fogo)Ela vive pelos telhados, sempre à espreita. Quando se janta e vai dormir com a barriga ainda cheia, deitando-se de barriga para cima, é chegada a hora da pisadeira entrar em ação. Ela desce de seu esconderijo e senta-se ou pisa sobre o peito da pessoa adormecida. E pisa, que pisa, com um peso infernal. Não há o que se possa fazer e o pior é que, na verdade, a vítima tem consciência de tudo o que está ocorrendo, pois entra em um estado letárgico onde não está nem totalmente adormecida, nem acordada a ponto de se mover e despertar.

A pisadeira é uma mulher muito magra — Alceu Maynard Araújo a descreve como uma negra gorda, muito pesada, — que tem os dedos compridos e secos, com unhas enormes, sujas e amareladas. As pernas são curtas e o cabelo desgrenhado. Um narigão, magro e muito arcado como um gavião. Os olhos são vermelho fogo, malignos e arregalados. O queixo é revirado para cima e a boca sempre escancarada, com dentes esverdeados e à mostra. Nunca ri, gargalha. Uma gargalhada estridente e horripilante.

É mito de origem portuguesa que ocorre em São Paulo e parte de Minas Gerais. Entretanto, a crença que uma intervenção maléfica de um fantasma ou demônio seja a causa do pesadelo é comum a quase todos os povos do planeta desde os tempos da Antigüidade. Em Portugal, é o fradinho da mão furada. No Nordeste brasileiro, os sertanejos acreditam numa velha ou num velho de barba branca que vem lhes arranhar o rosto durante o sono.

Benedito Cleto registra parte de uma oração contra pisadeira:

“São Vicente com São Simão me disse que a pisadeira tem a mão furado.
São Vicente com São Simão me disse que a pisadeira tem os olho arregalado.
São Vicente com São Simão me disse que a pisadeira tem o beiço arrevirado.
São Vicente com São Simão me disse que a pisadeira tem o dente arreganhado…”

Caboclo-d’água

Ilustração de Marcos Jardim“O senhô pode me creiá. Eu e meus dois menino, numa pescaria, num pegamo um caboclo pro causa desta minha careca. Eles três tavam numa canoa e, noutra, eu mais o fio mais novo, o caçula, de uns dezoito janeiros de idade. Nisso, donde nós tava, nós escutou os menino gritando demais. Nós remou depressa pra lá, mas quando já tava pertinho de chegá nós ouviu eles gritá: “Sorta! Sorta! que é o velho nosso pai”. E nós viu, no escuro que fazia, o bicho rolar pra dentro d’água, maretando o rio. Pois num foi que os bobos dos meninos deixaro se encantá a ponto de confundi eu com o danado? Vendo a quereca dele lumiá na luz dos fachos, pensaro que o bicho era eu e gritaram pra soltar. Encantado como eles ficou, até esquecero que eu num era nenhum bocó pra ficar sem gritar com aquela amarração que tinham fazido a rede, embaraiando o sem-vergonha.” (J. A. Macedo, 1956)

O caboclo-d’água, também chamado negro-d’água e bicho-d’água, é um dos mitos aquáticos mais populares na região do vale do rio São Francisco. Ninguém sabe de onde surgiu. Vive nas barrancas e alagadiços. Segundo as descrições mais comuns, é baixo, troncudo, musculoso, muito forte, tem a pele cor de bronze e um só olho no meio da testa. Apesar de seu tipo físico, movimenta-se de forma muito rápida e ágil. Às vezes sai do rio e caminha pela terra, geralmente para praticar alguma vingança ou fazer algum favor, mas nunca se afasta muito das margens. Para muitos, é um só e possui poderes para estar em vários lugares ao mesmo tempo.

Dizem que possui o temperamento enfezado e não nutre grandes simpatias para com os pescadores e remeiros. Agarra o fundo das canoas e barcos, balançando-os até os virar ou encalhando-os. Seu corpo é à prova de balas. Para evitar encontrá-lo, deve-se fincar uma faca no fundo da embarcação. Porém, se for bem tratado, o caboclo torna-se benfazejo, ajudando nas pescarias e evitando enchentes. Para agradá-lo, basta oferecer-lhe fumo.

Quibungo

Ilustração de Marcos Jardim“Ele então disse:
— Então, quero comê-los auê
como gérê, como gérê, como érá?Ela respondeu:
— Pode comê-los, embora, auê
como gérê, como gérê, como érá.

E ele comeu todos os três, jogando-os no buraco das costas. Depois, perguntou de quem era a mulher, e a mulher respondeu que era de seu marido. O quibungo resolveu-se comê-la também, mas quando ia jogá-la no buraco, entrou o marido armado de uma espingarda de que o quibungo tem muito medo.”
(Nina Rodrigues)

É uma espécie de monstro, meio homem, meio bicho. Tem a cabeça enorme e um grande buraco no meio das costas, que se abre e fecha conforme ele abaixe e levante a cabeça. Come pessoas, especialmente crianças e mulheres, abrindo o buraco e atirando-as dentro dele.

O quibungo, também chamado kibungo ou chibungo, é mito de origem africana que chegou ao Brasil através dos bantus e se fixou no estado da Bahia. Suas histórias sempre surgem em um conto romanceado, com trechos cantados, como é comum na literatura oral da África. Em Angola e Congo, quibungo significa “lobo”.

Curiosamente, segundo as observações de Basílio de Magalhães, as histórias do quibungo não acompanharam o deslocamento do elemento bantu no território brasileiro, ocorrendo exclusivamente em terras baianas. Para Luís da Câmara Cascudo, apesar da influência africana ser determinante, “parece que o quibungo, figura de tradições africanas, elemento de contos negros, teve entre nós outros atributos e aprendeu novas atividades”.

Extremamente voraz e feio, não possui grande inteligência ou esperteza. Também é muito vulnerável e pode ser morto facilmente a tiro, facada, paulada ou qualquer outra arma. Covarde e medroso, morre gritando, apavorado, de forma quase inocente.

Papa-figo

Ilustração de Marcos JardimVez por outra circulava a notícia apressada de que desaparecera aquela crianã da rua da Medalha, ou a outra da rua da Tesoura, da estrada do Carro ou da rua da Viração, da rua da Glória ou do Jaguaribe — e era de notar o espanto geral que a novidade despertava entre a gurizada atenta na marcha desses acontecimentos tão desagradáveis.
(Ademar Vidal. Lendas e superstições)Ele costuma sair à noite ou ao fim da tarde, na hora do crepúsculo, aproveitando o horário de saída das escolas. Seu aspecto pode variar de região para região. Algumas vezes é velho, sujo, sofre de hanseníase e tem o corpo coberto de chagas. Pode, também, ser alto, magro, pálido e com a barba por fazer. Às vezes, carrega um saco. Procura por crianças, atraindo-as com o intuito de raptá-las, extraindo-lhes, a seguir, o fígado.

Segundo a crença popular, o sangue é produzido no fígado. Quando este não funciona bem, o sangue apodrece, causando a lepra. A cura estaria no consumo do órgão sadio. Mas somente o fígado infantil teria pureza e força suficientes para aliviar o sofrimento dos hansenianos. E sempre haveria alguém disposto a pagar qualquer preço por tão poderoso e raro lenitivo.

É mito que ocorre em todo o Brasil, convergindo para outras figuras do ciclo do pavor infantil, como o lobisomem, o negro velho e o homem do saco. Segundo a versão registrada por Ademar Vidal, referente à Paraíba, a fim de não cometer injustiças, o papa-figo restringia sua caça apenas aos meninos mal-comportados, desobedientes, teimosos ou chorões.

Mboi-tatá

Ilustração de Marcos Jardim“Mas de verão, depois da quentura dos mormaços, começa o seu fadário.

A boitatá, toda enroscada, como uma bola – tatá, de fogo! – empeça a correr o campo, coxilha abaixo, lomba acima, até que horas da noite!…”
(João Simões de Lopes Neto. Lendas do Sul)

Também chamada de batatão, boitatá, bitatá, batatá, baitatá, biatatá, Jean de la foice ou Jean Delafosse. É grande a sinonímia da mboi-tatá no Brasil. Mboi, cobra, ou então, o agente, a coisa; tatá, fogo. A cobra de fogo, a coisa de fogo.

Segundo Luís da Câmara Cascudo é o primeiro mito a ser registrado no Brasil. Foi o padre José de Anchieta quem o referiu pela primeira vez, na Carta de São Vicente, datada de 31 de maio de 1560, como “um facho cintilante correndo para ali; acomete rapidamente os índios e mata-os…”

Uma serpente de fogo, saltitante. Para muitos é uma alma penada. É mito que ocorre em todas as regiões do Brasil e o correspondente ao fogo-fátuo europeu. Alguns acreditam-na uma espécie de defensora das matas, outros, o resultado de uma união sacrílega. Dizem que o viajante, ao encontrá-la, deve fechar os olhos e permanecer parado, imóvel, então ela desaparecerá. Caso contrário, a mboitatá o perseguirá, infernizando-o até matá-lo.

Porca-dos-sete-leitões

Ilustração de Marcos Jardim“A porca-dos-sete-leitões… Essa gosta mais de vivê rodeano igreja na vila e as cruis da estrada, c’oa leitoada chorando de atrais.

— É má?…

— Cumo quê…

— Intê que não… — interrompeu a Cristina…

— Essa sombração é muito bão: só persegue os home casado que vem fora de hora pra casa…”
(Cornélio Pires. Conversas ao pé do fogo)

* * *

Aparece sempre à noite, atrás das igrejas, nas encruzilhadas, nos becos escuros, perto dos cruzeiros ou nas ruas desertas. A porca, roncando surdamente, é acompanhada de seus sete filhotinhos, que berram ao seu redor. Não faz mal a ninguém. Dizem que ela prefere assombrar os homens casados que voltam para casa fora de hora. Se o homem volta-se para encará-la, porca e leitões somem depois de alguns segundos, reaparecendo e sumindo novamente.

É mito de origem portuguesa e ocorre principalmente nas regiões centrais e meridionais do Brasil. Na versão recolhida por Karl von den Steinen, em Cuiabá, é a alma de uma mulher pecadora que interrompeu a gravidez. Tantos quantos forem os abortos, serão os leitões. Em algumas versões paulistas, é uma rainha que teve sete filhos e foram amaldiçoados por vingança de um feiticeiro. No imaginário português é o próprio diabo, ou coisa mandada por ele e, por vezes, também toma a forma de outros animais.

Segundo Luís da Câmara Cascudo (Dicionário do folclore brasileiro): “A porca, símbolo clássico dos baixos apetites carnais, sexualidade, gula, imundície, surge inopinadamente diante dos freqüentadores dos bailes noturnos e locais de prazer”.

Cuca

Ilustração de Marcos JardimVai-te, coca, sai daqui
Para cima do telhado
Deixa o menino
Dormir sossegadoNana, neném
Que a cuca vem pegar
Papai tá na roça
Mamãe foi cozinharA cuca é um papão, um ente fantástico que mete medo às crianças causando pavor. Sua aparência varia de lugar para lugar, mas a maioria das pessoas diz que ela tem a forma de uma velha, bem velha e enrugada, corcunda,  cabeleira branca, toda desgrenhada, com aspecto assustador. Ela só aparece à noite, sempre procurando por aquelas crianças que fazem pirraça e não querem ir dormir cedo. Então, a cuca as coloca num saco, levando-as embora para não se sabe onde e faz com elas não se sabe bem o que, mas, com toda certeza, trata-se de algo muito terrível.

Ela também é chamada de coca ou coco e assombra crianças de Portugal, Espanha, alguns países africanos e tribos indígenas brasileiras. Em alguns lugares ela é um velho, em outros, se parece com um jacaré ou uma coruja.

Existem muitas canções e versos sobre a cuca. Luís da Câmara Cascudo, em Geografia dos mitos do Brasil, indica a seguinte cantiga, comum no Nordeste brasileira:

Dorme, neném
Se não a cuca vem
Papai foi pra roça
Mamãe logo vem

 

Mula-sem-cabeça

Ilustração de Marcos Jardim“Ainda hai a mula sem cabeça; custa muito, mas porém hai. Essas cousas de Deus unfum!… ninguém deve marmurá. Mamãe veio sabê, ô dispois muito tempo, qu’essas gente são iscomungado…”
(Manuel Ambrósio. Brasil interior)* * *A transformação em mula é o castigo recebido pela mulher que se entrega sexualmente a um padre. Nas noites de quinta para sexta-feira, ou de acordo com a lua, ou de sete em sete anos, ou na quaresma, enfim — os períodos variam de região para região — a concubina transforma-se e parte em galope desvairado, pisoteando tudo o que encontra pela frente. Seus cascos, afiadíssimos, ferem como navalhas. Quando retorna à casa, readquire a forma humana, porém está machucada, abatida, cheia de escoriações. Na próxima noite fatídica, tudo acontece novamente.Para que a manceba não se transforme, o padre deve amaldiçoá-la antes de celebrar cada missa. Segundo Pereira da Costa, isso deve ser feito antes de tocar a hóstia, no momento da consagração. Ao encontrar uma mula, é preciso esconder as unhas a fim de não atrair a sua ira. Aquele que tiver a coragem extrema de retirar-lhe o freio de ferro da boca, quebrará o encanto. Em alguns lugares, basta causar-lhe um ferimento, tirando-lhe sangue.A mula-sem-cabeça, burrinha-de-padre ou burrinha é mito de origem ibérica e ocorre em toda a América. No México, é chamada malora; na Argentina, mula anima. Também é chamadaalma mula, mula sin cabeza, mujer mula e mala mula. Segundo Luís da Câmara Cascudo, apesar de algumas variações, sempre é a punição recebida pela “manceba” do padre. Viriato Corrêa a chama de cavalacanga.Existem inúmeras variações sobre a sua forma: uma mula sem cabeça, com um relincho apavorante; um animal preto com uma cruz de pêlos brancos na cabeça; olhos de fogo; geme como gente; relincha; tem um facho luminoso na ponta da cauda; ninguém a vê, só se ouve o tropel; uma burra com uma listra branca no pescoço…Gustavo Barroso explica que a escolha da mula, ou burrinha, como a punição da mulher do padre, deve-se ao fato que desde mais ou menos meados da Idade Média, as mulas foram as montarias mais utilizadas pelos padres, por serem dóceis, resistentes e seguras. Animais incansáveis e bastante próximos da pessoa do padre, inclusive fisicamente.

Vaqueiro misterioso

Ilustração de Marcos Jardim“…era um vaqueiro ambulante, misteriosamente aparecendo por fazendas em ocasiões de difíceis vaquejadas em que pintava proezas admiráveis. Nos sertões do norte mineiro dele se fala ainda com essa crença supersticiosa cheia de infância e desalinho, marcando datas, lugares, perigos inimagináveis, quase impossíveis, salvando gerações, vivendo de todos e por toda a parte, sempre o mesmo, inextinguível. Franzino, mulato de mediana estatura, pouco idoso, falando pouco e muito descansado, sempre vestido de perneira e gibão, cavalgando eternamente uma égua muito feia e magra ocultando a larga fronte, olhar expressivo e barba espessa e comprida sob um grande e desabado chapéu de couro — tal a figura simpática do Borges. Quase nunca era procurado porque, boêmio dos campos, sua residência certa ignorava-se.”
(Manuel Ambrósio. Brasil interior)* * *Ele aparece de repente nas fazendas ou em regiões pastoris. Não se sabe ao certo de onde veio ou onde nasceu . Tem vários nomes e, algumas vezes, nome nenhum. Sua montaria é um cavalo velho ou uma égua de aparência cansada, imprestáveis. Está sempre vestido humildemente, com um gibão de couro surrado e chapéu de vaqueiro, encobrindo o seu olhar misterioso.Aparece nas ocasiões onde há vaquejadas ou apanha de gado novo, ferra ou batida para campear. Devido à sua aparência, torna-se alvo de zombaria dos demais vaqueiros e campeadores. Contudo, vence a todos os outros. É o mais ágil, mais destro, mais afoito deles. O sabedor de segredos infalíveis, o melhor, o herói. É aclamado pela multidão, desejado pelas mulheres, o convidado de honra do fazendeiro. Ele, porém, recusa todas as honrarias e desaparece da mesma forma que surgiu. Ninguém sabe como e nem para onde foi.É mito de origem lusitana, com variações locais, que ocorre em todas as regiões de pastorício no Brasil: Nordeste, Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e Bahia. Para Luís da Câmara Cascudo, “moralmente, é um símbolo da velha profissão heróica, sem registros e sem prêmios, contando-se as vitórias anônimas superiores às derrotas assistidas pelas serras, grotões e várzeas, testemunhas que nunca prestarão depoimento para esclarecer o fim terrível daqueles que vivem correndo atrás da morte.”

Negrinho do pastoreio

Ilustração de Marcos Jardim“Só para três viventes ele olhava nos olhos: era para o filho, menino cargoso como uma mosca, para um baio cobos-negros, que era o seu parelheiro de confiança, e para um escravo, pequeno ainda, muito bonitinho e preto como o carvão e a quem todos chamavam somente o Negrinho.

A este não deram padrinhos nem nome; por isso o Negrinho se dizia afilhado da Virgem, Senhora Nossa, que é a madrinha de quem não a tem.”
(João Simões Lopes Neto)

Escravo, órfão, o menino pertencia a um fazendeiro rico, cruel e arrogante. Maltratado por todos, principalmente pelos filhos do senhor, sofreu inúmeros castigos e barbaridades. Ao perder a tropilha de cavalos de seu amo, foi surrado sem piedade. Seu corpo moribundo foi, então, jogado à boca de um enorme formigueiro, para que as formigas o devorassem. No dia seguinte, o fazendeiro, atormentado, correu ao local e não mais encontrou o supliciado. Em vez disso, viu Nossa Senhora e o Negrinho, seu afilhado, são e feliz, montado em um cavalo baio, pastoreando uma tropilha de cavalos invisíveis.

O Negrinho do Pastoreio é mito de origem gaúcha, com fundamentos católicos e europeus, divulgado com finalidades morais. A compensação e redenção divinas  aos sofrimentos terrenos. A tradição popular concedeu-lhe poderes sobrenaturais, canonizando-o. Possui inúmeros devotos. Afilhado da Virgem, encontra objetos perdidos, bastando prometer-lhe um toco de vela que será dado à madrinha. Em algumas versões, oferece-se também, um naco de fumo para o menino.

Baseado no mito popular, Augusto Meyer criou a seguinte Oração ao Negrinho do Pastoreio:

Eu quero achar-me, Negrinho!
(Diz que você acha tudo)
Ando tão longe, perdido…
Eu quero achar-me, Negrinho:
A luz da vela me mostre
O caminho do meu amor

Negrinho, você que achou
Pela mão da sua madrinha
Os trinta tordilhos negros
E varou a noite toda
De vela acesa na mão
(Piava a coruja rouca
No arrepio da escuridão
Manhãzinha, a estrela d’alva
Na voz do galo cantava
Mas quando a vela pingava
Cada pingo era um clarão)
Negrinho, você que achou
Me leve à estrada batida
Que vai dar no coração

(Ah! os caminhos da vida
Ninguém sabe onde é que estão!)

Corpo Seco

01Várias foram as histórias que ouvi de pescadores, velhos ou jovens, sobre o corpo seco — “a coisa mais horrorosa, horrive, que se pode vê”, como me afirmou Eduardo Rodrigues, que tem 65 anos e nunca mentiu e só fala a verdade.

Na sua linguagem simples, o velho Eduardo me descreveu fielmente o que é o corpo seco, mantendo os característicos essenciais a todas as descrições que outros já me tinham feito. “É sempre o corpo de pessoa ruim, principarmente quem martratô ou desresoeitô pai e mãe. É um corpo tão sem graça que nem a terra não qué. Rejeita. Então o corpo seca. A ropa gruda que fica rente co’a pele. Uma situação só. As unha cresce. A pacoera e as tripa fica tudo numa bolota só. E chacoaia de todo lado. Quando chega o tempo de revirá a sepurtura pra desocupá lugá é que descobrem isso. Então o coveiro avisa o padre do lugá que tem um corpo seco. Então o padre trata de vê quem tem corage e escolhe dois home. Faz suas rezas, seus benzimento forte, mas só de noite então, ali pela meia-noite, nem antes nem depois, um dos home [vira] pro companheiro que tá de costa, co os braço erguido pra trás. E ele fica nesta pusição assim, costa com costa, nem o corpo seco óia pra frente nem quem carrega óia pra trás. Daí caminha os dois home até o mato e ao corpo seco tem que sê jogado de costas, mar joga já tem que saí andando e sem oiá pra trás, se oiá ele munta cavalo e vem. Lá no mato, despois que o pessoá vem simbora, le mesmo por si se esconde. Fica encostado num pau, toma conta dum capoeirão inteirinho. Pois foi o que acunteceu cumigo quando um dia fui lenhá. Chegue no capoeirão dele e isso ninguém tem orde de fazê. Premero, pra avisá a gente da presença dele, ele dá uma tontura na gente; Se teimá, daí ele tira a idéia. Ninguém tem força de arregisti. Ele, eu não vi, só ouvi os estralos no mato, mas quem viu contô, é da artura duma pessoa mesmo, no lugá do zóio tem dois vuracão. Uma cara medonha de feio…”

(Pinheiro, Maria de Lourdes Borges. “A lenda do corpo seco na versão dos pescadores de Aparecida do Norte”. Paratodos. Rio de Janeiro; São Paulo, nº 2, novembro de 1957)
Fonte: Jangada Brasil

 

Imagens de Contadores de Histórias retratados ao longo do tempo
Imagens de Contadores de Histórias retratados ao longo do tempo
 

O contador de histórias é uma figura ancestral, presente no imaginário de inúmeras gerações ao longo da História. Em um universo desprovido de recursos midiáticos, este ofício era imprescindível para a formação dos futuros adultos, conferindo às crianças, através das narrativas de histórias, ‘causos’, mitos, lendas, entre outras, uma imagem menos apavorante de uma realidade então povoada pelo desconhecido.

Ao mesmo tempo em que amenizava os medos e uma existência muitas vezes desfavorável, o narrador ajudava as pessoas a entenderem melhor o que se passava a sua volta, a enfrentar os dilemas e confrontos de natureza social e individual, extraindo das experiências o aprendizado mais profundo.

Normalmente o contador está muito presente na Era Medieval, nos castelos tantas vezes sombrios, nas moradas mais remotas, nos povoados disseminados pelas áreas rurais, com o objetivo de compartilhar suas vivências e gerar em torno do grupo magnetizado por suas histórias uma proteção gerada pelo próprio encanto do momento e pela força do coletivo. As narrativas eram tecidas pela voz mágica do contador, ao redor de fogueiras ou lareiras que contribuíam para criar uma atmosfera de intensa magia.

Mas o narrador oral é ainda mais antigo, remontando historicamente à Antiguidade greco-romana, na figura dos bardos, responsáveis pela transmissão de histórias, lendas e poemas orais na forma de canções. Quanto mais desconhecido era o mundo em que se vivia, maior necessidade se tinha de povoar este universo com imagens que pudessem, ao mesmo tempo, educar e fortalecer a coragem, predispondo as pessoas a enfrentarem os monstros, dragões e demônios que habitavam suas mentes.

O contador de histórias não era um mero reprodutor de narrativas, ele também gerava seus relatos, simplesmente mantendo-se atento à reação psicológica dos ouvintes. Conforme a disponibilidade ambiental, ele improvisava e ampliava seus contos, tendo como principal instrumento a palavra, que detém o poder de transformar o comportamento humano, como é possível perceber na mensagem transmitida pelas 1001 Noites, onde as histórias se entretecem para manter Scherazade viva e livre, e ao mesmo tempo para curar o vizir, purificando seu coração do incessante desejo de vingança contra as mulheres. Aliás, no Oriente esta tradição de curar a psique através da narrativa de estórias é amplamente preservada pelos psicoterapeutas.

O narrador, para melhor instrumentalizar as palavras, domina, mesmo que inconscientemente, boa parte das figuras de linguagem, de sintaxe e de pensamento, possibilitando ao contador, antigamente uma pessoa mais velha e sábia, magnetizar seus ouvintes, despertando no ambiente o poder da imaginação, tecida com uma linguagem encantada, apta a transportar as pessoas para reinos distantes e, de outra forma, inacessíveis.

Recentemente a imagem do contador de histórias retornou com força total, principalmente na segunda metade do século XX. Inúmeras pessoas optaram por este caminho, procurando cursos e oficinas técnicas para se habilitarem profissionalmente. Hoje, pode-se afirmar que esta ocupação começa a deixar as mãos de amadores para seguir na direção da profissionalização, pois atualmente há uma demanda crescente por este profissional, principalmente nas escolas. Algumas destas instituições chegam a reservar um espaço no currículo escolar para este evento. Às vezes até mesmo professores e bibliotecários são preparados para exercerem esta tarefa no âmbito escolar.

Por Ana Lucia Santana

Fontes
http://pontodeencontro.proinfo.mec.gov.br/O_Contador_de_Historias.pdf

http://www.infoescola.com/curiosidades/contadores-de-historias/

História pra Contar:  O Corpo Seco
História pra Contar: O Corpo Seco

A lenda do corpo seco na versão dos pescadores de Aparecida do Norte

Maria de Lourdes Borges Pinheiro

A região de Aparecida do Norte foi povoada inicialmente por pescadores e ainda hoje muitos continuam na mesma labuta, às margens do Paraíba.  São piraquaras simples e bons, honestos e trabalhadores, resignados e piedosos, que conhecem as manhas das águas e dos peixes, procurando superá-las com habilidade e destreza. Para isso, dispõem de perícia, de pertences que fabricam com as próprias mãos e de uma paciência como poucos possuem neste mundo de Deus. Nada os atemoriza, nem a noite escura, nem as tempestades. Só a rede vazia os entristece.

Vivem eles na atmosfera da magia e, religiosos que sejam, se movem entre crendices e superstições.

Entre as suas lendas — lendas para nós, para eles mitos, pois lhes determinam o comportamento — a mais conhecida é a do corpo seco, duende que vive na mata densa e fechada, à margem esquerda do Paraíba, lugar pitoresco denominado Caaparabá.

Várias foram as histórias que ouvi de pescadores, velhos ou jovens, sobre o corpo seco — “a coisa mais horrorosa, horrive, que se pode vê”, como me afirmou Eduardo Rodrigues, que tem 65 anos e nunca mentiu e só fala a verdade.

Na sua linguagem simples, o velho Eduardo me descreveu fielmente o que é o corpo seco, mantendo os característicos essenciais a todas as descrições que outros já me tinham feito. “É sempre o corpo de pessoa ruim, principarmente quem martratô ou desresoeitô pai e mãe. É um corpo tão sem graça que nem a terra não qué. Rejeita. Então o corpo seca. A ropa gruda que fica rente co’a pele. Uma situação só. As unha cresce. A pacoera e as tripa fica tudo numa bolota só. E chacoaia de todo lado. Quando chega o tempo de revirá a sepurtura pra desocupá lugá é que descobrem isso. Então o coveiro avisa o padre do lugá que tem um corpo seco. Então o padre trata de vê quem tem corage e escolhe dois home. Faz suas rezas, seus benzimento forte, mas só de noite então, ali pela meia-noite, nem antes nem depois, um dos home [vira] pro companheiro que tá de costa, co os braço erguido pra trás. E ele fica nesta pusição assim, costa com costa, nem o corpo seco óia pra frente nem quem carrega óia pra trás. Daí caminha os dois home até o mato e ao corpo seco tem que sê jogado de costas, mar joga já tem que saí andando e sem oiá pra trás, se oiá ele munta cavalo e vem. Lá no mato, despois que o pessoá vem simbora, le mesmo por si se esconde. Fica encostado num pau, toma conta dum capoeirão inteirinho. Pois foi o que acunteceu cumigo quando um dia fui lenhá. Chegue no capoeirão dele e isso ninguém tem orde de fazê. Premero, pra avisá a gente da presença dele, ele dá uma tontura na gente; Se teimá, daí ele tira a idéia. Ninguém tem força de arregisti. Ele, eu não vi, só ouvi os estralos no mato, mas quem viu contô, é da artura duma pessoa mesmo, no lugá do zóio tem dois vuracão. Uma cara medonha de feio…”

O capoeirão do corpo seco

A lenda é assim conhecida nesta região, mas os casos que contam e as histórias que surgem variam grandemente; uns, amedrontados, largam no capoeirão a lenha que colheram e os peixes que pegaram e fogem espavoridos; outros, com uma coragem que talvez lhes advenha depois de passado o susto, que os “estralos no mato” metem medo de verdade, incentam suas histórias e se tornam conhecidos como destemerosos, valentes e ousados. Mas… só na prosa mesmo, que caminho pequeno, estradinha à toa, atalho de todo o dia, quando corrido com pernas bambas se transforma em uma légua sem fim…

Pelas redondezas da cidade está o Caaparapá, onde a galharia cerra tanto lá no alto que em certos pontos, não se avista o céu. Enormes aranhas tecem suas teias fortes entre os ramos onde florescem orquídeas das mais belas. A mata se estende por onze alqueires, chegando quase à beira do rio, cujas águas entram por um valão e formam uma lagoa enorme, quase transformando o Caaparapá numa grande ilha. O lagoão é bonito e cheio de árvores que nasceram não se sabe quando, pois que os avós contam que seus avós contavam.

Mas desde quando o Caaparapá se tornou capoeirão do corpo seco, todo mundo sabe, porque ainda vivem alguns dos que o conheceram em vida, lá pelos fins do século XIX, antes de condenado a cumprir sina e sabiam que, “embora não aparecesse divulgado para ninguém”, sempre aparecia à gente dele, vinha à casa do filho, pedindo para cortar-lhe as unhas e fazer-lhe a barba e pedindo coisas também: roupa, chapéu, calçado, que ele precisa de tudo que a gente usa também. E contam, que de todos os seus, era o Pissidone quem mais o presenteava, por ser quem mais tinha dó do coitado. Daí o Pissidone ir ao Caaparapá e colocar tudo perto de uma árvore grande que nunca acabava. O chapéu era de pirizinho e muitos sabiam da altura do corpo seco porque viam os sinais de suas passadas e os estralos lá em cima, onde o chapeuzinho roçava.

Condenado ao capoeirão, dele nunca podendo retirar-se, tem como seu tudo quanto nele se encontra: as árvores do chão, os pássaros do ar e os peixes das águas. Quem vai lenhar e se embrenha na mata, ou volta abobado ou larga o feixinho e sai correndo, quando não passa a noite toda como que encantado, sem poder arredar pé do lugar; quem vai pescar e se distrai na beira da água, quase morre de susto quando ouve a voz soturno: “largue o peixe aí…” E caçador que enverede pelos trilhos apertados à procura do paturi, do frango d’água, não sabe mais voltar, precisa rezar o Creio em Deus Padre. Assim é o corpo seco, dono de quanto tenha vida em seu domicílio e de nada querendo se separar.

Um acordo com o duende

Porém, tudo depende de jeito, como disse o nosso velho amigo Agapito Pamplona da Corte Real Espíndola, piraquara de 64 anos, sempre lidando com redes e remos, e canoas e botes. Agapito me disse que ia contar um caso para provar que o “sujeito” (não gosta de falar “corpo seco”, tem medo…) não é tão ruim assim como se diz, vai do modo de se lidar com ele, porque com bom trato até nós somos bons, mas que nos queiram tirar as coisas à força… E aqui a história que ouvi de um acordo feito entre Agapito e o corpo seco do Caaparapá, com amplos poderes para a pescaria no lagoão, pelo tempo que lhe aprouvesse pescar.

“Tava uma miséria de peixe aqui na Parecida e não tinha peixe nenhum. O Gerardo (filho dele) foi e disse: “cumé, pai, bamo venturá? Bamo no Caaparapá pra nóis pescá”, que lá tinha muito peixe. Então eu disse: “cumé que nóis bamo fazê… Sá? eu vou pensá um modo e nóis bamo lá pescá”. Mandei ele comprá uma vela na venda, meia garrafinha de cachaça e saí com ele, de tardezinha, regulando no primeiro dia de pesca mais de oito hora. Fomo cedo nesse dia. Cheguemo na lagoa, custô pra nóis travessá, quase que a água dava pra molhá nóis. Lagoá funda. Eu levei junto co’a vela um vidrinho de cachaça com guiné e arruda também. Deixei ele na bera do poço e a rede e fui lá pro pé da figueira. “Óia, nóis bamo pescá agora neste poço, mas eu quero que me ajude porque nós não conhece o poço. Depois da pescaria nóis mata o bicho”. Eu disse assim. Não tinha ninguém. Cheguemo na boca do poço, demo suas redada e saiu carga de peixe que quase não pidemo carregá. Saímo no caminho. O Gerardo disse pra mim: “Ê pai, cumé agora pra nós travessá a lagoa?” O peso era muto. Eu fui disse assim: não é nada, rapaiz, o amigo aqui ajuda nóis passá pra lá e carrega o peixe”. Eu peguei a rede, pus nas costa e ele ergueu o balaio de peixe na cacunda. Eu disse: “siga na frente que eu vou atrais”. Ele embarcô na lagoa e eu também. Ele co’a carga de peixe, não chegô a batê água no joeio. E eu, co’a rede e a água deu só no tornozelo do pé. Um tremedá temeroso que dava para cobrir um home se escapasse. Cheguemo pra cá da lagoa, larguemo a rede, o peixe, e eu disse pro Gerardo: “bamo tomá uma pinguinha”. Eu deu o vinho prele, ele bebeu um gole e me deu o vidro, e eu bebi também e virei o vidro pro lado da lagoa e disse: “Isso é vosso”. Não vi buia de nada e quando peguei a oiá o vidro já estava sequinho. Tornei a pôr a rede nas costa e ele ergueu o jacá de peixe. E eu disse: “Bão, amanhã nóis vortamo, pode ir embora, obrigado, Deus que ajude, pode ser sempre assim e bamo embora vendê o peixe”. E assim seguimo. Pesquemo mês e meio dessa maneira assim. Úrtima veiz, cheguei no poço, sortemo a rede, enganchou num aramaço colosso de arame farpado. O Gerardo respondeu: “E, pai, perdemo a rede”. Eu disse: “não é nada”. Eu vi uma buinha que vinha vindo pro mato e nesse dia nóis não tinha levado a vela nem a pinga. Aí eu disse: “isso é arte desse sujeito, ele ficô com raiva, mas tem razão, porque nóis fomo curpado. Trato é trato”. E falei pro Gerardo: “afaste pra trais e estique a rede”; E chamei: “ó, amigo, você conhece a arte de sair daqui, me sorte a rede, que nois no pode pescá”. Deu um xaquaio muito grande na rede e sortou. Nóis puxemo, enrolemo e eu disse: “agora nóis num pesca mais hoje. Bamo embora”. Daí o Gerardo disse assim: “eu vô tirá aquele arame, pai, tirá pra fora, deixá limpo”. Entrô no poço, foi tirando aqueles pacote de arame farpado, cruzeta de pau, tuso feito, e muntuô em cima do guapesa. Daí saímo pra vim embora, ele sai atrais dele, co’o a rede. Quando passemo em frente a figueira, o sujeito avançô a mão na rede e soquetrô pra tirá a rede de mim. E eu expriquei pra ele: “Hoje nóis não queremo pescá mais, fica pra amanhã, amanhã nóis vorta”. E não pesquemo. Notro dia, o Gerardo, que é muito curioso, saiu bem cedo e foi lá zoiá o arame pra aproveitá argum e não achô nada… Continuemo a pescaria quando nóis quisemo, nada estorvô nóis, num tinha enrosco, num tinha nada. E terminô nisso aí…”

Câmara Cascudo registrou o mito em São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Nordeste e diz ser da tradição portuguesa. Aliás, almas penadas, com suas aparições proteiformes, correm por toda parte. Existe também em vários lugares do Brasil uma outra lenda, de que quem bate em pai ou mãe fica com a mão seca, cujo tema central é o mesmo portanto. Não sei, porém, se se corporifica em forma lendária ou aparece apenas em crendice, embora o povo não acredite nunca em abstrato, acredita porque lhe citam provas que a tradição conserva intangíveis.

(Pinheiro, Maria de Lourdes Borges. “A lenda do corpo seco na versão dos pescadores de Aparecida do Norte”. Paratodos. Rio de Janeiro; São Paulo, nº 2, novembro de 1957)
Fonte: Jangada Brasil