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CONTACAUSOS  contemplada em edital de patrocínio – Viva!!!
CONTACAUSOS contemplada em edital de patrocínio – Viva!!!

No último dia 08/04 foram divulgados os projetos contemplados pelo Edital de Fomento e Circulação das Linguagens Artísticas de Chapecó Santa Catarina edição 2015.

A Cia ContaCausos foi contemplada com o projeto de pesquisa e montagem do novo espetáculo de narração de histórias:  VOZES VIVAS: histórias sobre São João Maria com pontuação máxima.

“Da primeira vez que ouvi falar em São João Maria, com atenção e clareza já era 2008. Foi na universidade, professora Adiles, na aula de antropologia. Fiquei eu e a minha ignorância. Que triste constatar que eu não sabia as histórias da minha terra, da minha gente. Profe Adiles foi soprando a brasa da minha curiosidade, me orientando na busca, e de lá pra cá, depois de escrever o trabalho de conclusão de curso sobre ele e outras das nossas histórias, e de andar de lá pra cá pedindo pra toda gente se tinha conhecimento: de batismo, água santa, profecia, ensinamento, chegança, maldição, benzimento…fui guardando de memória e em aparelhos os causos que o nosso povo conta. Agora lá vamos nós, eu, o Marcos Batista Schuh, o Zé Boita, O Lucas Cruz de volta pro trecho, campiar mais histórias dele, preparar bonito e devolver pra nossa gente.
Gratidão a equipe da secretaria de cultura de Chapecó/SC, todos os que estão e os que já contribuíram para estruturar os mecanismos, para que todos nós, artistas chapecoenses tivéssemos a oportunidade do edital de patrocínio. Parabéns a todos os amigos, artistas e produtores que participaram com projetos, que pensaram em propostas para o movimento artístico da cidade, independente de quem foi contemplado ou AINDA não. Estamos no caminho. Viva!

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História pra Contar: Causo de Lobisomem
História pra Contar: Causo de Lobisomem

Esse Causo bão barbaridade quem nos contou foi o seu João Amará, morador de uma comunidade do interior de Chapecó/SC chamada Linha Almeida. Seu João é um contador de causo de primeira, só conta fato acontecido, verídico, experiência vivida e comprovada. Segundo o que ele nos contou, antigamente existia muito lobisomem. Acontece que as famílias eram maiores, o povo tinha muitos filhos e vez ou outra dava o azar de nascer 7 meninos encarreirados, o último rebento carregava o “fardo”, a maldição, só tinha um jeito de escapar, o filho mais velho tinha que batizar o mais novo nas águas santas, tinha que colocar o nome do caçula de Bento. E pronto, resolvia o problema. O transtorno vinha quando o povo esquecia do procedimento. A pessoa garrava o fardo e seguia assim até o fim da vida.

Senta que lá vem o causo, tal qual nos contou o seu João:

” Lobisome? Sim, Tinha. Uma vez tinha um meu compadre. Agora já é morto, compadre Pacífico.

E tinha uma noite lá que tinha uma cachorrada que não deixava a gente dormi e daí eu pensei: – vo pegar essa espingardinha de pressão e vo dá um susto nesses bicho. Mas eu sabia que se tivesse lobisome no meio não prestava matá, porque  diz que se matá vira na coisa mais feia do mundo, então eu ia atirá só pra assustá. Passei a mão naquela espoletinha bem pequenininha, bem fininha mesmo, daí trepei anssim numa área e fiquei esperando, esperando, espiando na beradinha da porta e de repente comecei a ouvir  aquela cachorrada e vi que eles vinham passando assim… e no meio daqueles cachorro  guaipeca  eu vi que tinha um cachorrão, grandão anssim, uns orelhão grande anssim, dai esperei quando ele passou eu atirei e com o estoro  aquele bicho saltô metro e se foi pro mato, só que de repente ficou tudo quieto. A cachorrada voltaram tudo pra traz e ficaram quieto. Dai eu pensei, será que eu matei? e dai me faltou coragem pra ir lá olhar. esperei o outro dia quando clareou e fui espiá, dai tinha só as pegada arrastada no chão. Fico por isso.

Dali três dias eu fui lá na casa de um vizinho, compadre meu pra tomá caldo de cana, e quando cheguei lá esse vivente tava lá, o Pacífico, e ele me olhou assim atravessado e  disse:”- ahhh você… eu tenho uma coisa pra você ali na minha sacola. E eu vi que tinha um facão assim guardado daí eu disse:  “- pra quê compadre?, sempre se demo tão bem! o que foi que eu te fiz?” dai ele mostrou, ergueu a calça anssim e mostro, era uma ferida na perna  – eu tenho essa ferida na perna que não sara. A perna dele tava anssim toda furada de chumbinho bem fininho.

Ele era lobisomem né? dai ele saiu dali e eu nunca mais vi. Mas isso aí aconteceu! eu dei um tiro no lobisomem.”

 Valeu seu João!!!! A sua experiência enriquece o nosso imaginário, já contamos o seu causo pras crianças da região e eles adoram ouvir os causos acontecidos na nossa terra. O senhor nos conta e a gente vai passando adiante. Gratidão!

Frequentar o povo, ouvir as suas histórias!
Frequentar o povo, ouvir as suas histórias!

[…]

Disto se conclui que o povo é grande criador, e que o artista tem por missão operar como o instrumento estético por meio do qual o povo dá corpo definitivo e harmônico aos seus ingênuos esboços.

Temos nós, no seio da massa popular, matéria prima digna de ser plasmada pelas mãos da arte? Sim. Não tão abundante e rica como o tinha o grego, povo eleito da Harmonia; mas rica e abundante o suficiente para darmos ao mundo uma contribuição vultuosa de criações originais.

Basta que nosso artista, se é um garimpeiro de talento, mergulhe no seio do povo, e de lá bateie na ganga rude o ouro de lei.

Se andam eles, hoje, vazios de ideias, e desorientados, é porque procedem de maneira exatamente inversa. Homero, Plotino, Fídeas, Praxiteles, Aristófanes não se metiam no Trianon a pasmar diante da lépida Maria Antonieta que ali nos inicia nos altos mistérios da alta goma. Nem iam todas as noites nhambiquararem francês diante de uma garrafa de champanha […]

cultura-popularFrequentavam o povo, conviviam com ele, impregnavam-se de suas crenças, ouviam-lhes as histórias; e saiam dele cheios de ideias, de formas, de coragem, de inspiração.

Procedamos assim. A fonte de água pura é uma só. E a mesma na Grécia, na França, na Rússia e no Brasil: O povo!

Lobato, Monteiro.Saci Pererê: o resultado de um inquérito. Editora Globo.2008

História pra Contar: Como a cascavel ganhou seu chocalho – Fábio Sombra
História pra Contar: Como a cascavel ganhou seu chocalho – Fábio Sombra

          No início dos tempos, a cascavel era uma cobra como as outras e não tinha aquele chocalhinho na ponta do rabo. Nessa história, vamos descobrir como foi que a danada recebeu esse presente tão valioso.

Certa vez, um violeiro afamado vinha viajando a cavalo e tomou uma estrada que passava pelo meio de uma mata fechada e perigosa. Como não conhecia o lugar, o rapaz calculou mal o tempo do percurso, e a noite acabou chegando enquanto ele ainda estava na metade da travessia. Apesar da escuridão, dos pios das corujas e do rufar das asas de morcegos, o violeiro não se desesperou. Ao encontrar uma clareira, acendeu uma fogueirinha e, depois de fazer sua refeição, resolveu tocar um pouco para afastar o medo e a solidão.

Ao ouvir aqueles ponteados bonitos, os bichos da mata foram se achegando mais para perto da clareira. Lá para a meia noite, uma verdadeira multidão de macacos, antas, pacas, tamanduás e tudo quanto era bicho que morava naquela floresta já havia se arranchado para espiar o moço tocar a sua violinha. O violeiro viu aquele mundão de olhinhos brilhando no escuro e não ficou medo, pois era devoto de São Gonçalo do Amarante e sabia que o santo estaria sempre ao seu lado para protegê-lo. E continuou tocando, cada vez mais bonito.

Lá pelas duas da madrugada, sentindo que o sono chegava, o violeiro ponteou a última moda e, para sua surpresa, ao final da melodia, a mata foi invadida por um barulho ensurdecedor. Eram os Bichos. Cada um aplaudindo o violeiro da maneira que a natureza lhe permitia. Os pássaros piavam, os sapos coaxavam, os macacos gritavam, e as onças soltavam urros de aprovação. Alguns bichos batiam palmas, outros pulavam e sapateavam e outros ainda, como os tatus, esfregavam seus cascos nos troncos das árvores.

          Só uma velha cobra cascavel que morava em um oco de pau ali perto é que não conseguia agradecer ao violeiro pelo seu recital. Como não emitia sons, não tinha mãos para aplaudir , nem pernas para bater no chão, a pobre da cascavel se entristeceu e lamentou sua sorte.

Nossa Senhora, que estava no céu vendo tudo o que acontecia na floresta, teve pena da cascavel e, naquele mesmo instante, fez com que um chocalho crescesse na ponta de sua calada. Muito feliz com o presente, a cobra sacudiu o rabo com vigor e puxou mais uma onda de aplausos para o violeiro.

          Blog Violeiro Pois foi assim que a cascavel ganhou seu chocalho. E é por esse motivo que os violeiros mais tradicionais sempre guardam um guizo de cascavel no bojo de suas violas, Dizem que é para o som do instrumento ficar mais brilhante, mas, no fundo mesmo, o que todo tocador de viola gosta é de ouvir a zoadinha do chocalho aplaudindo seus ponteios lá de dentro do instrumento.

E, por ser presente de Nossa Senhora, o tocador não pode matar a cobra para ganhar o guizo. Ele tem de ser recebido das mãos de um mestre e só tem valor se for retirado de alguma serpente achada morta por esses cantos de mato.

Sombra, Fábio. Treze casos de viola e violeiros : do Baú do mestre Quilim da Braúna. Rio de janeiro: Escrita Fina, 2010.

História pra Contar: O Homem que queria laçar Deus
História pra Contar: O Homem que queria laçar Deus

Havia um homem que era muito pobre e com muita família. No lugar em que morava, havia uma estrada muito grande e se dizia que por ali passava Deus e o mundo. Ouvindo dizer isto o homem, e querendo saber a razão por que Deus o tinha feito tão pobre, armou um laço e assentou-se na estrada à espera de Deus.

Levou assim muito tempo, e todos que passavam perguntavam o que estava ali fazendo. Ele respondia que queria pegar Deus. Afinal, estando já desenganado de que nada fazia, já ia para casa, quando apareceu-lhe um velhinho e deu-lhe quatro vinténs, dizendo que só comprasse um objeto que custasse aqueles quatro vinténs. Nem mais barato, nem mais caro.

O homem foi para casa muito contente, imaginando no que havia de comprar com aquele dinheiro. Lembrou-se de um compadre negociante rico que tinha, o qual estava para fazer viagem a buscar sortimentos para sua loja. Dirigiu-se o compadre pobre para a casa do compadre rico e pediu-lhe que comprasse qualquer coisa que custasse aqueles quatro vinténs.

Fez o compadre a sua viagem e chegando na cidade não encontrou nada por aquele preço. Foi ao mercado e ainda nada. Só encontrava objetos por três vinténs, um tostão, meia pataca, dois mil réis, três, etc.

Ia já para casa, quando ouviu um menino mercar: “Quem quer comprar um gato? Custa quatro vinténs.” O homem ficou muito contente e comprou o gato. Era um animal raro naquele lugar. Chegando o negociante em casa do amigo onde estava hospedado, e que também era do comércio, este ficou desejoso de possuir aquele animal e pediu ao amigo para deixar o gato passar a noite na loja, onde havia muito rato, que lhe davam um grande prejuízo.

No outro dia quando abriram a casa, tinha uma quantidade tão grande de ratos mortos que causou admiração. Aí o negociante dono da casa ofereceu uma grande soma de dinheiro ao amigo pelo gato.

Este recusou, dizendo ser o gato de um seu compadre muito pobre, que o tinha encarregado de comprar um objeto qualquer com quatro vinténs. Instou muito o negociante e afinal ofereceu tanto dinheiro que o amigo não pôde recusar e vendeu o gato. Voltou o compadre rico de sua viagem, mas chegando em casa teve tanta pena de dar o dinheiro ao compadre, que o enganou com uma peça de chita, muito ordinária, dizendo ter comprado aquilo com os quatro vinténs.

O compadre pobre ficou muito contente e, chegando em casa, a mulher desmanchou logo a fazenda em camisas para os filhos. Mas como Deus não quer nada mal feito, assim que o compadre saiu com a peça de chita, o rico caiu com uns ataques muito fortes e já para morrer. A mulher o aconselhou a que se confessasse, que ele estava muito mal, e chegando o padre e sabendo do segredo, mandou-o restituir todo o dinheiro do compadre pobre. Este veio a chamado do rico, que logo melhorou, só com a presença dele.

Mas o ricaço, não tendo coragem de entregar o dinheiro, ainda enganou o outro com outra peça de fazenda ordinária.

O pobre não cabia de si de contente, e mal tinha saído, já o rico estava outra vez morre não morre. É chamado de novo a toda pressa o compadre pobre, sendo ainda uma vez enganado com outra peça de fazenda, mas desta vez o rico já estava quase expirando, e não teve outro remédio senão declarar ao companheiro que aquelas barricas que ali estavam eram dele com todo o dinheiro que continham.

Ouvindo isto, o pobre quase que não se segurava em pé, tal foi o choque que sentiu, e como louco correu a dar novas à família, que não sabia como explicar tamanha felicidade. Houve oito dias de festas e o pobre ficou logo cercado de muitos amigos, entre eles o rico que ficou bom da moléstia esquisita, assim que entregou o dinheiro.

(ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro; cantos e contos populares do Brasil. 3 v. Rio de Janeiro, Livraria José Olímpio Editora, 1954. Coleção Documentos Brasileiros)