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O Recomeço – Quando (re)nasce uma contadora de histórias
O Recomeço – Quando (re)nasce uma contadora de histórias

Desculpa insistir no assunto, mas vocês conseguem imaginar a quantidade de sentidos possíveis que a gente vai somando depois de uma experiência assim? Foi no dia 26|11\2015, a última viagem do ano, as últimas apresentações do ano, as férias logo ali, tanta coisa, tantos planos. E de repente você se vê sozinho (a), longe de casa, dentro de um carro capotado com violência, o corpo machucado, costelas e quadril quebrados, o desespero, o medo, é claro que eu pensei e disse: “- Não vou mais. Não vou mais viajar pra contar histórias ” balança sabe? Não pense que é fraqueza, que não corre forte no peito, só vivendo pra saber. E é melhor não saber.

Aconteceu que no hospital eu fiquei num quarto com mais 5 leitos e mulheres. Numa dessas camas estava a Dona Maria, 82 anos, ameaça de infarto e a sua neta.

No segundo dia que eu estava lá, medicada, mais aliviada das dores, ela também, conversa que vai conversa que vem, a minha mãe contou pra mulherada que eu era contadora de histórias, tava voltando pra casa depois de ter feito algumas apresentações no norte do Paraná, etc, etc…e aí o acontecido. A Dona Maria achou graça, pra ela contar histórias era coisa que ela fazia antigamente, comentou que ela gostava muito de “escutá” e “contá” causo.

Suspeitei que a Dona Maria era cabocla, arrisquei perguntar pra ela de São João Maria, (o monge andarilho que andou aqui pelo Sul do Brasil e tornou-se um grande mito para as populações caboclas) ela me devolveu a pergunta como que pra ter certeza: será que essa moça tá falando disso mesmo? E pronto. Entusiasmada, a Dona Maria foi buscar de memória uns causos do monge, oração, gente que viu, dali a pouco a moça que tava na cama a minha esquerda contou que conhecia gente que tinha sido batizada nas águas santas, também sabia várias histórias, mostrei pra elas que eu tinha uma foto do monge no colar que eu usava na hora do acidente, alguém tirou do meu pescoço pra não machucar e colocou na minha mão, fiquei o tempo todo com o colar|patuá na mão. Nesse ponto da conversa a outra vó que estava lá do outro lado sentou na cama pra esticar o pescoço e escutar melhor a conversa.

E a Dona Maria, contou causo de João sem medo, de guardado de dinheiro, de mãe de ouro, lobisomem – aquele causo da “baiêta vermelha”, de vez em quando a prosa ia diminuindo, mas logo me vinha um novo assunto pra colocar lenha na fogueira,  eu ia perguntando, ela ia nos contando, tirando eu que não podia dar risada (por causa das costelas quebradas), as outras todas se riam.

Teve ora que entrou a enfermeira pra medir febre, tirar pressão, colocar remédio na veia, a Dona Maria contando, nós, as pacientes, acompanhantes, escutando. A enfermeira disse: “- tá boa a prosa por aqui. Desse jeito a noite vai longe”. Acho que inté a enfermeira quis ficar por ali, deixou a porta do quarto aberta, e foi assim que uma acompanhante do outro quarto veio e se encostou  na soleira da porta pra ouvir e foi ficando… e foi ficando tarde, era sexta-feira a noite, e a Dona Maria disse assim:

– “Ai que bão! Eu gosto muito de contá causo, inté se esqueci que tava no hospital” e se riu aliviada.

Que alívio. A Dona Maria nem sabe, mas naquela hora ela me devolveu o rumo, a certeza, o motivo.

Me devolveu a certeza de que ser um contador de histórias é um “estado” de ser e viver no mundo, que pela palavra evocada pela memória nos encontramos e nos desligamos de nós mesmos, é ali que desatamos o nó do medo, da dor. Em comunhão, nos aproximamos, nos importamos com os outros. Todas tinham um causo parecido, lembravam de um parente, de alguém que contava também. O pertencimento. Naquela noite, ouvir aquelas histórias da voz  rouca e trêmula de uma anciã de 82 anos fez com que todas as mulheres daquele quarto se colocassem no mesmo lugar. Humanas. Naquela noite, eu sei que dormimos na paz, uma cuidando da outra. E não sei se acontece com frequência, mas naquele quarto de hospital, com 5 camas ocupadas por gentes de histórias e dores tão diferentes, eu vi que ninguém foi embora antes de dar um abraço em cada uma das pessoas que estavam ali, com desejos de melhoras, saúde e vida próspera. Arriscamos até um até logo e que não fosse no hospital.

No dia que a Dona Maria deu alta do hospital, eu prometi pra ela que quando eu estivesse bem, eu ia lá na terra dela em Pinhal de São Bento/PR levar uma foto do monge que ela não tinha, quem sabe gravar os causos também. Ela disse que “fazia muito gosto”. Assim que possível, eu vou.

1478944_592367497508373_942984267_nFiquei 45 dias na cama me recuperando das lesões causadas no acidente. 3 meses afastada do palco, contando histórias só por aqui, ou na página da Contacausos no facebook. Retomei as atividades no último dia 29/02. Tive que pegar a estrada de novo, sozinha. Não foi fácil, medo, insegurança, dirigir é uma grande responsabilidade.  Mas fui e voltei. Fiz 10 apresentações do espetáculo Tem coroa, mas não é rei pelo projeto Encenação do Sesc de Francisco Beltrão|PR. 5 cidades diferentes e aproximadamente 1500 crianças abriram o meu caminho. Me possibilitaram recomeçar.

E recomeçar me trouxe a dúvida, será que ainda está aqui? Falo do corpo, da voz, as imagens, os detalhes das histórias?  Não dormi na noite anterior a primeira apresentação. Mas quando me encontrei com aqueles pequenos e nos colocamos juntos naquele lugar da história. Eu voltei! voltou o corpo, a voz, os trejeitos, a mão ligeira pra frente e pra traz a ilustrar a história, o coração pulando. Quando encerrei a história meu corpo se arrepiou inteirinho e agradeci por estar viva e pela oportunidade de seguir em frente, eu, as histórias, a experiência que ficou, rumando pelos caminhos desse Brasilzão sem portêra.

Gratidão a todos que torceram e que estiveram por perto nesse momento de (re) nascer.

História pra Contar: Crendiospadre!
História pra Contar: Crendiospadre!

Puis eu sei de u’a coisa que é mais duro de morrê que gente. – entrou Nhô Thomé.

– O que vem a sê?

– É largato…

– Largato? Bicho mole! Morre à toa… Atalhou o Joaquim. – Cáudo… eu já vi um que…

– Fique queto, ara! Quem tá falano aqui sô eu…

– Intão fale, uéi!

– Nóis aqui num pudia criá galinha nem aporveitá os ovo. Galinha gosta de fazê ninho no guainxumá e aquilo era só elas gritá, a gente corria percurá e só uvia o baruio do largato e achava a casca do ovo que ele chupô. Num tinha mais artura. Um dia, num sei o que fui fazê u se fui armá um “laço” ali na vórta do rio e… Ah! Seu moço! Dei lá cum bandão de largato, no meio do dia, esquentano sór! – Digo: ãããn… é aqui que ocês mora, canaiada…

Vortei pra casa, peguei u’a foice, fui no capão de mato, bem na vorta do riou, cortei os “mato de foice” e dexei secá p’ra servi de facho. – Quarqué dia – digo – eu taco fogo nos tar… Aqui é que é a cidade dos excamungado.

Nhô Joaquim, impaciente, mexia com o dedão do pé direito, de unha arrebitada, rolando um tição.

– Oito dia despois, no meio do dia, o sor tava mais o meno nas duas hora… Tava aqui o defunto compadre Zécaria…

– Descurpe… mais ele era mais conhecido por Caria da Grota Preta…

– Caria é os burro que fala. – Corrigiu Nhô Thomé. – O certo é Jusé… Jusé u Zécaria! – Num é dotor?

– Zécaria ou Zacarias nem dar na mesma…

– Taí! E o que vô iê contá, se vassuncê num aquerditá, pode preguntá p’rele, que é um home de sustacia na palavra!

Chamei o compadre e digo: – Bamo fazê u’a rozôra nos largato?

– Adonde?

– Me acumpanhe!

Cheguemo lá, os tar correro tudo pro mato.

Isso mermo eu quiria!

Eu e o cumpadre, c’o facho de taquara seca, soquemo fogo im roda!

Ah! Quano o fogaréo tampô pareio, chamei o compadre:

– Venha pra cá, cumpadre…Trepemo na canoa pra vê os apuro da largataiada!

Oi! moço! Bicho mais duro do que largato num hai!

Quano o fogo tampô cerrado, e veio estralano pro lado do rio… que nóis oiêmo… O que é que nóis vimo!

Aqueles largatão saía do fogo, vermeio que nem ferro im brasa… pulava n’aua… e aquilo… quano eles caíam só se uvia fazê tchiufff

Saía só fumaça!

– Pros quinto! Bradou o Joaquim enquanto tia Polycena, disfarçando resmungava:

Hunhum! Crendiospadre!…

(Pires, Cornélio. Conversas ao pé do fogo)

fonte: http://www.jangadabrasil.com.br/junho46/im46060b.htm

História pra Contar: COBRA QUE MAMA
História pra Contar: COBRA QUE MAMA

O causo — verdadeiro… — deu-se no 5º Distrito de São Jerônimo naqueles velhos tempos — as Minas do Arroio dos Ratos no Rio Grande do Sul.

Tio João, açoriano por parte de pai e mãe, louro, de olhos azuis, parecia um alemão. Mas não era. Português puro. Das Ilhas. Casou com uma ruivinha de origem alemã, dona Olga, trabalhadeira e buenacha como só ela. Depois de um ano de casados, nasceu o primeiro filho — o Joãozinho, lindo e gorducho que até parecia um anjo do céu de tão mimoso! E vivo como quê.

Pois essa criança quase que se foi, junto com a mãe, semanas depois de nascido, por causa da tal cobra.

Tio João morava numa casa de santa fé, legítima casa de gaúcho, paredes de torrão, quando nasceu o piá, e isto porque estava esperando que lhe aprontassem a casa que mandara construir pelo “dr.” Pedreira, velhote curioso que enriquecera levantando casas pros moradores em terrenos da companhia das Minas de carvão…

Cinco dias depois de nascido, o guri acordou, de madrugada, chorando que dava pena. A mãe, que acordara sem leite, não sabia porque a criança chorava daquele modo. Chamaram o doutor. Veio, examinou e nada encontrou na criança. Tudo bem. Durante o dia mamava, dormia e ficava sossegada. Mas de noite, era aquele berbezum. Acordava de madrugada chorando que era um desespero.

E o tempo foi passando, sempre no mesmo. Fizeram tudo, até benzedura. Nada adiantou. E a criança ia emagrecendo dia a dia, e a mãe também.

No fim de seis semanas a criança estava que era pele e osso e dona Olga parecia cair de magra. Um horror! E olhe que ela era uma mulher e tanto.

Remédio e mais remédio. Benzedura e mais benzedura. Simpatias e outras coisas. Tudo em vão.

O desespero invadiu a casa e todo o vizindário estava alarmado com o causo.

O verão chegara e o calor era intenso. Uma noite, como não agüentasse mais dentro do rancho, tio João, lá pelas tantas, acordou e resolveu chegar à janela. A lua brilhava com intensidade. A noite, de tão clara parecia dia. Tio João pensou em dar uma volta pelo terreiro. E ao voltar-se um raio lindo da lua batia em cheio na cama do casal, onde dona Olga, fraca e esgotada dormia ao lado do pequeno. Olhou o quadro e duas lágrimas lhe rolaram, dos olhos muitos azuis, cor daquele céu que a lua prateava. Ia sair do quarto quando uma coisa qualquer, escura, se mexeu de mansinho em cima do alvo lençol. Assustado, inclinou-se sobre o leito e viu, estarrecido enorme cobra que se afastava serenamente! gorda e lustrosa! Tinha, ainda, na boca da criança, a ponta do rabo. E viu, também, que Joãozinho chupava-o para valer!

Devagarinho, pra não acordar a dona e assustá-la, tio João, que então compreendeu a causa daquela definhação toda, afastou-se um pouco para dar tempo a que a cobra descesse e seguisse seu caminho.

Desceu pelo pé do leito e, rastejado preguiçosamente, desapareceu por um buraco da parede junto ao chão de terra batida. Chegando à janela, viu-a no terreiro. De mansinho por ali mesmo e, armando-se de uma acha de lenha, esmagou-a com fúria.

Mas como dizem que quando se mata uma cobra a companheira aparece alguns dias depois, à procura do matador, tio João nada disse à esposa, nem a ninguém. Ficou esperando a companheira. Na noite seguinte ela apareceu, que de certo eram sócias no leite de dona Olga, as malvadas! — e sem cerimônia atravessou o terreiro e rumou direitinho pro buraco! E foi logo entrando. Então tio João agarrou-a pelo rabo e — zás! — deu com ela no terreiro como se fosse açoiteira de velho, espatifando-a. Fechou o buraco com todo o cuidado e foi dormir.

E dormiu como um justo.

No outro dia contou tudo.

E o mistério se explicou.

Daí por diante a coisa endireitou de novo. Dona Olga recuperou a saúde e a disposição e o piasote engordou outra vez que era um gosto. Tornou-se o mais lindo e robusto guri da zona. E teve mais quatro irmãos, dois homens e duas mulheres. Lindos todos!

Por isso tomem cuidado! Mulher que amamenta, mesmo nas cidades, deve dormir em quarto bem fechado. Não vá alguma “cobra que mama” entrar e fazer as suas…

Cobra, seu moço, é o diabo. E isto desde que o mundo é mundo…

(Spalding, Walter. “Cobra sabida”. Jornal do Dia. Porto Alegre, 07 de abril de 1957)
História pra Contar: Do tempo que Jesus andava aqui na terra
História pra Contar: Do tempo que Jesus andava aqui na terra

Onde comem dois, comem três

Lindolfo Gomes

Vai um dia, no tempo em que Nosso Senhor andava pelo mundo, por uma noite de muita chuva e muito frio, alta hora, um pobre lavrador, carregado de sua família, ouviu bater à porta de seu rancho.

— Ó de casa!

— Ó de fora! — respondeu.

Abriu a porta e deu com dois “pelingrinos” que lhe pediram pousada e junta.

Mandou preparar a ceia com o que havia e os dois pelingrinos, um velho e outro moço, aturaram-se a ela com vontade.

Vai daí, ouviu-se bater de novo à porta. O lavrador foi abrir e apresentou-se outro pelingrino em tudo semelhante aos outros. Pediu-lhe pousada e de comer.

O lavrador hesitou. Os pratos estavam quase vazios e em casa não havia mias nada.

— Mande entrar, — disse o mais velho dos viandantes. — Onde comem dois, comem três.

O que chegou tomou assento à mesa e pôs-se a comer também.

Passado um instante, outro a bater, e depois outro, mais outro. Assim, dentro em pouco, tinham chegado doze, que eram os apóstolos e mais Nosso Senhor Jesus Cristo em pessoa, em trajes de pedinte, numa pobreza nunca vista.

No dia seguinte, no “arraiar” da primeira luz, despediram-se todos muito agradecidos, e o velho, que não era senão São Pedro, disse ao lavrador que pedisse alguma coisa a Nosso Senhor, que não lhe havia de negar.

O lavrador, que era inclinado ao jogo, pediu a Nosso Senhor que lhe desse meios e modos de ganhar sempre pela certa.

Dito e feito. Aparece logo ali por milagre, um baralho com aquela virtude.

O lavrador começou, então, a desabusar todos os parceiros e a fama correu.

Mas, não levou muito tempo, morreu o homem e, no caminho de prestar contas, encontrou-se com dois diabos que levavam a alma de um escrivão, seguros com ela pelos cabelos. Era uma ventania de levar tudo para os quintos.

O lavrador teve pena da alma e ainda porque devia umas certas obrigações ao escrivão, propôs aos coisa-ruim o resgate daquela alma numa partida de jogo. Se ele ganhasse, estaria salvo o escrivão; se perdesse, já os diabos, em vez de uma, levariam duas almas. Ele tinha confiança no baralho que lhe dera Nosso Senhor Jesus Cristo.

Os diabos aceitaram. O lavrador sacou do baralho, ganhou pela certa e lá se foi com a alma do escrivão para o céu. Bateu à porta. Veio São Pedro.

— Então, que quer?

— Quero entrar. Ora, se quero.

— Entre.

— E levo o companheiro.

— Isso não. Você já viu, homem de Deus, escrivão entrar no céu?

— Pois será esta a primeira vez. Então V.S. não me conhece mais? Sou o homem do baralho, aquele que deu de dormir e de jantar a Nosso Senhor Jesus Cristo, a V.S. e aos santos apóstolos.

— E daí? Já não vai entrar?

— Daí é que palavra de rei não volta atrás, pois V.S. foi o mesmo que disse que onde comem dois, comem três…

São Pedro não teve nada que responder e ficou a coçar a barba, e lá se foram os dois entrando no céu, onde até então não constava haver entrado alma de escrivão.

(Gomes, Lindolfo. “São Pedro, escrivães e advogados”. Folha de Minas. Belo Horizonte, 30 de setembro de 1956)
História pra Contar: Mula-sem-cabeça
História pra Contar: Mula-sem-cabeça

“Ainda hai a mula sem cabeça; custa muito, mas porém hai. Essas cousas de Deus unfum!… ninguém deve marmurá. Mamãe veio sabê, ô dispois muito tempo, qu’essas gente são iscomungado…”
(Manuel Ambrósio. Brasil interior)

* * *

A transformação em mula é o castigo recebido pela mulher que se entrega sexualmente a um padre. Nas noites de quinta para sexta-feira, ou de acordo com a lua, ou de sete em sete anos, ou na quaresma, enfim — os períodos variam de região para região — a concubina transforma-se e parte em galope desvairado, pisoteando tudo o que encontra pela frente. Seus cascos, afiadíssimos, ferem como navalhas. Quando retorna à casa, readquire a forma humana, porém está machucada, abatida, cheia de escoriações. Na próxima noite fatídica, tudo acontece novamente.

Para que a manceba não se transforme, o padre deve amaldiçoá-la antes de celebrar cada missa. Segundo Pereira da Costa, isso deve ser feito antes de tocar a hóstia, no momento da consagração. Ao encontrar uma mula, é preciso esconder as unhas a fim de não atrair a sua ira. Aquele que tiver a coragem extrema de retirar-lhe o freio de ferro da boca, quebrará o encanto. Em alguns lugares, basta causar-lhe um ferimento, tirando-lhe sangue.

A mula-sem-cabeça, burrinha-de-padre ou burrinha é mito de origem ibérica e ocorre em toda a América. No México, é chamada malora; na Argentina, mula anima. Também é chamada alma mula, mula sin cabeza, mujer mula e mala mula. Segundo Luís da Câmara Cascudo, apesar de algumas variações, sempre é a punição recebida pela “manceba” do padre. Viriato Corrêa a chama de cavalacanga.

Existem inúmeras variações sobre a sua forma: uma mula sem cabeça, com um relincho apavorante; um animal preto com uma cruz de pêlos brancos na cabeça; olhos de fogo; geme como gente; relincha; tem um facho luminoso na ponta da cauda; ninguém a vê, só se ouve o tropel; uma burra com uma listra branca no pescoço…

Gustavo Barroso explica que a escolha da mula, ou burrinha, como a punição da mulher do padre, deve-se ao fato que desde mais ou menos meados da Idade Média, as mulas foram as montarias mais utilizadas pelos padres, por serem dóceis, resistentes e seguras. Animais incansáveis e bastante próximos da pessoa do padre, inclusive fisicamente.

Para saber mais sobre a mula-sem-cabeça:

Amaral, Amadeu. O dialeto caipira. 4ª ed. São Paulo, Editora Hucitec, 1982, p.156

Ambrósio, Manuel. “A onça Borges”. Brasil interior; palestras populares, folclore das margens do São Francisco: Januária, Minas Gerais, 1912. v.1,  São Paulo, Nelson Benjamin Monção, 1934, p.50-53

Barroso, Gustavo. O sertão e o mundo. Rio de Janeiro, Livraria Leite Ribeiro, 1923, p.181-186

Cascudo, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, 1954 | 9ª edição: Rio de Janeiro, Ediouro, sd | Geografia dos mitos brasileiros. 2ª ed. São Paulo, Global Editora, 2002, p.191-195

Gouveia, Daniel. Folclore brasileiro. Rio de Janeiro, 1926, p.46-47

Lopes Neto, João Simões. Lendas do sul. Pelotas, p.91

Pires, Cornélio. Conversas ao pé do fogo. 3ª ed. São Paulo, 1927, p.155

Sanches, Rafael Jijena; Jacovella, Bruno. Las supersticiones. Buenos Aires, Edições Buenos Aires, 1939, p.148

fonte: Jangada Brasil