Espetáculos-Concepção

A Cia ContaCausos pesquisa as diferentes narrativas orais populares, suas recorrências, temáticas, personagens e transforma estes conhecimentos em espetáculos que são devolvidos ao povo brasileiro. Em nossos processos de pesquisa e montagem de espetáculos, contamos com a participação de profissionais de diferentes áreas: Letras, artes visuais, designer, patrimônio, história e música. Com a soma dos conhecimentos destas diferentes áreas, a Cia ContaCausos já estreou oito espetáculos, que se destacam pela pesquisa no patromônio imaterial e pelo cuidado estético e poético.

 

 Os Espetáculos – Processos de Pesquisa e Montagem

“Esticando as Canelas”. Foto: Augusto Zeiser

Espetáculo Esticando as Canelas: O primeiro espetáculo da Cia foi elaborado partindo da recorrência dos contos de enganar a morte, ou ciclos da morte, temática amplamente compilada e registrada por escritores e folcloristas como Luís da Câmara Cascudo, Silvio Romero, Ricardo Azevedo, Ângela Lago e Ernani Só. O trabalho de pesquisa iniciou em 2007 e depois de algumas apresentações e adequações teve sua reestreia em 2010, ano que coincide com a fundação da Cia. Neste trabalho, a narração de histórias e os recursos mínimos são evidenciados, sem deixar de lado as possibilidades de recursos estéticos e cênicos que funcionam a serviço da história construindo a ponte entre o que se diz, o que se vê, o que se ouve e o que se imagina.

O escritor Ricardo Azevedo, autor de Contos de enganar a morte diz em seu site: “Falar sobre a morte com crianças, é preciso deixar claro, não significa entrar em altas especulações ideológicas, abstratas e metafísicas. Nem em detalhes assustadores e macabros. Refiro-me a simplesmente colocar o assunto em pauta. Que ele esteja presente, através de textos e imagens, simbolicamente, na vida da criança. Que não seja jamais ignorado. Isso, note-se, nada tem a ver com depressão, morbidez, falta de esperança ou niilismo. Ao contrário, a morte pode ser vista, e é isso o que ela é, uma referência concreta e fundamental para a construção do sentido da vida. Existem assuntos sobre os quais adultos sabem mais e podem ensinar crianças. Entre eles não se encontram, por exemplo, a paixão, o sublime, a determinação da realidade e da fantasia, o sonho, a temporalidade e a busca do auto-conhecimento. Nem, muito menos, a morte e a mortalidade. Diante de assuntos assim, é preciso reconhecer, adultos e crianças sentem-se igualmente despreparados.”

"Tem Coroa, Mas Não É Rei"

“Tem Coroa, Mas Não É Rei”

Espetáculo Tem Coroa, mas não é rei: O processo de pesquisa e montagem do espetáculo iniciou em 2010, tendo como temática os contos de adivinhação da cultura popular brasileira e o universo das adivinhas, charadas e enigmas. Recontados e registrados por vários escritores como Ricardo Azevedo, Rosane Plampona e Angela Lago, os contos de adivinhação nos possibilitaram criar um ambiente leve e divertido, com muitos “o que é o que é” para o público pensar e responder. Seguindo a linha dos outros espetáculos, “Tem Coroa, mas não é rei” também se destaca pelo cuidado estético e os elementos que estão a serviço das histórias. Criando a ponte entre o que se conta, o que se ouve e o que se imagina.

Ricardo Azevedo, em sua obra Contos de Adivinhação  fala que: “Longe de ser apenas brincadeiras com palavras, todas as adivinhas costumam também ser metáforas. Ou seja, dizem uma coisa mas, ao mesmo tempo, querem dizer outra. Por exemplo, quando ouvimos: “A moça é uma flor” sabemos que o tal moça não tem folhas nem pétalas nem raízes mas sim que é bela, cheirosa e delicada. É uma moça e, também, é uma flor. Isso é uma metáfora. Em geral, as adivinhas funcionam da mesma maneira. Se alguém pergunta: “o que é que cai de pé e corre deitada?” já sabemos que o sujeito está falando da chuva. Se pergunta: “o que é que quanto mais se perde, mais se tem” sabemos que está falando do sono. A adivinha, portanto, pode ser considerada uma espécie de introdução à linguagem poética, mas mais que isso. Nas sociedades antigas, druidas e sacerdotes eram admirados justamente porque sabiam decifrar enigmas. E, para esses povos, os enigmas traziam sempre um conhecimento sagrado sobre a existência e o mundo.”

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Foto de Mariane Kerbes

Espetáculo Nem Te Conto: O processo de pesquisa do espetáculo iniciou em 2011 explorando uma narrativa tradicional da Região Sul do Brasil: A história da Noiva do Diabo. Diferentes versões desta narrativa foram encontradas em obras como A noiva do Diabo de Celso Sisto, Muito Capeta de Ângela Lago, na literatura tradicionalista e de Cordel. No processo de elaboração da narrativa para o espetáculo, fizemos uma grande costura de elementos recorrentes, trejeitos, sotaques e costumes regionais, buscando representar através do que se conta um pouco da cultura popular do Sul do Brasil.

Ao som do acordeom, a narrativa ganha força através de objetos cuidadosamente esculpidos e trabalhados na madeira pelo artista plástico Marcos Schuh. A assessoria e direção de cenas ficaram por conta do diretor e bonequeiro Willian Sieverdt da Trip Teatro de Animação de Rio do Sul (SC). O folclorista Luís da Câmara Cascudo dizia que as lendas e os contos urbanos são como “um dos altos testemunhos da atividade cultural de um povo, ensinando a conhecer diversas facetas do espírito humano, agrupando informações históricas, etnográficas, sociológicas, jurídicas e sociais, constituindo um documento vivo dos costumes, idéias e julgamentos de um grupo cultural”. Nos contos populares onde o Demônio se decepciona na impossibilidade de obter o pagamento contratual, é um dos processos de adaptação religiosa popular ao Ciclo do Demônio Logrado. Alguns apelidos para o Diabo: Afuleimado, Amaldiçoado, Arrenegado, Barzabu, Bicho-Preto, Bruxo, Cafuçu, Canheta, Capa Verde, Diogo, Diale, Diá, Diacho, Diangas, Dianho, Demo, Satã, Dedo, Ele, Esmolambado, Excomungado, Feio, Feiticeiro, Ferrabrás, Futrico, Gato-Preto, Imundo, Fedorento, Inimigo, Lúcifer, Mequetrefe, Mal-Encaracio, Mofento, Não-Sei-Que-Diga, Nojento, Pé-de-Cabra, Pé-de-Pato, Peitica, Rabudo, Sapucaio, Sarnento, Tição, Tisnado, Tinhoso. Fonte: Os Melhores Contos Populares de Portugal, coletânea com org. e notas de Câmara Cascudo. (1944).

Visagem. Foto: Louis Radavelli

Visagem. Foto: Louis Radavelli

Espetáculo Visagem: Visagem é resultado do trabalho de pesquisa realizado pela Cia ContaCausos iniciado em 2008 com as narrativas orais recorrentes no oeste catarinense. As experiências, causos, relatos, crenças, modos de vida e linguagem compilados através de pesquisa e entrevistas com moradores, ganham vozes e imagens no espetáculo, que de maneira poética, procura difundir e estimular o reconhecimento das expressões da cultura popular/oral cabocla do sul do Brasil. Visagem busca acentuar a proposta do ator narrador, que constrói a cena, discurso após discurso, gesto após gesto. E convida a plateia a construir mentalmente a cena narrada, contribuindo assim para a reafirmação da arte narrativa, do exercício de construção de imagens únicas no imaginário de cada espectador.

Buscamos construir uma linguagem que servisse para potencializar o que se imagina. Em Visagem o narrador não é apenas informante, torna-se transmissor de experiências vividas ou relatadas. Esta relação interfere diretamente na construção dramatúrgica, espaço cênico e preparação do ator/narrador. Além disso, o espetáculo procura explorar as nuances das narrativas orais caboclas, sua riqueza de imagens, força, dialeto e expressões culturais, dando voz e tratamento artístico a esta etnia da região oeste catarinense. Para este trabalho, a atriz Josiane Geroldi convidou o diretor Jefferson Bittencourt da Cia Persona de Teatro de Florianópolis/SC, que pesquisa a linguagem da música e do drama, assim como o universo fantástico, desde 2001. Sua busca, como diretor, tem sido incessante por temáticas que abordam situações extremas da vida humana e suas consequências, na possibilidade que o teatro tem de vislumbrar a beleza através do espanto, da ação de estar ‘face a face’ com o horror e com o mistério.

"Foi Coisa de Saci"

“Foi Coisa de Saci”

Espetáculo Foi Coisa de Saci: A pesquisa com as narrativas orais e a literatura sobre Saci Pererê iniciou em meados de 2014. O desejo de narrar as façanhas do “capetinha” surgiu de leituras, pesquisas na literatura oral, da conversa com as pessoas, da percepção das narrativas recorrentes e da força deste personagem no imaginário social regional e nacional. Desejamos contar o Saci do ponto de vista do povo, partimos então ao estudo da obra SACI – PERERÊ o resultado de um Inquérito, primeira obra de Monteiro Lobato publicada em 1918 a partir de uma série de depoimentos reais que  Lobato propôs aos leitores do “Estadinho”, suplemento do jornal O Estado de S. Paulo, onde ele propunha que lhe enviassem cartas contando tudo o que soubessem ou tivessem ouvido falar sobre o mito do Saci-Pererê.

Partindo da leitura dos relatos compilados por Lobato, iniciamos a escrita do texto do espetáculo e partimos para outras referências literárias, cinematográficas e iconográficas. Partindo destas pesquisas, juntamente com o historiador e artista plástico Marcos Schuh, sempre parceiro na construção dos cenários e objetos dos espetáculos da Contacausos, elencamos os objetos recorrentes relacionados ao personagem para a construção do cenário, objetos de cena e figurino, tendo sempre o cuidado para que os objetos estivessem à serviço da história, construindo a ponte entre o que se vê, o que se ouve  e o que se imagina.

Maracá. Foto: Augusto Zeiser

Maracá. Foto: Augusto Zeiser

Espetáculo Maracá – Histórias com Cabaças:  Era uma vez uma menina e um pé de cabaça. A cabaça era encantada: Virava casa de passarinho, cuia de chimarrão, instrumento musical, berimbal, maracá, esconderijo e belo embornal. Maracá é a voz que canta dentro da cabaça e através das histórias a mistura que é o povo brasileiro. O Encanto de toda cabaça é vontade de explodir e espalhar o seu canto por aí.

A concepção do espetáculo Maracá- Histórias com Cabaças se deu através de contos populares, como Jesuína e o Pé de Cabaça Encantado da obra Histórias da Menina da rua da ponte de Guigui e Adelsin, Porque os Contadores de Histórias tem boa memória da obra O Ofício do Contador de Histórias de Gislaine Avelar Mattos, A lenda do Mate – da obra Viagem ao Brasil em 52 histórias organizado por Silvana Salerno.

“Imagina Só”

Imagina Só. Foto: Louis Radavelli

Espetáculo Imagina Só – Causos, canções e ponteados de viola“Imagina Só” propõe o encontro de dois apaixonados pelo imaginário popular brasileiro. Sempre acompanhando o trabalho um do outro, assistindo os espetáculos, dando palpites, ou trocando as experiências, Josiane Geroldi e Paulo Freire agora resolveram se juntar e nos apresentam um espetáculo que nasceu a partir de uma cena apresentada no Auditório Ibirapuera, no espetáculo de abertura do “Boca do Céu – Encontro Internacional de Contadores de Histórias”, edição de 2016, em São Paulo.

Assistindo os dois juntos, houve quem garantisse que o encontro já estava feito, parecia coisa antiga, e é verdade mesmo que a afinidade entre os dois já tem história, seja no contato direto com os sacis, na prosa com os devotos de São João Maria, nos encontros com os diversos tipos de capeta, Dona Jo e Nhô Paulo já vinham costurando os causos e ponteando a violinha tendo como referência nossos contadores de histórias mais tradicionais.

Dona Jô e Nhô Paulo esperam o público sentados num terreiro de casa na roça. Desfiam um novelo de causos, um arremedando o outro. Contam sobre o baile dos capetas graduados, o primeiro saci que despencou na terra, as roupas desventindo as gentes na casa de dona Bastiana, como a família do Chico Santos virou o bando de passarinho Tangará, e mais um bocado de assunto.

Os causos vem entremeados por canções e ponteados de viola. “Imagina Só” é um convite para fechar os olhos e se sentir no voo dos papagaios, desde as Veredas do Urucuia inté as barrancas do Rio Uruguai.

PuraVida – Histórias de Mulheres Sábias

Espetáculo PuraVida – Histórias de Mulheres Sábias: Nasceu a partir do encontro das Histórias de Mulheres Sábias com a Mulher contadora de histórias Josiane Geroldi. Em abril de 2017, a contadora recebeu um convite para contar algumas destas histórias em uma exposição fotográfica que retratava mulheres em situação de violência. A exposição fotográfica “Violência Contra a Mulher: um olhar anterior” buscava sensibilizar o público para os indícios anteriores a violência. Ao receber o convite para a narração destas histórias, Josiane sentiu que era necessário dar voz a essas mulheres sábias das culturas orais de diferentes países, num movimento poético e sútil de fortalecimento das mulheres no presente. Puravida nasceu de um desejo antigo da narradora de falar sobre ancestralidade, feminino, tradição e oferecer ao público uma possibilidade de supreender-se e empoderar-se a partir da escuta das histórias destas protagonistas.

Como é comum em todos os trabalhos da Cia ContaCausos, a narradora preocupa-se em criar ambientes coerentes com as narrativas que serão contadas, para que o público sinta-se acolhido também fisicamente, pelas texturas, aromas, cores. Em Puravida não haveria de ser diferente. Restrito para somente 50 espectadores, o público é recebido, um a um e recebe um xícara de chá em louças muito antigas entregues pelas mãos da contadora de histórias. Após ser recepcionada, a plateia é convidada a acomodar-se em tapetes, colchonetes, almofadas bem próximos da atriz. No cenário um ambiente aconchegante lembra casa de avó, com um panô suspenso que lembra uma grande colcha de retalhos feita de crochê. Crochês que foram doados por muitas mulheres na cidade de Chapecó e enviados de outros estados brasileiros. A teia da Puravida ganha cor e forma pelo trabalho delicado de muitas mulheres que teceram com linha seus sonhos, seus desejos, suas tristezas, o pensar da vida.

Neste ambiente, entre chás e crochês, o público é convidado a mergulhar nas histórias de La Bruja, um conto tradicional da mulher bruxa/feiticeira que pode ser encontrado em diferentes versões no México e vários países da américa latina. O fio poético que liga e costura as narrativas parte de várias referências às obras de Clarisse Pinkola Éstes como Mulheres que Correm com Lobos, a Ciranda das Mulheres Sábias e o Dom da História. Fazem parte ainda do repertório dois contos da obra O violino Cigano de Regina Machado e a Moça Tecelã de Marina Colassanti.

O que nos move é o encontro delicado entre ouvinte e narrativa. Para desatar os nós e tecer a nossa existência simbólica, afetiva, um encontro com a nossa PURAVIDA  através das histórias de mulheres sábias.