Categoria: História Pra Contar

História pra Contar:  O Corpo Seco
História pra Contar: O Corpo Seco

A lenda do corpo seco na versão dos pescadores de Aparecida do Norte

Maria de Lourdes Borges Pinheiro

A região de Aparecida do Norte foi povoada inicialmente por pescadores e ainda hoje muitos continuam na mesma labuta, às margens do Paraíba.  São piraquaras simples e bons, honestos e trabalhadores, resignados e piedosos, que conhecem as manhas das águas e dos peixes, procurando superá-las com habilidade e destreza. Para isso, dispõem de perícia, de pertences que fabricam com as próprias mãos e de uma paciência como poucos possuem neste mundo de Deus. Nada os atemoriza, nem a noite escura, nem as tempestades. Só a rede vazia os entristece.

Vivem eles na atmosfera da magia e, religiosos que sejam, se movem entre crendices e superstições.

Entre as suas lendas — lendas para nós, para eles mitos, pois lhes determinam o comportamento — a mais conhecida é a do corpo seco, duende que vive na mata densa e fechada, à margem esquerda do Paraíba, lugar pitoresco denominado Caaparabá.

Várias foram as histórias que ouvi de pescadores, velhos ou jovens, sobre o corpo seco — “a coisa mais horrorosa, horrive, que se pode vê”, como me afirmou Eduardo Rodrigues, que tem 65 anos e nunca mentiu e só fala a verdade.

Na sua linguagem simples, o velho Eduardo me descreveu fielmente o que é o corpo seco, mantendo os característicos essenciais a todas as descrições que outros já me tinham feito. “É sempre o corpo de pessoa ruim, principarmente quem martratô ou desresoeitô pai e mãe. É um corpo tão sem graça que nem a terra não qué. Rejeita. Então o corpo seca. A ropa gruda que fica rente co’a pele. Uma situação só. As unha cresce. A pacoera e as tripa fica tudo numa bolota só. E chacoaia de todo lado. Quando chega o tempo de revirá a sepurtura pra desocupá lugá é que descobrem isso. Então o coveiro avisa o padre do lugá que tem um corpo seco. Então o padre trata de vê quem tem corage e escolhe dois home. Faz suas rezas, seus benzimento forte, mas só de noite então, ali pela meia-noite, nem antes nem depois, um dos home [vira] pro companheiro que tá de costa, co os braço erguido pra trás. E ele fica nesta pusição assim, costa com costa, nem o corpo seco óia pra frente nem quem carrega óia pra trás. Daí caminha os dois home até o mato e ao corpo seco tem que sê jogado de costas, mar joga já tem que saí andando e sem oiá pra trás, se oiá ele munta cavalo e vem. Lá no mato, despois que o pessoá vem simbora, le mesmo por si se esconde. Fica encostado num pau, toma conta dum capoeirão inteirinho. Pois foi o que acunteceu cumigo quando um dia fui lenhá. Chegue no capoeirão dele e isso ninguém tem orde de fazê. Premero, pra avisá a gente da presença dele, ele dá uma tontura na gente; Se teimá, daí ele tira a idéia. Ninguém tem força de arregisti. Ele, eu não vi, só ouvi os estralos no mato, mas quem viu contô, é da artura duma pessoa mesmo, no lugá do zóio tem dois vuracão. Uma cara medonha de feio…”

O capoeirão do corpo seco

A lenda é assim conhecida nesta região, mas os casos que contam e as histórias que surgem variam grandemente; uns, amedrontados, largam no capoeirão a lenha que colheram e os peixes que pegaram e fogem espavoridos; outros, com uma coragem que talvez lhes advenha depois de passado o susto, que os “estralos no mato” metem medo de verdade, incentam suas histórias e se tornam conhecidos como destemerosos, valentes e ousados. Mas… só na prosa mesmo, que caminho pequeno, estradinha à toa, atalho de todo o dia, quando corrido com pernas bambas se transforma em uma légua sem fim…

Pelas redondezas da cidade está o Caaparapá, onde a galharia cerra tanto lá no alto que em certos pontos, não se avista o céu. Enormes aranhas tecem suas teias fortes entre os ramos onde florescem orquídeas das mais belas. A mata se estende por onze alqueires, chegando quase à beira do rio, cujas águas entram por um valão e formam uma lagoa enorme, quase transformando o Caaparapá numa grande ilha. O lagoão é bonito e cheio de árvores que nasceram não se sabe quando, pois que os avós contam que seus avós contavam.

Mas desde quando o Caaparapá se tornou capoeirão do corpo seco, todo mundo sabe, porque ainda vivem alguns dos que o conheceram em vida, lá pelos fins do século XIX, antes de condenado a cumprir sina e sabiam que, “embora não aparecesse divulgado para ninguém”, sempre aparecia à gente dele, vinha à casa do filho, pedindo para cortar-lhe as unhas e fazer-lhe a barba e pedindo coisas também: roupa, chapéu, calçado, que ele precisa de tudo que a gente usa também. E contam, que de todos os seus, era o Pissidone quem mais o presenteava, por ser quem mais tinha dó do coitado. Daí o Pissidone ir ao Caaparapá e colocar tudo perto de uma árvore grande que nunca acabava. O chapéu era de pirizinho e muitos sabiam da altura do corpo seco porque viam os sinais de suas passadas e os estralos lá em cima, onde o chapeuzinho roçava.

Condenado ao capoeirão, dele nunca podendo retirar-se, tem como seu tudo quanto nele se encontra: as árvores do chão, os pássaros do ar e os peixes das águas. Quem vai lenhar e se embrenha na mata, ou volta abobado ou larga o feixinho e sai correndo, quando não passa a noite toda como que encantado, sem poder arredar pé do lugar; quem vai pescar e se distrai na beira da água, quase morre de susto quando ouve a voz soturno: “largue o peixe aí…” E caçador que enverede pelos trilhos apertados à procura do paturi, do frango d’água, não sabe mais voltar, precisa rezar o Creio em Deus Padre. Assim é o corpo seco, dono de quanto tenha vida em seu domicílio e de nada querendo se separar.

Um acordo com o duende

Porém, tudo depende de jeito, como disse o nosso velho amigo Agapito Pamplona da Corte Real Espíndola, piraquara de 64 anos, sempre lidando com redes e remos, e canoas e botes. Agapito me disse que ia contar um caso para provar que o “sujeito” (não gosta de falar “corpo seco”, tem medo…) não é tão ruim assim como se diz, vai do modo de se lidar com ele, porque com bom trato até nós somos bons, mas que nos queiram tirar as coisas à força… E aqui a história que ouvi de um acordo feito entre Agapito e o corpo seco do Caaparapá, com amplos poderes para a pescaria no lagoão, pelo tempo que lhe aprouvesse pescar.

“Tava uma miséria de peixe aqui na Parecida e não tinha peixe nenhum. O Gerardo (filho dele) foi e disse: “cumé, pai, bamo venturá? Bamo no Caaparapá pra nóis pescá”, que lá tinha muito peixe. Então eu disse: “cumé que nóis bamo fazê… Sá? eu vou pensá um modo e nóis bamo lá pescá”. Mandei ele comprá uma vela na venda, meia garrafinha de cachaça e saí com ele, de tardezinha, regulando no primeiro dia de pesca mais de oito hora. Fomo cedo nesse dia. Cheguemo na lagoa, custô pra nóis travessá, quase que a água dava pra molhá nóis. Lagoá funda. Eu levei junto co’a vela um vidrinho de cachaça com guiné e arruda também. Deixei ele na bera do poço e a rede e fui lá pro pé da figueira. “Óia, nóis bamo pescá agora neste poço, mas eu quero que me ajude porque nós não conhece o poço. Depois da pescaria nóis mata o bicho”. Eu disse assim. Não tinha ninguém. Cheguemo na boca do poço, demo suas redada e saiu carga de peixe que quase não pidemo carregá. Saímo no caminho. O Gerardo disse pra mim: “Ê pai, cumé agora pra nós travessá a lagoa?” O peso era muto. Eu fui disse assim: não é nada, rapaiz, o amigo aqui ajuda nóis passá pra lá e carrega o peixe”. Eu peguei a rede, pus nas costa e ele ergueu o balaio de peixe na cacunda. Eu disse: “siga na frente que eu vou atrais”. Ele embarcô na lagoa e eu também. Ele co’a carga de peixe, não chegô a batê água no joeio. E eu, co’a rede e a água deu só no tornozelo do pé. Um tremedá temeroso que dava para cobrir um home se escapasse. Cheguemo pra cá da lagoa, larguemo a rede, o peixe, e eu disse pro Gerardo: “bamo tomá uma pinguinha”. Eu deu o vinho prele, ele bebeu um gole e me deu o vidro, e eu bebi também e virei o vidro pro lado da lagoa e disse: “Isso é vosso”. Não vi buia de nada e quando peguei a oiá o vidro já estava sequinho. Tornei a pôr a rede nas costa e ele ergueu o jacá de peixe. E eu disse: “Bão, amanhã nóis vortamo, pode ir embora, obrigado, Deus que ajude, pode ser sempre assim e bamo embora vendê o peixe”. E assim seguimo. Pesquemo mês e meio dessa maneira assim. Úrtima veiz, cheguei no poço, sortemo a rede, enganchou num aramaço colosso de arame farpado. O Gerardo respondeu: “E, pai, perdemo a rede”. Eu disse: “não é nada”. Eu vi uma buinha que vinha vindo pro mato e nesse dia nóis não tinha levado a vela nem a pinga. Aí eu disse: “isso é arte desse sujeito, ele ficô com raiva, mas tem razão, porque nóis fomo curpado. Trato é trato”. E falei pro Gerardo: “afaste pra trais e estique a rede”; E chamei: “ó, amigo, você conhece a arte de sair daqui, me sorte a rede, que nois no pode pescá”. Deu um xaquaio muito grande na rede e sortou. Nóis puxemo, enrolemo e eu disse: “agora nóis num pesca mais hoje. Bamo embora”. Daí o Gerardo disse assim: “eu vô tirá aquele arame, pai, tirá pra fora, deixá limpo”. Entrô no poço, foi tirando aqueles pacote de arame farpado, cruzeta de pau, tuso feito, e muntuô em cima do guapesa. Daí saímo pra vim embora, ele sai atrais dele, co’o a rede. Quando passemo em frente a figueira, o sujeito avançô a mão na rede e soquetrô pra tirá a rede de mim. E eu expriquei pra ele: “Hoje nóis não queremo pescá mais, fica pra amanhã, amanhã nóis vorta”. E não pesquemo. Notro dia, o Gerardo, que é muito curioso, saiu bem cedo e foi lá zoiá o arame pra aproveitá argum e não achô nada… Continuemo a pescaria quando nóis quisemo, nada estorvô nóis, num tinha enrosco, num tinha nada. E terminô nisso aí…”

Câmara Cascudo registrou o mito em São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Nordeste e diz ser da tradição portuguesa. Aliás, almas penadas, com suas aparições proteiformes, correm por toda parte. Existe também em vários lugares do Brasil uma outra lenda, de que quem bate em pai ou mãe fica com a mão seca, cujo tema central é o mesmo portanto. Não sei, porém, se se corporifica em forma lendária ou aparece apenas em crendice, embora o povo não acredite nunca em abstrato, acredita porque lhe citam provas que a tradição conserva intangíveis.

(Pinheiro, Maria de Lourdes Borges. “A lenda do corpo seco na versão dos pescadores de Aparecida do Norte”. Paratodos. Rio de Janeiro; São Paulo, nº 2, novembro de 1957)
Fonte: Jangada Brasil
História pra Contar: Do tempo que Jesus andava aqui na terra
História pra Contar: Do tempo que Jesus andava aqui na terra

Onde comem dois, comem três

Lindolfo Gomes

Vai um dia, no tempo em que Nosso Senhor andava pelo mundo, por uma noite de muita chuva e muito frio, alta hora, um pobre lavrador, carregado de sua família, ouviu bater à porta de seu rancho.

— Ó de casa!

— Ó de fora! — respondeu.

Abriu a porta e deu com dois “pelingrinos” que lhe pediram pousada e junta.

Mandou preparar a ceia com o que havia e os dois pelingrinos, um velho e outro moço, aturaram-se a ela com vontade.

Vai daí, ouviu-se bater de novo à porta. O lavrador foi abrir e apresentou-se outro pelingrino em tudo semelhante aos outros. Pediu-lhe pousada e de comer.

O lavrador hesitou. Os pratos estavam quase vazios e em casa não havia mias nada.

— Mande entrar, — disse o mais velho dos viandantes. — Onde comem dois, comem três.

O que chegou tomou assento à mesa e pôs-se a comer também.

Passado um instante, outro a bater, e depois outro, mais outro. Assim, dentro em pouco, tinham chegado doze, que eram os apóstolos e mais Nosso Senhor Jesus Cristo em pessoa, em trajes de pedinte, numa pobreza nunca vista.

No dia seguinte, no “arraiar” da primeira luz, despediram-se todos muito agradecidos, e o velho, que não era senão São Pedro, disse ao lavrador que pedisse alguma coisa a Nosso Senhor, que não lhe havia de negar.

O lavrador, que era inclinado ao jogo, pediu a Nosso Senhor que lhe desse meios e modos de ganhar sempre pela certa.

Dito e feito. Aparece logo ali por milagre, um baralho com aquela virtude.

O lavrador começou, então, a desabusar todos os parceiros e a fama correu.

Mas, não levou muito tempo, morreu o homem e, no caminho de prestar contas, encontrou-se com dois diabos que levavam a alma de um escrivão, seguros com ela pelos cabelos. Era uma ventania de levar tudo para os quintos.

O lavrador teve pena da alma e ainda porque devia umas certas obrigações ao escrivão, propôs aos coisa-ruim o resgate daquela alma numa partida de jogo. Se ele ganhasse, estaria salvo o escrivão; se perdesse, já os diabos, em vez de uma, levariam duas almas. Ele tinha confiança no baralho que lhe dera Nosso Senhor Jesus Cristo.

Os diabos aceitaram. O lavrador sacou do baralho, ganhou pela certa e lá se foi com a alma do escrivão para o céu. Bateu à porta. Veio São Pedro.

— Então, que quer?

— Quero entrar. Ora, se quero.

— Entre.

— E levo o companheiro.

— Isso não. Você já viu, homem de Deus, escrivão entrar no céu?

— Pois será esta a primeira vez. Então V.S. não me conhece mais? Sou o homem do baralho, aquele que deu de dormir e de jantar a Nosso Senhor Jesus Cristo, a V.S. e aos santos apóstolos.

— E daí? Já não vai entrar?

— Daí é que palavra de rei não volta atrás, pois V.S. foi o mesmo que disse que onde comem dois, comem três…

São Pedro não teve nada que responder e ficou a coçar a barba, e lá se foram os dois entrando no céu, onde até então não constava haver entrado alma de escrivão.

(Gomes, Lindolfo. “São Pedro, escrivães e advogados”. Folha de Minas. Belo Horizonte, 30 de setembro de 1956)
História pra Contar: A velha e o Saci
História pra Contar: A velha e o Saci

Era uma vez uma velha de mais de 70 anos de idade, que costumava fumar três cachimbadas toda a noite.

O último cachimbo ela deixava cheio, em cima do fogão, para fumar mais tarde.

Mas aconteceu que o tal cachimbo aparecia só com um pouquinho de fumo. Alguma tentação estava se associando, de certo, no cachimbo da velha.

Uma noite, a velha ficou sentada. Veio o danadinho, olhou pelo buraco da chave, entrou, sentou no fogão e acendeu o cachimbo, fumando à vontade.

Ah! é o saci! — disse a velha consigo. Amanhã ele me paga.

Quando foi na outra noite, ela pôs pólvora no cachimbo e só em cima da pólvora um pouco de fumo.

O saci veio. Acendeu o cachimbo e começou a fumar. De repente: poque! foi aquele estrupício. O saci levou um susto, saiu pulando, errou a porta, homem! passou mal o talzinho para se escapar.

E nunca mais voltou a “tentar” a velha.

Contou Elze Rodrigues de Lima. Rodeio, Itapetininga.

 

(Recolhido pelo cônego Luís Castanho de Almeida, em 1958)

(Em Soares, Doralécio. “Contos populares”. O Estado. Florianópolis, 15 de junho de 1969)
História pra Contar: Mula-sem-cabeça
História pra Contar: Mula-sem-cabeça

“Ainda hai a mula sem cabeça; custa muito, mas porém hai. Essas cousas de Deus unfum!… ninguém deve marmurá. Mamãe veio sabê, ô dispois muito tempo, qu’essas gente são iscomungado…”
(Manuel Ambrósio. Brasil interior)

* * *

A transformação em mula é o castigo recebido pela mulher que se entrega sexualmente a um padre. Nas noites de quinta para sexta-feira, ou de acordo com a lua, ou de sete em sete anos, ou na quaresma, enfim — os períodos variam de região para região — a concubina transforma-se e parte em galope desvairado, pisoteando tudo o que encontra pela frente. Seus cascos, afiadíssimos, ferem como navalhas. Quando retorna à casa, readquire a forma humana, porém está machucada, abatida, cheia de escoriações. Na próxima noite fatídica, tudo acontece novamente.

Para que a manceba não se transforme, o padre deve amaldiçoá-la antes de celebrar cada missa. Segundo Pereira da Costa, isso deve ser feito antes de tocar a hóstia, no momento da consagração. Ao encontrar uma mula, é preciso esconder as unhas a fim de não atrair a sua ira. Aquele que tiver a coragem extrema de retirar-lhe o freio de ferro da boca, quebrará o encanto. Em alguns lugares, basta causar-lhe um ferimento, tirando-lhe sangue.

A mula-sem-cabeça, burrinha-de-padre ou burrinha é mito de origem ibérica e ocorre em toda a América. No México, é chamada malora; na Argentina, mula anima. Também é chamada alma mula, mula sin cabeza, mujer mula e mala mula. Segundo Luís da Câmara Cascudo, apesar de algumas variações, sempre é a punição recebida pela “manceba” do padre. Viriato Corrêa a chama de cavalacanga.

Existem inúmeras variações sobre a sua forma: uma mula sem cabeça, com um relincho apavorante; um animal preto com uma cruz de pêlos brancos na cabeça; olhos de fogo; geme como gente; relincha; tem um facho luminoso na ponta da cauda; ninguém a vê, só se ouve o tropel; uma burra com uma listra branca no pescoço…

Gustavo Barroso explica que a escolha da mula, ou burrinha, como a punição da mulher do padre, deve-se ao fato que desde mais ou menos meados da Idade Média, as mulas foram as montarias mais utilizadas pelos padres, por serem dóceis, resistentes e seguras. Animais incansáveis e bastante próximos da pessoa do padre, inclusive fisicamente.

Para saber mais sobre a mula-sem-cabeça:

Amaral, Amadeu. O dialeto caipira. 4ª ed. São Paulo, Editora Hucitec, 1982, p.156

Ambrósio, Manuel. “A onça Borges”. Brasil interior; palestras populares, folclore das margens do São Francisco: Januária, Minas Gerais, 1912. v.1,  São Paulo, Nelson Benjamin Monção, 1934, p.50-53

Barroso, Gustavo. O sertão e o mundo. Rio de Janeiro, Livraria Leite Ribeiro, 1923, p.181-186

Cascudo, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, 1954 | 9ª edição: Rio de Janeiro, Ediouro, sd | Geografia dos mitos brasileiros. 2ª ed. São Paulo, Global Editora, 2002, p.191-195

Gouveia, Daniel. Folclore brasileiro. Rio de Janeiro, 1926, p.46-47

Lopes Neto, João Simões. Lendas do sul. Pelotas, p.91

Pires, Cornélio. Conversas ao pé do fogo. 3ª ed. São Paulo, 1927, p.155

Sanches, Rafael Jijena; Jacovella, Bruno. Las supersticiones. Buenos Aires, Edições Buenos Aires, 1939, p.148

fonte: Jangada Brasil

História pra Contar: 12 Contos Acumulativos
História pra Contar: 12 Contos Acumulativos

O macaco e o rabo (1)

Um macaco uma vez pensou em fazer fortuna. Para isso foi-se colocar por onde tinha de passar um carreiro com seu carro. O macaco estendeu o rabo pela estrada por onde deviam passar as rodeiras do carro. O carreiro, vendo isso, disse:

— Macaco, tira teu rabo do caminho, eu quero passar.

— Não tiro, — respondeu o macaco.

O carreiro tangeu os bois, e o carro passou por cima do rabo do macaco, e cortou-o fora. O macaco, então, fez um barulho muito grande:

— Eu quero meu rabo, ou então dê-me uma navalha…

O carreiro lhe deu uma navalha, e o macaco saiu muito alegre a gritar:

— Perdi meu rabo! Ganhei uma navalha!… Tinglin, tingilin, que vou para Angola!…

Seguiu. Chegando adiante, encontrou um negro velho, fazendo cestas e cortando os cipós com o dente.

O macaco:

— Oh, amigo velho, coitado de você! Ora, está cortando os cipós com o dente… tome esta navalha.

O negro aceitou, e quando foi partir um cipó, quebrou-se a navalha. O macaco abriu a boca no mundo e pôs-se a gritar:

— Eu quero minha navalha, ou então me dê um cesto!

O negro velho lhe deu um cesto e ele saiu muito contente gritando:

— Perdi meu rabo, ganhei uma navalha, perdi minha navalha, ganhei um cesto… Tinglin, tinglin, que vou pra Angola!

Seguiu. Chegando adiante, encontrou uma mulher fazendo pão e botando na saia.

— Ora, minha sinhá, fazendo pão e botando na saia! Aqui está um cesto.

A mulher aceitou, e, quando foi botando os pães dentro, caiu o fundo do cesto. O macaco abriu a boca no mundo e pôs-se a gritar:

— Eu quero o meu cesto, quero o meu cesto, senão me dê um pão!

A mulher deu-lhe o pão, e ele saiu muito contente a dizer:

— Perdi meu rabo, ganhei uma navalha, perdi minha navalha, ganhei um cesto, perdi meu cesto, ganhei um pão… Tinglin, tinglin, que vou pra Angola!

E foi comendo o pão.
Colhido por Sílvio Romero, em Sergipe.

*

O macaco e o rabo (2)

ma ocasião achavam-se na beira da estrada um macaco e uma cotia e vinha passando na mesma estrada um carro de bois cantando. O macaco disse para a cotia:

— Tira o teu rabo da estrada, senão o carro passa e corta.

Embebido nesta conversa, não reparou o macaco que ele é que corria o maior risco, e veio o carro e passou em riba do rabo dele e cortou. Estava um gato escondido dentro de uma moita, saltou no pedaço do rabo do macaco e correu. Correu também o macaco atrás, pedindo o seu pedaço de rabo. O gato disse:

— Só te dou, se me deres leite.

— Onde tiro leite? — disse o macaco.

Respondeu o gato:

— Pede à vaca.

O macaco foi à vaca e disse:

— Vaca, dá-me leite para dar ao gato, para o gato dar-me o meu rabo.

— Não dou; só se me deres capim. — disse a vaca.

— Donde tiro capim?

— Pede à velha.

— Velha, dá-me capim, para eu dar à vaca, para a vaca dar-me leite, o leite para o gato me dar o meu rabo.

— Não dou; só se me deres uns sapatos.

— Donde tiro sapatos?

— Pede ao sapateiro.

— Sapateiro, dá-me sapatos, para eu dar à velha, para a velha me dar capim, para eu dar à vaca, para a vaca me dar leite, para eu dar ao gato, para o gato me dar o meu rabo.

— Não dou; só se me deres cerda.

— Donde tiro cerda?

— Pede ao porco.

— Porco, dá-me cerda, para eu dar ao sapateiro, para me dar sapatos, para eu dar à velha, para me dar capim, para eu dar à vaca, para me dar leite, para eu dar ao gato, para me dar o meu rabo.

— Não dou; só se me deres chuva.

— Donde tiro chuva?

— Pede às nuvens.

— Nuvens, dai-me chuva, para o porco, para dar-me cerda para o sapateiro, para dar-me sapatos para dar à velha, para me dar capim para dar à vaca, para dar-me leite para dar ao gato, para dar meu rabo…

— Não dou; só se me deres fogo.

— Donde tiro fogo?

— Pede às pedras.

— Pedras, dai-me fogo, para as nuvens, para a chuva para o porco, para cerda para o sapateiro, para sapatos para a velha, para capim para a vaca, para leite para o gato, para me dar meu rabo.

— Não dou; só se me deres rios.

— Donde tiro rios?

— Pede às fontes

— Fontes, dai-me rios, os rios ser para as pedras, as pedras me dar fogo, o fogo ser para as nuvens, as nuvens me dar chuvas, as chuvas ser para o porco, o porco me dar cerda, a cerda ser para o sapateiro, o sapateiro fazer os sapatos, os sapatos ser para a velha, a velha me dar capim, o capim ser para a vaca, a vaca me dar o leite, o leite ser para o gato, o gato me dar meu rabo.

Alcançou o macaco todos os seus pedidos. O gato bebeu o leite, entregou o rabo. O macaco não quis mais, porque o rabo estava podre.

Colhido por Sílvio Romero, em Pernambuco.

*

A formiguinha e a neve

Pois é, uma formiguinha gostava muito de fofoca, gostava muito de conversar. Aí, ela, no tempo frio, no tempo de geada, — e toda formiga também gosta muito de carregar, gosta muito de roubar, não é? — ela ia no moinho roubar fubá. Aí quando ela já evinha embora, já com frio, aí a geada prendeu o pezinho dela com o bolinho de fubá dela na cabeça, não é?

Aí o sol veio, derreteu a geada, ela foi em casa, guardou o fubazinho dela e em vez de mexer o anguzinho dela, não, foi tirar pergunta.

Aí foi na casa do sol:

— Ô sol, você é tão forte que você derreteu a geada que estava presa no meu pezinho!

Aí o sol respondeu pra ela:

— Eu sou tão forte que a nuvem me tapa!

Ela foi na casa da nuvem:

— Ô nuvem, como você é tão forte que você tapa o sol e o sol derreteu a geada que prendeu o meu pezinho?

Aí a nuvem falou:

— Eu sou tão forte que o vento me toca.

Ela foi na casa do vento:

— Ô vento, como você é tão forte que sopra a nuvem, a nuvem tapa o sol, o sol derreteu a geada que estava prendendo o meu pezinho?

Aí o vento falou:

— Eu sou tão forte que a casa me tapa.

Aí ela foi na casa:

— Ô casa, como você é tão forte que você tapa o vento, o vento toca a nuvem, a nuvem tapa o sol, o sol derreteu a geada que estava prendendo o meu pezinho?

Aí a casa:

— Eu sou tão forte que o rato me fura.

Aí ela foi na casa do rato:

— Ô rato, como você é tão forte que você fura a casa, a casa tapa o vento, o vento toca a nuvem, a nuvem tapa o sol, o sol derreteu a geada que estava presa no meu pezinho?

Aí o rato falou:

— Eu sou tão forte que o cachorro me pega.

Aí ela foi na casa do cachorro:

— Ô cachorro, como você é tão forte que você pega o rato, o rato fura a parede, a parede tapa o vento, o vento toca a nuvem, a nuvem tapa o sol, o sol derreteu a geada que estava presa no meu pezinho?

Aí o cachorro falou:

— Eu sou tão forte que a onça me pega.

Aí ela foi na casa da onça:

— Ô onça, como você é tão forte que você pega o cachorro, o cachorro pega o gato, o gato pega o rato, o rato fura a parede, a parede tapa o vento, o vento toca a nuvem, a nuvem tapa o sol, o sol derreteu a geada que estava presa no meu pezinho?

Aí ela disse:

— Eu sou tão forte que o caçador me mata.

Aí ela começou a ficar brava:

— Ô caçador, como você é tão forte que você pega a onça, a onça pega o cachorro, o cachorro pega o gato, o gato pega o rato, o rato fura a parede, a parede tapa o vento, o vento toca a nuvem, a nuvem tapa o sol, o sol derreteu a geada que estava presa no meu pezinho?

Aí o caçador:

— Eu sou tão forte que a morte me mata.

Aí ela falou para a morte:

— Ô morte (gritando já), como você é tão forte que você mata o caçador, o caçador mata a onça, a onça pega o cachorro, o cachorro pega o gato, o gato pega o rato, o rato fura a parede, a parede tapa o vento, o vento toca a nuvem, a nuvem tapa o sol e o sol derreteu a geada que estava presa no meu pezinho?

Aí a morte:

— Eu sou tão forte que te mato.

Plat! Passou o pé nela, matou ela e pronto.

Ela não comeu o anguzinho dela, não é? ficou só tirando pergunta. Se ela fosse comer o anguzinho dela, quietinha, ela tinha enchido a barriga dela e não tinha morrido.

Informante: Luzia Maria Santana.

*

História da coca

Uma vez um menino foi passear no mato e apanhou uma coca; chegando em casa, deu-a de presente à avó, que a preparoiu e comeu.

Mais tarde, sentiu o menino fome e voltou para buscar a coca, cantando:

Minha vó, me dê minha coca
Coca que o mato me deu
Minha vó comeu minha coca
Coca recoca que o mato me deu

A avó, que já havia comido a coca, deu-lhe um pouco de angu.

O menino ficou com raiva, jogou o angu na parede e saiu. Mais tarde, arrependeu-se e voltou, cantando:

Parede, me dê meu angu
Angu que minha vó me deu
Minha vó comeu minha coca
Coca recoca que o mato me deu

A parede, não tendo mais o angu, deu-lhe um pedaço de sabão.

O menino andou, andou, encontrou uma lavadeira lavando roupa sem sabão e disse-lhe: — Você lavando roupa sem sabão, lavadeira? Tome este pra você.

Dias depois, vendo que a sua roupa estava suja, voltou para tomar o sabão, cantando:

Lavadeira, me dê meu sabão
Sabão que a parede me deu
Parede comeu meu angu
Angu que minha vó me deu
Minha vó comeu minha coca
Coca recoca que o mato me deu

A lavdeira já havia gasto o sabão: deu-lhe então uma navalha.

Adiante, encontrando um cesteiro cortando o cipó com os dentes. Disse-lhe: — Você cortando o cipó com os dentes?… Tome esta navalha.

O cesteiro ficou muito contente e aceitou a navalha.

No dia seguinte, sentindo o menino a barba grande, arrependeu-se de ter dado a navalha (ele sempre se arrependia de dar as coisas) e voltou para buscá-la, cantando:

Cesteiro me dê minha navalha
Navalha que lavadeira me deu
Lavadeira gastou meu sabão
Sabão que parede me deu
Minha vó comeu minha coca
Coca recoca que o mato me deu

O cesteiro, tendo quebrado a navalha, deu-lhe, em paga um cesto.

Recebeu o cesto e saiu dizendo consigo: — Que é que eu vou fazer com este cesto?

No caminho, encontrando um padeiro fazendo pão e colocando-o no chão, deu-lhe o cesto. Mais tarde, precisou do cesto e voltou para buscá-lo com a mesma cantiga.

Padeiro me dê meu cesto
Cesto que o cesteiro me deu
O cesteiro quebrou minha navalha
Navalha que a lavadeira me deu
Lavadeira gastou meu sabão
Sabão que parede me deu
Minha vó comeu minha coca
Coca recoca que o mato me deu

O padeiro, que tinha vendido o pão com o cesto, deu-lhe um pão.

Saiu o menino com o pão, e, depois de muito andar, não estando com fome, deu o pão a uma moça, que encontrou tomando café puro.

Depois, sentindo fome, voltou para pedir o pão à moça e canta:

Moça me dê meu pão
Pão que o padeiro me deu
O padeiro vendeu meu cesto
Cesto que cesteiro me deu
O cesteiro quebrou minha navalha
Navalha que a lavadeira me deu
Lavadeira gastou meu sabão
Sabão que parede me deu
Minha vó comeu minha coca
Coca recoca que o mato me deu

A moça havia comido o pão; não tendo outra coisa para lhe dar, deu-lhe uma viola.

O menino ficou contentíssimo; subiu com a viola numa árvore e se pôs a cantar:

De uma coca fiz angu
De angu fiz sabão
De sabão fiz uma navalha
Duma navalha fiz um cesto
De um cesto fiz um pão
De um pão fiz uma viola
Dinguelingue que eu vou para Angola

*

O macaco e o confeito

Macaco guariba foi lavar a casa e achou um vintém. Comprou um vintém de confeito, subiu no pau, e lá ficou comendo. Mas macaco não tem modos, pula daqui, pula dali, acabou derrubando o confeitinho dentro de um oco da árvore. Enfiou a mão, pelejou para tirar, não conseguiu, foi direto dali para o ferreiro e pediu que lhe fizesse um machado, para tirar o confeito do buraco.

— Sem dinheiro não faço machado nenhum.

— Faz — gritou o macaco — Vou contar ao rei.

Foi. Entrou no palácio, dando pulos e fazendo micagens e tropelias.

— Senhor rei — pediu —, mande o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau para tirar o confeito que caiu no oco.

O rei, nem como coisa. O macaco foi falar com a rainha:

— Senhora rainha, mande o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar meu confeito que caiu no oco.

— Mas é petulante esse macaco — disse a rainha, e não fez caso dele.

O macaco foi falar com o rato.

— Rato, roa a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar meu confeitinho que caiu no oco.

— Macaco mais bobo! — comentou o rato. Estava comendo queijo e nem se incomodou.

O macaco foi falar com o gato.

— Gato, mande o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar meu confeitinho que caiu no oco.

— Que besteira! — disse o gato, e nem se mexeu.

O macaco foi falar com o cachorro.

— Cachorro, mande o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeitinho que caiu no oco.

O cachorro deu um latido de impaciência e nem se incomodou.

O macaco foi falar com o cacete.

— Cacete, mande o cachorro mandar o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeito que caiu no oco.

— Ah! Ah! — fez o cacete.

O macaco foi falar com o fogo.

— Fogo, mande o cacete mandar o cachorro mandar o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeitinho que caiu no oco.

— Saia daqui — disse o fogo.

— O macaco foi falar com a água.

— Água, mande o fogo mandar o cacete mandar o cachorro mandar o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeitinho que caiu no oco.

— Bicho impertinente! — xingou a água.

O macaco foi falar com o boi.

— Boi, mande a água mandar o fogo mandar o cacete mandar o cachorro mandar o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeitinho que caiu no oco.

— Suma da minha vista — disse o boi, e continuou ruminando o seu capim.

O macaco foi falar com o homem.

— Homem, mande o boi mandar a água mandar o fogo mandar o cacete mandar o cachorro mandar o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeitinho que caiu no oco.

O homem resmungou:

— Hum!

O macaco foi falar com a morte. Lá estava ela no seu trono de ossos, pavorosa.

— Morte, mande o homem mandar o boi mandar a água mandar o fogo mandar o cacete mandar o cachorro mandar o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeitinho que caiu no oco.

A morte, que não estava de bom humor, pegou a foice e avançou no homem.

— Não me mate!

— Então abata o boi!

O homem foi pra cima do boi.

— Não me abata, homem!

— Então beba a água.

— Não me beba — disse a água.

— Então apague o fogo.

— Não me apague — disse o fogo.

— Então queime o cacete.

— Não me queime — disse o cacete.

— Então bata no cachorro.

— Não me bata — uivou o cachorro.

— Então morda o gato.

— Não me morda — miou o gato.

— Então morda o rato.

— Não me morda — guinchou o rato.

— Então roa a roupa da rainha.

O ratinho subiu no guarda-roupa da rainha e foi no vestido mais bonito: roquerroquerroque…

A rainha gritou:

— Não roa a minha roupa!

— Então mande o rei mandar o ferreiro fazer um machado para o macaco cortar o pau e tirar o confeitinho que caiu no oco.

A rainha mandou o rei, o rei mandou o ferreiro, o ferreiro fez o machado. O macaco derrubou a árvore, abriu o tronco, achou o confeitinho e foi embora dando pulos e fazendo trejeitos.

*

O menino e a vó gulosa

O menino só possuía um guiné. Numa ocasião de necessidade matou o guinezinho e saiu pra adquirir farinha. Quando voltou, a avó, que morava com ele, comera o guinezinho inteiro. O menino reclamou muito e avó lhe deu um machadinho.

Saiu o menino pela estrada e encontrou o pica-pau furando uma árvore com o bico.

— Pica-pau! Não se usa mais o bico para cortar pau. Usa-se um machadinho como esse…

— Oh! Menino! Empreste-me o machadinho.

O menino emprestou o machadinho ao pica-pau e este tanto bateu que o quebrou.

O menino recomeçou a choradeira:

— Pica-pau, quero meu machadinho que minha avó me deu, matei meu guinezinho e minha avó comeu.

O pica-pau deu ao menino um cabacinho de mel de abelhas. O menino continuou a viagem e lá adiante viu o papa-mel lambendo um barreiro que só tinha lama.

— Papa-mel! Não se usa mais beber lama. Usa-se beber um melzinho como esse…

— Oh! Menino! Me dê um pouquinho desse mel!

Que pouquinho foi esse que o papa-mel engoliu todo o mel e ainda quebrou o cabacinho. O menino abriu a boca no mundo, berrando. O papa-mel presenteou-o com uma linda pena de pato. O menino seguiu.

Lá na frente encontrou um escrivão escrevendo com uma pena velha e estragada.

— Escrivão! Não se usa mais escrever com uma pena estragada como essa e sim com uma boa e novinha como esta aqui…

— Oh! Menino! Empresta-me tua pena…

O bobo do menino emprestou a pena. Num instante o escrivão estragou a pena. O menino cai no prato. O escrivão lhe deu uma corda.

Depois de muito andar, o menino avistou um vaqueiro tentando laçar um boi com um cipó do mato.

— Vaqueiro! Não se usa mais laçar boi com cipó e sim com uma corda como essa.

— Oh! Menino! Me empresta essa corda.

O menino, vai, emprestou. Num minuto o vaqueiro laçou o boi mas rebentou a corda.

Novo chororô do menino. O vaqueiro lhe deu um boi.

O menino viu a onça, uma enorme, comento um resto de carniça.

— Onça! Não se usa mais comer carniça e sim um boi como esse meu!

— Oh! Menino! Me dê o seu boi!

E comeu o boi. O menino ficou no soluço, choramingando e pedindo o boi:

— Onça, me dê meu boi que o vaqueiro me deu; o vaqueiro quebrou minha cordinha, a cordinha que o escrivão me deu; o escrivão quebrou minha peninha, a peninha que o papa-mel me deu; o papa-mel bebeu meu melzinho, o melzinho que o pica-pau me deu; pica-pau quebrou meu machadinho, o machadinho que minha avó me deu; matei meu guinezinho e minha avó comeu!

A onça como não tinha coisa alguma para dar ao menino, disse, rosnando:

— O boi foi pouco e vou comer você!

E comeu o menino.

*

A formiguinha
Diz que era um dia que era uma formiguinha, foi comer pela manhã. Quando ela estava comendo, a neve pegou o pé. Ela disse:

— Neve, tu é tão valente
Que o meu pé prende?

A neve disse:

— Mais valente é o sol
Que me derrete

Ela foi à procura do sol:

— Ó, sol, tu é tão valente
Que derrete a neve
Que o meu pé prende?

O sol disse:

— Mais valente é a parede
Que me encobre

Ela foi para a parede:

— Ô, parede, tu é tão valente
Que encobre o sol
O sol derrete a neve
E a neve o meu pé prende?

A parede disse:

— Mais valente é o rato
Que me rói

Ela foi à procura do rato:

— Ô, rato, tu é tão valente
Que rói a parede
A parede encobre o sol
O sol derrete a neve
E a neve o meu pé prende?

O rato disse:

— Mais valente é o gato
Que me come

A formiguinha disse:

— Ô gato, tu é tão valente
Que come o rato
O rato rói a parede
A parede encobre o sol
O sol derrete a neve
E a neve que o meu pé prende?

Ele disse:

— Mais valente é a cobra
Que me morde

— Ô, cobra, tu é tão valente
Que morde o gato
O gato que come o rato
O rato que rói a parede
A parede que encobre o sol
O sol que derrete a neve
E a neve que o meu pé prende?

— Mais valente é o pau
Que me mata

— Ô, pau, tu é tão valente
Que mata a cobra
A cobra que morde o gato
O gato que come o rato
O rato que rói a parede
A parede que encobre o sol
O sol que derrete a neve
E a neve que o meu pé prende?

— Mais valente é o fogo
Que me queima

— Ô, fogo, tu é tão valente
Que queima o pau
O pau que mata a cobra
A cobra que morde o gato
O gato que come o rato
O rato que rói a parede
A parede que encobre o sol
O sol que derrete a neve
A neve que o meu pé prende

— Mais valente é a água
Que me apaga

— Ô, água, tu é tão valente
Que apaga o fogo
O fogo queima o pau
O pau que mata a cobra
O gato que come o rato
O rato que rói a parede
A parede que encobre o sol
O sol que derrete a neve
A neve que o meu pé prende?

— Mais valente é o boi
Que me bebe

— Ô, boi, tu é tão valente
Que bebe a água
A água apaga o fogo
O fogo que queima o pau
O pau que mata a cobra
A cobra que morde o gato
O gato que come o rato
O rato que rói a parede
A parede que encobre o sol
O sol que derrete a neve
E a neve que o meu pé prende?

— Mais valente é o homem
Que me mata

— Ô, homem, tu é tão valente
Que mata o boi
O boi que bebe a água
A água que apaga o fogo
O fogo que queima o pau
O pau que mata a cobra
A cobra que morde o gato
O gato que come o rato
O rato que rói a parede
A parede que encobre o sol
O sol que derrete a neve
E a neve que o meu pé prende?

— Mais valente é Deus
Que me criou

— Ô, Deus, vós é tão valente
Que mata o homem
O homem que mata o boi
O boi que bebe a água
A água que apaga o fogo
O fogo que queima o pau
O pau que mata a cobra
A cobra que morde o gato
O gato que come o rato
O rato que rói a parede
A parede que encobre o sol
O sol que derrete a neve
E a neve que o meu pé prende?

Ele disse:

— Ô xente!… que desaforo você vim aqui…

Aí Deus pegou, deu um cocorote — pá! — na cabeça da formiguinha… se retorceu toda, quando caiu em baixo… esses formigueiros todos que têm pelo mundo foi gerado dessa formiguinha.

Versão procedente de Maruim, SE, colhida em Aracaju, em 14 de abril de 1972. Informante: Dona Caçula.

*

Uma história sem fim

Um fazendeiro muito rico tinha um bando de patos em número que não se podia contar. Numa manhã, o menino encarregado de levar os patos para a lagoa encontrou o córrego cheio d’água, das chuvas caídas na noite anterior. Como era preciso chegar à lagoa, o menino levou os patos para o córrego e obrigou-os a atravessar o riachinho.

— E então?

— Os patos começaram nadando, nadando, atravessando o córrego.

— E então?

— Deixe os patos atravessarem o córrego.

— E depois?

— Deixe os patos atravessarem o córrego.

— E depois?

— Deixe os patos atravessarem o córrego…

— E depois?

*

A casa que Pedro fez

Esta é a casa que Pedro fez.

Este é o trigo que está na casa que Pedro fez.

Este é o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

Este é o gato que matou o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

Este é o cão que espantou o gato que matou o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

Esta é a vaca de chifre torto que atacou o cão que espantou o gato que matou o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

Esta é a moça mal vestida que ordenhou a vaca de chifre torto que atacou o cão que espantou o gato que matou o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

Este é o moço todo rasgado, noivo da moça mal vestida que ordenhou a vaca de chifre torto que atacou o cão que espantou o gato que matou o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

Este é o padre de barba feita que casou o moço todo rasgado, noivo da moça mal vestida que ordenhou a vaca de chifre torto que atacou o cão que espantou o gato que matou o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

Este é o galo que cantou de manhã que acordou o padre de barba feita que casou o moço todo rasgado, noivo da moça mal vestida que ordenhou a vaca de chifre torto que atacou o cão que espantou o gato que matou o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

Este é o fazendeiro que espalhou o milho para o galo que cantou de manhã que acordou o padre de barba feita que casou o moço todo rasgado, noivo da moça mal vestida que ordenhou a vaca de chifre torto que atacou o cão que espantou o gato que matou o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

*

A bota

Meus senhores, eu sou a bota
Meus senhores, eu sou a bota
Que leva a vidinha fazendo patota
Que leva a vidinha fazendo patota

Meus senhores, eu sou a porta
Meus senhores, eu sou a porta
Que leva a vidinha fazendo patota
Que leva a vidinha fazendo patota

Meus senhores, eu sou a corda
Meus senhores, eu sou a corda
Que marre a bota e botei na porta
Que leva a vidinha fazendo patota
Que leva a vidinha fazendo patota

Meus senhores, eu sou o sebo
Meus senhores, eu sou o sebo
Que passe na corda, que marre a bota
Que botei na porta
Que leva a vidinha fazendo patota
Que leva a vidinha fazendo patota

Meus senhores, eu sou o rato
Meus senhores, eu sou o rato
Que roeu o sebo, que passe na corda
Que marre a bota, que botei na porta
Que leva a vidinha fazendo patota
Que leva a vidinha fazendo patota

Meus senhores, eu sou o gato
Meus senhores, eu sou o gato
Que comeu o rato, que roeu o sebo
Que passe na corda, que marre a bota
Que botei na porta
Que leva a vidinha fazendo patota
Que leva a vidinha fazendo patota

Meus senhores, eu sou o cachorro
Meus senhores, eu sou o cachorro
Que comeu o gato, que matou o rato
Que roeu o sebo, que passe na corda
Que marre a bota, que botei na porta
Que leva a vidinha fazendo patota
Que leva a vidinha fazendo patota

Meus senhores, eu sou o pau
Meus senhores, eu sou o pau
Que matou o cachorro, que comeu o gato
Que matou o rato, que roeu o sebo
Que passe na corda, que marre a bota
Que botei na porta
Que leva a vidinha fazendo patota
Que leva a vidinha fazendo patota

Meus senhores, eu sou o facão
Meus senhores, eu sou o facão
Que cortô o pau, que mata o cachorro
Que comeu o gato, que matou o rato
Que roeu o sebo, que passe na corda
Que marre a bota, que botei na porta
Que leva a vidinha fazendo patota
Que leva a vidinha fazendo patota

Meus senhores, eu sou a mulher
Meus senhores, eu sou a mulher
Que pega o facão, que cortô o pau
Que matou o cachorro, que comeu o gato
Que matou o rato, que roeu o sebo
Que passe na corda, que marre a bota
Que botei na porta
Que leva a vidinha fazendo patota
Que leva a vidinha fazendo patota

Meus senhores, eu sou o homem
Meus senhores, eu sou o homem
Que vou dar na mulher, que pegou o facão
Que corto o pau, que mato o cachorro
Que comeu o gato, que matou o rato
Que roeu o sebo, que passe na corda
Que marre a bota, que botei na porta
Que leva a vidinha fazendo patota
Que leva a vidinha fazendo patota

*

Outra história sem fim

Era uma vez, três, um polaco e um português. O polaco puxou a faca, o português arrepiou. Pensa que matou? Não. Vou contar o que se passou…

Era uma vez, três, um polaco e um português. O polaco puxou a faca, o português arrepiou. Pensa que matou? Não. Vou contar o que se passou…

*

A morte de dom Ratinho

Dom Ratinho morreu
Dona Carochinha chorou
A porta abriu e fechou
A laranjeira desfolhou-se
O passarinho depenou-se
O cavalo perdeu o pelo
O boi perdeu o chifre
O rio secou a água
O menino quebrou o pote
E o mestre passou-lhe bolos
O que tendes minha porta
Perguntou a laranjeira
Que estais abrindo e fechando?
Pois não, minha laranjeira:
Dom Ratinho morreu
Dona Carochinha chorou
A porta abriu e fechou…
E responde a laranjeira:
E eu também de sentimento
Deixo cair minhas folhas
Vem o passarinho e pergunta:
O que tendes, laranjeira
Que estais tão desfolhada?
Pois não, meu passarinho
Dom Ratinho morreu
Dona Carochinha chorou
A porta abriu e fechou
E eu assim me desfolhei
Respondeu o passarinho:
E eu também de sentimento
Deixarei as minhas penas
Vem o cavalo e perguntou:
O que tendes laranjeira
Qu’inda ontem tão folhada
E hoje tão desfolhada?
E por que não, meu cavalo?
Dom Ratinho morreu
Dona Carochinha chorou
A porta abriu e fechou
A laranjeira desfolhou-se
E o passarinho depenou-se
Responde agora o cavalo:
E eu também de sentimento
Deixo cair o meu pelo
Vem o boi e pergunta:
O que tendes laranjeira
Que estais tão desfolhada?
E por que não, meu boi
Dom Ratinho morreu
Dona Carochinha chorou
A porta abriu e fechou
A laranjeira desfolhou-se
E o passarinho depenou-se
E o cavalo perdeu o pelo
Respondeu então o boi:
E eu também de sentimento
Deixo cair o meu chifre
Passa o rio e pergunta:
O que tendes laranjeira
Que estais tão desfolhada?
E ela responde ao rio:
Dom Ratinho morreu
Dona Carochinha chorou
A porta abriu e fechou
A laranjeira desfolhou-se
O passarinho depenou-se
O cavalo perdeu o pelo
E o boi perdeu o chifre
Respondeu então o rio:
E eu também de sentimento
Secarei as minhas águas
Vem o menino buscar água
E não a vendo isto pergunta:
O que tendes belo rio
Que ainda ontem tão cheio
E hoje assim tão sequinho?
E o rio respondeu:
Por que não, caro menino?
Dom Ratinho morreu
Dona Carochinha chorou
A porta abriu e fechou
A laranjeira desfolhou-se
O passarinho depenou-se
O cavalo perdeu o pelo
O boi perdeu o chifre
E o rio secou as águas
Responde então o menino:
E eu também de sentimento
O meno pote vou quebrar
Chega o menino à escola
E não levando o pote d’água
Por ele pergunta o mestre
E o menino assim responde:
Dom Ratinho morreu
Dona Carochinha chorou
A porta abriu e fechou
A laranjeira desfolhou-se
O passarinho depenou-se
O cavalo perdeu o pelo
O boi perdeu o chifre
E o rio secou as águas
E eu quebrei o meu pote
Então respondeu o mestre
Cheio de raiva e rancor:
E eu também de sentimento
Lasco-lhe as mãos de bolos

*

 

(As duas versões de O macaco e o rabo estão em Romero, Sílvio. Contos populares do Brasil. Rio de Janeiro, Livraria José Olímpio Editora, 1954 (Coleção Documentos Brasileiros). A formiguinha e a neve veio de Frade, Cáscia (org.) Contos populares fluminenses. Rio de Janeiro, Secretaria de Estado de Cultura; INEPAC, sd, v.1, p.13-16; A história da coca foi publicada por Pedreira, Ester. “História da coca”. Revista Brasileira de Folclore, ano 11, nº 31, Rio de Janeiro, setembro/dezembro de 1971, p.319-322; O macaco e o confeito, versão de Guimarães, Ruth (org.). Lendas e fábulas do Brasil. Clássicos da infância. São Paulo, Círculo do Livro, sd; O menino e a vó gulosa foi registrado por Cascudo, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil. Belo Horizonte; São Paulo, Itatiaia, Editora da Universidade de São Paulo, 1986. Reconquista do Brasil, 2ª série, 96; A formiguinha é de Lima, Jackson da Silva. O folclore em Sergipe; 1. Romanceiro. Rio de Janeiro, Livraria Cátedra; Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1977, p.417-421; A casa que Pedro fez foi contada por Ruiz, Corina Maria Peixoto. Didática do folclore. Curitiba, Editora Arco-Íris, 1995; A bota está em Lima, Rossini Tavares de. Abecê do folclore. 4ª ed. São Paulo, Ricordi, sd, p.224-225; A morte de dom Ratinho foi colhida por Costa, F. A. Pereira da. Folclore pernambucano; subsídios para a história da poesia popular em Pernambuco. Recife, Arquivo Público Estadual, 1974)