Categoria: História Pra Contar

História pra Contar: O Homem que queria laçar Deus
História pra Contar: O Homem que queria laçar Deus

Havia um homem que era muito pobre e com muita família. No lugar em que morava, havia uma estrada muito grande e se dizia que por ali passava Deus e o mundo. Ouvindo dizer isto o homem, e querendo saber a razão por que Deus o tinha feito tão pobre, armou um laço e assentou-se na estrada à espera de Deus.

Levou assim muito tempo, e todos que passavam perguntavam o que estava ali fazendo. Ele respondia que queria pegar Deus. Afinal, estando já desenganado de que nada fazia, já ia para casa, quando apareceu-lhe um velhinho e deu-lhe quatro vinténs, dizendo que só comprasse um objeto que custasse aqueles quatro vinténs. Nem mais barato, nem mais caro.

O homem foi para casa muito contente, imaginando no que havia de comprar com aquele dinheiro. Lembrou-se de um compadre negociante rico que tinha, o qual estava para fazer viagem a buscar sortimentos para sua loja. Dirigiu-se o compadre pobre para a casa do compadre rico e pediu-lhe que comprasse qualquer coisa que custasse aqueles quatro vinténs.

Fez o compadre a sua viagem e chegando na cidade não encontrou nada por aquele preço. Foi ao mercado e ainda nada. Só encontrava objetos por três vinténs, um tostão, meia pataca, dois mil réis, três, etc.

Ia já para casa, quando ouviu um menino mercar: “Quem quer comprar um gato? Custa quatro vinténs.” O homem ficou muito contente e comprou o gato. Era um animal raro naquele lugar. Chegando o negociante em casa do amigo onde estava hospedado, e que também era do comércio, este ficou desejoso de possuir aquele animal e pediu ao amigo para deixar o gato passar a noite na loja, onde havia muito rato, que lhe davam um grande prejuízo.

No outro dia quando abriram a casa, tinha uma quantidade tão grande de ratos mortos que causou admiração. Aí o negociante dono da casa ofereceu uma grande soma de dinheiro ao amigo pelo gato.

Este recusou, dizendo ser o gato de um seu compadre muito pobre, que o tinha encarregado de comprar um objeto qualquer com quatro vinténs. Instou muito o negociante e afinal ofereceu tanto dinheiro que o amigo não pôde recusar e vendeu o gato. Voltou o compadre rico de sua viagem, mas chegando em casa teve tanta pena de dar o dinheiro ao compadre, que o enganou com uma peça de chita, muito ordinária, dizendo ter comprado aquilo com os quatro vinténs.

O compadre pobre ficou muito contente e, chegando em casa, a mulher desmanchou logo a fazenda em camisas para os filhos. Mas como Deus não quer nada mal feito, assim que o compadre saiu com a peça de chita, o rico caiu com uns ataques muito fortes e já para morrer. A mulher o aconselhou a que se confessasse, que ele estava muito mal, e chegando o padre e sabendo do segredo, mandou-o restituir todo o dinheiro do compadre pobre. Este veio a chamado do rico, que logo melhorou, só com a presença dele.

Mas o ricaço, não tendo coragem de entregar o dinheiro, ainda enganou o outro com outra peça de fazenda ordinária.

O pobre não cabia de si de contente, e mal tinha saído, já o rico estava outra vez morre não morre. É chamado de novo a toda pressa o compadre pobre, sendo ainda uma vez enganado com outra peça de fazenda, mas desta vez o rico já estava quase expirando, e não teve outro remédio senão declarar ao companheiro que aquelas barricas que ali estavam eram dele com todo o dinheiro que continham.

Ouvindo isto, o pobre quase que não se segurava em pé, tal foi o choque que sentiu, e como louco correu a dar novas à família, que não sabia como explicar tamanha felicidade. Houve oito dias de festas e o pobre ficou logo cercado de muitos amigos, entre eles o rico que ficou bom da moléstia esquisita, assim que entregou o dinheiro.

(ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro; cantos e contos populares do Brasil. 3 v. Rio de Janeiro, Livraria José Olímpio Editora, 1954. Coleção Documentos Brasileiros)

História pra Contar: A camisa do homem feliz
História pra Contar: A camisa do homem feliz

Gravemente enfermo, caíra prostrado numa cama o poderoso sultão Abou-Malek. De todas as partes vieram remédios, sábios e curandeiros; fizeram-se preces públicas; prometeram-se honras e fortunas a quem o salvasse.

Apareceu um dia no palácio uma velhinha, declarando que o sultão só se restabeleceria, ficando radicalmente curado, se vestisse a camisa de um homem feliz.

Imediatamente partiram mensageiros a procurar esse homem feliz, com ordem de lhe comprar a camisa por qualquer preço, ou arrancá-la à força, se ele a não quisesse ceder.

Principiando pela capital do reino, os emissários foram bater nos palácios dos ricos; depois dirigiram-se aos remediados; falaram por último com os pobres.

Seguiram, então, pelas pequenas cidades e aldeias, conversando com os camponeses. Passaram por todas as vilas, esquadrinharam todos os lugares.

Em parte alguma encontraram um só homem feliz.

Os ricos queriam se mais ricos ainda; os pobres desejavam fortuna; os doentes queriam saúde; soldados, oficiais, padres, operários, lavradores — todos tinham ambições e desejos.

Os mensageiros, inteiramente desanimados, regressaram para a capital.

Uma tarde, passando por uma vasta campina, encontraram um pastor sentado à sombra de uma copada árvore, tocando flauta. Ao longe, o rebanho pastava tranqüilamente.

A fisionomia do pastorzinho respirava honestidade, calma e contentamento.

Um deles lembrou-se de lhe dirigir a palavra:

— Vejo-o sentado aí, tão a seu gosto, que sou capaz de apostar que você nada mais deseja, camarada.

— E se o senhor apostasse, ganharia pela certa, respondeu o pastor.

— Como? tornou o outro admirado. Então, você nada ambiciona? nada quer?

— Nada.

— Não desejaria ser rico? Ser nobre? Viver num palácio? Morar na corte?

— Nada disso dá a felicidade que gozo!

— Mas você é verdadeiramente feliz? insistiu o mensageiro.

— Já lhe disse: sou feliz e nada quero.

— Então há de me fazer um favor: preciso muito da sua camisa.

— Minha camisa? perguntou o pastorzinho, admirado.

— Sim, sua camisa.

— Ah! isso é coisa que lhe não posso dar.

— Pois compro-a.

— Também não posso vender.

— Faça preço; e, por mais absurda que seja a quantia, nós lhe pagaremos.

— Mas se eu já lhe disse que não posso dar nem vender a minha camisa!… falou o pastorzinho.

— Será, então, à força…, disse o mensageiro.

E ele e os outros, atiraram-se sobre o pastor e arrancaram-lhe o paletó.

— Ah!… O homem feliz não tinha camisa, e por isso não podia vendê-la nem dá-la!…

(Pimentel, Figueiredo. Histórias da baratinha. Rio de Janeiro, Livraria Garnier, 1994, p.95-97)
História pra Contar: O Bicho Folharal
História pra Contar: O Bicho Folharal

Cansada de ser enganada pela raposa e de não poder segurá-la, a onça resolveu atraí-la à sua furna. Fez para esse efeito correr a notícia de que tinha morrido e deitou-se no meio da sua caverna, fingindo-se cadáver. Todos os bichos vieram olhar o seu corpo, contentíssimos. A raposa também veio, mas prudentemente de longe. E por trás de outros animais gritou:

– Minha avó, quando morreu, espirrou três vezes. Espirrar é o sinal verdadeiro da morte.

A onça, para mostrar que estava morta de verdade, espirrou três vezes. A raposa fugiu, às gargalhadas.

Furiosa, a onça resolveu apanhá-la ao beber água. Havia seca no sertão e somente uma cacimba ao pé duma serra tinha ainda um pouco de água. Todos os animais selvagens eram obrigados a beber ali. A onça ficou à espera da adversária, junto da cacimba, dia e noite.

Nunca a raposa curtiu tanta sede. Ao fim de três dias já não agüentava mais. Resolveu ir beber, usando duma astúcia qualquer. Achou um cortiço de abelhas, furou-o e com o mel que dele escorreu untou todo o seu corpo. Depois, espojou-se num monte de folhas secas, que se pregaram aos seus pêlos e cobriram-na toda.

Ao lusco-fusco, foi à cacimba. A onça olhou-a bem e perguntou-lhe:

– Que bicho és tu que eu não conheço, que eu nunca vi?

Respondeu cinicamente:

– Sou o bicho folharal.

– Podes beber.

Desceu a rampa do bebedouro, meteu-se na água, sorvendo-a com delícia e a onça lá em cima, desconfiada, vendo-a beber demais, como quem trazia sede de vários dias, murmurava:

– Quanto bebes, folharal!

Mas a água amoleceu o mel e as folhas foram caindo às porções. Quando fartara as entranhas ressequidas, a última folha caíra, a onça reconhecera a inimiga esperta e pulara ferozmente sobre ela, mas a raposa conseguira fugir.

(BARROSO, Gustavo. Ao som da viola. Rio de Janeiro, 1921. In CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil)

História pra Contar: Lobisomem
História pra Contar: Lobisomem

Franklin J. Cascaes

(Recolhida em Santo Antonio de Lisboa, e narrada pelo sr. L. G.)

Contou-me o narrador desta história que seus antepassados acreditavam que a origem do lobisomem e da bruxa, eram idênticas.

Quanto às suas atividades, acreditavam serem diferentes. Consideravam o lobisomem um personagem feroz e muito agressivo, principalmente, quando apanhado praticando as suas estrepolias demoníacas.

E continuou narrando-me o sr. L. G., que um seu parente que era pescador, certa ocasião foi assaltado por um enorme cachorro, ao ter chegado na praia, quando voltava de uma pescaria, à noite.

Para defender-se do agressivo animal, seu parente apanhou um remo da canoa e deu-lhe uma lambada, ferindo-o.

O cachorro ao ser ferido transformou-se numa criatura humana. Seu parente assistiu emocionado a transformação daquele animal feroz em uma criatura humana, na qual ele reconheceu a pessoa do seu compadre que era muito descorado e preguiçoso.

O ex-lobisomem, fingidamente, caiu de joelhos aos pés do seu parente e agradeceu-lhe muito contrito, o grande favor que ele lhe tinha prestado naquele momento, curando-lhe o maldito fardo que o acompanhava por muitos anos, desde o tempo da sua meninice.

Ao terminar o falso agradecimento, ergueu-se e disse o seguinte para o seu benfeitor: Compadre, em sinal de gratidão por este ato humano que praticaste para comigo, vou presentear-lhe com um lindo objeto de estimação que possuo há muitos anos.

Para isto, peço-te que esperes um momentinho aqui na praia, enquanto eu vou em casa buscá-lo.

Disse-me o sr. L. G., que o seu parente conhecia muito bem as astúcias daquela espécie de gente descorada e lorpa, que transformava-se em animais irracionais, de acordo com as leis do reino do capeta.

Por esta razão, quando o ex-lobisomem dirigiu-se para casa, seu parente tomou umas peças de roupas, molhadas que tinha na canoa, e com elas armou um judas na praia.

Em seguida, escondeu-se dentro de uma macegas perto do local da tragédia e ficou na expectativa.

Mas, como é com a morte que os lobisomem costumam recompensar às pessoas que arrancam-lhes o terrível fardo demoníaco, seu parente viu-o surgir na praia, ostentando uma espingarda e com ela alvejar o judas até prostrá-lo por terra, pensando que fosse o seu benfeitor.

Os vizinhos que foram acordados com os estampidos da arma de fogo, correram espavoridos em direção ao local da tragédia.

Quando chegaram na praia encontraram o ex-lobisomem de arma em punho gritando em altas vozes que tinha abatido a tiros o maior inimigo que possuía neste mundo.

Depois de terem escutado as palavras do ex-lobisomem, dirigiram-se para o local onde a vítima estava abatida.

Para surpresa de todos e do lobisomem, o homem que encontraram era o judas que seu parente tinha armado com as peças de roupa molhadas, e com o remo da canoa.

Por intermédio daquela armadilha, todas as pessoas que achavam-se ali presente naquele momento ficaram sabendo que o assassino de judas era um autêntico lobisomem, e que tinha sido apanhado, inteligentemente, pelo seu parente.

(Cascaes, Franklin J. “O lobishomem”. A Gazeta. Florianópolis, 06 de dezembro de 1957)
Galeria de Mitos brasileiros
Galeria de Mitos brasileiros

Os mitos são narrativas que possuem um forte componente simbólico. Como os povos da antiguidade não conseguiam explicar os fenômenos da natureza, através de explicações científicas, criavam mitos com este objetivo: dar sentido as coisas do mundo. Os mitos também serviam como uma forma de passar conhecimentos e alertar as pessoas sobre perigos ou defeitos e qualidades do ser humano. Deuses, heróis e personagens sobrenaturais se misturam com fatos da realidade para dar sentido a vida e ao mundo.

Vale destacar que essa galeria está em construção e se você é apaixonado como nós e quiser contribuir é só mandar uma mensagem. 😉

Pisadeira

Ilustração de Marcos Jardim“Esta é ua muié muito magra, que tem os dedos cumprido e seco cum cada unhão! Tem as perna curta, cabelo desgadeiado, quexo revirado pra riba e nari magro munto arcado; sombranceia cerrado e zóio aceso… Quando a gente caba de ciá e vai durmi logo, deitado de costa, ele desce do teiado e senta no peito da gente, arcano… arcano… a boca do estámo… Purisso nunca se deve dexá as criança durmi de costa.”
(Cornélio Pires. Conversas ao pé do fogo)Ela vive pelos telhados, sempre à espreita. Quando se janta e vai dormir com a barriga ainda cheia, deitando-se de barriga para cima, é chegada a hora da pisadeira entrar em ação. Ela desce de seu esconderijo e senta-se ou pisa sobre o peito da pessoa adormecida. E pisa, que pisa, com um peso infernal. Não há o que se possa fazer e o pior é que, na verdade, a vítima tem consciência de tudo o que está ocorrendo, pois entra em um estado letárgico onde não está nem totalmente adormecida, nem acordada a ponto de se mover e despertar.

A pisadeira é uma mulher muito magra — Alceu Maynard Araújo a descreve como uma negra gorda, muito pesada, — que tem os dedos compridos e secos, com unhas enormes, sujas e amareladas. As pernas são curtas e o cabelo desgrenhado. Um narigão, magro e muito arcado como um gavião. Os olhos são vermelho fogo, malignos e arregalados. O queixo é revirado para cima e a boca sempre escancarada, com dentes esverdeados e à mostra. Nunca ri, gargalha. Uma gargalhada estridente e horripilante.

É mito de origem portuguesa que ocorre em São Paulo e parte de Minas Gerais. Entretanto, a crença que uma intervenção maléfica de um fantasma ou demônio seja a causa do pesadelo é comum a quase todos os povos do planeta desde os tempos da Antigüidade. Em Portugal, é o fradinho da mão furada. No Nordeste brasileiro, os sertanejos acreditam numa velha ou num velho de barba branca que vem lhes arranhar o rosto durante o sono.

Benedito Cleto registra parte de uma oração contra pisadeira:

“São Vicente com São Simão me disse que a pisadeira tem a mão furado.
São Vicente com São Simão me disse que a pisadeira tem os olho arregalado.
São Vicente com São Simão me disse que a pisadeira tem o beiço arrevirado.
São Vicente com São Simão me disse que a pisadeira tem o dente arreganhado…”

Caboclo-d’água

Ilustração de Marcos Jardim“O senhô pode me creiá. Eu e meus dois menino, numa pescaria, num pegamo um caboclo pro causa desta minha careca. Eles três tavam numa canoa e, noutra, eu mais o fio mais novo, o caçula, de uns dezoito janeiros de idade. Nisso, donde nós tava, nós escutou os menino gritando demais. Nós remou depressa pra lá, mas quando já tava pertinho de chegá nós ouviu eles gritá: “Sorta! Sorta! que é o velho nosso pai”. E nós viu, no escuro que fazia, o bicho rolar pra dentro d’água, maretando o rio. Pois num foi que os bobos dos meninos deixaro se encantá a ponto de confundi eu com o danado? Vendo a quereca dele lumiá na luz dos fachos, pensaro que o bicho era eu e gritaram pra soltar. Encantado como eles ficou, até esquecero que eu num era nenhum bocó pra ficar sem gritar com aquela amarração que tinham fazido a rede, embaraiando o sem-vergonha.” (J. A. Macedo, 1956)

O caboclo-d’água, também chamado negro-d’água e bicho-d’água, é um dos mitos aquáticos mais populares na região do vale do rio São Francisco. Ninguém sabe de onde surgiu. Vive nas barrancas e alagadiços. Segundo as descrições mais comuns, é baixo, troncudo, musculoso, muito forte, tem a pele cor de bronze e um só olho no meio da testa. Apesar de seu tipo físico, movimenta-se de forma muito rápida e ágil. Às vezes sai do rio e caminha pela terra, geralmente para praticar alguma vingança ou fazer algum favor, mas nunca se afasta muito das margens. Para muitos, é um só e possui poderes para estar em vários lugares ao mesmo tempo.

Dizem que possui o temperamento enfezado e não nutre grandes simpatias para com os pescadores e remeiros. Agarra o fundo das canoas e barcos, balançando-os até os virar ou encalhando-os. Seu corpo é à prova de balas. Para evitar encontrá-lo, deve-se fincar uma faca no fundo da embarcação. Porém, se for bem tratado, o caboclo torna-se benfazejo, ajudando nas pescarias e evitando enchentes. Para agradá-lo, basta oferecer-lhe fumo.

Quibungo

Ilustração de Marcos Jardim“Ele então disse:
— Então, quero comê-los auê
como gérê, como gérê, como érá?Ela respondeu:
— Pode comê-los, embora, auê
como gérê, como gérê, como érá.

E ele comeu todos os três, jogando-os no buraco das costas. Depois, perguntou de quem era a mulher, e a mulher respondeu que era de seu marido. O quibungo resolveu-se comê-la também, mas quando ia jogá-la no buraco, entrou o marido armado de uma espingarda de que o quibungo tem muito medo.”
(Nina Rodrigues)

É uma espécie de monstro, meio homem, meio bicho. Tem a cabeça enorme e um grande buraco no meio das costas, que se abre e fecha conforme ele abaixe e levante a cabeça. Come pessoas, especialmente crianças e mulheres, abrindo o buraco e atirando-as dentro dele.

O quibungo, também chamado kibungo ou chibungo, é mito de origem africana que chegou ao Brasil através dos bantus e se fixou no estado da Bahia. Suas histórias sempre surgem em um conto romanceado, com trechos cantados, como é comum na literatura oral da África. Em Angola e Congo, quibungo significa “lobo”.

Curiosamente, segundo as observações de Basílio de Magalhães, as histórias do quibungo não acompanharam o deslocamento do elemento bantu no território brasileiro, ocorrendo exclusivamente em terras baianas. Para Luís da Câmara Cascudo, apesar da influência africana ser determinante, “parece que o quibungo, figura de tradições africanas, elemento de contos negros, teve entre nós outros atributos e aprendeu novas atividades”.

Extremamente voraz e feio, não possui grande inteligência ou esperteza. Também é muito vulnerável e pode ser morto facilmente a tiro, facada, paulada ou qualquer outra arma. Covarde e medroso, morre gritando, apavorado, de forma quase inocente.

Papa-figo

Ilustração de Marcos JardimVez por outra circulava a notícia apressada de que desaparecera aquela crianã da rua da Medalha, ou a outra da rua da Tesoura, da estrada do Carro ou da rua da Viração, da rua da Glória ou do Jaguaribe — e era de notar o espanto geral que a novidade despertava entre a gurizada atenta na marcha desses acontecimentos tão desagradáveis.
(Ademar Vidal. Lendas e superstições)Ele costuma sair à noite ou ao fim da tarde, na hora do crepúsculo, aproveitando o horário de saída das escolas. Seu aspecto pode variar de região para região. Algumas vezes é velho, sujo, sofre de hanseníase e tem o corpo coberto de chagas. Pode, também, ser alto, magro, pálido e com a barba por fazer. Às vezes, carrega um saco. Procura por crianças, atraindo-as com o intuito de raptá-las, extraindo-lhes, a seguir, o fígado.

Segundo a crença popular, o sangue é produzido no fígado. Quando este não funciona bem, o sangue apodrece, causando a lepra. A cura estaria no consumo do órgão sadio. Mas somente o fígado infantil teria pureza e força suficientes para aliviar o sofrimento dos hansenianos. E sempre haveria alguém disposto a pagar qualquer preço por tão poderoso e raro lenitivo.

É mito que ocorre em todo o Brasil, convergindo para outras figuras do ciclo do pavor infantil, como o lobisomem, o negro velho e o homem do saco. Segundo a versão registrada por Ademar Vidal, referente à Paraíba, a fim de não cometer injustiças, o papa-figo restringia sua caça apenas aos meninos mal-comportados, desobedientes, teimosos ou chorões.

Mboi-tatá

Ilustração de Marcos Jardim“Mas de verão, depois da quentura dos mormaços, começa o seu fadário.

A boitatá, toda enroscada, como uma bola – tatá, de fogo! – empeça a correr o campo, coxilha abaixo, lomba acima, até que horas da noite!…”
(João Simões de Lopes Neto. Lendas do Sul)

Também chamada de batatão, boitatá, bitatá, batatá, baitatá, biatatá, Jean de la foice ou Jean Delafosse. É grande a sinonímia da mboi-tatá no Brasil. Mboi, cobra, ou então, o agente, a coisa; tatá, fogo. A cobra de fogo, a coisa de fogo.

Segundo Luís da Câmara Cascudo é o primeiro mito a ser registrado no Brasil. Foi o padre José de Anchieta quem o referiu pela primeira vez, na Carta de São Vicente, datada de 31 de maio de 1560, como “um facho cintilante correndo para ali; acomete rapidamente os índios e mata-os…”

Uma serpente de fogo, saltitante. Para muitos é uma alma penada. É mito que ocorre em todas as regiões do Brasil e o correspondente ao fogo-fátuo europeu. Alguns acreditam-na uma espécie de defensora das matas, outros, o resultado de uma união sacrílega. Dizem que o viajante, ao encontrá-la, deve fechar os olhos e permanecer parado, imóvel, então ela desaparecerá. Caso contrário, a mboitatá o perseguirá, infernizando-o até matá-lo.

Porca-dos-sete-leitões

Ilustração de Marcos Jardim“A porca-dos-sete-leitões… Essa gosta mais de vivê rodeano igreja na vila e as cruis da estrada, c’oa leitoada chorando de atrais.

— É má?…

— Cumo quê…

— Intê que não… — interrompeu a Cristina…

— Essa sombração é muito bão: só persegue os home casado que vem fora de hora pra casa…”
(Cornélio Pires. Conversas ao pé do fogo)

* * *

Aparece sempre à noite, atrás das igrejas, nas encruzilhadas, nos becos escuros, perto dos cruzeiros ou nas ruas desertas. A porca, roncando surdamente, é acompanhada de seus sete filhotinhos, que berram ao seu redor. Não faz mal a ninguém. Dizem que ela prefere assombrar os homens casados que voltam para casa fora de hora. Se o homem volta-se para encará-la, porca e leitões somem depois de alguns segundos, reaparecendo e sumindo novamente.

É mito de origem portuguesa e ocorre principalmente nas regiões centrais e meridionais do Brasil. Na versão recolhida por Karl von den Steinen, em Cuiabá, é a alma de uma mulher pecadora que interrompeu a gravidez. Tantos quantos forem os abortos, serão os leitões. Em algumas versões paulistas, é uma rainha que teve sete filhos e foram amaldiçoados por vingança de um feiticeiro. No imaginário português é o próprio diabo, ou coisa mandada por ele e, por vezes, também toma a forma de outros animais.

Segundo Luís da Câmara Cascudo (Dicionário do folclore brasileiro): “A porca, símbolo clássico dos baixos apetites carnais, sexualidade, gula, imundície, surge inopinadamente diante dos freqüentadores dos bailes noturnos e locais de prazer”.

Cuca

Ilustração de Marcos JardimVai-te, coca, sai daqui
Para cima do telhado
Deixa o menino
Dormir sossegadoNana, neném
Que a cuca vem pegar
Papai tá na roça
Mamãe foi cozinharA cuca é um papão, um ente fantástico que mete medo às crianças causando pavor. Sua aparência varia de lugar para lugar, mas a maioria das pessoas diz que ela tem a forma de uma velha, bem velha e enrugada, corcunda,  cabeleira branca, toda desgrenhada, com aspecto assustador. Ela só aparece à noite, sempre procurando por aquelas crianças que fazem pirraça e não querem ir dormir cedo. Então, a cuca as coloca num saco, levando-as embora para não se sabe onde e faz com elas não se sabe bem o que, mas, com toda certeza, trata-se de algo muito terrível.

Ela também é chamada de coca ou coco e assombra crianças de Portugal, Espanha, alguns países africanos e tribos indígenas brasileiras. Em alguns lugares ela é um velho, em outros, se parece com um jacaré ou uma coruja.

Existem muitas canções e versos sobre a cuca. Luís da Câmara Cascudo, em Geografia dos mitos do Brasil, indica a seguinte cantiga, comum no Nordeste brasileira:

Dorme, neném
Se não a cuca vem
Papai foi pra roça
Mamãe logo vem

 

Mula-sem-cabeça

Ilustração de Marcos Jardim“Ainda hai a mula sem cabeça; custa muito, mas porém hai. Essas cousas de Deus unfum!… ninguém deve marmurá. Mamãe veio sabê, ô dispois muito tempo, qu’essas gente são iscomungado…”
(Manuel Ambrósio. Brasil interior)* * *A transformação em mula é o castigo recebido pela mulher que se entrega sexualmente a um padre. Nas noites de quinta para sexta-feira, ou de acordo com a lua, ou de sete em sete anos, ou na quaresma, enfim — os períodos variam de região para região — a concubina transforma-se e parte em galope desvairado, pisoteando tudo o que encontra pela frente. Seus cascos, afiadíssimos, ferem como navalhas. Quando retorna à casa, readquire a forma humana, porém está machucada, abatida, cheia de escoriações. Na próxima noite fatídica, tudo acontece novamente.Para que a manceba não se transforme, o padre deve amaldiçoá-la antes de celebrar cada missa. Segundo Pereira da Costa, isso deve ser feito antes de tocar a hóstia, no momento da consagração. Ao encontrar uma mula, é preciso esconder as unhas a fim de não atrair a sua ira. Aquele que tiver a coragem extrema de retirar-lhe o freio de ferro da boca, quebrará o encanto. Em alguns lugares, basta causar-lhe um ferimento, tirando-lhe sangue.A mula-sem-cabeça, burrinha-de-padre ou burrinha é mito de origem ibérica e ocorre em toda a América. No México, é chamada malora; na Argentina, mula anima. Também é chamadaalma mula, mula sin cabeza, mujer mula e mala mula. Segundo Luís da Câmara Cascudo, apesar de algumas variações, sempre é a punição recebida pela “manceba” do padre. Viriato Corrêa a chama de cavalacanga.Existem inúmeras variações sobre a sua forma: uma mula sem cabeça, com um relincho apavorante; um animal preto com uma cruz de pêlos brancos na cabeça; olhos de fogo; geme como gente; relincha; tem um facho luminoso na ponta da cauda; ninguém a vê, só se ouve o tropel; uma burra com uma listra branca no pescoço…Gustavo Barroso explica que a escolha da mula, ou burrinha, como a punição da mulher do padre, deve-se ao fato que desde mais ou menos meados da Idade Média, as mulas foram as montarias mais utilizadas pelos padres, por serem dóceis, resistentes e seguras. Animais incansáveis e bastante próximos da pessoa do padre, inclusive fisicamente.

Vaqueiro misterioso

Ilustração de Marcos Jardim“…era um vaqueiro ambulante, misteriosamente aparecendo por fazendas em ocasiões de difíceis vaquejadas em que pintava proezas admiráveis. Nos sertões do norte mineiro dele se fala ainda com essa crença supersticiosa cheia de infância e desalinho, marcando datas, lugares, perigos inimagináveis, quase impossíveis, salvando gerações, vivendo de todos e por toda a parte, sempre o mesmo, inextinguível. Franzino, mulato de mediana estatura, pouco idoso, falando pouco e muito descansado, sempre vestido de perneira e gibão, cavalgando eternamente uma égua muito feia e magra ocultando a larga fronte, olhar expressivo e barba espessa e comprida sob um grande e desabado chapéu de couro — tal a figura simpática do Borges. Quase nunca era procurado porque, boêmio dos campos, sua residência certa ignorava-se.”
(Manuel Ambrósio. Brasil interior)* * *Ele aparece de repente nas fazendas ou em regiões pastoris. Não se sabe ao certo de onde veio ou onde nasceu . Tem vários nomes e, algumas vezes, nome nenhum. Sua montaria é um cavalo velho ou uma égua de aparência cansada, imprestáveis. Está sempre vestido humildemente, com um gibão de couro surrado e chapéu de vaqueiro, encobrindo o seu olhar misterioso.Aparece nas ocasiões onde há vaquejadas ou apanha de gado novo, ferra ou batida para campear. Devido à sua aparência, torna-se alvo de zombaria dos demais vaqueiros e campeadores. Contudo, vence a todos os outros. É o mais ágil, mais destro, mais afoito deles. O sabedor de segredos infalíveis, o melhor, o herói. É aclamado pela multidão, desejado pelas mulheres, o convidado de honra do fazendeiro. Ele, porém, recusa todas as honrarias e desaparece da mesma forma que surgiu. Ninguém sabe como e nem para onde foi.É mito de origem lusitana, com variações locais, que ocorre em todas as regiões de pastorício no Brasil: Nordeste, Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e Bahia. Para Luís da Câmara Cascudo, “moralmente, é um símbolo da velha profissão heróica, sem registros e sem prêmios, contando-se as vitórias anônimas superiores às derrotas assistidas pelas serras, grotões e várzeas, testemunhas que nunca prestarão depoimento para esclarecer o fim terrível daqueles que vivem correndo atrás da morte.”

Negrinho do pastoreio

Ilustração de Marcos Jardim“Só para três viventes ele olhava nos olhos: era para o filho, menino cargoso como uma mosca, para um baio cobos-negros, que era o seu parelheiro de confiança, e para um escravo, pequeno ainda, muito bonitinho e preto como o carvão e a quem todos chamavam somente o Negrinho.

A este não deram padrinhos nem nome; por isso o Negrinho se dizia afilhado da Virgem, Senhora Nossa, que é a madrinha de quem não a tem.”
(João Simões Lopes Neto)

Escravo, órfão, o menino pertencia a um fazendeiro rico, cruel e arrogante. Maltratado por todos, principalmente pelos filhos do senhor, sofreu inúmeros castigos e barbaridades. Ao perder a tropilha de cavalos de seu amo, foi surrado sem piedade. Seu corpo moribundo foi, então, jogado à boca de um enorme formigueiro, para que as formigas o devorassem. No dia seguinte, o fazendeiro, atormentado, correu ao local e não mais encontrou o supliciado. Em vez disso, viu Nossa Senhora e o Negrinho, seu afilhado, são e feliz, montado em um cavalo baio, pastoreando uma tropilha de cavalos invisíveis.

O Negrinho do Pastoreio é mito de origem gaúcha, com fundamentos católicos e europeus, divulgado com finalidades morais. A compensação e redenção divinas  aos sofrimentos terrenos. A tradição popular concedeu-lhe poderes sobrenaturais, canonizando-o. Possui inúmeros devotos. Afilhado da Virgem, encontra objetos perdidos, bastando prometer-lhe um toco de vela que será dado à madrinha. Em algumas versões, oferece-se também, um naco de fumo para o menino.

Baseado no mito popular, Augusto Meyer criou a seguinte Oração ao Negrinho do Pastoreio:

Eu quero achar-me, Negrinho!
(Diz que você acha tudo)
Ando tão longe, perdido…
Eu quero achar-me, Negrinho:
A luz da vela me mostre
O caminho do meu amor

Negrinho, você que achou
Pela mão da sua madrinha
Os trinta tordilhos negros
E varou a noite toda
De vela acesa na mão
(Piava a coruja rouca
No arrepio da escuridão
Manhãzinha, a estrela d’alva
Na voz do galo cantava
Mas quando a vela pingava
Cada pingo era um clarão)
Negrinho, você que achou
Me leve à estrada batida
Que vai dar no coração

(Ah! os caminhos da vida
Ninguém sabe onde é que estão!)

Corpo Seco

01Várias foram as histórias que ouvi de pescadores, velhos ou jovens, sobre o corpo seco — “a coisa mais horrorosa, horrive, que se pode vê”, como me afirmou Eduardo Rodrigues, que tem 65 anos e nunca mentiu e só fala a verdade.

Na sua linguagem simples, o velho Eduardo me descreveu fielmente o que é o corpo seco, mantendo os característicos essenciais a todas as descrições que outros já me tinham feito. “É sempre o corpo de pessoa ruim, principarmente quem martratô ou desresoeitô pai e mãe. É um corpo tão sem graça que nem a terra não qué. Rejeita. Então o corpo seca. A ropa gruda que fica rente co’a pele. Uma situação só. As unha cresce. A pacoera e as tripa fica tudo numa bolota só. E chacoaia de todo lado. Quando chega o tempo de revirá a sepurtura pra desocupá lugá é que descobrem isso. Então o coveiro avisa o padre do lugá que tem um corpo seco. Então o padre trata de vê quem tem corage e escolhe dois home. Faz suas rezas, seus benzimento forte, mas só de noite então, ali pela meia-noite, nem antes nem depois, um dos home [vira] pro companheiro que tá de costa, co os braço erguido pra trás. E ele fica nesta pusição assim, costa com costa, nem o corpo seco óia pra frente nem quem carrega óia pra trás. Daí caminha os dois home até o mato e ao corpo seco tem que sê jogado de costas, mar joga já tem que saí andando e sem oiá pra trás, se oiá ele munta cavalo e vem. Lá no mato, despois que o pessoá vem simbora, le mesmo por si se esconde. Fica encostado num pau, toma conta dum capoeirão inteirinho. Pois foi o que acunteceu cumigo quando um dia fui lenhá. Chegue no capoeirão dele e isso ninguém tem orde de fazê. Premero, pra avisá a gente da presença dele, ele dá uma tontura na gente; Se teimá, daí ele tira a idéia. Ninguém tem força de arregisti. Ele, eu não vi, só ouvi os estralos no mato, mas quem viu contô, é da artura duma pessoa mesmo, no lugá do zóio tem dois vuracão. Uma cara medonha de feio…”

(Pinheiro, Maria de Lourdes Borges. “A lenda do corpo seco na versão dos pescadores de Aparecida do Norte”. Paratodos. Rio de Janeiro; São Paulo, nº 2, novembro de 1957)
Fonte: Jangada Brasil