Categoria: História Pra Contar

Histórias pra Contar: Um encontro fantástico
Histórias pra Contar: Um encontro fantástico

Todos os anos eles se reuniam na floresta, à beira de um rio, para ver a quantas andava a sua fama. Eram criaturas fantásticas e cada uma vinha de um canto do Brasil. O Saci-Pererê chegou primeiro. Moleque pretinho, de uma perna só, barrete vermelho na cabeça, veio manquitolando, sentou-se numa pedra e acendeu seu cachimbo. Logo apontou no céu a Serpente Emplumada e aterrissou aos seus pés. Do meio das folhagens, saltou o Lobisomem, a cara toda peluda, os dentes afiados, enormes. Não tardou, o tropel de um cavalo anunciou o Negrinho do Pastoreio montado em pelo no seu baio.

– Só falta o Boto – disse o Saci, impaciente.

– Se tivesse alguma moça aqui, ele já teria chegado para seduzi-la – comentou a Serpente Emplumada.

– Também acho – concordou o Lobisomem. – Só que eu já a teria apavorado.

Ouviram nesse instante um rumor à margem do rio. Era o Boto saindo das águas na forma de um belo rapaz.

– Agora estamos todos – disse o Negrinho do Pastoreio.

– E então? – perguntou o Boto, saudando o grupo. – Como estão as coisas?

– Difíceis – respondeu o Saci e soltou uma baforada. – Não assustei muita gente nesta temporada.

– Eu também não – emendou a Serpente Emplumada. – Parece que as pessoas lá no Nordeste não têm mais tanto medo de mim.

– Lá no Norte se dá o mesmo – disse o Boto. – Em alguns locais, ainda atraio as mulheres, mas em outros elas nem ligam.

– Comigo acontece igual – disse o Negrinho do Pastoreio. – Vivo a achar coisas que as pessoas perdem no Sul. Mas não atendi muitos pedidos este ano.

– Seu caso é diferente – disse o Lobisomem. – Você não é assustador como eu, o Saci e a Serpente Emplumada. Você é um herói.

– Mas a dificuldade é a mesma – discordou o Negrinho do Pastoreio.

– Acho que é a concorrência – disse o Boto. – Andam aparecendo muitos heróis e vilões novos.

– Pois é – resmungou a Serpente Emplumada. – Até bruxas andam importando. Tem monstros demais por aí…

– São todos produzidos por homens de negócios – disse o Saci. – É moda. Vai passar…

– Espero – disse o Lobisomem. – Bons aqueles tempos em que eu reinava no país inteiro, não só no cerrado.

– A diferença é que somos autênticos – disse o Negrinho do Pastoreio. – Nós nascemos do povo.

– É verdade – disse o Boto. – Mas temos de refrescar a sua memória.

– Se pegarmos no pé de uns escritores, a coisa pode melhorar – disse a Serpente Emplumada.

– Eu conheço um – disse o Saci. – Vamos juntos atrás dele! – E foi o primeiro a se mandar, a mil por hora, em uma perna só.

 

Conto de João Anzanello Carrascoza

Fonte: Revista Nova Escola 

História pra Contar: O Rei que não Sabia ser Feliz – Versão de Ricardo Azevedo
História pra Contar: O Rei que não Sabia ser Feliz – Versão de Ricardo Azevedo
Era um rei que não sabia ser feliz. Tinha os tesouros mais preciosos, as terras mais férteis e os exércitos mais poderosos. Morava num castelo prateado construído no alto de uma montanha. Mesmo assim, vivia triste, sombrio e amargurado.
Um belo dia, o tal monarca ouviu falar de um ferreiro muito pobre que morava num castelo com a mulher e um casal de filhos. O povo dizia que o sujeito, mesmo miserável e sem ter onde cair morto, vivia sempre risonho e animado. Anunciava e garantia para quem quisesse ouvir que era muito feliz. O rei não quis acreditar.
– Se eu que sou nobre, rico e poderoso vivo aflito, preocupado e cheio de problemas, como é que pode um zé-ninguém, um pé-rapado, um pobre coitado achar que pode ser feliz?
No fundo, o monarca sentiu uma mistura de raiva com dúvida e inveja. E logo teve uma idéia. Montou seu cavalo alazão, foi até a casa do ferreiro,mandou chamar o homem e disse:
– É verdade que você é feliz?
– Sim! – respondeu o ferreiro com os olhos cheios de luz.
– Ah é? – respondeu o rei. – Então, quero ver se você adivinha:
É, o que é:
tem no começo da rua
vive na ponta do ar
dobra no meio da terra
morre onde acaba o mar?

O rei explicou que voltaria no dia seguinte. Se o ferreiro não adivinhasse ia para a forca.
– E se eu adivinhar? – perguntou o ferreiro, assustado.
– Se adivinhar, fica tudo por isso mesmo!
Disse isso, deu risada, chicoteou o cavalo e partiu a galope.
Naquela noite, a filha do ferreiro sentiu que o pai estava muito preocupado. Conversa vai, conversa vem, o homem acabou desabafando e contando o que havia acontecido. Confessou que não sabia adivinhar. Achava que no dia seguinte ia morrer na forca. A filha do ferreiro deu risada.
– Mas é tão simples! Aquilo que tem no começo da rua, vive na ponta do ar, dobra no meio da terra e morre onde acaba o mar é a letra R!
No dia seguinte, o ferreiro respondeu a adivinha e deixou o rei admirado.
– Mas como você adivinhou?
– Não fui eu – respondeu o homem sorrindo. – Foi minha filha!
O rei não se conformou:
– Ah é? Então mata esta:

O que é, o que é:
agarra, coça e atira
escreve, pinta e inventa
aperta, aponta e dá soco
faz carinho e cumprimenta?

E repetiu o que havia dito da outra vez. Se o ferreiro adivinhasse, ficava tudo por isso mesmo. Se não adivinhasse, forca.
Naquela noite, a filha sentiu que o pai estava, de novo, muito aflito. Conversa vem, conversa vai, o homem acabou contando o que havia acontecido. Disse que não sabia adivinhar. Chorou. Achava que dessa vez ia mesmo morrer na forca. A filha do ferreiro deu risada.
– Mas é tão simples! Aquilo que agarra, coça e atira, escreve, pinta, inventa, aperta, aponta, dá soco, faz carinho e cumprimenta e a mão!
No dia seguinte, o ferreiro respondeu a adivinha e deixou o monarca com a cara no chão.,
– Mas como você adivinhou?
– Não fui eu – respondeu sorrindo. – Foi minha filha!
O rei foi embora pensando:
– Como será a filha do ferreiro?
Chegou no castelo e logo fez um plano. Mandou um criado à casa do ferreiro com um monte de perguntas. Queria dados, detalhes e informações a respeito da moça.
O criado foi. Bateu na porta. Quem atendeu foi a própria filha do ferreiro.
O criado perguntou:
– Cadê sua mãe?
E a moça:
– Foi ver quem nunca foi visto.
E o criado:
– Cadê seu pai?
E a moça:
– Foi mijar pra trás.
E o criado:
– Cadê seu irmão?
E a moça:
– Foi tomar água que passarinho não bebe.
O criado do rei não entendeu nada, despediu-se e foi embora. Quando contou as respostas da filha do ferreiro, o rei ficou admirado:
– Mas é claro como um copo d’água! Se a mãe dela foi ver que nunca foi visto é porque deve ser parteira e foi ajudar uma criança a nascer. Se o pia foi mijar pra trás é porque deve ter desistido de algum negócio.
Se o irmão foi tomar água que passarinho não bebe é porque deve estar bebendo cachaça com os amigos.
O rei era solteiro. Encantado com as respostas da moça, sentiu vontade de conhecê-la melhor. Deu ordens para irem buscá-la imediatamente.
Dito e feito.
Quando a filha do ferreiro em carne e osso, o tal monarca ficou mais encantado ainda. È que a moça era uma fruta preciosa de tão bonita e cheirosa.
O rei, então, pegou-a pelo braço e saiu mostrando os ares, belezas e lugares do castelo. Mas tarde, o casal sentou-se no jardim para trocar idéias e se conhecer melhor. Conversa vem conversa vai, o rei ficou apaixonado de vez. No fim daquele mesmo dia, pediu a mão da moça em casamento.
A filha do ferreiro aceitou e o jovem monarca foi logo mandando preparar a festa, avisar o padre e escrever os convites. Depois, chamou a moça e avisou:
– Decidi me casar com você amanhã mesmo! Como vai ser minha mulher, quero que você hoje volte para casa levando de presente a coisa mais valiosa que encontrar no castelo. Pode pegar o que quiser: pedras preciosas, anéis e colores de diamantes ou arcas cheias de moedas de ouro. De agora em diante, tudo o que é meu é seu!
A moça sorriu agradecida.
– Prometo escolher uma coisa bem valiosa – disse ela -, mas antes queria tomar um pouco de vinho tinto.
Explicou que era para brindar o casamento mas, quando o rei se distraiu, colocou sete gotas de remédio no cálice. Bastou um gole para o monarca ficar zonzo, meio grogue, fechar os olhos e cair desmaiado com um sorriso parado no rosto.
Mais que depressa, a filha do ferreiro chamou os criados, mandou colocar o noivo numa carruagem, disse adeus e levou-o embora .
No dia seguinte, quando o rei acordou, não entendeu nada vezes nada.
– Quem sou eu? Onde estou? O que houve? Como assim? – gritava ele entre zangado e assustado. E depois; – Socorro! Me acudam! Fui seqüestrado!
Gritou e esperneou mas, olhando melhor, reconheceu o lugar e descobriu que tinha passado a noite na casa do ferreiro.
Foi quando a moça entrou no quarto e explicou tudo;
– Você não disse que eu poderia trazer a coisa mais valiosa do castelo?
O monarca fez sim com a cabeça. E a filha do ferreiro;
– Pois bem. Pra mim, a coisa mais valiosa do castelo é você mesmo!
A ouvir aquelas palavras, o rei até inchou de tanta vaidade. Mas a alegria durou pouco. Fazendo cara feia, a moça continuou;
– Só caso com você se pedir desculpas a meu pai. Onde já se viu ameaçar de levar alguém pra forca só por causa de um capricho? Não quero saber de marido egoísta e invejoso que só sabe pensar em si mesmo e não liga pra mais ninguém! Quero me casar com um rei que tente melhorar, e não piorar, a vida de seu povo!
Pego de surpresa, o monarca deu o braço a torcer, vestiu a carapuça e reconheceu que tinha errado feio. Chamou o pai da noiva, ajoelhou-se arrependido e pediu perdão.
Dizem que o casamento do rei com a filha do ferreiro foi uma festança cheia de dança, comilança e esperança. Dizem também que só então aquele homem soube o que era ser feliz.

(extraído de Contos de Adivinhação, Ricardo Azevedo, Ed. Ática,2008)

História pra Contar: O VEADO E A BARATA –  Conto Popular
História pra Contar: O VEADO E A BARATA – Conto Popular

 

As baratas são uma das subinquilinas mais importunas e detestadas em nossas habitações. Por isso, muitas pessoas, aborrecidas com o aparecimento dessa “imundícia” em suas casas, lançam mão de todos os meios para livrar-se delas. A barata ocupa no folclore um lugar importante, sendo encontrada em modinhas, superstições benéficas e maléficas, jogos infantis, medicina popular, provérbios, adivinhações, etc. Mas nem todos apreciam sua companhia, empregando vários meios para “expulsá-las” das casas.

Em Barueri (SP), para expulsá-las, é preciso ficar de pé no meio da casa, de manhã cedinho, durante três sextas-feiras, e dizer o seguinte:

“Barata-rabi,
Que veio fazer aqui?
Brigou com compadre
e comadre,
E se puxa daqui!”

Havendo muitas baratas em casa, basta chamar uma delas pelo nome de “mulher de padre”, que sumirão todas (Bragança Paulista, 1957).

Outro processo: numa sexta-feira de manhã, sem conversar com ninguém, e em jejum, distribui-se um punhado de milho em três cantos da casa, dizendo: “Barata, vai embora!” Deixa-se livre um dos cantos para a barata poder sair (General Salgado, SP, 1958).

Pode-se ainda, encostado em um dos cantos da casa, dizer o seguinte:

A moça do padre
Lhe convida pra missa.
Vá com ela e seja feliz,
Igual quem come e não reza,
Ou quem trabalha no domingo.

Repete-se esta prática durante três sextas-feiras seguidas, sempre deixando livre o quarto canto. O mesmo deve ser feito para expulsar os percevejos da casa e as formigas da roça; neste último caso, a prática deve estender-se a três cantos da roça (Teófilo Otoni, MG, 1958).

Efeito semelhante se consegue quando, em uma sexta-feira, com um pano na mão, se diz: “Comadre barata, venha aqui, venha aqui!”, agitando-se o pano na direção da porta, como se estivesse afugentando a barata (Barueri, SP, 1959).

Muito usado é também o seguinte procedimento – dentro de uma caixa de fósforos colocam-se três baratas e joga-se a caixa, de costas, para o quintal do vizinho, se a este não nos liga alguma amizade. As baratas mudar-se-ão da nossa para a casa do vizinho (Barueri, SP, 1957).

Uma outra variante dessa prática foi-nos enviada pelo senhor Benedito A. Lua (Santana do Parnaíba, SP): para acabar com as baratas coloca-se uma delas em uma caixa de fósforos, juntamente com uma moeda de tostão (10 centavos) e joga-se a caixinha na primeira encruzilhada, não se olhando para trás. A pessoa que apanhar a caixinha “leva para sua casa todas as baratas, ficando o que fez a simpatia completamente livre desses bichinhos.”

Se nenhuma dessas estratégias der certo, utilize a estratégia desse veado:

 O VEADO E A BARATA – VERSÃO DE CONTO POPULAR

O veado fez sua casa. Aprontou-a, endireitou-a bem, botou os seus carreguinhos dentro, arrumou-os, fechou a porta e foi para o mato procurar a vida. Andou por lá, andou, até a noitinha. Quando voltou para casa, que foi metendo a chave na porta, ouviu aquela vozinha muito fina, cantando lá dentro:

‘Tui-tu, quinanã-ã,
Xô-xô, curió matou.’

Ficou espantado. Levantou a cabeça e disse:

– Ih! eu que  não entro em casa…

Tornando a ouvir a voz, tirou a chave mais que depressa e saiu correndo pela estrada afora, com o cotoquinho do rabo em pé, se foi voando pela estrada. Adiante, encontrou o boi:

– Boi, me acode!

– O que é, veado?

– Quando eu ia abrindo a porta da minha casa, tinha um bicho cantando lá dentro e eu não entrei, com medo de que ele me pegasse.

– Ora, seu medroso, vamos ver isso, disse o boi, eu chego lá, meto o chifre na porta e acabo com o tal bicho que está cantando dentro da tua casa.

Saiu o boi na frente e o veado atrás, desconfiado. Quando foram chegando na porta, que o veado foi metendo a chave na fechadura, o bicho cantou lá dentro.

‘Tui-tu, quinanã-ã,
Xô-xô, curió matou.’

Assim que o boi ouviu aquilo, disse:

– O quê, veado? Vou m’embora. Isso é o diabo.

E empurraram o pé no mundo, que iam em termo de se arrebentarem. Já muito longe, encontraram o bode, a quem o veado contou o que se estava passando. O bode disse que ia acabar com o bicho que estava metendo medo ao veado.

Foram os dois. Porém o bode, ouvindo o bicho cantar, abriu a guela, dizendo:

– Não, veado. O filho de meu pai não entra lá, não.

O mesmo aconteceu a muitos outros animais. Nenhum teve coragem de entrar na casa do veado. Afinal, estava o pobre do bicho de cabeça baixa, pensando como havia de ser para botar aquele importuno para fora de sua casa, quando viu um enorme carreiro de formigas de correição.

– Ai, formigas, disse o veado, me acudam, que eu não posso entrar na minha casa, porque, quando eu vou metendo a chave na porta, canta um bicho lá dentro, que me mete medo.

– Ora vamos ver essa história, – responderam as formigas.

O carreiro das formigas dirigiu-se para a casa do veado e ele no coice. Quando foi chegando na porta, que foi metendo a chave na fechadura, o bicho cantou lá dentro como das outras vezes. Disseram as formigas:

– Espere aí, veado.

Entraram por debaixo da porta e o veado ficou do lado de fora, arisco, com as orelhinhas em pé, pronto para se escapulir. As formigas correram a casa toda, e o bicho cantando, sem que elas o pudessem descobrir. Afinal, foram dar com uma baratinha lá num canto muito escuro, de asinhas arrebitadas, que estava se acabando de cantar. Agarraram-na e trouxeram-na pra fora:

– Tá aqui veado, quem te fazia medo!

Mataram a pobrezinha e levaram-na em pedacinhos para o formigueiro.

O veado entrou para a sua casa e foi dormir de papo para o ar.

Colorin colorado, este conto está acabado!

Fonte: Jangada Brasil

por Karol Lenko e Nelson Papavero

 

História pra Contar: Causo de Lobisomem
História pra Contar: Causo de Lobisomem

Esse Causo bão barbaridade quem nos contou foi o seu João Amará, morador de uma comunidade do interior de Chapecó/SC chamada Linha Almeida. Seu João é um contador de causo de primeira, só conta fato acontecido, verídico, experiência vivida e comprovada. Segundo o que ele nos contou, antigamente existia muito lobisomem. Acontece que as famílias eram maiores, o povo tinha muitos filhos e vez ou outra dava o azar de nascer 7 meninos encarreirados, o último rebento carregava o “fardo”, a maldição, só tinha um jeito de escapar, o filho mais velho tinha que batizar o mais novo nas águas santas, tinha que colocar o nome do caçula de Bento. E pronto, resolvia o problema. O transtorno vinha quando o povo esquecia do procedimento. A pessoa garrava o fardo e seguia assim até o fim da vida.

Senta que lá vem o causo, tal qual nos contou o seu João:

” Lobisome? Sim, Tinha. Uma vez tinha um meu compadre. Agora já é morto, compadre Pacífico.

E tinha uma noite lá que tinha uma cachorrada que não deixava a gente dormi e daí eu pensei: – vo pegar essa espingardinha de pressão e vo dá um susto nesses bicho. Mas eu sabia que se tivesse lobisome no meio não prestava matá, porque  diz que se matá vira na coisa mais feia do mundo, então eu ia atirá só pra assustá. Passei a mão naquela espoletinha bem pequenininha, bem fininha mesmo, daí trepei anssim numa área e fiquei esperando, esperando, espiando na beradinha da porta e de repente comecei a ouvir  aquela cachorrada e vi que eles vinham passando assim… e no meio daqueles cachorro  guaipeca  eu vi que tinha um cachorrão, grandão anssim, uns orelhão grande anssim, dai esperei quando ele passou eu atirei e com o estoro  aquele bicho saltô metro e se foi pro mato, só que de repente ficou tudo quieto. A cachorrada voltaram tudo pra traz e ficaram quieto. Dai eu pensei, será que eu matei? e dai me faltou coragem pra ir lá olhar. esperei o outro dia quando clareou e fui espiá, dai tinha só as pegada arrastada no chão. Fico por isso.

Dali três dias eu fui lá na casa de um vizinho, compadre meu pra tomá caldo de cana, e quando cheguei lá esse vivente tava lá, o Pacífico, e ele me olhou assim atravessado e  disse:”- ahhh você… eu tenho uma coisa pra você ali na minha sacola. E eu vi que tinha um facão assim guardado daí eu disse:  “- pra quê compadre?, sempre se demo tão bem! o que foi que eu te fiz?” dai ele mostrou, ergueu a calça anssim e mostro, era uma ferida na perna  – eu tenho essa ferida na perna que não sara. A perna dele tava anssim toda furada de chumbinho bem fininho.

Ele era lobisomem né? dai ele saiu dali e eu nunca mais vi. Mas isso aí aconteceu! eu dei um tiro no lobisomem.”

 Valeu seu João!!!! A sua experiência enriquece o nosso imaginário, já contamos o seu causo pras crianças da região e eles adoram ouvir os causos acontecidos na nossa terra. O senhor nos conta e a gente vai passando adiante. Gratidão!

História pra Contar: A lenda do Diabo na Garrafa
História pra Contar: A lenda do Diabo na Garrafa

Segundo o que me contou seu Joaquim, numa dessas belas noites de outono, os caboclos que viviam na região mineira do Vale de São Francisco, chamavam de famaliá um diabinho preto, que se conservava preso dentro de uma garrafa. Quem estivesse precisando de dinheiro era só pedir ao diabinho que o dinheiro aparecia na hora.

Se por acaso um caboclo estivesse necessitando de um dinheirinho e quisesse aprisionar um famaliá, usava a seguinte receita:

Matava um gato preto e tirava-lhe os dois olhos. Punha cada olho dentro de um ovo de galinha preta e enfiava os ovos dentro de esterco de cavalo, que ainda estivesse quente. Depois o caboclo ia todo dia até perto do monte e dizia: “Ó, diabão! Eu te entrego estes dois olhos de um gato preto para que me sejas favorável nesta apelação: Que deles nasçam dois diabinhos para eu cria-los dentro de uma garrafa e me darem dinheiro na hora da precisão”.

Dizia isso durante trinta dias. Ao fim desse tempo, nasciam dois diabinhos, na forma de pequeno lagarto. O caboclo apanhava os diabinhos, colocava-os dentro da garrafa e os alimentava com pó de ferro ou aço moído (Bombril). Aí era só pedir dinheiro em qualquer quantidade, que aparecia na hora.

Conclui seu Joaquim que, embora essa tradição fosse muito combatida pelos religiosos, era muito comum comprar nas feiras, principalmente nordestinas, garrafas com o famaliá.

Fonte: Ricardo Sérgio – Recanto das Letras