Categoria: Pesquisa – Contacausos

“Mulheres que Correm com Lobos” e a “Ciranda das Mulheres Sábias”
“Mulheres que Correm com Lobos” e a “Ciranda das Mulheres Sábias”

Compartilhamos duas obras de leitura fundamental para todas as mulheres  e especialmente para as contadoras de histórias.mulheres que correm com os lobos 2

MULHERES QUE CORREM COM LOBOS

Mitos e Histórias do Arquétipo da mulher selvagem
Clarissa Pinkola Estés
tradução – Waldéa Barcellos
psicologia
Editora Rocco, Rio de Janeiro/1994.
628 páginas

“As modernas contadoras de histórias descendem de uma comunidade imensa e antiqüíssima composta de santos, trovadores, bardos, griots, cantadoras, chantres, menestréis, vagabundos, megeras e loucos. Uma vez sonhei que estava contando histórias e sentia alguém dando tapinhas no meu pé para me incentivar. Olhei para baixo e vi que estava em pé nos ombros de uma velha que segurava meus tornozelos e sorria para mim. “Não, não” disse-lhe eu. “Venha subir nos meus ombros, já que a senhora é velha e eu sou nova.” “Nada disso” insistiu ela. “É assim que deve ser. Percebi que ela também estava em pé nos ombros de uma mulher ainda mais velha do que ela, que estava nos ombros de uma mulher usando manto, que estava nos ombros de outra criatura, que estava nos ombros… Acreditei no que disse a velha do sonho a respeito de como as coisas devem ser. A energia para contar histórias vem daquelas que já se foram. Contar ou ouvir histórias deriva sua energia de uma altíssima coluna de seres humanos interligados através do tempo e do espaço, sofisticadamente trajados com
farrapos, mantos ou com a nudez da sua época, e repletos a ponto de transbordarem de vida ainda sendo vivida. Se existe uma única fonte das histórias e um espírito das histórias, ela está nessa longa corrente de seres humanos. As histórias são muito mais antigas do que a arte e a psicologia, e serão sempre as mais velhas nessa comparação, não importa quanto tempo passe. Um dos estilos mais antigos de relato que muito me intriga é o estado de transe apaixonado, no qual a contadora “pressente” a platéia — seja ela composta de um indivíduo ou de muitos — e entra num universo entre os universos, no qual uma história é “atraída” para a contadora em transe e transmitida através dela. É a contadora de histórias propiciando o fazer-se da alma.”

CIRANDA DAS MULHERES SÁBIAS

Editora: Rocco
Autor: Clarissa Pinkola Estés
Páginas: 128
Ano: 2007

Em ‘A ciranda das mulheres sábias’, a psicanalista e poetisa Clarissa Pinkola Estés reverencia a maturidade feminina xe faz uma comovente e profunda homenagem àquelas mulheres que souberam acumular sabedoria ao longo de suas existências. O livro tem uma linguagem metafórica, que se assemelha às antigas histórias contadas de mães para filhas, e chega às livrarias na última semana de maio. Clarissa Pinkola Estés parte de um doce convite à leitora para que se acomode ao seu lado e deguste com ela a bebida que foi reservada para ‘uma situação especial’, a fim de que possam conversar sobre ‘assuntos que importam de verdade’ a duas mulheres, com a garantia de que ‘aqui sua alma está em segurança’. Seduzida por uma linguagem terna, emocionante e poderosa, a autora apresenta os encantos deste ‘arquétipo misterioso e irresistível da mulher sábia, do qual a avó é uma representação simbólica’ e que ‘não chega de repente, perfeitamente formado e se amolda como uma capa sobre os ombros de uma mulher de determinada idade’. O aspecto mais sedutor do livro reside, justamente, na representação simbólica contida nas avós. Das matriarcas da mitologia às avós dos contos de fadas, passando por aquelas anônimas de suas vivências profissionais, a autora chega às avós de suas tradições familiares, descrevendo de forma magnífica a chegada à América das ancestrais que passaram a fazer parte de sua vida familiar, aquelas ‘quatro velhas refugiadas que saltaram de enormes trens pretos para o nevoeiro noturno na plataforma onde nós as aguardávamos com grande expectativa’. Ao final, as nove preces de gratidão – por todas as idosas do mundo, pelas mulheres mais velhas matreiras, pelas avós nas cozinhas, pelas tias perspicazes, pelas filhas que estão aprendendo, por todas as filhas e velhas – representam um perfeito arremate ao prazer da leitura destas páginas plenas de luz, melodia, emoção e encantamento.

História pra Contar: A bruxa da ilha da magia
História pra Contar: A bruxa da ilha da magia

Contou-me um narrador de histórias de assombrações, que um casal jovem depois de um ano de feliz matrimônio, ganhou uma linda criança, a qual ao completar cinco anos, adoeceu.

O sintoma da doença era o seguinte: as mãos cruzadas sobre o peito, o corpo manchado de roxo e ao anoitecer desatava num choro que metia dó, principalmente nas sextas-feiras.

Pessoas idosas, entendidas em doenças de bruxarias, quando viram aquela criança no estado lastimável em que se encontrava não tiveram dúvidas em afirmar aos pais, que todos aqueles sintomas eram, verdadeiramente, a confirmação de que as malvadas bruxas a estavam perseguindo.

Uma daquelas pessoas entendidas em assuntos bruxólicos aconselhou ao jovem pai que devia procurar uma benzedeira e não um médico, como queria a mãe da criança, pois este não entenderia nada daquela doença causada pelas forças misteriosas das terríveis mulheres que vêm a este mundo com a triste sina de ser bruxa.

No sítio, a conselho das pessoas mais velhas que são acatados com todo respeito, o casal resolveu chamar uma velha benzedeira, muito afamada na cura de crianças embruxadas.

A velha benzedeira, ao entrar na casa e pôr as vistas sobre a criança doente, desatou a bocejar tanto, que quase ficou sem poder falar por muitos minutos, mas logo que se recuperou, voltou-se para o casal e disse-lhes: “Esta criança está embruxada por bruxas muitos perigosas, de grandes poderes diabólicos. Recebi toda carga do seu poder maligno, no meu corpo, logo que entrei nesta casa, para enxotá-la daqui”.

Tomou um breve que trazia no bolso do vestido, benzeu a criança e aconselhou aos pais que fizessem o seguinte remédio:

Na sexta-feira daquela semana, ao anoitecer, tomassem uma ceroula do pai, colocassem-na em cruz em cima da criança, rezassem um Credo de trás para diante em cima da ceroula, colocassem um pires com água e dentro um pedaço de cera virgem e a chave da fechadura da porta da entrada, e ficassem de vigília.

No momento em que a criança chorasse, era o sinal de que as bruxas a estariam chupando o sangue e, portanto, o pai devia pegar a cera virgem que estava no pires e introduzi-la no buraco da fechadura, para que assim as bruxas ficassem presas dentro de casa e aguardassem, ali, o canto do galo preto para ser descoberto o fado.

As bruxas, que andavam chupando aquela criança, eram moradoras do mesmo lugar e duas das quais primas irmãs da mãe da criança doente.

Naquela semana, elas fizeram uma reunião numa casa abandonada e mal-assombrada, para desenvolver o poder do fado em uma moça nova, muito feia e rude, que começaria a cumprir a sina pela primeira vez.

Para poderem voar por cima das árvores e entrar pelo buraco da fechadura, além de despirem toda roupa e esconderem-na nas tocas das bananeiras, grutas, e debaixo dos paneiros de canoas de pescadores e untarem todo o corpo com unto virgem, elas devem pronunciar certíssimas as seguintes palavras: “Por cima do silvado e por debaixo do telhado”.

A reunião que elas fizeram naquela semana foi para ensinar à bruxa praticante que o canto do galo branco e amarelo não lhes quebra o encanto, mais sim o do galo preto.

Que as palavras “Por cima do silvado e por debaixo do telhado” não podem ser pronunciadas ao contrário, senão perderão uma noite de atividades diabólicas.

Na mesma reunião, combinaram irem todas, inclusive a bruxa nova, chuparem a criança na casa onde a velha benzedeira tinha mandado fazer a armadilha com a ceroula.

Naquela sexta-feira, dia combinado, depois de prontas para entrarem em estado fadórico a bruxa velha pronunciou as palavras do encanto e mandou que todas respondessem certo, mas a bruxa nova respondeu ao contrário, estragando assim, as atividades da noite.

Devido o engano da bruxa nova, não puderam atingir o objetivo visado que era chupar a criança.

Em vez de passarem por cima do silvado, passavam por debaixo, e em vez de passarem por debaixo do telhado ficavam por cima.

Cansadas de tanto voar e não conseguirem entrar no buraco da fechadura, para chuparem o sangue da criança, resolveram pousar sobre o telhado da casa.

Devida a benzedeira da velha e as armadilhas que se achavam dentro de casa, elas ficaram presas sobre o telhado e foram surpreendidas em estado de encanto, pelo canto do galo preto.

No momento em que elas pousaram sobre o telhado da casa, a criança começou a chorar, e o pai então tratou de introduzir a cera virgem no buraco da fechadura. e ficou aguardando o canto do galo preto, quando se daria justamente, o desencanto das bruxas.

Logo que o galo preto cantou, elas se desencantaram, em cima da casa e não dentro como o homem esperava, isto devido a bruxa nova ter pronunciado as palavras de encanto ao contrário.

Mal se desencantaram, viram-se presas pela armadilha que estava dentro de casa e começaram a chorar.

O dono da casa, que estava de vigília, logo que ouviu o choro, abriu a porta da casa e saiu para o quintal, a fim de ver onde era o choro, quando, qual não foi sua surpresa, ao deparar com aquele quadro tétrico sobre o telhado da sua casa.

Apavorado pelo que viu, chamou a mulher e alarmou os vizinhos que acudiram assustados.

Colocaram uma escada e fizeram-nas descer.

O dono da casa foi na cozinha, apanhou um rabo de tatu que estava no moeiro, deu uma surra em cada uma até deixar caída por terra.

A surra foi tão violenta que, para curar os ferimentos tiveram que usar água com sal bem forte e cachaça com ervas.

Florianópolis, 16 de janeiro de 1957

4497711Franklin Cascaes – Seo Francolino, como é conhecido Franklin Joaquim Cascaes, foi um homem, que por meio da arte e da literatura, conseguiu traduzir com muita leveza a cultura recheada de lendas do povo da ilha. Em mais de trinta anos de trabalho, reuniu uma grande quantidade de informações sobre o folclore de Florianópolis\ SC por meio de pesquisas e entrevistas com antigos moradores da Ilha.

 

História pra Contar: Contos de Adivinhação
História pra Contar: Contos de Adivinhação

O que é, o que é conta histórias sendo mudo, nunca estudou na escola, mas sabe um pouco de tudo? Resposta: LIVRO

Há uma série de contos populares cujos enredos giram em torno de uma adivinha, geralmente em versos. São os chamados contos de adivinhação, os riddles tales dos ingleses, os ratshselmarchen dos alemães, os ji-nongonongo de Angola.

Lehmann-Nitsche, em sua famosa classificação de peças folclóricas, reuniu estes contos no grupo das Narrativas. Luís da Câmara Cascudo (Contos tradicionais do Brasil, Rio de Janeiro, Americ-Edit., 1946), por sua vez, enquadrou-os no grupo oitavo de sua classificação dos contos populares brasileiros, sob o nome de “Contos de adivinhação”.

Teófilo Braga, talvez o primeiro escritor a focalizar o assunto em língua portuguesa (“As adivinhas populares”. Etnologia portuguesa, 1880-1881), já deixou anotado que “a relação do enigma com o conto é ainda muito íntima e, por assim dizer, constitui um gênero”. E acrescentou: “é um modo indireto da adivinha permanecer na tradiçãopopular”.

De fato, achamos que este gênero pode figurar entre os contos, como consta da classificação de Câmara Cascudo, como entre as adivinhas, como procedeu José Maria de Melo. Sendo intermediário, não tem seus limites definidos; por isso mesmo parece-nos não errar aquele que inclua os “contos de adivinhação” entre peças tradicionais narrativas ou enigmáticas.

A característica principal dos contos de adivinhação, conforme observou Câmara Cascudo (obra citada), é que “a vitória do herói depende da solução de uma adivinhação, charada, enigma, tradução de gestos, decifração da origem de certos objetos”; em alguns casos uma “princesa casará com quem decifre um enigma proposto por ela”, em outros, casará com quem lhe proponha uma divinha que não seja por ela decifrada, ou, ainda, premiará o herói com um tesouro, em vez de casar-se com ele. Assim são os contos de adicinhação em sua maioria.

No folclore mineiro e nas tradições populares de todo o Brasil, bem como na literatura oral de outros povos (Espanha, Itália, Grécia, Alemanha etc.), encontramos contos de adivinhação.maxresdefault

Em 2012 a Cia Contacausos mergulhou na pesquisa dos contos populares de adivinhação e montou um repertório de histórias com a temática. O espetáculo se chama TEM COROA, MAS NÃO É REI  e já foi apresentado em vários Municípios brasileiros, com destaque para a circulação em Santa Catarina pelo projeto Baú de Histórias do Sesc. Conheça o espetáculo AQUI.

A ADIVINHA DO AMARELO

Um rei tinha uma filha tão inteligente que decifrava imediatamente todos os problemas que lhe davam. Ficou com essa habilidade, muito orgulhosa, e disse que se casaria com o homem que lhe desse uma adivinhação que ela não descobrisse a explicação dentro de três dias. Vieram rapazes de toda parte e nenhum conseguiu vencer a princesa que mandou matar os candidatos vencidos.

Bem longe da cidade morava uma viúva com um filho amarelo e doente, parecendo mesmo amalucado. O amarelo teimou em vir ao palácio do rei apresentar uma adivnha à princesa, apesar de rogos de sua mãe que o via degolado como sucedera a tantos outros.

Saiu ele de casa trazendo em sua companhia uma cachorrinha chamada Pita e um bolo de carne, envenenado, que lhe dera sua própria mãe. Andou, andou, andou, até que desconfiando do bolo o deu à Pita. Esta morreu logo. O amarelo, muito triste, jogou a cachorrinha no meio do campo e os urubus desceram para comê-la. Sete urubus morreram também. O amarelo com fome, atirou com uma pedra em uma rolinha, mas errou e matou uma asa branca. Apanhou-a e sem deixar de andar ia pensando como podia comer sua caça quando avistou uma casinha. Era uma capela abandonada há muito anos. O amarelo entrou e aproveitando a madeira do altar fez uma fogueira e assou o pássaro, almoçando muito bem. Ao sair, viu que descia na água do rio um burro morto, coberto de urubus. Estando com sede, encontrou um pé de gravatá, com água nas folhas e bebeu a fartar. Quase ao chegar à cidade reparou em um jumento que escavava o chão com insistência. O amarelo foi cavar também e descobriu uma panela cheia de moedas de ouro. Chegando à cidade, procurou o palácio do rei e disse que tinha uma adivinhação para a princesa. Marcaram o dia, e o amarelo, diante de todos, disse:

Saí de casa com massa e Pita
A Pita matou a massa
E a massa matou a Pita
Que também a sete matou
Atirei no que vi
Fui matar o que não vi
Foi com madeira santa
Que assei e comi
Um morto vivos levava
Bebi água, não do céu
O que não sabia a gente
Sabia um simples jumento
Decifre para seu tormento

A princesa pediu os três dias para decifrar e o amarelo ficou residindo no palácio, muito bem tratado. Pela noite, a princesa mandou uma criada sua, bem bonita, tentar o amarelo para que lhe dissesse como era a adivinhação. O amarelo compreendeu tudo e foi logo dizendo:

– Só direi se você me der a sua camisa.

Vai a moça e deu a camisa ao amarelo, que contou muita história mas não explicou a adivinhação. A princesa, vendo que a criada nada conseguira, mandou a segunda e houve a mesma cousa, ficando o amarelo com outra camisa. Na última noite, a princesa procurou o amarelo para saber o segredo. O rapaz pediu a camisa e a princesa não teve outro remédio senão a entregar. No outro dia, diante da corte, a princesa explicou a adivinhação:

– Massa era o bolo que a cachorra Pita matou porque comeu e foi morta pelo bolo, matando envenenados os sete urubus. A rolinha escapara da pedrada mas a asa branca morrera sem que o caçador a tivesse visto. Assou-a com madeira que guardara a hóstia santa. Um cadáver de burro levava, rio abaixo, uma nuvem de urubus vivos. A água que se conservava entre as folhas do gravatá, matara a sede do amarelo. O que não sabia o povo inteligente, sabia um jumento que cavava ouro ao pé de uma árvore.

Era tudo. Bateram muita palma, mas o amarelo disse logo:

– O fim dessa adivinha é fácil e eu vou dizer logo,
antes que morra degolado!

– Quando neste palácio entrei
Três rolinhas encontrei
Três peninhas lhes tirei
E agora mostrarei…

E foi puxando a camisa da primeira criada e mostrando. Fez o mesmo com a da segunda. Quando tirou a camisa da princesa, esta correu para ele, dizendo:

– Não precisa mostrar a terceira pena! Eu disse a adivinhação porque você me ensinou, e me ensinou porque é meu noivo…

Casaram e foram muito felizes.

(CASCUDO, Luís da Câmara. Literatura oral no Brasil)
Ilustração de Santa Rosa. In Sílvio Romero. Contos populares do Brasil

fonte: http://www.jangadabrasil.com.br/revista/maio78/im78005c.asp

História pra Contar: O Compadre da Morte
História pra Contar: O Compadre da Morte

 

Diz que era uma vez um homem que tinha tantos filhos que não achava mais quem fosse seu compadre. Nascendo mais um filhinho, saiu para procurar quem o apadrinhasse e depois de muito andar encontrou a Morte a quem convidou. A Morte aceitou e foi a madrinha da criança. Quando acabou o batizado voltaram para casa e a madrinha disse ao compadre:

– Compadre! Quero fazer um presente ao meu afilhado e penso que é melhor enriquecer o pai. Você vai ser médico de hoje em diante e nunca errará no que disser. Quando for visitar um doente me verá sempre. Se eu estiver na cabeceira do enfermo, receite até água pura que ele ficará bom. Se eu estiver nos pés, não faça nada porque é um caso perdido.

O homem assim fez. Botou aviso que era médico e ficou rico do dia para a noite porque não errava. Olhava o doente e ia logo dizendo:

– Este escapa!

Ou então:

– Tratem do caixão dele!

Quem ele tratava, ficava bom. O homem nadava em dinheiro.

Vai um dia adoeceu o filho do rei e este mandou buscar o médico, oferecendo uma riqueza pela vida do príncipe. O homem foi e viu a Morte sentada nos pés da cama. Como não queria perder a fama, resolveu enganar a comadre, e mandou que os criados virassem a cama, os pés passaram para a cabeceira e a cabeceira para os pés. A Morte, muito contrariada, foi-se embora, resmungando.

O médico estava em casa um dia quando apareceu sua comadre e o convidou para visitá-la.

– Eu vou, disse o médico – se você jurar que voltarei!

Prometo! – disse a Morte.

Levou o homem num relâmpago até sua casa.

Tratou muito bem e mostrou a casa toda. O médico viu um salão cheio-cheio de velas acessas, de todos os tamanhos, uma já se apagando, outras viva, outras esmorecendo. Perguntou o que era:

É a vida do homem. Cada homem tem uma vela acessa. Quando a vela acaba, o homem morre.

O médico foi perguntando pela vida dos amigos e conhecidos e vendo o estado das vidas. Até que lhe palpitou perguntar pela sua. A Morte mostrou um cotoquinho no fim.

– Virgem Maria! Essa é que é a minha? Então eu estou, morre-não-morre!

A Morte disse:

– Está com horas de vida e por isso eu trouxe você para aqui como amigo mas você me fez jurar que voltaria e eu vou levá-lo para você morrer em casa.

O médico quando deu acordo de si estava na sua cama rodeado pela família. Chamou a comadre e pediu:

– Comadre, me faça o último favor. Deixe eu rezar um Padre-Nosso. Não me leves antes. Jura?

– Juro -, prometeu a Morte.
O homem começou a rezar o Padre-Nosso que estás no céu… E calou-se. Vai a Morte e diz:

– Vamos, compadre, reze o resto da oração!

– Nem pense nisso, comadre! Você jurou que me dava tempo de rezar o Padre-Nosso mas eu não expliquei quanto tempo vai durar minha reza. Vai durar anos e anos…

A Morte foi-se embora, zangada pela sabedoria do compadre.

Anos e anos depois, o médico, velhinho e engelhado, ia passeando nas suas grandes propriedades quando reparou que os animais tinham furado a cerca e estragado o jardim, cheio de flores. O homem, bem contrariado disse:

– Só queria morrer para não ver uma miséria destas!…

Não fechou a boca e a Morte bateu em cima, carregando-o. A gente pode enganar a Morte duas vezes mas na terceira é enganado por ela.

(Informante: João Monteiro, Natal, Rio Grande do Norte. Em CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil. Belo Horizonte; São Paulo, Itatiaia, Editora da Universidade de São Paulo, 1986. Reconquista do Brasil, 2ª série, 96)

História pra Contar: Contos Populares de Diabo Logrado
História pra Contar: Contos Populares de Diabo Logrado

As Narrativas de Diabo Logrado

O folclorista Luís da Câmara Cascudo dizia que as lendas e os contos urbanos são como “um dos altos testemunhos da atividade cultural de um povo, ensinando a conhecer diversas facetas do espírito humano, agrupando informações históricas, etnográficas, sociológicas, jurídicas e sociais, constituindo um documento vivo dos costumes, idéias e julgamentos de um grupo cultural”. Nos contos populares onde o Demônio se decepciona na impossibilidade de obter o pagamento contratual, é um dos processos de adaptação religiosa popular ao Ciclo do Demônio Logrado. Alguns apelidos para o Diabo: Afuleimado, Amaldiçoado, Arrenegado, Barzabu, Bicho-Preto, Bruxo, Cafuçu, Canheta, Capa Verde, Diogo, Diale, Diá, Diacho, Diangas, Dianho, Demo, Satã, Dedo, Ele, Esmolambado, Excomungado, Feio, Feiticeiro, Ferrabrás, Futrico, Gato-Preto, Imundo, Fedorento, Inimigo, Lúcifer, Mequetrefe, Mal-Encaracio, Mofento, Não-Sei-Que-Diga, Nojento, Pé-de-Cabra, Pé-de-Pato, Peitica, Rabudo, Sapucaio, Sarnento, Tição, Tisnado, Tinhoso.

Fonte: Os Melhores Contos Populares de Portugal, coletânea com org. e notas de Câmara Cascudo. (1944).

A seguir, compartilhamos uma das narrativas que utilizamos na construção do espetáculo de contação de histórias Nem Te Conto da Cia ContaCausos. Contos populares com esta mesma temática você pode encontrar nas seguintes obras:

O BOM PARTIDO

(do livro “Encantos e Malassombras de Jacarehy”)

     Contam que, naquele tempo, havia uma moça muito bonita chamada Olívia. Tão formosa que todos os rapazes queriam se casar com ela. Fazia fila no portão da moça, mas ela desdenhava de todo mundo.
     Se o sujeito tinha um defeitinho, a Olívia logo descartava. Ela falava que só se casaria com um homem rico, bem apessoado e que soubesse francês.
     Até que numa tarde, apareceu um moço montado num cavalo alazão, com uma sela de prata reluzente.
 
     Este cavaleiro era diferente de todos os rapazes da região. Um sujeito bem apanhado, com dente de ouro e terno de linho inglês. E ainda por cima, falava seis línguas.
 
 Foi um fuzuê.
 
     Todas as moças queriam conhecer o cavaleiro, mas assim que ele viu a Olívia na janela, já foi tirando o chapéu.
 
     A Olívia logo quis se casar com o rapaz, ele era um sonho! E daí para marcarem o casamento foi ligeiro.
 
     Dona Isaldina nem acreditava que a filha ia desencalhar, finalmente tinha aparecido um moço de que a Olívia gostasse.
 
     O casamento foi uma boniteza só e a festa durou três dias.
Porém, depois de um certo tempo, começaram a acontecer umas coisas estranhas…
 
     O moço não trabalhava, mas sempre tinha dinheiro na gaveta. E por onde ele passava ficava um cheiro forte no ar.
 
     A Olívia não estranhava nada.
 
     O rapaz era cheio de truques. Ateava fogo nos gravetos sem tocar neles, dançava numa corda bamba no quintal e fazia desaparecer algumas cartas do baralho. A Olívia ficava vermelha de tanto rir.
 
     Esse sujeito também não podia ver um bicho que já ia maltratando.Dava pimenta pro gato, cortava o rabo do cachorro, atirava em tudo quanto era passarinho.
 Num fim de tarde, assim que terminou de apurar o doce de abóbora, Dona Isaldina, chamou a Olívia num canto.
 
     – Ói, minha filha. Você tanto implicou com os moços desta cidade de, tanto escolheu, que acabou se casando com o Coisa Ruim.
 
     A Olívia escutou, até ergueu as sobrancelhas, mas não entendeu direito o que a mãe falou.
 
     – Pode deixar que eu dou um jeito nisso, filha.
 
     No dia seguinte, Dona Isaldina pegou uma rolha, fez uma reza forte, desenhou três cruzes na parte de cima da rolha e a guardou no bolso do avental.
Quando o sujeito chegou da rua, Dona Isaldina já foi passando um cafezinho e colocando o bolo de fubá na mesa.
 
     – Eu vejo que você é um moço talentoso. Faz todos esses prodígios…
 
     O rapaz pegou uma fatia de bolo e sorriu, vaidoso.
 
     Aí, Dona Isaldina mostrou uma garrafa de vidro pra ele.
 
     – Mas acho que nessa garrafa você não consegue entrar.
 
     – Ah, isso é fácil, minha sogra.
Num instante, o sujeito se desmanchou e foi pra dentro da garrafa.
 
     A sogra, mais do que depressa, pegou a rolha e tapou a garrafa. Lá estava o Coisa Ruim, presinho da silva. 
 Então, Dona Isaldina levou a garrafa pro brejo do Matutu e a enterrou. Às vezes, quando chovia e a taboa dobrava, o pessoal passava na estrada e escutava uma vozinha.
 
     – Me tira daqui, me tira daqui!
 
     Ninguém ia porque todo mundo sabia que era o diabo.
 
     O tempo passou. Dona Isaldina ficou velhinha, a Olivia não se casou mais e o alazão do cavaleiro sumiu.
Mas, como sempre tem um curioso, a história continuou…
 
     Num dia de agosto, depois de um toró, o tal do curioso foi ao brejo. Procurou, procurou, até que achou a garrafa enterrada, com o gargalo pra fora. A rolha da garrafa estava coberta de cera, que a sogra tinha colocado pra não apodrecer.
 Então, o curioso virou a garrafa de um lado, virou do outro e conseguiu tirar a rolha. Saiu o Coisa Ruim de lá, de rabo e chifre e falou:
 
     – Com sogra nem o diabo pode!
 
     E sumiu num estouro, deixando um cheiro de enxofre no ar.