Categoria: Pesquisa – Contacausos

100 brincadeiras tradicionais brasileiras
100 brincadeiras tradicionais brasileiras

Fonte: Via Blog Brasileirinhos

Alguns brinquedos, jogos e brincadeiras tradicionais tem origens surpreendentes. Vem tanto dos povos que deram origem à nossa civilização (o índio, o branco, o negro), como do longínquo Oriente. Num mundo cada vez mais urbanizado, industrializado e informatizado, a tendência é que muitas das brincadeiras tradicionais percam espaço nas preferências infantis. Mesmo assim, jogos e brinquedos como a peteca, a amarelinha, a ciranda, a pipa e a cama de gato têm um valor cultural inestimável, e o lugar dessas brincadeiras já está garantido no folclore.

A brincadeira é o exercício físico mais completo de todos e é através dela que agregamos valores e virtudes à nossa vida. A falta de valorização do brincar, contribuiu para a realidade que vivemos hoje: as brincadeiras estão entrando em extinção. Brincar, porém, é um momento sagrado.  É através das brincadeiras que as crianças ampliam os conhecimentos sobre si, sobre o mundo e sobre tudo que está ao seu redor.

Elas manipulam e exploram os objetos, comunicam-se com outras crianças e adultos, desenvolvem suas múltiplas linguagens, organizam seus pensamentos, descobrem regras, tomam decisões, compreendem limites e desenvolvem a socialização e a integração com o grupo. E todo esse aprendizado prepara as crianças para o futuro, onde terão de enfrentar desafios semelhantes às brincadeiras.

 

Então, aqui vão 100 brincadeiras para ensinar/aprender brincando.

Adoleta: Várias pessoas formam uma roda. Juntam-se as mãos e vão batendo na mão de cada membro conforme vai passando a música. A música é: “Adoleta, le peti petecolá, les café com chocolá. Adoleta. Puxa o rabo do tatu, quem saiu foi tu, puxa o rabo da panela, quem saiu foi ela, puxa o rabo do pneu, quem saiu foi eu.”

Bate na mão de sílaba em sílaba, fala uma sílaba e bate na mão do companheiro do lado, fala outra sílaba e o companheiro bate na mão da outra pessoa. Assim por diante. A música vai terminar no “eu”. Quando terminar, a pessoa que recebeu o tapa na mão por último terá que pisar no pé de alguém (cada pessoa do jogo só poderá dar um passo na hora que terminar a música). Se ela conseguir, a pessoa em quem ela pisou é eliminada. Se não conseguir, sai.

Amarelinha: Essa brincadeira tão tradicional entre as crianças brasileiras também é chamada de maré, sapata, avião, academia, macaca etc. A amarelinha tradicional é desenhada no chão com giz e tem o formato de uma cruz, com um semicírculo em uma das pontas, onde está a palavra céu, lua ou cabeça. Depois vem a casa do inferno (ou pescoço) e a área de descanso, chamada de braços (ou asas), onde é permitido equilibrar-se sobre os dois pés. Por último, a área do corpo (ou quadrado).

Alerta: O jogador pega a bola, joga ela pra cima e grita o nome de uma pessoa. A pessoa que teve seu nome citado deve pegar a bola e gritar “Alerta!”. Imediatamente, todos devem ficar estátuas. O jogador dá 3 passos e, parado, deverá tentar acertar com a bola na pessoa que tiver mais próxima. Se acertar, a pessoa atingida sai da brincadeira. Se errar, ele é quem sai. É uma espécie de queimada parada.

Arranca-Rabo: O grupo é dividido em dois, os integrantes de um dos times penduram um pedaço de fita na parte de trás da calça ou bermuda, eles serão fugitivos. Ao sinal do mestre, os fugitivos correm tentando impedir que as crianças do time adversário peguem suas fitas, quando todos os rabos forem arrancados, as equipes trocam os papéis, quem era pegador vira fugitivo.

Arremesso de Bambolê: Tipo arremesso de argolas, mas com bambolê. Uma pessoa será a vítima e ficará a 5 metros dos jogadores. Faz 1 ponto quem conseguir encaixar o bambolê na pessoa primeiro. Ganha quem tiver mais pontos.

Balança: Dois mestres pegam alguém pelas pernas e braços e começam a balançar seu corpo pra lá e pra cá. Uma variação é fazer isso com mais pessoas, ou seja, os balançados seguram um no braço do outro. É divertidíssimo!

Bambá : Jogo próprio de campo, executado com quatro metades de caroços de pêssegos, (ou algumas rodelas de casca de laranja). Sabugos inteiros e cortados servem de parelheiros . Traçam na terra riscos em forma de escada com os primeiros elementos jogados sobre os riscos. Tiram os pontos conforme estes avançam os parelheiros. O parelheiro de quem fizer mais pontos é ganhador.

Bambolê de Guerra: Jogam uma dupla de cada equipe. As duplas entrarão em um bambolê e ficarão de costas para a outra, pois correrão de frente. Serão feitos dois riscos, cada um a exatos 2 metros de cada lado do bambolê. O Objetivo é correr e fazer força para ultrapassar a linha, mas será difícil, pois a outra dupla irá fazer o mesmo. A dupla que conseguir ultrapassar o risco, vence.

Banderinha Arreou: Jogam dois grupos, cada um com seu campo e sua bandeirinha. No fundo de cada campo, coloque a “bandeira” do time, que pode ser qualquer objeto. O jogo começa quando alguém diz “bandeirinha arreou”. O Objetivo é roubar a bandeira do time adversário e trazer para o seu campo. Mas o jogador que entrar no campo do time adversário e for tocado por alguém fica preso no lugar. Só pode sair se for “salvo” por alguém do seu próprio time. Ganha o time que capturar a bandeira adversária mais vezes.

Batatinha: Em fileira, uma criança, o batatinha , coloca-se de costas para a fileira e atrás da raia, à distância de três metros mais ou menos. O batatinha , atrás da raia, grita: Batatinha frita com arroz ou Batatinha, um dois, três . É o momento em que os da fileira aproveitam a oportunidade para avançar rumo à raia, através de pulos. Após dizer a frase, o batatinha volta-se para o grupo. O que for apanhado em movimento deve retornar a ponto de partida, ou passar para o lado da raia e esperar que termine a brincadeira. Ganha o que conseguir atingir a raia, através de pulos, sem ser percebido pelo batatinha.

Bate e corre: Os participantes formam uma roda e um jogador iniciará a brincadeira. Ao sinal de início, o jogador separado põe-se a correr em volta da roda, devendo bater inesperadamente no ombro de um colega. Este sai no seu encalço, enquanto o outro continua a correr em torno da roda para tentar ocupar o lugar, agora vago no círculo, antes de ser apanhado. Se conseguir, o corredor desafiado reinicia a brincadeira indo tocar outro. No caso contrário, o alcançado vai para o centro da roda. Lá fica até outro cometer erro semelhante ao seu, trocando de lugar com ele.

Bate figurinha: Os meninos reúnem as figurinhas dos álbuns que são repetidas, fazem um montinho e batem a mão sobre elas, as que virarem ao contrário é ganha por quem bateu a mão. O jogo é feito de comum acordo entre todos, e só vale bater figurinhas repetidas para que ninguém saia no prejuízo.

Bilboquê / Bibloqué / Bibloqué: Este jogo consiste na habilidade de enfiar a carapuça do bilboquê no fuso (bastonete). Consta de duas partes: na primeira, cada criança vai jogando o bilboquê, contando até dez ou vinte, conforme combinação do grupo. Cada vez que um jogador acerta, marca ponto. Na segunda parte, iniciam as provas, selecionadas entre os participantes. Cada prova é também contada, de acordo com o número de vezes que o jogador acerta. Quem erra cede o lugar a outro participante, e fica aguardando sua vez para a próxima rodada. Provas: Bilboquê com floreiro: consiste em lançar a carapuça para um outro lado, fazendo evoluções, com um desenho no ar, e, depois, impulsionar a carapuça para o meio, procurando enfiá-la no bastonete. Carambola ou regalito: consiste em, partido de carambola enfiada no fuso, impulsionála para cima com a mão direita, enquanto o barbante é seguro pela mão esquerda, auxiliando a evolução. Em seguida, o jogador procura aparar a carapuça com o fuso. Floreiro com carambola: consiste na mesma habilidade descrita anteriormente, porém a carapuça deve fazer um giro no ar, antes de ser, enfiada no fuso. Floreiro com fuso: consiste em segurar a carapuça e movimentar a linha, para que o fuso entre no orifício. É semelhante ao floreiro com carambola, mas ao revés.

Bobinho: É uma brincadeira de bola. Os jogadores vão jogando a bola um para o outro, e o objetivo do bobinho é roubar a bola. Se conseguir, quem chutou a bola pela última vez será o novo bobinho. Pode ser brincado com os pés ou com as mãos. 

Boca de Forno: Brincam um mestre e os demais participantes. O diálogo é assim: MESTRE: “Boca de forno” DEMAIS: “Forno é” MESTRE: “Vão fazer tudo que o mestre mandar?” DEMAIS: “Vamos” MESTRE: “E se não fizer?” DEMAIS: “Leva bolo” Aí, o mestre manda os participantes buscarem algo. Quem trouxer primeiro, será o novo mestre, os demais, levarão palmadas. E assim por diante.

Boco: Traça-se uma raia e três ou quatro passos de distância escava-se, no chão, um pequeno buraco, em forma de pocinho, que, em muitos grupos, denomina-se imba ou boco . O objetivo do jogo é colocar a bulita no boco . A saída dos jogadores é feita da raia em sua direção (os jogadores colocam-se atrás da raia). Ao iniciar o jogo, todos atiram a bulita para o boco . Aquele que chegar mais próximo será o primeiro a boca . Quem jogar e não boca deixará a bulita na altura em que esta parou. O próximo jogador terá direito a azular a bulita , tantas vezes quantas forem necessárias para aproximá-la do boco . Se tentar azular e errar, ele deverá aguardar outra oportunidade. Quem consegue bocar da raia, tem boco e faz ponto. Como dizem as crianças: Bocô , ganhô . Variante: Em alguns grupos Lúdicos, a bulita que não consegue ir ao bocô fica a mercê das nicadas dos outros jogadores. A joga através de nica pode aproximar-se do imba , sem sofrer nica.

Bola na parede: Jogo de duplas. De cada vez, um participante joga a bola contra a parede. Nisso, o adversário tem que pegar a bola e fazer o mesmo até que alguém não consiga pegar. Esse alguém é eliminado e quem ficou no jogo escolhe um novo rival. Ganha o vencedor da última dupla.

Boliche Cego: Jogam um participante de cada equipe. É um boliche comum, mas os participantes jogam de olhos vendados. O objetivo do jogo é derrubar o último pino, não importando quantos lançamentos foram, uma vez que quando um erra, é a vez do outro. Quem conseguir, vence.


Bolinha de gude: Bolinhas coloridas e feitas de vidro, são jogadas num circulo feito no chão de terra pelos meninos. O objetivo é bater na bolinha do adversário e tirá-la de dentro do círculo  para ganhar pontos ou a própria bola do colega.

Bolinhas de sabão: É muito fácil fazer a alegria da criançada compranda os kits de bolha de sabão. Mas aqui via uma dica para se fazer essa brincadeira de forma bem tradicional. Adquire-se um talo de mamoeiro e corta-se tirando a folha e a parte mais grossa. Faz-se em um copo espuma de sabão, mergulha-se o canudo e me seguida sopra-se bem de leve fazendo-se as bolas que serão soltas no ar.

do último verso, dois meninos, dos mais fortes, levantam-se, e, com ambos os braços bem estendidos, dão as mãos aos que estão deitados e vão se erguendo, um a um. Os que, ao serem erguidos, se conservam, são valentes; os que se dobram, são os mais fracos. A este a vaia dos valentes, e nessa, a conclusão do brinquedo)

Carrinho de mão: Trace duas linhas no chão, uma de largada e outra de chegada. Os participantes dividem-se em pares e se colocam atrás da linha de largada. Todos contam até três e um corredor de cada dupla se abaixa, estica as pernas para trás e apóia as mãos no chão. O outro corredor levanta as pernas do parceiro e as duplas começam a correr, um com os pés e o outro com as mãos. Quem cair volta à posição de largada. Vence quem chegar à linha de chegada primeiro.

Cata-vento: Imitação dos aparelhos meteorológicos destinados a determinar a velocidade e direção dos vetos. Geralmente feito de papelão ou cartolina e presos por um alfinete ou pequeno prego à ponta de uma vara que lhe serve de cabo.

Cama-de-gato: A cama-de-gato é uma brincadeira com barbante. Consiste em trançar um cordão entre os dedos das duas mãos e ir alterando as figuras formadas. Provavelmente de origem asiática, a brincadeira é praticada em diversas partes do mundo. Uma versão mais moderna é trançar um elástico com as pernas.

Chefe Comanda: As crianças colocam-se em fileira; em posição oposta, fica o chefe ou mestre. Inicia-se o diálogo entre o chefe e as crianças: Chefe: Boca de forno. Crianças: Forno. Chefe: Tirar um bolo. Crianças: Bolo. Chefe: Fareis tudo o que o mestre mandar ? Crianças: Faremos todos. Seguem-se as ordens do mestre. Geralmente, elas consistem em coisas simples como: andar x passos, bater palmas, dar pulos, etc. A escolha do mestre ou chefe é feita através de sorteio.

 

CONTINUE O PASSEIO PELAS BRINCADEIRAS DA NOSSA GENTE AQUI: https://brasileirinhos.wordpress.com/brincadeiras/

História pra Contar:  O Corpo Seco
História pra Contar: O Corpo Seco

A lenda do corpo seco na versão dos pescadores de Aparecida do Norte

Maria de Lourdes Borges Pinheiro

A região de Aparecida do Norte foi povoada inicialmente por pescadores e ainda hoje muitos continuam na mesma labuta, às margens do Paraíba.  São piraquaras simples e bons, honestos e trabalhadores, resignados e piedosos, que conhecem as manhas das águas e dos peixes, procurando superá-las com habilidade e destreza. Para isso, dispõem de perícia, de pertences que fabricam com as próprias mãos e de uma paciência como poucos possuem neste mundo de Deus. Nada os atemoriza, nem a noite escura, nem as tempestades. Só a rede vazia os entristece.

Vivem eles na atmosfera da magia e, religiosos que sejam, se movem entre crendices e superstições.

Entre as suas lendas — lendas para nós, para eles mitos, pois lhes determinam o comportamento — a mais conhecida é a do corpo seco, duende que vive na mata densa e fechada, à margem esquerda do Paraíba, lugar pitoresco denominado Caaparabá.

Várias foram as histórias que ouvi de pescadores, velhos ou jovens, sobre o corpo seco — “a coisa mais horrorosa, horrive, que se pode vê”, como me afirmou Eduardo Rodrigues, que tem 65 anos e nunca mentiu e só fala a verdade.

Na sua linguagem simples, o velho Eduardo me descreveu fielmente o que é o corpo seco, mantendo os característicos essenciais a todas as descrições que outros já me tinham feito. “É sempre o corpo de pessoa ruim, principarmente quem martratô ou desresoeitô pai e mãe. É um corpo tão sem graça que nem a terra não qué. Rejeita. Então o corpo seca. A ropa gruda que fica rente co’a pele. Uma situação só. As unha cresce. A pacoera e as tripa fica tudo numa bolota só. E chacoaia de todo lado. Quando chega o tempo de revirá a sepurtura pra desocupá lugá é que descobrem isso. Então o coveiro avisa o padre do lugá que tem um corpo seco. Então o padre trata de vê quem tem corage e escolhe dois home. Faz suas rezas, seus benzimento forte, mas só de noite então, ali pela meia-noite, nem antes nem depois, um dos home [vira] pro companheiro que tá de costa, co os braço erguido pra trás. E ele fica nesta pusição assim, costa com costa, nem o corpo seco óia pra frente nem quem carrega óia pra trás. Daí caminha os dois home até o mato e ao corpo seco tem que sê jogado de costas, mar joga já tem que saí andando e sem oiá pra trás, se oiá ele munta cavalo e vem. Lá no mato, despois que o pessoá vem simbora, le mesmo por si se esconde. Fica encostado num pau, toma conta dum capoeirão inteirinho. Pois foi o que acunteceu cumigo quando um dia fui lenhá. Chegue no capoeirão dele e isso ninguém tem orde de fazê. Premero, pra avisá a gente da presença dele, ele dá uma tontura na gente; Se teimá, daí ele tira a idéia. Ninguém tem força de arregisti. Ele, eu não vi, só ouvi os estralos no mato, mas quem viu contô, é da artura duma pessoa mesmo, no lugá do zóio tem dois vuracão. Uma cara medonha de feio…”

O capoeirão do corpo seco

A lenda é assim conhecida nesta região, mas os casos que contam e as histórias que surgem variam grandemente; uns, amedrontados, largam no capoeirão a lenha que colheram e os peixes que pegaram e fogem espavoridos; outros, com uma coragem que talvez lhes advenha depois de passado o susto, que os “estralos no mato” metem medo de verdade, incentam suas histórias e se tornam conhecidos como destemerosos, valentes e ousados. Mas… só na prosa mesmo, que caminho pequeno, estradinha à toa, atalho de todo o dia, quando corrido com pernas bambas se transforma em uma légua sem fim…

Pelas redondezas da cidade está o Caaparapá, onde a galharia cerra tanto lá no alto que em certos pontos, não se avista o céu. Enormes aranhas tecem suas teias fortes entre os ramos onde florescem orquídeas das mais belas. A mata se estende por onze alqueires, chegando quase à beira do rio, cujas águas entram por um valão e formam uma lagoa enorme, quase transformando o Caaparapá numa grande ilha. O lagoão é bonito e cheio de árvores que nasceram não se sabe quando, pois que os avós contam que seus avós contavam.

Mas desde quando o Caaparapá se tornou capoeirão do corpo seco, todo mundo sabe, porque ainda vivem alguns dos que o conheceram em vida, lá pelos fins do século XIX, antes de condenado a cumprir sina e sabiam que, “embora não aparecesse divulgado para ninguém”, sempre aparecia à gente dele, vinha à casa do filho, pedindo para cortar-lhe as unhas e fazer-lhe a barba e pedindo coisas também: roupa, chapéu, calçado, que ele precisa de tudo que a gente usa também. E contam, que de todos os seus, era o Pissidone quem mais o presenteava, por ser quem mais tinha dó do coitado. Daí o Pissidone ir ao Caaparapá e colocar tudo perto de uma árvore grande que nunca acabava. O chapéu era de pirizinho e muitos sabiam da altura do corpo seco porque viam os sinais de suas passadas e os estralos lá em cima, onde o chapeuzinho roçava.

Condenado ao capoeirão, dele nunca podendo retirar-se, tem como seu tudo quanto nele se encontra: as árvores do chão, os pássaros do ar e os peixes das águas. Quem vai lenhar e se embrenha na mata, ou volta abobado ou larga o feixinho e sai correndo, quando não passa a noite toda como que encantado, sem poder arredar pé do lugar; quem vai pescar e se distrai na beira da água, quase morre de susto quando ouve a voz soturno: “largue o peixe aí…” E caçador que enverede pelos trilhos apertados à procura do paturi, do frango d’água, não sabe mais voltar, precisa rezar o Creio em Deus Padre. Assim é o corpo seco, dono de quanto tenha vida em seu domicílio e de nada querendo se separar.

Um acordo com o duende

Porém, tudo depende de jeito, como disse o nosso velho amigo Agapito Pamplona da Corte Real Espíndola, piraquara de 64 anos, sempre lidando com redes e remos, e canoas e botes. Agapito me disse que ia contar um caso para provar que o “sujeito” (não gosta de falar “corpo seco”, tem medo…) não é tão ruim assim como se diz, vai do modo de se lidar com ele, porque com bom trato até nós somos bons, mas que nos queiram tirar as coisas à força… E aqui a história que ouvi de um acordo feito entre Agapito e o corpo seco do Caaparapá, com amplos poderes para a pescaria no lagoão, pelo tempo que lhe aprouvesse pescar.

“Tava uma miséria de peixe aqui na Parecida e não tinha peixe nenhum. O Gerardo (filho dele) foi e disse: “cumé, pai, bamo venturá? Bamo no Caaparapá pra nóis pescá”, que lá tinha muito peixe. Então eu disse: “cumé que nóis bamo fazê… Sá? eu vou pensá um modo e nóis bamo lá pescá”. Mandei ele comprá uma vela na venda, meia garrafinha de cachaça e saí com ele, de tardezinha, regulando no primeiro dia de pesca mais de oito hora. Fomo cedo nesse dia. Cheguemo na lagoa, custô pra nóis travessá, quase que a água dava pra molhá nóis. Lagoá funda. Eu levei junto co’a vela um vidrinho de cachaça com guiné e arruda também. Deixei ele na bera do poço e a rede e fui lá pro pé da figueira. “Óia, nóis bamo pescá agora neste poço, mas eu quero que me ajude porque nós não conhece o poço. Depois da pescaria nóis mata o bicho”. Eu disse assim. Não tinha ninguém. Cheguemo na boca do poço, demo suas redada e saiu carga de peixe que quase não pidemo carregá. Saímo no caminho. O Gerardo disse pra mim: “Ê pai, cumé agora pra nós travessá a lagoa?” O peso era muto. Eu fui disse assim: não é nada, rapaiz, o amigo aqui ajuda nóis passá pra lá e carrega o peixe”. Eu peguei a rede, pus nas costa e ele ergueu o balaio de peixe na cacunda. Eu disse: “siga na frente que eu vou atrais”. Ele embarcô na lagoa e eu também. Ele co’a carga de peixe, não chegô a batê água no joeio. E eu, co’a rede e a água deu só no tornozelo do pé. Um tremedá temeroso que dava para cobrir um home se escapasse. Cheguemo pra cá da lagoa, larguemo a rede, o peixe, e eu disse pro Gerardo: “bamo tomá uma pinguinha”. Eu deu o vinho prele, ele bebeu um gole e me deu o vidro, e eu bebi também e virei o vidro pro lado da lagoa e disse: “Isso é vosso”. Não vi buia de nada e quando peguei a oiá o vidro já estava sequinho. Tornei a pôr a rede nas costa e ele ergueu o jacá de peixe. E eu disse: “Bão, amanhã nóis vortamo, pode ir embora, obrigado, Deus que ajude, pode ser sempre assim e bamo embora vendê o peixe”. E assim seguimo. Pesquemo mês e meio dessa maneira assim. Úrtima veiz, cheguei no poço, sortemo a rede, enganchou num aramaço colosso de arame farpado. O Gerardo respondeu: “E, pai, perdemo a rede”. Eu disse: “não é nada”. Eu vi uma buinha que vinha vindo pro mato e nesse dia nóis não tinha levado a vela nem a pinga. Aí eu disse: “isso é arte desse sujeito, ele ficô com raiva, mas tem razão, porque nóis fomo curpado. Trato é trato”. E falei pro Gerardo: “afaste pra trais e estique a rede”; E chamei: “ó, amigo, você conhece a arte de sair daqui, me sorte a rede, que nois no pode pescá”. Deu um xaquaio muito grande na rede e sortou. Nóis puxemo, enrolemo e eu disse: “agora nóis num pesca mais hoje. Bamo embora”. Daí o Gerardo disse assim: “eu vô tirá aquele arame, pai, tirá pra fora, deixá limpo”. Entrô no poço, foi tirando aqueles pacote de arame farpado, cruzeta de pau, tuso feito, e muntuô em cima do guapesa. Daí saímo pra vim embora, ele sai atrais dele, co’o a rede. Quando passemo em frente a figueira, o sujeito avançô a mão na rede e soquetrô pra tirá a rede de mim. E eu expriquei pra ele: “Hoje nóis não queremo pescá mais, fica pra amanhã, amanhã nóis vorta”. E não pesquemo. Notro dia, o Gerardo, que é muito curioso, saiu bem cedo e foi lá zoiá o arame pra aproveitá argum e não achô nada… Continuemo a pescaria quando nóis quisemo, nada estorvô nóis, num tinha enrosco, num tinha nada. E terminô nisso aí…”

Câmara Cascudo registrou o mito em São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Nordeste e diz ser da tradição portuguesa. Aliás, almas penadas, com suas aparições proteiformes, correm por toda parte. Existe também em vários lugares do Brasil uma outra lenda, de que quem bate em pai ou mãe fica com a mão seca, cujo tema central é o mesmo portanto. Não sei, porém, se se corporifica em forma lendária ou aparece apenas em crendice, embora o povo não acredite nunca em abstrato, acredita porque lhe citam provas que a tradição conserva intangíveis.

(Pinheiro, Maria de Lourdes Borges. “A lenda do corpo seco na versão dos pescadores de Aparecida do Norte”. Paratodos. Rio de Janeiro; São Paulo, nº 2, novembro de 1957)
Fonte: Jangada Brasil
O Diabo Brasileiro nos Contos Populares
O Diabo Brasileiro nos Contos Populares

Luís Santa Cruz

Confesso que me tem causado as mais agradáveis surpresas as pesquisas que ando fazendo, no levantamento de material folclórico, literário, etnográfico e filológico, para um livro sobre demonologia brasileira. Não é que a nossa diabologia possa competir, em riqueza literária e artística, com as mais valiosas, substanciais e clássicas do mundo; tem-se surpreendido, porém, os processos de abrasileiramento, de amaciamento e familiarização do diabo em nosso país.

Talvez, porque em minha mocidade não houvesse participado muito da religiosidade provinciana de minha terra, muito supersticiosa mas também intimista com o demo e houvesse logo me integrado no movimento teológico e litúrgico da Renascença Católica que dos países europeus enviava as suas influências doutrinárias e ortodoxas sobretudo sobre as gerações mais jovens de meu país. E o diabo nessa catolicidade renascentista era mais encarado sob o ângulo metafísico e mais notadamente da teologia moral.

Talvez por isso, sempre desconfiei muito da demonologia brasileira, acreditando nada haver nela de original ou mesmo pitoresco, tornando-se assim de todo desinteressante para um estudioso dos assuntos de diabologia.

E hoje estou convencido de que foi muito bom que assim houvesse procedido, porque pude conhecer mais a fundo as demonologias asiáticas, européias, africanas, americanas e australianas, desde os demônios arianos, ou da pré-história aos da Índia, Pérsia, Japão, China, Babilônia, Egito, Grécia, Roma, até os mais recentes exus de nossas macumbas, em certos candomblés baianos como em Niterói, com uma espantosa sobrevivência de elementos de fetichismo védico das regiões de Pondichery e Madras, na velha Índia. Atravessando os séculos e as efervescências religiosas mas díspares, conseguiram tais elementos demonológicos subsistir nos interstícios das culturas ambientes, nas costas da África e daí até o Brasil, resistindo a todo o caos demográfico e confraternizando o moderno e o arcaico, num fenômeno de permanência que espanta e resiste à sumária e superficial explicação historiográfica.

Ou foi bom que preferisse aprofundar conhecimentos sobre os diabos soltos e furiosos do Novo Testamento, somente dignos de confronto, em número e fúria malfazeja, com as famosas e quase epidêmicas manifestações diabólicas e satanistas do século XV na Europa, com os seus casos surpreendentes de possessões e de feiticeiros e feiticeiras levados aos tribunais do Santo Ofício. Processos esses que até fins do século passado ainda transitavam nos tribunais civis e religiosos dos Estados Unidos.

Foi muito bom, sem dúvida, ter conhecido melhor todos esses diabos, arianos ou de cor, do Velho e do Novo Mundo, pois do contrário, não estaria, a essa altura, capacitado para avaliar melhor a admirável riqueza inventiva e interpretativa, a poderosa capacidade de aclimatação, de amaciamento e familiarização, numa palavra, de abrasileiramento do nosso diabo.

O diabo brasileiro não interessaria, por exemplo, ao especialista da demonologia médica, a um Thorndike, ou mesmo a um J. G. Frazer e a seus estudos sobre magia, religião pouco haveria nele a arrolar que não fosse repetição dos elementos levantados em outras regiões do globo, desde os cultos dos demônios vegetais de Pondichery, no VI século anterior à nossa era, e desde os ritos da fecundidade vegetal e animal dravidianos e primitivos até certas práticas de macumba que entre nós, atraem malefícios.

Contudo, sob o ponto de vista da história literária, folclórica, etnográfica, religiosa e sociológica do diabo, que abundante riqueza de materiais anda por aí, à espera de quem se dedique com paciência e carinho a seu levantamento em primeira mão no Brasil!

Assim, a história comparativa de fraseologias e abusões lingüísticos sobre o diacho, em vez de diabo, herdados de Portugal e da demonologia lusitana (com imponderáveis ou bastante acentuadas influências hispânicas e moçárabes), o estudo crítico da evolução desses abusões conduzir-nos-ia a surpreendentes constatações do procedimento popular com relação ao diabo, quer nas regiões do Norte e do Nordeste, quer no centro e sul e mais surpreendentemente ainda no linguajar fronteiriço do Rio Grande do Sul. Só o levantamento desse material lingüístico é obra que requer pesquisas as mais laboriosas, dada a inexistência de bibliografia demonológica especializada em nosso país.

O nosso lendário demonológico popular é também um dos mais ricos do mundo, senão em gênio inventivo, em interpretação e variedade literária. Contos populares do ciclo do diabo, encontráveis em quase todas as literaturas universais, como é o caso do demônio da garrafa, de origens persas e bíblicas, que deu em francês os famosos romances e contos sobre le diable boiteux, inspirou escritores espanhóis, italianos, alemães, russos, norte-americanos e ingleses (um dos últimos é Stevesson); tais contos encontraram no Brasil interpretações e versões bem nossas, a maioria delas apresentando-nos um diabo tolo, danado ´por mulher, mas sempre enganado por ela; assim são os contos Nem o diabo as guarda, Foi buscar lã e saiu tosquiado, O diabo na garrafa (que inspirou, em Portugal, a Fialho de Almeida, O almocreve e o diabo), Os músicos prosas, Morreu mesmo, A caixa de ouro, todos eles colhidos por Lindolfo Gomes na Zona da Mata mineira.

No Nordeste, ou da Bahia para cima, é à poesia popular de feira que cabe o abrasileiramento literário do diabo. É o livreto do “homem que roubou a mulher do diabo”, do “noivo que tomou sua noiva”, de bate-papos do padre Cícero repreendendo o demo, discussão entre eles e Antônio Silvino, de suas partes com Lampião, onde se encontram, já de todo aportuguesadas e abrasileiradas, as famosas conjuras do Grinomoire ou doSanctum regnun de la Clavicule, repositórios rituais da pactuação satânica recolhidos por Bergier, no verbete “Legendes infernales“, de seu Dictionnaire théologique.

Em toda essa poesia popular aparece sempre o diabo brasileiro, como o de Marlowe, o prestígio para angariar o amor de uma mulher para os seus afeiçoados, mas como o Asmodeu bíblico do Livro de Tobias, ele próprio sem nenhuma sorte em suas aventuras amorosas com outras mulheres que não as feiticeiras do século XV, horrendas megeras, solteironas feíssimas e dadas demais ai vinho, ou freiras supersticiosas e monasticamente relaxadas.

A demonologia brasileira é ainda rica de invenção na parte fantasmagóricas das assombrações praieiras e do interior. Ora o diabo aparece nelas sob a forma deslumbrante de uma barca-fantasma nas noites de lua do rio Amazonas, ora é a jangada-fantasma dos jangadeiros nordestinos, notadamente do Rio Grande do Norte e Paraíba, ora mil e uma outras formas mal-assombradas, desde o clássico bode preto dos sacrifícios rituais asiáticos e africanos, da Austrália e Antilhas já europeizadas, aclimatando-se no Brasil sob a forma das assombrações.

O diabo brasileiro é rito de títulos no patrocínio dos sete pecados capitais. O capeta, encurtamento lingüístico de capa preta, é entre nós, de uma vaidade feminina: prometem-lhe os seus afeiçoados, sobretudo, dentes de ouro. Ou então, numa reviviscência dos cardápios satânicos nos famosos banquetes do sabbat (reuniões noturnas de demônios, feiticeiros e feiticeiras, para orgias infernais), em vez de carne de rãs ou de enforcados, a famosa galinha preta das demonologias indianas, dadas porém, a demônios mais enfurecidos que vaidosos e amigos de obsequiosidades gratuitas, e que típico da nossa diabologia.

Até com dinheiro (Mestre Leonardo, o rei do sabbat, o oferecia sempre aos feiticeiros e feiticeiras, em suas orgias cobervilianas!…), até com dinheiro, os seus aficionados brasileiros tentam ao diabo; com botijas de moedas de ouro e prata; quando não com um menos custoso pé de pato, para reforçar o estoque do sapateiro do inferno.

Tipicamente nosso, e o mais original de todos é, porém, o diabo banqueiro do jogo de bicho. Ao diabo bicheiro implora-se que revele às escondidas “a milhar do tigre”. Ao diabo músico pede-se que ensine melodia e letra de samba ou embolada, a fim de o ruim cantador ou cantor dizer, com boa voz, ao violão, toda “a quentura” de amor pela bem-amada, as Zefas, Rosinhas e Doras, nossas Margaridas popularescas, objetos de paixão dos nossos Faustos brasileiros, brancos, cafuzos, mulatos ou negros. Essa demonologia alcoviteira e trapaceira, de loterias, roletas ou jogo de bicho, não se encontrará, com suas intimidades e processos de conjuras satânicas, em nenhuma outra demonologia de nenhum país do mundo.

No conto do ciclo do diabo, Nem tudo que se vê se diz, aparece o demo antropomórfico, como uma menina do Sion, doido por um baile, bancando o galã apaixonado atrás das moças, mas com enorme botina de bico fino que logo chamou a atenção de um menino no sereno de uma dança. Descoberto o diabo mulherengo, foi expulso do baile e obrigado a curtir a sua ressaca de amor nas canículas das profundas do inferno.

Os nossos Faustos brasileiros também pedem ao diabo, para conquistar suas Margaridas (Conceições e Antônias), com botina branca, terno preto, palhetas alvadios, implorando-lhe receitas de mandingas para derrear-lhes o coração e as feições. Quando não é o diabo transformado em mensageiro alcoviteiro de namorados, moleque de recados de iaiás dengosas e mandonas dos maridos, ou criado de quarto de maridos ciumentos, pequenos eunucos das camarinhas botando sentido nas suas mulheres, enquanto eles iam ao roçado, à cidade (ou rua), à feira ou ao vigário.

Assim como a religiosidade popular fez do Menino Jesus um santo familiar, espécie de caçula da casa, sempre vestido de sedas e fitas, nos braços das Nossas Senhoras brasileiras, em oratórios domésticos ou altares das matrizes e capelas das cidades e do interior, também o diabo, durante o dia, era transformado em moleque de criação para recados, trapaças e mandingas. De noite, era o mal-assombrado, o lobisomem, as mulas-de-padre, a caipora, com suas gargalhadas infernais na escuridão das matas, com seus gritos que eram guinchos de animais, pois não sabendo falar e não podendo rir, o demônio procura como pode macaquear o homem e não somente a Deus, ele, “um deus traído pela sorte”, como o denominou com tanta felicidade o poeta de Litania a satã, Charles Baudelaire.

Mil e um outros aspectos há ainda a registrar na multifacetada demonologia brasileira, em suas manifestações folclóricas, etnográficas, sociológicas, literárias e históricas. Mas o assunto é vasto demais e só mesmo num volumoso livro se poderia senão esgotá-lo, apreciá-lo melhor e mais documentadamente. Realizar tal obra não seria apenas versas um aspecto ainda por estudar na história religiosa e social brasileira, mas obra cuja leitura de certo muitas contribuições preciosas prestaria às teologias pastoral e moral.

(Santa Cruz, Luís. “O diabo brasileiro”. Jornal do Commercio. Rio de Janeiro, 02 de novembro de 1957)
História pra Contar: Mula-sem-cabeça
História pra Contar: Mula-sem-cabeça

“Ainda hai a mula sem cabeça; custa muito, mas porém hai. Essas cousas de Deus unfum!… ninguém deve marmurá. Mamãe veio sabê, ô dispois muito tempo, qu’essas gente são iscomungado…”
(Manuel Ambrósio. Brasil interior)

* * *

A transformação em mula é o castigo recebido pela mulher que se entrega sexualmente a um padre. Nas noites de quinta para sexta-feira, ou de acordo com a lua, ou de sete em sete anos, ou na quaresma, enfim — os períodos variam de região para região — a concubina transforma-se e parte em galope desvairado, pisoteando tudo o que encontra pela frente. Seus cascos, afiadíssimos, ferem como navalhas. Quando retorna à casa, readquire a forma humana, porém está machucada, abatida, cheia de escoriações. Na próxima noite fatídica, tudo acontece novamente.

Para que a manceba não se transforme, o padre deve amaldiçoá-la antes de celebrar cada missa. Segundo Pereira da Costa, isso deve ser feito antes de tocar a hóstia, no momento da consagração. Ao encontrar uma mula, é preciso esconder as unhas a fim de não atrair a sua ira. Aquele que tiver a coragem extrema de retirar-lhe o freio de ferro da boca, quebrará o encanto. Em alguns lugares, basta causar-lhe um ferimento, tirando-lhe sangue.

A mula-sem-cabeça, burrinha-de-padre ou burrinha é mito de origem ibérica e ocorre em toda a América. No México, é chamada malora; na Argentina, mula anima. Também é chamada alma mula, mula sin cabeza, mujer mula e mala mula. Segundo Luís da Câmara Cascudo, apesar de algumas variações, sempre é a punição recebida pela “manceba” do padre. Viriato Corrêa a chama de cavalacanga.

Existem inúmeras variações sobre a sua forma: uma mula sem cabeça, com um relincho apavorante; um animal preto com uma cruz de pêlos brancos na cabeça; olhos de fogo; geme como gente; relincha; tem um facho luminoso na ponta da cauda; ninguém a vê, só se ouve o tropel; uma burra com uma listra branca no pescoço…

Gustavo Barroso explica que a escolha da mula, ou burrinha, como a punição da mulher do padre, deve-se ao fato que desde mais ou menos meados da Idade Média, as mulas foram as montarias mais utilizadas pelos padres, por serem dóceis, resistentes e seguras. Animais incansáveis e bastante próximos da pessoa do padre, inclusive fisicamente.

Para saber mais sobre a mula-sem-cabeça:

Amaral, Amadeu. O dialeto caipira. 4ª ed. São Paulo, Editora Hucitec, 1982, p.156

Ambrósio, Manuel. “A onça Borges”. Brasil interior; palestras populares, folclore das margens do São Francisco: Januária, Minas Gerais, 1912. v.1,  São Paulo, Nelson Benjamin Monção, 1934, p.50-53

Barroso, Gustavo. O sertão e o mundo. Rio de Janeiro, Livraria Leite Ribeiro, 1923, p.181-186

Cascudo, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, 1954 | 9ª edição: Rio de Janeiro, Ediouro, sd | Geografia dos mitos brasileiros. 2ª ed. São Paulo, Global Editora, 2002, p.191-195

Gouveia, Daniel. Folclore brasileiro. Rio de Janeiro, 1926, p.46-47

Lopes Neto, João Simões. Lendas do sul. Pelotas, p.91

Pires, Cornélio. Conversas ao pé do fogo. 3ª ed. São Paulo, 1927, p.155

Sanches, Rafael Jijena; Jacovella, Bruno. Las supersticiones. Buenos Aires, Edições Buenos Aires, 1939, p.148

fonte: Jangada Brasil

História pra Contar: 12 Contos Acumulativos
História pra Contar: 12 Contos Acumulativos

O macaco e o rabo (1)

Um macaco uma vez pensou em fazer fortuna. Para isso foi-se colocar por onde tinha de passar um carreiro com seu carro. O macaco estendeu o rabo pela estrada por onde deviam passar as rodeiras do carro. O carreiro, vendo isso, disse:

— Macaco, tira teu rabo do caminho, eu quero passar.

— Não tiro, — respondeu o macaco.

O carreiro tangeu os bois, e o carro passou por cima do rabo do macaco, e cortou-o fora. O macaco, então, fez um barulho muito grande:

— Eu quero meu rabo, ou então dê-me uma navalha…

O carreiro lhe deu uma navalha, e o macaco saiu muito alegre a gritar:

— Perdi meu rabo! Ganhei uma navalha!… Tinglin, tingilin, que vou para Angola!…

Seguiu. Chegando adiante, encontrou um negro velho, fazendo cestas e cortando os cipós com o dente.

O macaco:

— Oh, amigo velho, coitado de você! Ora, está cortando os cipós com o dente… tome esta navalha.

O negro aceitou, e quando foi partir um cipó, quebrou-se a navalha. O macaco abriu a boca no mundo e pôs-se a gritar:

— Eu quero minha navalha, ou então me dê um cesto!

O negro velho lhe deu um cesto e ele saiu muito contente gritando:

— Perdi meu rabo, ganhei uma navalha, perdi minha navalha, ganhei um cesto… Tinglin, tinglin, que vou pra Angola!

Seguiu. Chegando adiante, encontrou uma mulher fazendo pão e botando na saia.

— Ora, minha sinhá, fazendo pão e botando na saia! Aqui está um cesto.

A mulher aceitou, e, quando foi botando os pães dentro, caiu o fundo do cesto. O macaco abriu a boca no mundo e pôs-se a gritar:

— Eu quero o meu cesto, quero o meu cesto, senão me dê um pão!

A mulher deu-lhe o pão, e ele saiu muito contente a dizer:

— Perdi meu rabo, ganhei uma navalha, perdi minha navalha, ganhei um cesto, perdi meu cesto, ganhei um pão… Tinglin, tinglin, que vou pra Angola!

E foi comendo o pão.
Colhido por Sílvio Romero, em Sergipe.

*

O macaco e o rabo (2)

ma ocasião achavam-se na beira da estrada um macaco e uma cotia e vinha passando na mesma estrada um carro de bois cantando. O macaco disse para a cotia:

— Tira o teu rabo da estrada, senão o carro passa e corta.

Embebido nesta conversa, não reparou o macaco que ele é que corria o maior risco, e veio o carro e passou em riba do rabo dele e cortou. Estava um gato escondido dentro de uma moita, saltou no pedaço do rabo do macaco e correu. Correu também o macaco atrás, pedindo o seu pedaço de rabo. O gato disse:

— Só te dou, se me deres leite.

— Onde tiro leite? — disse o macaco.

Respondeu o gato:

— Pede à vaca.

O macaco foi à vaca e disse:

— Vaca, dá-me leite para dar ao gato, para o gato dar-me o meu rabo.

— Não dou; só se me deres capim. — disse a vaca.

— Donde tiro capim?

— Pede à velha.

— Velha, dá-me capim, para eu dar à vaca, para a vaca dar-me leite, o leite para o gato me dar o meu rabo.

— Não dou; só se me deres uns sapatos.

— Donde tiro sapatos?

— Pede ao sapateiro.

— Sapateiro, dá-me sapatos, para eu dar à velha, para a velha me dar capim, para eu dar à vaca, para a vaca me dar leite, para eu dar ao gato, para o gato me dar o meu rabo.

— Não dou; só se me deres cerda.

— Donde tiro cerda?

— Pede ao porco.

— Porco, dá-me cerda, para eu dar ao sapateiro, para me dar sapatos, para eu dar à velha, para me dar capim, para eu dar à vaca, para me dar leite, para eu dar ao gato, para me dar o meu rabo.

— Não dou; só se me deres chuva.

— Donde tiro chuva?

— Pede às nuvens.

— Nuvens, dai-me chuva, para o porco, para dar-me cerda para o sapateiro, para dar-me sapatos para dar à velha, para me dar capim para dar à vaca, para dar-me leite para dar ao gato, para dar meu rabo…

— Não dou; só se me deres fogo.

— Donde tiro fogo?

— Pede às pedras.

— Pedras, dai-me fogo, para as nuvens, para a chuva para o porco, para cerda para o sapateiro, para sapatos para a velha, para capim para a vaca, para leite para o gato, para me dar meu rabo.

— Não dou; só se me deres rios.

— Donde tiro rios?

— Pede às fontes

— Fontes, dai-me rios, os rios ser para as pedras, as pedras me dar fogo, o fogo ser para as nuvens, as nuvens me dar chuvas, as chuvas ser para o porco, o porco me dar cerda, a cerda ser para o sapateiro, o sapateiro fazer os sapatos, os sapatos ser para a velha, a velha me dar capim, o capim ser para a vaca, a vaca me dar o leite, o leite ser para o gato, o gato me dar meu rabo.

Alcançou o macaco todos os seus pedidos. O gato bebeu o leite, entregou o rabo. O macaco não quis mais, porque o rabo estava podre.

Colhido por Sílvio Romero, em Pernambuco.

*

A formiguinha e a neve

Pois é, uma formiguinha gostava muito de fofoca, gostava muito de conversar. Aí, ela, no tempo frio, no tempo de geada, — e toda formiga também gosta muito de carregar, gosta muito de roubar, não é? — ela ia no moinho roubar fubá. Aí quando ela já evinha embora, já com frio, aí a geada prendeu o pezinho dela com o bolinho de fubá dela na cabeça, não é?

Aí o sol veio, derreteu a geada, ela foi em casa, guardou o fubazinho dela e em vez de mexer o anguzinho dela, não, foi tirar pergunta.

Aí foi na casa do sol:

— Ô sol, você é tão forte que você derreteu a geada que estava presa no meu pezinho!

Aí o sol respondeu pra ela:

— Eu sou tão forte que a nuvem me tapa!

Ela foi na casa da nuvem:

— Ô nuvem, como você é tão forte que você tapa o sol e o sol derreteu a geada que prendeu o meu pezinho?

Aí a nuvem falou:

— Eu sou tão forte que o vento me toca.

Ela foi na casa do vento:

— Ô vento, como você é tão forte que sopra a nuvem, a nuvem tapa o sol, o sol derreteu a geada que estava prendendo o meu pezinho?

Aí o vento falou:

— Eu sou tão forte que a casa me tapa.

Aí ela foi na casa:

— Ô casa, como você é tão forte que você tapa o vento, o vento toca a nuvem, a nuvem tapa o sol, o sol derreteu a geada que estava prendendo o meu pezinho?

Aí a casa:

— Eu sou tão forte que o rato me fura.

Aí ela foi na casa do rato:

— Ô rato, como você é tão forte que você fura a casa, a casa tapa o vento, o vento toca a nuvem, a nuvem tapa o sol, o sol derreteu a geada que estava presa no meu pezinho?

Aí o rato falou:

— Eu sou tão forte que o cachorro me pega.

Aí ela foi na casa do cachorro:

— Ô cachorro, como você é tão forte que você pega o rato, o rato fura a parede, a parede tapa o vento, o vento toca a nuvem, a nuvem tapa o sol, o sol derreteu a geada que estava presa no meu pezinho?

Aí o cachorro falou:

— Eu sou tão forte que a onça me pega.

Aí ela foi na casa da onça:

— Ô onça, como você é tão forte que você pega o cachorro, o cachorro pega o gato, o gato pega o rato, o rato fura a parede, a parede tapa o vento, o vento toca a nuvem, a nuvem tapa o sol, o sol derreteu a geada que estava presa no meu pezinho?

Aí ela disse:

— Eu sou tão forte que o caçador me mata.

Aí ela começou a ficar brava:

— Ô caçador, como você é tão forte que você pega a onça, a onça pega o cachorro, o cachorro pega o gato, o gato pega o rato, o rato fura a parede, a parede tapa o vento, o vento toca a nuvem, a nuvem tapa o sol, o sol derreteu a geada que estava presa no meu pezinho?

Aí o caçador:

— Eu sou tão forte que a morte me mata.

Aí ela falou para a morte:

— Ô morte (gritando já), como você é tão forte que você mata o caçador, o caçador mata a onça, a onça pega o cachorro, o cachorro pega o gato, o gato pega o rato, o rato fura a parede, a parede tapa o vento, o vento toca a nuvem, a nuvem tapa o sol e o sol derreteu a geada que estava presa no meu pezinho?

Aí a morte:

— Eu sou tão forte que te mato.

Plat! Passou o pé nela, matou ela e pronto.

Ela não comeu o anguzinho dela, não é? ficou só tirando pergunta. Se ela fosse comer o anguzinho dela, quietinha, ela tinha enchido a barriga dela e não tinha morrido.

Informante: Luzia Maria Santana.

*

História da coca

Uma vez um menino foi passear no mato e apanhou uma coca; chegando em casa, deu-a de presente à avó, que a preparoiu e comeu.

Mais tarde, sentiu o menino fome e voltou para buscar a coca, cantando:

Minha vó, me dê minha coca
Coca que o mato me deu
Minha vó comeu minha coca
Coca recoca que o mato me deu

A avó, que já havia comido a coca, deu-lhe um pouco de angu.

O menino ficou com raiva, jogou o angu na parede e saiu. Mais tarde, arrependeu-se e voltou, cantando:

Parede, me dê meu angu
Angu que minha vó me deu
Minha vó comeu minha coca
Coca recoca que o mato me deu

A parede, não tendo mais o angu, deu-lhe um pedaço de sabão.

O menino andou, andou, encontrou uma lavadeira lavando roupa sem sabão e disse-lhe: — Você lavando roupa sem sabão, lavadeira? Tome este pra você.

Dias depois, vendo que a sua roupa estava suja, voltou para tomar o sabão, cantando:

Lavadeira, me dê meu sabão
Sabão que a parede me deu
Parede comeu meu angu
Angu que minha vó me deu
Minha vó comeu minha coca
Coca recoca que o mato me deu

A lavdeira já havia gasto o sabão: deu-lhe então uma navalha.

Adiante, encontrando um cesteiro cortando o cipó com os dentes. Disse-lhe: — Você cortando o cipó com os dentes?… Tome esta navalha.

O cesteiro ficou muito contente e aceitou a navalha.

No dia seguinte, sentindo o menino a barba grande, arrependeu-se de ter dado a navalha (ele sempre se arrependia de dar as coisas) e voltou para buscá-la, cantando:

Cesteiro me dê minha navalha
Navalha que lavadeira me deu
Lavadeira gastou meu sabão
Sabão que parede me deu
Minha vó comeu minha coca
Coca recoca que o mato me deu

O cesteiro, tendo quebrado a navalha, deu-lhe, em paga um cesto.

Recebeu o cesto e saiu dizendo consigo: — Que é que eu vou fazer com este cesto?

No caminho, encontrando um padeiro fazendo pão e colocando-o no chão, deu-lhe o cesto. Mais tarde, precisou do cesto e voltou para buscá-lo com a mesma cantiga.

Padeiro me dê meu cesto
Cesto que o cesteiro me deu
O cesteiro quebrou minha navalha
Navalha que a lavadeira me deu
Lavadeira gastou meu sabão
Sabão que parede me deu
Minha vó comeu minha coca
Coca recoca que o mato me deu

O padeiro, que tinha vendido o pão com o cesto, deu-lhe um pão.

Saiu o menino com o pão, e, depois de muito andar, não estando com fome, deu o pão a uma moça, que encontrou tomando café puro.

Depois, sentindo fome, voltou para pedir o pão à moça e canta:

Moça me dê meu pão
Pão que o padeiro me deu
O padeiro vendeu meu cesto
Cesto que cesteiro me deu
O cesteiro quebrou minha navalha
Navalha que a lavadeira me deu
Lavadeira gastou meu sabão
Sabão que parede me deu
Minha vó comeu minha coca
Coca recoca que o mato me deu

A moça havia comido o pão; não tendo outra coisa para lhe dar, deu-lhe uma viola.

O menino ficou contentíssimo; subiu com a viola numa árvore e se pôs a cantar:

De uma coca fiz angu
De angu fiz sabão
De sabão fiz uma navalha
Duma navalha fiz um cesto
De um cesto fiz um pão
De um pão fiz uma viola
Dinguelingue que eu vou para Angola

*

O macaco e o confeito

Macaco guariba foi lavar a casa e achou um vintém. Comprou um vintém de confeito, subiu no pau, e lá ficou comendo. Mas macaco não tem modos, pula daqui, pula dali, acabou derrubando o confeitinho dentro de um oco da árvore. Enfiou a mão, pelejou para tirar, não conseguiu, foi direto dali para o ferreiro e pediu que lhe fizesse um machado, para tirar o confeito do buraco.

— Sem dinheiro não faço machado nenhum.

— Faz — gritou o macaco — Vou contar ao rei.

Foi. Entrou no palácio, dando pulos e fazendo micagens e tropelias.

— Senhor rei — pediu —, mande o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau para tirar o confeito que caiu no oco.

O rei, nem como coisa. O macaco foi falar com a rainha:

— Senhora rainha, mande o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar meu confeito que caiu no oco.

— Mas é petulante esse macaco — disse a rainha, e não fez caso dele.

O macaco foi falar com o rato.

— Rato, roa a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar meu confeitinho que caiu no oco.

— Macaco mais bobo! — comentou o rato. Estava comendo queijo e nem se incomodou.

O macaco foi falar com o gato.

— Gato, mande o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar meu confeitinho que caiu no oco.

— Que besteira! — disse o gato, e nem se mexeu.

O macaco foi falar com o cachorro.

— Cachorro, mande o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeitinho que caiu no oco.

O cachorro deu um latido de impaciência e nem se incomodou.

O macaco foi falar com o cacete.

— Cacete, mande o cachorro mandar o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeito que caiu no oco.

— Ah! Ah! — fez o cacete.

O macaco foi falar com o fogo.

— Fogo, mande o cacete mandar o cachorro mandar o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeitinho que caiu no oco.

— Saia daqui — disse o fogo.

— O macaco foi falar com a água.

— Água, mande o fogo mandar o cacete mandar o cachorro mandar o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeitinho que caiu no oco.

— Bicho impertinente! — xingou a água.

O macaco foi falar com o boi.

— Boi, mande a água mandar o fogo mandar o cacete mandar o cachorro mandar o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeitinho que caiu no oco.

— Suma da minha vista — disse o boi, e continuou ruminando o seu capim.

O macaco foi falar com o homem.

— Homem, mande o boi mandar a água mandar o fogo mandar o cacete mandar o cachorro mandar o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeitinho que caiu no oco.

O homem resmungou:

— Hum!

O macaco foi falar com a morte. Lá estava ela no seu trono de ossos, pavorosa.

— Morte, mande o homem mandar o boi mandar a água mandar o fogo mandar o cacete mandar o cachorro mandar o gato mandar o rato roer a roupa da rainha, para ela mandar o rei mandar o ferreiro fazer um machado, que eu quero cortar o pau e tirar o meu confeitinho que caiu no oco.

A morte, que não estava de bom humor, pegou a foice e avançou no homem.

— Não me mate!

— Então abata o boi!

O homem foi pra cima do boi.

— Não me abata, homem!

— Então beba a água.

— Não me beba — disse a água.

— Então apague o fogo.

— Não me apague — disse o fogo.

— Então queime o cacete.

— Não me queime — disse o cacete.

— Então bata no cachorro.

— Não me bata — uivou o cachorro.

— Então morda o gato.

— Não me morda — miou o gato.

— Então morda o rato.

— Não me morda — guinchou o rato.

— Então roa a roupa da rainha.

O ratinho subiu no guarda-roupa da rainha e foi no vestido mais bonito: roquerroquerroque…

A rainha gritou:

— Não roa a minha roupa!

— Então mande o rei mandar o ferreiro fazer um machado para o macaco cortar o pau e tirar o confeitinho que caiu no oco.

A rainha mandou o rei, o rei mandou o ferreiro, o ferreiro fez o machado. O macaco derrubou a árvore, abriu o tronco, achou o confeitinho e foi embora dando pulos e fazendo trejeitos.

*

O menino e a vó gulosa

O menino só possuía um guiné. Numa ocasião de necessidade matou o guinezinho e saiu pra adquirir farinha. Quando voltou, a avó, que morava com ele, comera o guinezinho inteiro. O menino reclamou muito e avó lhe deu um machadinho.

Saiu o menino pela estrada e encontrou o pica-pau furando uma árvore com o bico.

— Pica-pau! Não se usa mais o bico para cortar pau. Usa-se um machadinho como esse…

— Oh! Menino! Empreste-me o machadinho.

O menino emprestou o machadinho ao pica-pau e este tanto bateu que o quebrou.

O menino recomeçou a choradeira:

— Pica-pau, quero meu machadinho que minha avó me deu, matei meu guinezinho e minha avó comeu.

O pica-pau deu ao menino um cabacinho de mel de abelhas. O menino continuou a viagem e lá adiante viu o papa-mel lambendo um barreiro que só tinha lama.

— Papa-mel! Não se usa mais beber lama. Usa-se beber um melzinho como esse…

— Oh! Menino! Me dê um pouquinho desse mel!

Que pouquinho foi esse que o papa-mel engoliu todo o mel e ainda quebrou o cabacinho. O menino abriu a boca no mundo, berrando. O papa-mel presenteou-o com uma linda pena de pato. O menino seguiu.

Lá na frente encontrou um escrivão escrevendo com uma pena velha e estragada.

— Escrivão! Não se usa mais escrever com uma pena estragada como essa e sim com uma boa e novinha como esta aqui…

— Oh! Menino! Empresta-me tua pena…

O bobo do menino emprestou a pena. Num instante o escrivão estragou a pena. O menino cai no prato. O escrivão lhe deu uma corda.

Depois de muito andar, o menino avistou um vaqueiro tentando laçar um boi com um cipó do mato.

— Vaqueiro! Não se usa mais laçar boi com cipó e sim com uma corda como essa.

— Oh! Menino! Me empresta essa corda.

O menino, vai, emprestou. Num minuto o vaqueiro laçou o boi mas rebentou a corda.

Novo chororô do menino. O vaqueiro lhe deu um boi.

O menino viu a onça, uma enorme, comento um resto de carniça.

— Onça! Não se usa mais comer carniça e sim um boi como esse meu!

— Oh! Menino! Me dê o seu boi!

E comeu o boi. O menino ficou no soluço, choramingando e pedindo o boi:

— Onça, me dê meu boi que o vaqueiro me deu; o vaqueiro quebrou minha cordinha, a cordinha que o escrivão me deu; o escrivão quebrou minha peninha, a peninha que o papa-mel me deu; o papa-mel bebeu meu melzinho, o melzinho que o pica-pau me deu; pica-pau quebrou meu machadinho, o machadinho que minha avó me deu; matei meu guinezinho e minha avó comeu!

A onça como não tinha coisa alguma para dar ao menino, disse, rosnando:

— O boi foi pouco e vou comer você!

E comeu o menino.

*

A formiguinha
Diz que era um dia que era uma formiguinha, foi comer pela manhã. Quando ela estava comendo, a neve pegou o pé. Ela disse:

— Neve, tu é tão valente
Que o meu pé prende?

A neve disse:

— Mais valente é o sol
Que me derrete

Ela foi à procura do sol:

— Ó, sol, tu é tão valente
Que derrete a neve
Que o meu pé prende?

O sol disse:

— Mais valente é a parede
Que me encobre

Ela foi para a parede:

— Ô, parede, tu é tão valente
Que encobre o sol
O sol derrete a neve
E a neve o meu pé prende?

A parede disse:

— Mais valente é o rato
Que me rói

Ela foi à procura do rato:

— Ô, rato, tu é tão valente
Que rói a parede
A parede encobre o sol
O sol derrete a neve
E a neve o meu pé prende?

O rato disse:

— Mais valente é o gato
Que me come

A formiguinha disse:

— Ô gato, tu é tão valente
Que come o rato
O rato rói a parede
A parede encobre o sol
O sol derrete a neve
E a neve que o meu pé prende?

Ele disse:

— Mais valente é a cobra
Que me morde

— Ô, cobra, tu é tão valente
Que morde o gato
O gato que come o rato
O rato que rói a parede
A parede que encobre o sol
O sol que derrete a neve
E a neve que o meu pé prende?

— Mais valente é o pau
Que me mata

— Ô, pau, tu é tão valente
Que mata a cobra
A cobra que morde o gato
O gato que come o rato
O rato que rói a parede
A parede que encobre o sol
O sol que derrete a neve
E a neve que o meu pé prende?

— Mais valente é o fogo
Que me queima

— Ô, fogo, tu é tão valente
Que queima o pau
O pau que mata a cobra
A cobra que morde o gato
O gato que come o rato
O rato que rói a parede
A parede que encobre o sol
O sol que derrete a neve
A neve que o meu pé prende

— Mais valente é a água
Que me apaga

— Ô, água, tu é tão valente
Que apaga o fogo
O fogo queima o pau
O pau que mata a cobra
O gato que come o rato
O rato que rói a parede
A parede que encobre o sol
O sol que derrete a neve
A neve que o meu pé prende?

— Mais valente é o boi
Que me bebe

— Ô, boi, tu é tão valente
Que bebe a água
A água apaga o fogo
O fogo que queima o pau
O pau que mata a cobra
A cobra que morde o gato
O gato que come o rato
O rato que rói a parede
A parede que encobre o sol
O sol que derrete a neve
E a neve que o meu pé prende?

— Mais valente é o homem
Que me mata

— Ô, homem, tu é tão valente
Que mata o boi
O boi que bebe a água
A água que apaga o fogo
O fogo que queima o pau
O pau que mata a cobra
A cobra que morde o gato
O gato que come o rato
O rato que rói a parede
A parede que encobre o sol
O sol que derrete a neve
E a neve que o meu pé prende?

— Mais valente é Deus
Que me criou

— Ô, Deus, vós é tão valente
Que mata o homem
O homem que mata o boi
O boi que bebe a água
A água que apaga o fogo
O fogo que queima o pau
O pau que mata a cobra
A cobra que morde o gato
O gato que come o rato
O rato que rói a parede
A parede que encobre o sol
O sol que derrete a neve
E a neve que o meu pé prende?

Ele disse:

— Ô xente!… que desaforo você vim aqui…

Aí Deus pegou, deu um cocorote — pá! — na cabeça da formiguinha… se retorceu toda, quando caiu em baixo… esses formigueiros todos que têm pelo mundo foi gerado dessa formiguinha.

Versão procedente de Maruim, SE, colhida em Aracaju, em 14 de abril de 1972. Informante: Dona Caçula.

*

Uma história sem fim

Um fazendeiro muito rico tinha um bando de patos em número que não se podia contar. Numa manhã, o menino encarregado de levar os patos para a lagoa encontrou o córrego cheio d’água, das chuvas caídas na noite anterior. Como era preciso chegar à lagoa, o menino levou os patos para o córrego e obrigou-os a atravessar o riachinho.

— E então?

— Os patos começaram nadando, nadando, atravessando o córrego.

— E então?

— Deixe os patos atravessarem o córrego.

— E depois?

— Deixe os patos atravessarem o córrego.

— E depois?

— Deixe os patos atravessarem o córrego…

— E depois?

*

A casa que Pedro fez

Esta é a casa que Pedro fez.

Este é o trigo que está na casa que Pedro fez.

Este é o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

Este é o gato que matou o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

Este é o cão que espantou o gato que matou o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

Esta é a vaca de chifre torto que atacou o cão que espantou o gato que matou o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

Esta é a moça mal vestida que ordenhou a vaca de chifre torto que atacou o cão que espantou o gato que matou o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

Este é o moço todo rasgado, noivo da moça mal vestida que ordenhou a vaca de chifre torto que atacou o cão que espantou o gato que matou o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

Este é o padre de barba feita que casou o moço todo rasgado, noivo da moça mal vestida que ordenhou a vaca de chifre torto que atacou o cão que espantou o gato que matou o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

Este é o galo que cantou de manhã que acordou o padre de barba feita que casou o moço todo rasgado, noivo da moça mal vestida que ordenhou a vaca de chifre torto que atacou o cão que espantou o gato que matou o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

Este é o fazendeiro que espalhou o milho para o galo que cantou de manhã que acordou o padre de barba feita que casou o moço todo rasgado, noivo da moça mal vestida que ordenhou a vaca de chifre torto que atacou o cão que espantou o gato que matou o rato que comeu o trigo que está na casa que Pedro fez.

*

A bota

Meus senhores, eu sou a bota
Meus senhores, eu sou a bota
Que leva a vidinha fazendo patota
Que leva a vidinha fazendo patota

Meus senhores, eu sou a porta
Meus senhores, eu sou a porta
Que leva a vidinha fazendo patota
Que leva a vidinha fazendo patota

Meus senhores, eu sou a corda
Meus senhores, eu sou a corda
Que marre a bota e botei na porta
Que leva a vidinha fazendo patota
Que leva a vidinha fazendo patota

Meus senhores, eu sou o sebo
Meus senhores, eu sou o sebo
Que passe na corda, que marre a bota
Que botei na porta
Que leva a vidinha fazendo patota
Que leva a vidinha fazendo patota

Meus senhores, eu sou o rato
Meus senhores, eu sou o rato
Que roeu o sebo, que passe na corda
Que marre a bota, que botei na porta
Que leva a vidinha fazendo patota
Que leva a vidinha fazendo patota

Meus senhores, eu sou o gato
Meus senhores, eu sou o gato
Que comeu o rato, que roeu o sebo
Que passe na corda, que marre a bota
Que botei na porta
Que leva a vidinha fazendo patota
Que leva a vidinha fazendo patota

Meus senhores, eu sou o cachorro
Meus senhores, eu sou o cachorro
Que comeu o gato, que matou o rato
Que roeu o sebo, que passe na corda
Que marre a bota, que botei na porta
Que leva a vidinha fazendo patota
Que leva a vidinha fazendo patota

Meus senhores, eu sou o pau
Meus senhores, eu sou o pau
Que matou o cachorro, que comeu o gato
Que matou o rato, que roeu o sebo
Que passe na corda, que marre a bota
Que botei na porta
Que leva a vidinha fazendo patota
Que leva a vidinha fazendo patota

Meus senhores, eu sou o facão
Meus senhores, eu sou o facão
Que cortô o pau, que mata o cachorro
Que comeu o gato, que matou o rato
Que roeu o sebo, que passe na corda
Que marre a bota, que botei na porta
Que leva a vidinha fazendo patota
Que leva a vidinha fazendo patota

Meus senhores, eu sou a mulher
Meus senhores, eu sou a mulher
Que pega o facão, que cortô o pau
Que matou o cachorro, que comeu o gato
Que matou o rato, que roeu o sebo
Que passe na corda, que marre a bota
Que botei na porta
Que leva a vidinha fazendo patota
Que leva a vidinha fazendo patota

Meus senhores, eu sou o homem
Meus senhores, eu sou o homem
Que vou dar na mulher, que pegou o facão
Que corto o pau, que mato o cachorro
Que comeu o gato, que matou o rato
Que roeu o sebo, que passe na corda
Que marre a bota, que botei na porta
Que leva a vidinha fazendo patota
Que leva a vidinha fazendo patota

*

Outra história sem fim

Era uma vez, três, um polaco e um português. O polaco puxou a faca, o português arrepiou. Pensa que matou? Não. Vou contar o que se passou…

Era uma vez, três, um polaco e um português. O polaco puxou a faca, o português arrepiou. Pensa que matou? Não. Vou contar o que se passou…

*

A morte de dom Ratinho

Dom Ratinho morreu
Dona Carochinha chorou
A porta abriu e fechou
A laranjeira desfolhou-se
O passarinho depenou-se
O cavalo perdeu o pelo
O boi perdeu o chifre
O rio secou a água
O menino quebrou o pote
E o mestre passou-lhe bolos
O que tendes minha porta
Perguntou a laranjeira
Que estais abrindo e fechando?
Pois não, minha laranjeira:
Dom Ratinho morreu
Dona Carochinha chorou
A porta abriu e fechou…
E responde a laranjeira:
E eu também de sentimento
Deixo cair minhas folhas
Vem o passarinho e pergunta:
O que tendes, laranjeira
Que estais tão desfolhada?
Pois não, meu passarinho
Dom Ratinho morreu
Dona Carochinha chorou
A porta abriu e fechou
E eu assim me desfolhei
Respondeu o passarinho:
E eu também de sentimento
Deixarei as minhas penas
Vem o cavalo e perguntou:
O que tendes laranjeira
Qu’inda ontem tão folhada
E hoje tão desfolhada?
E por que não, meu cavalo?
Dom Ratinho morreu
Dona Carochinha chorou
A porta abriu e fechou
A laranjeira desfolhou-se
E o passarinho depenou-se
Responde agora o cavalo:
E eu também de sentimento
Deixo cair o meu pelo
Vem o boi e pergunta:
O que tendes laranjeira
Que estais tão desfolhada?
E por que não, meu boi
Dom Ratinho morreu
Dona Carochinha chorou
A porta abriu e fechou
A laranjeira desfolhou-se
E o passarinho depenou-se
E o cavalo perdeu o pelo
Respondeu então o boi:
E eu também de sentimento
Deixo cair o meu chifre
Passa o rio e pergunta:
O que tendes laranjeira
Que estais tão desfolhada?
E ela responde ao rio:
Dom Ratinho morreu
Dona Carochinha chorou
A porta abriu e fechou
A laranjeira desfolhou-se
O passarinho depenou-se
O cavalo perdeu o pelo
E o boi perdeu o chifre
Respondeu então o rio:
E eu também de sentimento
Secarei as minhas águas
Vem o menino buscar água
E não a vendo isto pergunta:
O que tendes belo rio
Que ainda ontem tão cheio
E hoje assim tão sequinho?
E o rio respondeu:
Por que não, caro menino?
Dom Ratinho morreu
Dona Carochinha chorou
A porta abriu e fechou
A laranjeira desfolhou-se
O passarinho depenou-se
O cavalo perdeu o pelo
O boi perdeu o chifre
E o rio secou as águas
Responde então o menino:
E eu também de sentimento
O meno pote vou quebrar
Chega o menino à escola
E não levando o pote d’água
Por ele pergunta o mestre
E o menino assim responde:
Dom Ratinho morreu
Dona Carochinha chorou
A porta abriu e fechou
A laranjeira desfolhou-se
O passarinho depenou-se
O cavalo perdeu o pelo
O boi perdeu o chifre
E o rio secou as águas
E eu quebrei o meu pote
Então respondeu o mestre
Cheio de raiva e rancor:
E eu também de sentimento
Lasco-lhe as mãos de bolos

*

 

(As duas versões de O macaco e o rabo estão em Romero, Sílvio. Contos populares do Brasil. Rio de Janeiro, Livraria José Olímpio Editora, 1954 (Coleção Documentos Brasileiros). A formiguinha e a neve veio de Frade, Cáscia (org.) Contos populares fluminenses. Rio de Janeiro, Secretaria de Estado de Cultura; INEPAC, sd, v.1, p.13-16; A história da coca foi publicada por Pedreira, Ester. “História da coca”. Revista Brasileira de Folclore, ano 11, nº 31, Rio de Janeiro, setembro/dezembro de 1971, p.319-322; O macaco e o confeito, versão de Guimarães, Ruth (org.). Lendas e fábulas do Brasil. Clássicos da infância. São Paulo, Círculo do Livro, sd; O menino e a vó gulosa foi registrado por Cascudo, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil. Belo Horizonte; São Paulo, Itatiaia, Editora da Universidade de São Paulo, 1986. Reconquista do Brasil, 2ª série, 96; A formiguinha é de Lima, Jackson da Silva. O folclore em Sergipe; 1. Romanceiro. Rio de Janeiro, Livraria Cátedra; Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1977, p.417-421; A casa que Pedro fez foi contada por Ruiz, Corina Maria Peixoto. Didática do folclore. Curitiba, Editora Arco-Íris, 1995; A bota está em Lima, Rossini Tavares de. Abecê do folclore. 4ª ed. São Paulo, Ricordi, sd, p.224-225; A morte de dom Ratinho foi colhida por Costa, F. A. Pereira da. Folclore pernambucano; subsídios para a história da poesia popular em Pernambuco. Recife, Arquivo Público Estadual, 1974)