Categoria: Pesquisa – Contacausos

História pra Contar: As artes de Branca-Flor
História pra Contar: As artes de Branca-Flor

Lá vem mais uma história de diabo logrado! Bora encher o embornal?

Havia um moço que gostava muito de jogar. Aos conselhos dos mais velhos, costumava dizer que perdia apenas o seu dinheiro e que isto não é muita coisa.

– Perde mais – dizia-lhe o velho pai. – Perde dinheiro, noites de sono, o tempo, a vergonha. E um dia perderá a alma.

O moço ria e continuava freqüentando as casas de jogo todas as noites.

Um dia, depois de ter perdido tudo, ao jogar com um sombrio parceiro mal-encarado, não tendo mais o que jogar, ouviu espantado esta proposta:

– Se quiser continuar, eu caso mil escudos com a sua sombra.

– Com o quê?

– Com a sua sombra.

O moço pensou por um momento.

– Ora! A minha sombra não me fará grande falta. Até hoje não me serviu de nada.

Jogou e perdeu.

O parceiro enfiou a sombra num saco e antes de partir, falou:

– Se você quiser reaver o que perdeu, procure por mim na montanha Negra, daqui a um ano e um dia.

Muito perturbado, o moço foi para casa. O pai, que o achou mais sombrio que de costume, falou:

– Que aconteceu?

E o moço não queria contar. Mas não tardou que toda a gente soubesse e reparasse que ele não tinha sombra, que o deixou muito malvisto no povoado, e fazia com que todos o apontassem com o dedo, por onde quer que andasse. Aí ele compreendeu que a sombra fazia muita falta. Demais o pai lhe dizia:

– Estás vendo? Você perdeu a alma. Era o diabo o seu parceiro. Carregou a sua sombra. Carregou a sua alma. Ah! infeliz.

Apavorado, o moço resolveu procurar a sombra na tal montanha Negra, e pôs-se a caminho.

Chegou à montanha Negra, encontrou a casa do diabo, que era realmente aquele seu mal-encarado parceiro, e pediu-lhe a sombra.

– Ah! Sim, pois não. Dou-a se você plantar uma fila de bananeiras de manhã, e à tarde você colher, nessas mesmas bananeiras, bananas maduras para o jantar.

O moço foi para a roça do diabo, sentou-se num toco e começou a chorar. Avaliava agora a sua pouca sorte, e como o jogo tinha sido a sua perdição.

Ora, o diabo tinha uma filha muito bonita, chamada Branca-Flor. Branca-Flor espiou pelas abertas do mato o moço sentado no tronco caído e gostou dele. Apareceu-lhe e falou:

– Não tem nada, não. Deite-se aqui no meu colo.

Aninhou a cabeça do moço no colo, pegou a catar-lhe cafuné, a conversar com ele, perguntando muitas coisas, de mansinho, até que ele adormeceu. Então, arredou-lhe a cabeça, plantou as mudas, e se escondeu. Quando o moço acordou, muito assustado, pensando que nada tinha feito, e nas desgraças que iam lhe acontecer, viu as bananeiras plantadas, com os cachos madurinhos pendendo. Muito alegre, apanhou as bananas e levou-as ao patrão. Este não desconfiou, mas a mulher dele, que era mais esperta, disse:

– Isto são artes de Branca-Flor.

No outro dia, quando o moço pediu a sombra, o diabo arranjou outra trova: deu-lhe um saquinho de feijão verde.

– Plante este feijão. Que ele brote e cresça, e feijão para o meu virado até de tarde. Senão…

O moço ainda não tinha voltado bem do espanto pelo que tinha acontecido na véspera. Foi para a roça mais triste e acabrunhado do que antes.

– Hoje eu não escapo.

Sentou no mesmo cepo e começou a chorar. Apareceu-lhe a moça bonita da véspera, aninhou-lhe a cabeça no colo, e começou a catar cafuné no seu cabelo até que ele dormiu.

A tarde, enroscavam-se nas estacas os cipós de feijão, com as vagens granadas, no ponto de colher. Radiante, o moço apanhou os feijões e levou deles uma peneira cheia ao diabo. O diabo aceitou o trabalho, mas a mulher, desconfiada, resmungou:

– Aqui andam artes de Branca-Flor.

No outro dia, mal o moço abriu a boca para falar da sombra, o diabo já falou:

– Atirei um anel no mar. Procure-o e traga-o aqui. Senão…

O moço foi para a praia, e, sentado num montinho de areia, começou a chorar. Apareceu Branca-Flor, chamou um peixinho, pediu-lhe o anel, e logo veio de volta o pequeno mensageiro de rabo de prata, com o anel na boca.

Então, o diabo também começou a desconfiar de tanta habilidade e resolveu matar o moço – com pretexto ou sem ele, e mais a filha que o tinha feito de bobo.

Fez uma cara muito hipócrita, devolveu-lhe a sombra, e falou:

– Pode ir embora amanhã.

Branca-Flor adivinhou tudo e se preveniu.

Pôs na cama do moço e na dela dois potes de barro cheios de vinho. Pegou um punhado de cinzas frias do fogão, um punhado de agulhas da caixa de costura, e um pedaço de sabão de cinza da despensa. Foi muito de mansinho procurar o moço que se sentara a um canto, meditando, e disse:

– Fujamos, que meu pai quer nos matar. Ele tem dois cavalos muito bons: um castanho e um preto. O castanho é rápido como o vento. Vá à cocheira e pegue o outro, que é rápido como o pensamento.

Em seguida, cuspiu três vezes no fogão, deu ao rapaz os embrulhinhos com as agulhas, o sabão e a cinza, para guardar, montaram e fugiram.

Já estavam longe quando repararam que o moço no escuro tinha selado o cavalo errado. Estavam fugindo no cavalo rápido como o vento. Era perigoso voltar, e Branca-Flor resolveu tocar para diante.

– Não faz mal, vamos neste mesmo. Até que papai descubra, estaremos longe.

Entrementes, na casa do diabo, todos se acomodaram. Deitou-se o diabo na sua cama de chamas, como uma salamandra. Deitou-se a mulher. Deitaram-se os diabos e diabinhos. Ficou tudo quieto. Quando nos grandes relógios dos salões silenciosos começaram a soar as badaladas da meia-noite, o diabo ergueu a cabeça do travesseiro e chamou: “Branca-Flor!”

Um cuspo no fogão respondeu:

– Já vou.

O diabo deitou e esperou. Esperou quase uma hora. E então tornou a chamar: “Branca-Flor!”

Outro cuspo respondeu com voz mais fraca:

– Já vou.

Esperou um pouco e chamou pela terceira vez: “Branca-Flor!”

Outro cuspo respondeu com voz mais fraca ainda, como de quem está quase dormindo:

– Já vou.

O diabo deixou passar mais um pouco e tornou a chamar. Ninguém respondeu. Aí ele se levantou, pegou um pau e foi à cama do moço e malhou até que viu escorrer o que julgou ser sangue. Foi à cama da filha e bateu até ouvir o rumor do que parecia ossos quebrando. Voltou para a cama e a mulher perguntou:

– Estão mortos?

– Estão sim. Escorreu sangue.

– Estão mortos mesmo? Você verificou?

– Os ossos estalaram.

A mulher não acreditou e foi ver. E viu: potes quebrados, vinho escorrendo, e nem sinal, nem do moço, nem da moça.

– Fugiram! – gritou.

Descoberto o logro, o diabo correu à cocheira, selou o cavalo preto e saiu atrás deles. Estava quase alcançando os fugitivos, quando Branca-Flor, olhando para trás, avistou a nuvem preta que vinha que vinha.

– Papai vem ai — avisou a moça. – Atire para trás o punhado de cinzas.

O moço assim fez e logo se formou um nevoeiro que baixou tão espesso como uma cortina. Não se enxergava nada. O diabo andou daqui, dali, pererecando, até que conseguiu passar. Quando estava pertinho outra vez, o moço, a mando de Branca-Flor, atirou o sabão. Formou-se um atoleiro de tijuco preto, tão grudento, que o diabo suou para escapar. Saiu dele enfezado, e foi outra vez atrás dos moços. Quando estava quase a alcançá-los pela terceira vez, o moço jogou as agulhas. Formou-se um espinheiro tão cerrado, que o diabo, aí, não teve remédio senão voltar. Chegou ao inferno e encontrou a diaba furiosa.

– Mulher – explicava ele todo atrapalhado. – Eu não pude atravessar o espinheiro…

– Que espinheiro? Que mané espinheiro o quê?! Aquilo era um punhado de agulhas. Se você não fosse tão besta, tinha passado.

O diabo tornou a montar, louco da vida, e foi perseguir os moços de novo.

Branca-Flor olhou para trás e viu a nuvem preta. Vinha que vinha. Ela transformou então o cavalo num lago, os arreios numa barca, o moço num pescador e ela mesma num cisne branco. O diabo chegou ao rio, perguntou ao pescador se tinha visto um moço e uma moça, assim assim, montados num cavalo alazão. O pescador nada respondia. Aí, o diabo, danado com o pouco caso dele, voltou ao inferno. Branca-Flor desmanchou a mágica, montaram de novo e galoparam para a frente, no seu cavalo escuro, rápido como o vento. Mas a mulher do diabo atiçou-o:

– Bobo de uma figa! Não viu que o moço era o barqueiro e Branca-Flor, o cisne branco?

O diabo montou e saiu.

– Desta vez trago aqueles dois de qualquer jeito.

– Melhor matá-los no caminho – insinuou a diaba.

– Ou isso.

Quando chegou ao lugar onde estivera o rio, cadê o rio? Voou ligeiro, pelo espaço, andando pelo mundo todo, em sua procura. Quando Branca-Flor olhou para trás, viu a nuvem preta. Vinha que vinha, feia em cima deles.

Então ela transformou o cavalo e os arreios numa roseira, ela numa rosa vermelha e o moço num beija-flor. O diabo passou, olhou as roseiras e a rosa e o pássaro, nem desconfiou. Correu mundo no seu cavalo veloz como o pensamento e não encontrou ninguém. Voltou ao inferno, e a mulher, assim que o viu, foi logo gritando:

– Bocó! Bocó de fivela! Não viu uma roseira, com uma rosa vermelha?

– Bem bonita disse o diabo.

– Não seja bobo! A rosa era Brança-Flor, e o beija-flor, o moço. Volte e traga os dois!

O diabo foi, mas Branca-Flor, e o moço, e a roseira e o beija-flor, tudo tinha sumido. Lá adiante, passou por uma igreja e o padre estava na porta, puxando a corda do sino:

– Seu Padre! Não viu um moço e uma moça, montados num cavalo alazão?

O padre dizia:

– É hora da missa.

E tocava o sino: – delém, delém

– Seu Padre, estou perguntando…

– É hora da missa…

Delém, delém, delém.

E o diabo foi para o inferno.

Não adiantou a diaba gritar, ralhar, pintar os canecos com ele.

– Já estou cansado. Não vou mais atrás de ninguém. Vá você.

Branca-Flor e o moço seguiram viagem. Nunca mais que viram a nuvem preta.

– Meu pai desistiu – ela falou. E riu.

Com pouco, chegaram a uma cidade. Ela ficou escondida à beira do caminho, e o moço foi à cidade, procurar trabalho, para depois levá-la com ele. Antes que fosse, Branca-Flor deu-lhe um anel, e disse:

– Não tire este anel do dedo…

– Nunca?

– Nunca. Senão você me esquece.

– Não tiro — o moço prometeu.

E foi embora.

Andou muito pela cidade, perguntando se havia trabalho, até que foi dar na casa de uma família muito rica. Ajustou de trabalhar lá. Logo no primeiro dia, esqueceu a recomendação de Branca-Flor, e tirou o anel para lavar as mãos. No mesmo instante, foi o mesmo que nunca tivesse existido Branca-Flor. Esqueceu-a como esqueceu o diabo, a montanha Negra, o inferno, a perseguição, tudo. Ficou mais de ano na casa. Por fim, namorou uma das moças, filha do patrão, e tratou casamento com ela. E tornou a passar outro ano.

Num mês de maio, muito sereno e claro, ia ser o casamento. Às vezes o moço parava olhando para fora, para as estradas, ou se detinha diante de uma rosa; ou perscrutava o lago, tentando apanhar uma idéia que lhe fugia. Nas vésperas do casamento, apareceu uma moça muito bonita e pediu para fazer os doces do dia.

– Sou doceira como não há igual no mundo.

A cozinheira experimentou o serviço dela, achou que era assim mesmo, como a moça dizia, e ela principiou o trabalho. Fez manjares finos, cocadinhas, furrundum e pé-de-moleque, papo-de-anjo, baba-de-moça, bem-casados, quindim, queijadinha, espera-marido, pudim, bem-bocado, beijinho.

E o bolo. Ah! o bolo. Alto como uma torre, todo branco de neve, e lá em cima a moça botou um casal de bonecos.

Chegou o dia do casamento, e já estavam todos à mesa para o banquete. O noivo e a noiva, nas suas roupas de gala, sentaram-se à cabeceira da mesa. Então a boneca virou-se para o boneco e perguntou:

– Tu não te lembras daquele dia em que meu pai te mandou plantar mudas de bananeiras e eu então te vali?

Os convidados puseram-se a rir. Nunca tinham visto brinquedo tão interessante. Os risos dobraram quando o boneco ensaiou um passo de dança, sacudiu a cabeça e resmungou com voz grossa:

– Não me lembro. Não me lembro.

E a bonequinha, delicadamente, insistia:

– E não te lembras quando meu pai te mandou plantar feijão verde e eu então segunda vez te vali?

– Não me lembro, não me lembro.

– E não te lembras quando meu pai jogou o anel no fundo do mar e eu mandei um peixinho buscar?

– Não me lembro, não me lembro.

– Não te lembras quando meu pai queria nos matar e nós fugimos num cavalo veloz como vento?

– Não me lembro, não me lembro.

– Não te lembras quando viraste um pescador, e eu, um cisne branco?

– Um cisne branco… – murmurou o boneco. – Um cisne branco… Ai! Não me lembro.

– Não te lembras quando viraste um beija-flor e eu, uma rosa vermelha?

– A rosa… – repetiu o boneco, pensativo, com o dedo na testa. – A rosa vermelha. Ai! Não me lembro.

– Não te lembras quando viraste padre e eu a santa que estava no altar?

Nessa hora, o boneco deu um salto e respondeu:

– Já me lembro!

O moço, que estava sentado ao lado da noiva, levantou-se agitado. Lembrara-se de tudo e queria ver a moça que tinha feito os bonecos.

Encontrou-a toda vestida de noiva, casaram-se e foram muito felizes. Houve muito doce, muita música, uma festa de arromba. Eu ia trazer uns doces e repartir com vocês, mas, quando ia passando na ponte, os cachorros do vigário correrram atrás de mim e derrubei os doces n’água.

(GUIMARÃES, Ruth. Lendas e fábulas do Brasil)

Fonte: Jangada Brasil

Todos sabiam contar Estórias!
Todos sabiam contar Estórias!

 “Depois da ceia faziam roda para conversar, espairecer, dono da casa, filhos maiores, vaqueiros, amigos, vizinhos. Café e poranduba. Não havia diálogo mas uma exposição. Histórico do dia, assuntos do gado, desaparecimento de bois, aventuras do campeio, façanhas de um cachorro, queda num grotão, anedotas rápidas, recordações, gente antiga, valentes, tempo da guerra do Paraguai, cangaceiros, cantadores, furtos de moça, desabafos de chefes, vinganças, crueldades, alegrias, planos para o dia seguinte. Todos sabiam contar estórias. Contavam à noite, devagar, com gestos de evocação e lindos desenhos mímicos com as mãos. Com as mãos amarradas não há criatura vivente para contar uma estória. Seriam temas para pesquisas sábias de alemães e norte-americanos essa linguagem auxiliar, indispensável nos “primitivos” de todos os tempos, Gebärdensprache, manual concepts, variações de timbres, empostamento, nasalações, saltos de quinta e oitava, dando visões de voo, pompa, ferocidade, alegria, Lautbilder. Os contos tinham divisões, gêneros, espécies, tipos, iam às adivinhações, aos trava-línguas, mnemonias, parlendas. Ia eu ouvindo e aprendendo. Não tinha conhecimento anterior para estabelecer confronto nem subalternizar uma das atividades em serviço da outra. Era o primeiro leite alimentar da minha literatura. Cantei, dancei, vivi como todos os outros meninos sertanejos do meu tempo e vizinhanças, sem saber da existência de outro canto, outra dança, outra vida.Voltando a Natal, fui para o curso secundário e pude ver a diferença entre as duas literaturas, ambas ricas, antigas, profundas, interdependentes e ignorando as pontas comunicantes. Inconscientemente confrontava ritmos e gêneros, as exigências do dogma culto e a praxe dos cantadores sertanejos, setissílabos, décimas, pé-quebrado, a ciência do “desafio”. Todas as leituras subsequentes foram elementos de comparação. Compreendera a existência da Literatura Oral brasileira onde eu mesmo era um depoimento testemunhal.”

(in Literatura oral do Brasil – Luis da Câmara Cascudo)

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 Agora, lá vem uma das histórias que o povo costumava contar antigamente:

A moça e vela

– Minha Filha – dizia  sempre a mãe de uma moça que tinha por costume ficar à janela até as tantas da noite -, quem se deixa ficar à janela até alta hora vê coisas  que não deve ver. Isto é exemplo dos antigos que sabiam mais do que nós.
– Qual o quê!- Dizia a moça -, nunca vi nada de espantar. Não tenho sono, não hei de dormir com as galinhas.
A mãe repetia-lhe sempre o conselho, mas a moça, com quem  ia às vezes falar o namorado, continuou o costume.
i60381Vai por uma vez estava a teimosa à janela, quando, ao soar a última badalada  da meia-noite, viu aproximar-se uma figura envolta  num hábito muito branco, caminhando  com passo  apressado e trazendo, numa das mãos, uma vela acesa. A moça  estava tão distraída, a pensar nos seus  amores e naquele  que esperava, que nem pavor sentiu. foi como  se não tivesse visto nada.
O desconhecido saudou-a e, apagando a vela, pediu-lhe  que a guardasse até a sua volta.
Maquinalmente a rapariga  foi colocar  a vela sobre o leito e,  quando voltou, já não encontrou mais o desconhecido.
Nem se lembrou dos conselhos  da mãe nem a aparição lhe causou o menor abalo. Continuou  à janela toda preocupada  com os seus pensamentos de amores.

Às duas da madrugada, que é quando as almas penas se recolhem, ela ainda estava apreciando a noite. O Desconhecido chegou-se rapidamente  e pediu-lhe a vela.

A moça foi buscá-la ao leito, mas soltou um grito de horror. Em vez de vela, se lhe apresentou  um esqueleto, estendido na cama. A caveira  ergueu-se e foi, diante de seus olhos, saindo pela janela, como se fosse uma pluma.
Desde esse dia a moça ficou pateta, rindo ou chorando à toa, e foi exemplo para todas as moças desobedientes, no lugar onde esse causo se deu.

Lindolfo Gomes, em “Contos Populares”

Frequentar o povo, ouvir as suas histórias!
Frequentar o povo, ouvir as suas histórias!

[…]

Disto se conclui que o povo é grande criador, e que o artista tem por missão operar como o instrumento estético por meio do qual o povo dá corpo definitivo e harmônico aos seus ingênuos esboços.

Temos nós, no seio da massa popular, matéria prima digna de ser plasmada pelas mãos da arte? Sim. Não tão abundante e rica como o tinha o grego, povo eleito da Harmonia; mas rica e abundante o suficiente para darmos ao mundo uma contribuição vultuosa de criações originais.

Basta que nosso artista, se é um garimpeiro de talento, mergulhe no seio do povo, e de lá bateie na ganga rude o ouro de lei.

Se andam eles, hoje, vazios de ideias, e desorientados, é porque procedem de maneira exatamente inversa. Homero, Plotino, Fídeas, Praxiteles, Aristófanes não se metiam no Trianon a pasmar diante da lépida Maria Antonieta que ali nos inicia nos altos mistérios da alta goma. Nem iam todas as noites nhambiquararem francês diante de uma garrafa de champanha […]

cultura-popularFrequentavam o povo, conviviam com ele, impregnavam-se de suas crenças, ouviam-lhes as histórias; e saiam dele cheios de ideias, de formas, de coragem, de inspiração.

Procedamos assim. A fonte de água pura é uma só. E a mesma na Grécia, na França, na Rússia e no Brasil: O povo!

Lobato, Monteiro.Saci Pererê: o resultado de um inquérito. Editora Globo.2008

Histórias de Alexandre – Graciliano Ramos
Histórias de Alexandre – Graciliano Ramos

Primeira aventura de Alexandre

Leia o Livro em PDF Aqui


Naquela noite de lua cheia estavam acocorados os vizinhos na sala pequena de Alexandre: seu Libório, cantador de emboladas, o cego preto Firmino e Mestre Gaudêncio curandeiro, que rezava contra mordedura de cobras. Das Dores benzedeira de quebranto e afilhada do casal, agachava-se na esteira cochichando com Cesária.

— Vou contar aos senhores… principiou Alexandre amarrando o cigarro de palha.

Os amigos abriram os ouvidos e Das Dores interrompeu o cochicho:

— Conte, meu padrinho.

Alexandre acendeu o cigarro ao candeeiro de folha, escanchou-se .na rede e perguntou:

— Os senhores já sabem porque é que eu tenho um olho torto?

Mestre Gaudêncio respondeu que não sabia e acomodou-se num cepo que servia de cadeira.

— Pois eu digo, continuou Alexandre. Mas talvez nem possa escorrer tudo hoje, porque essa história nasce de outra, e é preciso encaixar as coisas direito. Querem ouvir? Se não querem, sejam francos: não gosto de cacetear ninguém.

Seu Libório cantador e o cego preto Firmino juraram que estavam atentos. E Alexandre abriu a torneira:

— Meu pai, homem de boa família, possuía fortuna grossa, como não ignoram. A nossa fazenda ia de ribeira a ribeira, o gado não tinha conta e dinheiro lá em casa era cama de gato. Não era, Cesária?

— Era, Alexandre, concordou Cesária. Quando os escravos se forraram, foi um desmantelo, mas ainda sobraram alguns baús com moedas de ouro. Sumiu-se tudo.

Suspirou e apontou desgostosa a mala de couro cru onde seu Libório se sentava:

— Hoje é isto. Você se lembra do nosso casamento, Alexandre?

— Sem dúvida, gritou o marido. Uma festa que durou sete dias. Agora não se faz festa como aquela. Mas o casamento foi depois. É bom não atrapalhar.

— Está certo, resmungou mestre Gaudêncio curandeiro. É bom não atrapalhar.

— Então escutem, prosseguiu Alexandre. Um domingo eu estava no copiar, esgaravatando unhas com a faca de ponta, quando meu pai chegou e disse:

— “Xandu, você nos seus passeios não achou roteiro da égua pampa?” E eu respondi: — “Não achei, nhor não.” — “Pois dê umas voltas por aí, tornou meu pai Veja se encontra a égua.” — “Nhor sim.” Peguei um cabresto e saí de casa antes do almoço, andei, virei, mexi, procurando rastos nos caminhos e nas veredas. A égua pampa era um animal que não tinha agüentado ferro no quarto nem sela no lombo. Devia estar braba, metida nas brenhas, com medo de gente. Difícil topar na catinga um bicho assim”. Entretido, esqueci o almoço e à tardinha descansei no bebedouro, vendo o gado enterrar os pés na lama. Apareceram bois, cavalos e miunça, mas da égua pampa nem sinal. Anoiteceu, um pedaço de lua branqueou os xiquexiques e os mandacarus, e eu. me estirei na ribanceira do rio, de papo para. o ar, olhando o céu, fui-me amadornando devagarinho, peguei no sono, com o pensamento em Cesária. Não sei quanto tempo dormi, sonhando com Cesária. Acordei numa escuridão medonha. Nem pedaço de lua nem estrelas, só se via o carreiro de Sant’lago. E tudo calado, tão calado que se ouvia perfeitamente uma formiga mexer nos garranchos e uma folha cair. Bacuraus doidos faziam às vezes um barulho grande, e os olhos deles brilhavam como brasas. Vinha de novo a escuridão, os talos secos buliam,as folhinhas das catingueiras voavam. Tive desejo de. voltar para casa, mas o corpo morrinhento não me ajudou. Continuei deitado, de barriga para cima, espiando o carreiro de Sant’lago. e prestando atenção ao trabalho das formigas. De repente. conheci que bebiam água ali perto. Virei-me, estirei o pescoço e avistei lá embaixo dois vultos malhados, um grande e um pequeno, junto da cerca do bebedouro. A princípio não pude vê-los direito, mas firmando a vista consegui distingui-las por causa das malhas brancas. — “Vão ver que é a égua pampa, foi o que eu disse. Não é senão ela. Deu cria no mato e só vem ao bebedouro de noite.” Muito ruim o animal aparecer .àquela hora. Se fosse de dia e eu tivesse uma corda, podia laçá-lo num instante. Mas desprevenido, no escuro, levantei-me azuretado, com o cabresto na mão, procurando meio de sair daquela dificuldade. A égua ia escapar, na certa. Foi aí que a idéia me chegou.

— Que foi que o senhor fez? perguntou Das Dores curiosa.

Alexandre chupou o cigarro, o olho torto arregalado, fixo na parede. Voltou para Das Dores o olho bom e explicou-se:

— Fiz tenção de saltar no lombo do bicho e largar-me com ele na catinga. Era o jeito. Se não saltasse, adeus égua pampa. E que história ia contar a meu pai? Hem? Que história ia contar a meu pai, Das Dores?

A benzedeira de quebranto não deu palpite, e Alexandre mentalmente pulou nas costas do animal:

— Foi o que eu fiz. Ainda bem não me tinha resolvido, já estava escanchado. Um desespero, seu Libório, carreira como aquela só se vendo. Nunca houve outra igual. O vento zumbia nas minhas orelhas, zumbia como corda de viola. E eu então… Eu então pensava, na tropelia desembestada: — “A cria, miúda, naturalmente ficou atrás e se perde, que não pode acompanhar a mãe, mas esta amanhã está ferrada e arreada.” Passei o cabresto no focinho da bicha e, os calcanhares presos nos vazios, deitei-me, grudei-me com ela, mas antes levei muita pancada de galho e muito arranhão de espinho rasga-beiço. Fui cair numa touceira cheia de espetos, um deles esfolou-me a cara, e nem senti a ferida: num aperto tão grande não ia ocupar-me com semelhante ninharia. Botei-me para fora dali, a custo, bem maltratado. Não sabia a natureza do estrago, mas pareceu-me que devia estar com a roupa em tiras e o rosto lanhado. Foi o que me pareceu. Escapulindo-se do espinheiro, a diaba ganhou de novo a catinga, saltando bancos de macambira e derrubando paus, como se tivesse azougue nas veias. Fazia um barulhão com as ventas, eu estava espantado, porque nunca tinha ouvido égua soprar daquele jeito. Afinal subjuguei-a, quebrei-lhe as forças e, com puxavantes de cabresto, murros na cabeça e pancadas nos queixos, levei-a. para a estrada. Ai ela compreendeu que não valia a pena teimar e entregou os pontos. Acreditam vossemecês que era um vivente de bom coração? Pois era. Com tão pouco ensino, deu para esquipar. E eu, notando que a infeliz estava disposta a aprender, puxei por ela, que acabou na pisada baixa e num galopezinho macio em cima da mão. Saibam os amigos que .nunca me desoriento. Depois de termos comido um bando de léguas naquele pretume de meter o dedo no olho, andando para aqui e para acolá, num rolo do inferno, percebi que estávamos perto do bebedouro. Sim senhores. Zoada tão grande, um despotismo de quem quer derrubar o mundo — e agora a pobre se arrastava quase no lugar da saída, num chouto cansado. Tomei o caminho de casa. O céu se desenferrujou, o sol estava com vontade de aparecer. Um galo cantou, houve nos ramos um rebuliço de penas. Quando entrei no pátio .da fazenda, meu pai e os negros iam começando o ofício de Nossa Senhora. Apeei-me, fui ao curral, amarrei o animal no mourão, cheguei-me à casa, sentei-me no copiar. A reza acabou lá dentro, e ouvi a fala de meu pai: — “Vocês não viram por aí o Xandu?” — “Estou aqui, nhor sim, respondi cá de fora” — “Homem, você me dá cabelos brancos, disse meu pai abrindo a porta. Desde ontem sumido!” — “Vossemecê não me mandou procurar a égua pampa?” —”Mandei, tornou o velho. Mas não mandei que você dormisse no mato, criatura dos meus pecados. E achou roteiro dela?” — “Roteiro não achei, mas vim montado num bicho. Talvez seja a égua pampa., porque tem malhas. Não sei, nhor não, só se vendo. O que sei é que é bom de verdade: com umas voltas que deu ficou pisando baixo, meio a galope. E parece que deu cria: estava com outro pequeno.” Aí a barra apareceu, o dia clareou. Meu pai, minha mãe, os escravos e meu irmão mais novo, que depois vestiu farda e chegou a tenente de polícia, foram ver a égua pampa. Foram, mas não entraram no curral: ficaram na porteira, olhando uns para os outros, lesos, de boca aberta. E eu também me admirei, pois não.

Alexandre levantou-se, deu uns passos e esfregou as mãos, parou em frente de mestre Gaudêncio, falando alto, gesticulando:

— Tive medo, vi que tinha feito uma doidice. Vossemecês adivinham o que estava amarrado no mourão? Uma onça-pintada, enorme, da altura de um cavalo. Foi por causa das pintas brancas que eu, no escuro, tomei aquela desgraçada pela égua pampa.


Texto extraído do livro “Alexandre e outros heróis”, Editora Record – Rio de Janeiro, 1981, pág. 11.

História pra Contar: Lobisomem
História pra Contar: Lobisomem

Franklin J. Cascaes

(Recolhida em Santo Antonio de Lisboa, e narrada pelo sr. L. G.)

Contou-me o narrador desta história que seus antepassados acreditavam que a origem do lobisomem e da bruxa, eram idênticas.

Quanto às suas atividades, acreditavam serem diferentes. Consideravam o lobisomem um personagem feroz e muito agressivo, principalmente, quando apanhado praticando as suas estrepolias demoníacas.

E continuou narrando-me o sr. L. G., que um seu parente que era pescador, certa ocasião foi assaltado por um enorme cachorro, ao ter chegado na praia, quando voltava de uma pescaria, à noite.

Para defender-se do agressivo animal, seu parente apanhou um remo da canoa e deu-lhe uma lambada, ferindo-o.

O cachorro ao ser ferido transformou-se numa criatura humana. Seu parente assistiu emocionado a transformação daquele animal feroz em uma criatura humana, na qual ele reconheceu a pessoa do seu compadre que era muito descorado e preguiçoso.

O ex-lobisomem, fingidamente, caiu de joelhos aos pés do seu parente e agradeceu-lhe muito contrito, o grande favor que ele lhe tinha prestado naquele momento, curando-lhe o maldito fardo que o acompanhava por muitos anos, desde o tempo da sua meninice.

Ao terminar o falso agradecimento, ergueu-se e disse o seguinte para o seu benfeitor: Compadre, em sinal de gratidão por este ato humano que praticaste para comigo, vou presentear-lhe com um lindo objeto de estimação que possuo há muitos anos.

Para isto, peço-te que esperes um momentinho aqui na praia, enquanto eu vou em casa buscá-lo.

Disse-me o sr. L. G., que o seu parente conhecia muito bem as astúcias daquela espécie de gente descorada e lorpa, que transformava-se em animais irracionais, de acordo com as leis do reino do capeta.

Por esta razão, quando o ex-lobisomem dirigiu-se para casa, seu parente tomou umas peças de roupas, molhadas que tinha na canoa, e com elas armou um judas na praia.

Em seguida, escondeu-se dentro de uma macegas perto do local da tragédia e ficou na expectativa.

Mas, como é com a morte que os lobisomem costumam recompensar às pessoas que arrancam-lhes o terrível fardo demoníaco, seu parente viu-o surgir na praia, ostentando uma espingarda e com ela alvejar o judas até prostrá-lo por terra, pensando que fosse o seu benfeitor.

Os vizinhos que foram acordados com os estampidos da arma de fogo, correram espavoridos em direção ao local da tragédia.

Quando chegaram na praia encontraram o ex-lobisomem de arma em punho gritando em altas vozes que tinha abatido a tiros o maior inimigo que possuía neste mundo.

Depois de terem escutado as palavras do ex-lobisomem, dirigiram-se para o local onde a vítima estava abatida.

Para surpresa de todos e do lobisomem, o homem que encontraram era o judas que seu parente tinha armado com as peças de roupa molhadas, e com o remo da canoa.

Por intermédio daquela armadilha, todas as pessoas que achavam-se ali presente naquele momento ficaram sabendo que o assassino de judas era um autêntico lobisomem, e que tinha sido apanhado, inteligentemente, pelo seu parente.

(Cascaes, Franklin J. “O lobishomem”. A Gazeta. Florianópolis, 06 de dezembro de 1957)