Mês: março 2016

Esticando as Canelas no IFSC – São Carlos/SC
Esticando as Canelas no IFSC – São Carlos/SC

15/03 tem ESTICANDO AS CANELAS – Contos para Enganar a morte. SIM!!!! é isso gente: Zé Malandro nunca morre! E o espetáculo agora tem bônus: meu conhecimento e experiência de causa Emoticon tongue. vai ser no IFSC em São Carlos/SC às 20h. Parceria com o Sesc Chapecó. ‪#‎entendidadoassunto‬, ‪#‎Jojocazémalandra‬
foto: Mariane Kerbes

 

O Recomeço – Quando (re)nasce uma contadora de histórias
O Recomeço – Quando (re)nasce uma contadora de histórias

Desculpa insistir no assunto, mas vocês conseguem imaginar a quantidade de sentidos possíveis que a gente vai somando depois de uma experiência assim? Foi no dia 26|11\2015, a última viagem do ano, as últimas apresentações do ano, as férias logo ali, tanta coisa, tantos planos. E de repente você se vê sozinho (a), longe de casa, dentro de um carro capotado com violência, o corpo machucado, costelas e quadril quebrados, o desespero, o medo, é claro que eu pensei e disse: “- Não vou mais. Não vou mais viajar pra contar histórias ” balança sabe? Não pense que é fraqueza, que não corre forte no peito, só vivendo pra saber. E é melhor não saber.

Aconteceu que no hospital eu fiquei num quarto com mais 5 leitos e mulheres. Numa dessas camas estava a Dona Maria, 82 anos, ameaça de infarto e a sua neta.

No segundo dia que eu estava lá, medicada, mais aliviada das dores, ela também, conversa que vai conversa que vem, a minha mãe contou pra mulherada que eu era contadora de histórias, tava voltando pra casa depois de ter feito algumas apresentações no norte do Paraná, etc, etc…e aí o acontecido. A Dona Maria achou graça, pra ela contar histórias era coisa que ela fazia antigamente, comentou que ela gostava muito de “escutá” e “contá” causo.

Suspeitei que a Dona Maria era cabocla, arrisquei perguntar pra ela de São João Maria, (o monge andarilho que andou aqui pelo Sul do Brasil e tornou-se um grande mito para as populações caboclas) ela me devolveu a pergunta como que pra ter certeza: será que essa moça tá falando disso mesmo? E pronto. Entusiasmada, a Dona Maria foi buscar de memória uns causos do monge, oração, gente que viu, dali a pouco a moça que tava na cama a minha esquerda contou que conhecia gente que tinha sido batizada nas águas santas, também sabia várias histórias, mostrei pra elas que eu tinha uma foto do monge no colar que eu usava na hora do acidente, alguém tirou do meu pescoço pra não machucar e colocou na minha mão, fiquei o tempo todo com o colar|patuá na mão. Nesse ponto da conversa a outra vó que estava lá do outro lado sentou na cama pra esticar o pescoço e escutar melhor a conversa.

E a Dona Maria, contou causo de João sem medo, de guardado de dinheiro, de mãe de ouro, lobisomem – aquele causo da “baiêta vermelha”, de vez em quando a prosa ia diminuindo, mas logo me vinha um novo assunto pra colocar lenha na fogueira,  eu ia perguntando, ela ia nos contando, tirando eu que não podia dar risada (por causa das costelas quebradas), as outras todas se riam.

Teve ora que entrou a enfermeira pra medir febre, tirar pressão, colocar remédio na veia, a Dona Maria contando, nós, as pacientes, acompanhantes, escutando. A enfermeira disse: “- tá boa a prosa por aqui. Desse jeito a noite vai longe”. Acho que inté a enfermeira quis ficar por ali, deixou a porta do quarto aberta, e foi assim que uma acompanhante do outro quarto veio e se encostou  na soleira da porta pra ouvir e foi ficando… e foi ficando tarde, era sexta-feira a noite, e a Dona Maria disse assim:

– “Ai que bão! Eu gosto muito de contá causo, inté se esqueci que tava no hospital” e se riu aliviada.

Que alívio. A Dona Maria nem sabe, mas naquela hora ela me devolveu o rumo, a certeza, o motivo.

Me devolveu a certeza de que ser um contador de histórias é um “estado” de ser e viver no mundo, que pela palavra evocada pela memória nos encontramos e nos desligamos de nós mesmos, é ali que desatamos o nó do medo, da dor. Em comunhão, nos aproximamos, nos importamos com os outros. Todas tinham um causo parecido, lembravam de um parente, de alguém que contava também. O pertencimento. Naquela noite, ouvir aquelas histórias da voz  rouca e trêmula de uma anciã de 82 anos fez com que todas as mulheres daquele quarto se colocassem no mesmo lugar. Humanas. Naquela noite, eu sei que dormimos na paz, uma cuidando da outra. E não sei se acontece com frequência, mas naquele quarto de hospital, com 5 camas ocupadas por gentes de histórias e dores tão diferentes, eu vi que ninguém foi embora antes de dar um abraço em cada uma das pessoas que estavam ali, com desejos de melhoras, saúde e vida próspera. Arriscamos até um até logo e que não fosse no hospital.

No dia que a Dona Maria deu alta do hospital, eu prometi pra ela que quando eu estivesse bem, eu ia lá na terra dela em Pinhal de São Bento/PR levar uma foto do monge que ela não tinha, quem sabe gravar os causos também. Ela disse que “fazia muito gosto”. Assim que possível, eu vou.

1478944_592367497508373_942984267_nFiquei 45 dias na cama me recuperando das lesões causadas no acidente. 3 meses afastada do palco, contando histórias só por aqui, ou na página da Contacausos no facebook. Retomei as atividades no último dia 29/02. Tive que pegar a estrada de novo, sozinha. Não foi fácil, medo, insegurança, dirigir é uma grande responsabilidade.  Mas fui e voltei. Fiz 10 apresentações do espetáculo Tem coroa, mas não é rei pelo projeto Encenação do Sesc de Francisco Beltrão|PR. 5 cidades diferentes e aproximadamente 1500 crianças abriram o meu caminho. Me possibilitaram recomeçar.

E recomeçar me trouxe a dúvida, será que ainda está aqui? Falo do corpo, da voz, as imagens, os detalhes das histórias?  Não dormi na noite anterior a primeira apresentação. Mas quando me encontrei com aqueles pequenos e nos colocamos juntos naquele lugar da história. Eu voltei! voltou o corpo, a voz, os trejeitos, a mão ligeira pra frente e pra traz a ilustrar a história, o coração pulando. Quando encerrei a história meu corpo se arrepiou inteirinho e agradeci por estar viva e pela oportunidade de seguir em frente, eu, as histórias, a experiência que ficou, rumando pelos caminhos desse Brasilzão sem portêra.

Gratidão a todos que torceram e que estiveram por perto nesse momento de (re) nascer.

História pra Contar: A lenda do Diabo na Garrafa
História pra Contar: A lenda do Diabo na Garrafa

Segundo o que me contou seu Joaquim, numa dessas belas noites de outono, os caboclos que viviam na região mineira do Vale de São Francisco, chamavam de famaliá um diabinho preto, que se conservava preso dentro de uma garrafa. Quem estivesse precisando de dinheiro era só pedir ao diabinho que o dinheiro aparecia na hora.

Se por acaso um caboclo estivesse necessitando de um dinheirinho e quisesse aprisionar um famaliá, usava a seguinte receita:

Matava um gato preto e tirava-lhe os dois olhos. Punha cada olho dentro de um ovo de galinha preta e enfiava os ovos dentro de esterco de cavalo, que ainda estivesse quente. Depois o caboclo ia todo dia até perto do monte e dizia: “Ó, diabão! Eu te entrego estes dois olhos de um gato preto para que me sejas favorável nesta apelação: Que deles nasçam dois diabinhos para eu cria-los dentro de uma garrafa e me darem dinheiro na hora da precisão”.

Dizia isso durante trinta dias. Ao fim desse tempo, nasciam dois diabinhos, na forma de pequeno lagarto. O caboclo apanhava os diabinhos, colocava-os dentro da garrafa e os alimentava com pó de ferro ou aço moído (Bombril). Aí era só pedir dinheiro em qualquer quantidade, que aparecia na hora.

Conclui seu Joaquim que, embora essa tradição fosse muito combatida pelos religiosos, era muito comum comprar nas feiras, principalmente nordestinas, garrafas com o famaliá.

Fonte: Ricardo Sérgio – Recanto das Letras

História pra Contar: As artes de Branca-Flor
História pra Contar: As artes de Branca-Flor

Lá vem mais uma história de diabo logrado! Bora encher o embornal?

Havia um moço que gostava muito de jogar. Aos conselhos dos mais velhos, costumava dizer que perdia apenas o seu dinheiro e que isto não é muita coisa.

– Perde mais – dizia-lhe o velho pai. – Perde dinheiro, noites de sono, o tempo, a vergonha. E um dia perderá a alma.

O moço ria e continuava freqüentando as casas de jogo todas as noites.

Um dia, depois de ter perdido tudo, ao jogar com um sombrio parceiro mal-encarado, não tendo mais o que jogar, ouviu espantado esta proposta:

– Se quiser continuar, eu caso mil escudos com a sua sombra.

– Com o quê?

– Com a sua sombra.

O moço pensou por um momento.

– Ora! A minha sombra não me fará grande falta. Até hoje não me serviu de nada.

Jogou e perdeu.

O parceiro enfiou a sombra num saco e antes de partir, falou:

– Se você quiser reaver o que perdeu, procure por mim na montanha Negra, daqui a um ano e um dia.

Muito perturbado, o moço foi para casa. O pai, que o achou mais sombrio que de costume, falou:

– Que aconteceu?

E o moço não queria contar. Mas não tardou que toda a gente soubesse e reparasse que ele não tinha sombra, que o deixou muito malvisto no povoado, e fazia com que todos o apontassem com o dedo, por onde quer que andasse. Aí ele compreendeu que a sombra fazia muita falta. Demais o pai lhe dizia:

– Estás vendo? Você perdeu a alma. Era o diabo o seu parceiro. Carregou a sua sombra. Carregou a sua alma. Ah! infeliz.

Apavorado, o moço resolveu procurar a sombra na tal montanha Negra, e pôs-se a caminho.

Chegou à montanha Negra, encontrou a casa do diabo, que era realmente aquele seu mal-encarado parceiro, e pediu-lhe a sombra.

– Ah! Sim, pois não. Dou-a se você plantar uma fila de bananeiras de manhã, e à tarde você colher, nessas mesmas bananeiras, bananas maduras para o jantar.

O moço foi para a roça do diabo, sentou-se num toco e começou a chorar. Avaliava agora a sua pouca sorte, e como o jogo tinha sido a sua perdição.

Ora, o diabo tinha uma filha muito bonita, chamada Branca-Flor. Branca-Flor espiou pelas abertas do mato o moço sentado no tronco caído e gostou dele. Apareceu-lhe e falou:

– Não tem nada, não. Deite-se aqui no meu colo.

Aninhou a cabeça do moço no colo, pegou a catar-lhe cafuné, a conversar com ele, perguntando muitas coisas, de mansinho, até que ele adormeceu. Então, arredou-lhe a cabeça, plantou as mudas, e se escondeu. Quando o moço acordou, muito assustado, pensando que nada tinha feito, e nas desgraças que iam lhe acontecer, viu as bananeiras plantadas, com os cachos madurinhos pendendo. Muito alegre, apanhou as bananas e levou-as ao patrão. Este não desconfiou, mas a mulher dele, que era mais esperta, disse:

– Isto são artes de Branca-Flor.

No outro dia, quando o moço pediu a sombra, o diabo arranjou outra trova: deu-lhe um saquinho de feijão verde.

– Plante este feijão. Que ele brote e cresça, e feijão para o meu virado até de tarde. Senão…

O moço ainda não tinha voltado bem do espanto pelo que tinha acontecido na véspera. Foi para a roça mais triste e acabrunhado do que antes.

– Hoje eu não escapo.

Sentou no mesmo cepo e começou a chorar. Apareceu-lhe a moça bonita da véspera, aninhou-lhe a cabeça no colo, e começou a catar cafuné no seu cabelo até que ele dormiu.

A tarde, enroscavam-se nas estacas os cipós de feijão, com as vagens granadas, no ponto de colher. Radiante, o moço apanhou os feijões e levou deles uma peneira cheia ao diabo. O diabo aceitou o trabalho, mas a mulher, desconfiada, resmungou:

– Aqui andam artes de Branca-Flor.

No outro dia, mal o moço abriu a boca para falar da sombra, o diabo já falou:

– Atirei um anel no mar. Procure-o e traga-o aqui. Senão…

O moço foi para a praia, e, sentado num montinho de areia, começou a chorar. Apareceu Branca-Flor, chamou um peixinho, pediu-lhe o anel, e logo veio de volta o pequeno mensageiro de rabo de prata, com o anel na boca.

Então, o diabo também começou a desconfiar de tanta habilidade e resolveu matar o moço – com pretexto ou sem ele, e mais a filha que o tinha feito de bobo.

Fez uma cara muito hipócrita, devolveu-lhe a sombra, e falou:

– Pode ir embora amanhã.

Branca-Flor adivinhou tudo e se preveniu.

Pôs na cama do moço e na dela dois potes de barro cheios de vinho. Pegou um punhado de cinzas frias do fogão, um punhado de agulhas da caixa de costura, e um pedaço de sabão de cinza da despensa. Foi muito de mansinho procurar o moço que se sentara a um canto, meditando, e disse:

– Fujamos, que meu pai quer nos matar. Ele tem dois cavalos muito bons: um castanho e um preto. O castanho é rápido como o vento. Vá à cocheira e pegue o outro, que é rápido como o pensamento.

Em seguida, cuspiu três vezes no fogão, deu ao rapaz os embrulhinhos com as agulhas, o sabão e a cinza, para guardar, montaram e fugiram.

Já estavam longe quando repararam que o moço no escuro tinha selado o cavalo errado. Estavam fugindo no cavalo rápido como o vento. Era perigoso voltar, e Branca-Flor resolveu tocar para diante.

– Não faz mal, vamos neste mesmo. Até que papai descubra, estaremos longe.

Entrementes, na casa do diabo, todos se acomodaram. Deitou-se o diabo na sua cama de chamas, como uma salamandra. Deitou-se a mulher. Deitaram-se os diabos e diabinhos. Ficou tudo quieto. Quando nos grandes relógios dos salões silenciosos começaram a soar as badaladas da meia-noite, o diabo ergueu a cabeça do travesseiro e chamou: “Branca-Flor!”

Um cuspo no fogão respondeu:

– Já vou.

O diabo deitou e esperou. Esperou quase uma hora. E então tornou a chamar: “Branca-Flor!”

Outro cuspo respondeu com voz mais fraca:

– Já vou.

Esperou um pouco e chamou pela terceira vez: “Branca-Flor!”

Outro cuspo respondeu com voz mais fraca ainda, como de quem está quase dormindo:

– Já vou.

O diabo deixou passar mais um pouco e tornou a chamar. Ninguém respondeu. Aí ele se levantou, pegou um pau e foi à cama do moço e malhou até que viu escorrer o que julgou ser sangue. Foi à cama da filha e bateu até ouvir o rumor do que parecia ossos quebrando. Voltou para a cama e a mulher perguntou:

– Estão mortos?

– Estão sim. Escorreu sangue.

– Estão mortos mesmo? Você verificou?

– Os ossos estalaram.

A mulher não acreditou e foi ver. E viu: potes quebrados, vinho escorrendo, e nem sinal, nem do moço, nem da moça.

– Fugiram! – gritou.

Descoberto o logro, o diabo correu à cocheira, selou o cavalo preto e saiu atrás deles. Estava quase alcançando os fugitivos, quando Branca-Flor, olhando para trás, avistou a nuvem preta que vinha que vinha.

– Papai vem ai — avisou a moça. – Atire para trás o punhado de cinzas.

O moço assim fez e logo se formou um nevoeiro que baixou tão espesso como uma cortina. Não se enxergava nada. O diabo andou daqui, dali, pererecando, até que conseguiu passar. Quando estava pertinho outra vez, o moço, a mando de Branca-Flor, atirou o sabão. Formou-se um atoleiro de tijuco preto, tão grudento, que o diabo suou para escapar. Saiu dele enfezado, e foi outra vez atrás dos moços. Quando estava quase a alcançá-los pela terceira vez, o moço jogou as agulhas. Formou-se um espinheiro tão cerrado, que o diabo, aí, não teve remédio senão voltar. Chegou ao inferno e encontrou a diaba furiosa.

– Mulher – explicava ele todo atrapalhado. – Eu não pude atravessar o espinheiro…

– Que espinheiro? Que mané espinheiro o quê?! Aquilo era um punhado de agulhas. Se você não fosse tão besta, tinha passado.

O diabo tornou a montar, louco da vida, e foi perseguir os moços de novo.

Branca-Flor olhou para trás e viu a nuvem preta. Vinha que vinha. Ela transformou então o cavalo num lago, os arreios numa barca, o moço num pescador e ela mesma num cisne branco. O diabo chegou ao rio, perguntou ao pescador se tinha visto um moço e uma moça, assim assim, montados num cavalo alazão. O pescador nada respondia. Aí, o diabo, danado com o pouco caso dele, voltou ao inferno. Branca-Flor desmanchou a mágica, montaram de novo e galoparam para a frente, no seu cavalo escuro, rápido como o vento. Mas a mulher do diabo atiçou-o:

– Bobo de uma figa! Não viu que o moço era o barqueiro e Branca-Flor, o cisne branco?

O diabo montou e saiu.

– Desta vez trago aqueles dois de qualquer jeito.

– Melhor matá-los no caminho – insinuou a diaba.

– Ou isso.

Quando chegou ao lugar onde estivera o rio, cadê o rio? Voou ligeiro, pelo espaço, andando pelo mundo todo, em sua procura. Quando Branca-Flor olhou para trás, viu a nuvem preta. Vinha que vinha, feia em cima deles.

Então ela transformou o cavalo e os arreios numa roseira, ela numa rosa vermelha e o moço num beija-flor. O diabo passou, olhou as roseiras e a rosa e o pássaro, nem desconfiou. Correu mundo no seu cavalo veloz como o pensamento e não encontrou ninguém. Voltou ao inferno, e a mulher, assim que o viu, foi logo gritando:

– Bocó! Bocó de fivela! Não viu uma roseira, com uma rosa vermelha?

– Bem bonita disse o diabo.

– Não seja bobo! A rosa era Brança-Flor, e o beija-flor, o moço. Volte e traga os dois!

O diabo foi, mas Branca-Flor, e o moço, e a roseira e o beija-flor, tudo tinha sumido. Lá adiante, passou por uma igreja e o padre estava na porta, puxando a corda do sino:

– Seu Padre! Não viu um moço e uma moça, montados num cavalo alazão?

O padre dizia:

– É hora da missa.

E tocava o sino: – delém, delém

– Seu Padre, estou perguntando…

– É hora da missa…

Delém, delém, delém.

E o diabo foi para o inferno.

Não adiantou a diaba gritar, ralhar, pintar os canecos com ele.

– Já estou cansado. Não vou mais atrás de ninguém. Vá você.

Branca-Flor e o moço seguiram viagem. Nunca mais que viram a nuvem preta.

– Meu pai desistiu – ela falou. E riu.

Com pouco, chegaram a uma cidade. Ela ficou escondida à beira do caminho, e o moço foi à cidade, procurar trabalho, para depois levá-la com ele. Antes que fosse, Branca-Flor deu-lhe um anel, e disse:

– Não tire este anel do dedo…

– Nunca?

– Nunca. Senão você me esquece.

– Não tiro — o moço prometeu.

E foi embora.

Andou muito pela cidade, perguntando se havia trabalho, até que foi dar na casa de uma família muito rica. Ajustou de trabalhar lá. Logo no primeiro dia, esqueceu a recomendação de Branca-Flor, e tirou o anel para lavar as mãos. No mesmo instante, foi o mesmo que nunca tivesse existido Branca-Flor. Esqueceu-a como esqueceu o diabo, a montanha Negra, o inferno, a perseguição, tudo. Ficou mais de ano na casa. Por fim, namorou uma das moças, filha do patrão, e tratou casamento com ela. E tornou a passar outro ano.

Num mês de maio, muito sereno e claro, ia ser o casamento. Às vezes o moço parava olhando para fora, para as estradas, ou se detinha diante de uma rosa; ou perscrutava o lago, tentando apanhar uma idéia que lhe fugia. Nas vésperas do casamento, apareceu uma moça muito bonita e pediu para fazer os doces do dia.

– Sou doceira como não há igual no mundo.

A cozinheira experimentou o serviço dela, achou que era assim mesmo, como a moça dizia, e ela principiou o trabalho. Fez manjares finos, cocadinhas, furrundum e pé-de-moleque, papo-de-anjo, baba-de-moça, bem-casados, quindim, queijadinha, espera-marido, pudim, bem-bocado, beijinho.

E o bolo. Ah! o bolo. Alto como uma torre, todo branco de neve, e lá em cima a moça botou um casal de bonecos.

Chegou o dia do casamento, e já estavam todos à mesa para o banquete. O noivo e a noiva, nas suas roupas de gala, sentaram-se à cabeceira da mesa. Então a boneca virou-se para o boneco e perguntou:

– Tu não te lembras daquele dia em que meu pai te mandou plantar mudas de bananeiras e eu então te vali?

Os convidados puseram-se a rir. Nunca tinham visto brinquedo tão interessante. Os risos dobraram quando o boneco ensaiou um passo de dança, sacudiu a cabeça e resmungou com voz grossa:

– Não me lembro. Não me lembro.

E a bonequinha, delicadamente, insistia:

– E não te lembras quando meu pai te mandou plantar feijão verde e eu então segunda vez te vali?

– Não me lembro, não me lembro.

– E não te lembras quando meu pai jogou o anel no fundo do mar e eu mandei um peixinho buscar?

– Não me lembro, não me lembro.

– Não te lembras quando meu pai queria nos matar e nós fugimos num cavalo veloz como vento?

– Não me lembro, não me lembro.

– Não te lembras quando viraste um pescador, e eu, um cisne branco?

– Um cisne branco… – murmurou o boneco. – Um cisne branco… Ai! Não me lembro.

– Não te lembras quando viraste um beija-flor e eu, uma rosa vermelha?

– A rosa… – repetiu o boneco, pensativo, com o dedo na testa. – A rosa vermelha. Ai! Não me lembro.

– Não te lembras quando viraste padre e eu a santa que estava no altar?

Nessa hora, o boneco deu um salto e respondeu:

– Já me lembro!

O moço, que estava sentado ao lado da noiva, levantou-se agitado. Lembrara-se de tudo e queria ver a moça que tinha feito os bonecos.

Encontrou-a toda vestida de noiva, casaram-se e foram muito felizes. Houve muito doce, muita música, uma festa de arromba. Eu ia trazer uns doces e repartir com vocês, mas, quando ia passando na ponte, os cachorros do vigário correrram atrás de mim e derrubei os doces n’água.

(GUIMARÃES, Ruth. Lendas e fábulas do Brasil)

Fonte: Jangada Brasil