Mês: fevereiro 2016

Todos sabiam contar Estórias!
Todos sabiam contar Estórias!

 “Depois da ceia faziam roda para conversar, espairecer, dono da casa, filhos maiores, vaqueiros, amigos, vizinhos. Café e poranduba. Não havia diálogo mas uma exposição. Histórico do dia, assuntos do gado, desaparecimento de bois, aventuras do campeio, façanhas de um cachorro, queda num grotão, anedotas rápidas, recordações, gente antiga, valentes, tempo da guerra do Paraguai, cangaceiros, cantadores, furtos de moça, desabafos de chefes, vinganças, crueldades, alegrias, planos para o dia seguinte. Todos sabiam contar estórias. Contavam à noite, devagar, com gestos de evocação e lindos desenhos mímicos com as mãos. Com as mãos amarradas não há criatura vivente para contar uma estória. Seriam temas para pesquisas sábias de alemães e norte-americanos essa linguagem auxiliar, indispensável nos “primitivos” de todos os tempos, Gebärdensprache, manual concepts, variações de timbres, empostamento, nasalações, saltos de quinta e oitava, dando visões de voo, pompa, ferocidade, alegria, Lautbilder. Os contos tinham divisões, gêneros, espécies, tipos, iam às adivinhações, aos trava-línguas, mnemonias, parlendas. Ia eu ouvindo e aprendendo. Não tinha conhecimento anterior para estabelecer confronto nem subalternizar uma das atividades em serviço da outra. Era o primeiro leite alimentar da minha literatura. Cantei, dancei, vivi como todos os outros meninos sertanejos do meu tempo e vizinhanças, sem saber da existência de outro canto, outra dança, outra vida.Voltando a Natal, fui para o curso secundário e pude ver a diferença entre as duas literaturas, ambas ricas, antigas, profundas, interdependentes e ignorando as pontas comunicantes. Inconscientemente confrontava ritmos e gêneros, as exigências do dogma culto e a praxe dos cantadores sertanejos, setissílabos, décimas, pé-quebrado, a ciência do “desafio”. Todas as leituras subsequentes foram elementos de comparação. Compreendera a existência da Literatura Oral brasileira onde eu mesmo era um depoimento testemunhal.”

(in Literatura oral do Brasil – Luis da Câmara Cascudo)

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 Agora, lá vem uma das histórias que o povo costumava contar antigamente:

A moça e vela

– Minha Filha – dizia  sempre a mãe de uma moça que tinha por costume ficar à janela até as tantas da noite -, quem se deixa ficar à janela até alta hora vê coisas  que não deve ver. Isto é exemplo dos antigos que sabiam mais do que nós.
– Qual o quê!- Dizia a moça -, nunca vi nada de espantar. Não tenho sono, não hei de dormir com as galinhas.
A mãe repetia-lhe sempre o conselho, mas a moça, com quem  ia às vezes falar o namorado, continuou o costume.
i60381Vai por uma vez estava a teimosa à janela, quando, ao soar a última badalada  da meia-noite, viu aproximar-se uma figura envolta  num hábito muito branco, caminhando  com passo  apressado e trazendo, numa das mãos, uma vela acesa. A moça  estava tão distraída, a pensar nos seus  amores e naquele  que esperava, que nem pavor sentiu. foi como  se não tivesse visto nada.
O desconhecido saudou-a e, apagando a vela, pediu-lhe  que a guardasse até a sua volta.
Maquinalmente a rapariga  foi colocar  a vela sobre o leito e,  quando voltou, já não encontrou mais o desconhecido.
Nem se lembrou dos conselhos  da mãe nem a aparição lhe causou o menor abalo. Continuou  à janela toda preocupada  com os seus pensamentos de amores.

Às duas da madrugada, que é quando as almas penas se recolhem, ela ainda estava apreciando a noite. O Desconhecido chegou-se rapidamente  e pediu-lhe a vela.

A moça foi buscá-la ao leito, mas soltou um grito de horror. Em vez de vela, se lhe apresentou  um esqueleto, estendido na cama. A caveira  ergueu-se e foi, diante de seus olhos, saindo pela janela, como se fosse uma pluma.
Desde esse dia a moça ficou pateta, rindo ou chorando à toa, e foi exemplo para todas as moças desobedientes, no lugar onde esse causo se deu.

Lindolfo Gomes, em “Contos Populares”

História pra Contar: Crendiospadre!
História pra Contar: Crendiospadre!

Puis eu sei de u’a coisa que é mais duro de morrê que gente. – entrou Nhô Thomé.

– O que vem a sê?

– É largato…

– Largato? Bicho mole! Morre à toa… Atalhou o Joaquim. – Cáudo… eu já vi um que…

– Fique queto, ara! Quem tá falano aqui sô eu…

– Intão fale, uéi!

– Nóis aqui num pudia criá galinha nem aporveitá os ovo. Galinha gosta de fazê ninho no guainxumá e aquilo era só elas gritá, a gente corria percurá e só uvia o baruio do largato e achava a casca do ovo que ele chupô. Num tinha mais artura. Um dia, num sei o que fui fazê u se fui armá um “laço” ali na vórta do rio e… Ah! Seu moço! Dei lá cum bandão de largato, no meio do dia, esquentano sór! – Digo: ãããn… é aqui que ocês mora, canaiada…

Vortei pra casa, peguei u’a foice, fui no capão de mato, bem na vorta do riou, cortei os “mato de foice” e dexei secá p’ra servi de facho. – Quarqué dia – digo – eu taco fogo nos tar… Aqui é que é a cidade dos excamungado.

Nhô Joaquim, impaciente, mexia com o dedão do pé direito, de unha arrebitada, rolando um tição.

– Oito dia despois, no meio do dia, o sor tava mais o meno nas duas hora… Tava aqui o defunto compadre Zécaria…

– Descurpe… mais ele era mais conhecido por Caria da Grota Preta…

– Caria é os burro que fala. – Corrigiu Nhô Thomé. – O certo é Jusé… Jusé u Zécaria! – Num é dotor?

– Zécaria ou Zacarias nem dar na mesma…

– Taí! E o que vô iê contá, se vassuncê num aquerditá, pode preguntá p’rele, que é um home de sustacia na palavra!

Chamei o compadre e digo: – Bamo fazê u’a rozôra nos largato?

– Adonde?

– Me acumpanhe!

Cheguemo lá, os tar correro tudo pro mato.

Isso mermo eu quiria!

Eu e o cumpadre, c’o facho de taquara seca, soquemo fogo im roda!

Ah! Quano o fogaréo tampô pareio, chamei o compadre:

– Venha pra cá, cumpadre…Trepemo na canoa pra vê os apuro da largataiada!

Oi! moço! Bicho mais duro do que largato num hai!

Quano o fogo tampô cerrado, e veio estralano pro lado do rio… que nóis oiêmo… O que é que nóis vimo!

Aqueles largatão saía do fogo, vermeio que nem ferro im brasa… pulava n’aua… e aquilo… quano eles caíam só se uvia fazê tchiufff

Saía só fumaça!

– Pros quinto! Bradou o Joaquim enquanto tia Polycena, disfarçando resmungava:

Hunhum! Crendiospadre!…

(Pires, Cornélio. Conversas ao pé do fogo)

fonte: http://www.jangadabrasil.com.br/junho46/im46060b.htm

História pra Contar: COBRA QUE MAMA
História pra Contar: COBRA QUE MAMA

O causo — verdadeiro… — deu-se no 5º Distrito de São Jerônimo naqueles velhos tempos — as Minas do Arroio dos Ratos no Rio Grande do Sul.

Tio João, açoriano por parte de pai e mãe, louro, de olhos azuis, parecia um alemão. Mas não era. Português puro. Das Ilhas. Casou com uma ruivinha de origem alemã, dona Olga, trabalhadeira e buenacha como só ela. Depois de um ano de casados, nasceu o primeiro filho — o Joãozinho, lindo e gorducho que até parecia um anjo do céu de tão mimoso! E vivo como quê.

Pois essa criança quase que se foi, junto com a mãe, semanas depois de nascido, por causa da tal cobra.

Tio João morava numa casa de santa fé, legítima casa de gaúcho, paredes de torrão, quando nasceu o piá, e isto porque estava esperando que lhe aprontassem a casa que mandara construir pelo “dr.” Pedreira, velhote curioso que enriquecera levantando casas pros moradores em terrenos da companhia das Minas de carvão…

Cinco dias depois de nascido, o guri acordou, de madrugada, chorando que dava pena. A mãe, que acordara sem leite, não sabia porque a criança chorava daquele modo. Chamaram o doutor. Veio, examinou e nada encontrou na criança. Tudo bem. Durante o dia mamava, dormia e ficava sossegada. Mas de noite, era aquele berbezum. Acordava de madrugada chorando que era um desespero.

E o tempo foi passando, sempre no mesmo. Fizeram tudo, até benzedura. Nada adiantou. E a criança ia emagrecendo dia a dia, e a mãe também.

No fim de seis semanas a criança estava que era pele e osso e dona Olga parecia cair de magra. Um horror! E olhe que ela era uma mulher e tanto.

Remédio e mais remédio. Benzedura e mais benzedura. Simpatias e outras coisas. Tudo em vão.

O desespero invadiu a casa e todo o vizindário estava alarmado com o causo.

O verão chegara e o calor era intenso. Uma noite, como não agüentasse mais dentro do rancho, tio João, lá pelas tantas, acordou e resolveu chegar à janela. A lua brilhava com intensidade. A noite, de tão clara parecia dia. Tio João pensou em dar uma volta pelo terreiro. E ao voltar-se um raio lindo da lua batia em cheio na cama do casal, onde dona Olga, fraca e esgotada dormia ao lado do pequeno. Olhou o quadro e duas lágrimas lhe rolaram, dos olhos muitos azuis, cor daquele céu que a lua prateava. Ia sair do quarto quando uma coisa qualquer, escura, se mexeu de mansinho em cima do alvo lençol. Assustado, inclinou-se sobre o leito e viu, estarrecido enorme cobra que se afastava serenamente! gorda e lustrosa! Tinha, ainda, na boca da criança, a ponta do rabo. E viu, também, que Joãozinho chupava-o para valer!

Devagarinho, pra não acordar a dona e assustá-la, tio João, que então compreendeu a causa daquela definhação toda, afastou-se um pouco para dar tempo a que a cobra descesse e seguisse seu caminho.

Desceu pelo pé do leito e, rastejado preguiçosamente, desapareceu por um buraco da parede junto ao chão de terra batida. Chegando à janela, viu-a no terreiro. De mansinho por ali mesmo e, armando-se de uma acha de lenha, esmagou-a com fúria.

Mas como dizem que quando se mata uma cobra a companheira aparece alguns dias depois, à procura do matador, tio João nada disse à esposa, nem a ninguém. Ficou esperando a companheira. Na noite seguinte ela apareceu, que de certo eram sócias no leite de dona Olga, as malvadas! — e sem cerimônia atravessou o terreiro e rumou direitinho pro buraco! E foi logo entrando. Então tio João agarrou-a pelo rabo e — zás! — deu com ela no terreiro como se fosse açoiteira de velho, espatifando-a. Fechou o buraco com todo o cuidado e foi dormir.

E dormiu como um justo.

No outro dia contou tudo.

E o mistério se explicou.

Daí por diante a coisa endireitou de novo. Dona Olga recuperou a saúde e a disposição e o piasote engordou outra vez que era um gosto. Tornou-se o mais lindo e robusto guri da zona. E teve mais quatro irmãos, dois homens e duas mulheres. Lindos todos!

Por isso tomem cuidado! Mulher que amamenta, mesmo nas cidades, deve dormir em quarto bem fechado. Não vá alguma “cobra que mama” entrar e fazer as suas…

Cobra, seu moço, é o diabo. E isto desde que o mundo é mundo…

(Spalding, Walter. “Cobra sabida”. Jornal do Dia. Porto Alegre, 07 de abril de 1957)
Frequentar o povo, ouvir as suas histórias!
Frequentar o povo, ouvir as suas histórias!

[…]

Disto se conclui que o povo é grande criador, e que o artista tem por missão operar como o instrumento estético por meio do qual o povo dá corpo definitivo e harmônico aos seus ingênuos esboços.

Temos nós, no seio da massa popular, matéria prima digna de ser plasmada pelas mãos da arte? Sim. Não tão abundante e rica como o tinha o grego, povo eleito da Harmonia; mas rica e abundante o suficiente para darmos ao mundo uma contribuição vultuosa de criações originais.

Basta que nosso artista, se é um garimpeiro de talento, mergulhe no seio do povo, e de lá bateie na ganga rude o ouro de lei.

Se andam eles, hoje, vazios de ideias, e desorientados, é porque procedem de maneira exatamente inversa. Homero, Plotino, Fídeas, Praxiteles, Aristófanes não se metiam no Trianon a pasmar diante da lépida Maria Antonieta que ali nos inicia nos altos mistérios da alta goma. Nem iam todas as noites nhambiquararem francês diante de uma garrafa de champanha […]

cultura-popularFrequentavam o povo, conviviam com ele, impregnavam-se de suas crenças, ouviam-lhes as histórias; e saiam dele cheios de ideias, de formas, de coragem, de inspiração.

Procedamos assim. A fonte de água pura é uma só. E a mesma na Grécia, na França, na Rússia e no Brasil: O povo!

Lobato, Monteiro.Saci Pererê: o resultado de um inquérito. Editora Globo.2008

História pra Contar: Como a cascavel ganhou seu chocalho – Fábio Sombra
História pra Contar: Como a cascavel ganhou seu chocalho – Fábio Sombra

          No início dos tempos, a cascavel era uma cobra como as outras e não tinha aquele chocalhinho na ponta do rabo. Nessa história, vamos descobrir como foi que a danada recebeu esse presente tão valioso.

Certa vez, um violeiro afamado vinha viajando a cavalo e tomou uma estrada que passava pelo meio de uma mata fechada e perigosa. Como não conhecia o lugar, o rapaz calculou mal o tempo do percurso, e a noite acabou chegando enquanto ele ainda estava na metade da travessia. Apesar da escuridão, dos pios das corujas e do rufar das asas de morcegos, o violeiro não se desesperou. Ao encontrar uma clareira, acendeu uma fogueirinha e, depois de fazer sua refeição, resolveu tocar um pouco para afastar o medo e a solidão.

Ao ouvir aqueles ponteados bonitos, os bichos da mata foram se achegando mais para perto da clareira. Lá para a meia noite, uma verdadeira multidão de macacos, antas, pacas, tamanduás e tudo quanto era bicho que morava naquela floresta já havia se arranchado para espiar o moço tocar a sua violinha. O violeiro viu aquele mundão de olhinhos brilhando no escuro e não ficou medo, pois era devoto de São Gonçalo do Amarante e sabia que o santo estaria sempre ao seu lado para protegê-lo. E continuou tocando, cada vez mais bonito.

Lá pelas duas da madrugada, sentindo que o sono chegava, o violeiro ponteou a última moda e, para sua surpresa, ao final da melodia, a mata foi invadida por um barulho ensurdecedor. Eram os Bichos. Cada um aplaudindo o violeiro da maneira que a natureza lhe permitia. Os pássaros piavam, os sapos coaxavam, os macacos gritavam, e as onças soltavam urros de aprovação. Alguns bichos batiam palmas, outros pulavam e sapateavam e outros ainda, como os tatus, esfregavam seus cascos nos troncos das árvores.

          Só uma velha cobra cascavel que morava em um oco de pau ali perto é que não conseguia agradecer ao violeiro pelo seu recital. Como não emitia sons, não tinha mãos para aplaudir , nem pernas para bater no chão, a pobre da cascavel se entristeceu e lamentou sua sorte.

Nossa Senhora, que estava no céu vendo tudo o que acontecia na floresta, teve pena da cascavel e, naquele mesmo instante, fez com que um chocalho crescesse na ponta de sua calada. Muito feliz com o presente, a cobra sacudiu o rabo com vigor e puxou mais uma onda de aplausos para o violeiro.

          Blog Violeiro Pois foi assim que a cascavel ganhou seu chocalho. E é por esse motivo que os violeiros mais tradicionais sempre guardam um guizo de cascavel no bojo de suas violas, Dizem que é para o som do instrumento ficar mais brilhante, mas, no fundo mesmo, o que todo tocador de viola gosta é de ouvir a zoadinha do chocalho aplaudindo seus ponteios lá de dentro do instrumento.

E, por ser presente de Nossa Senhora, o tocador não pode matar a cobra para ganhar o guizo. Ele tem de ser recebido das mãos de um mestre e só tem valor se for retirado de alguma serpente achada morta por esses cantos de mato.

Sombra, Fábio. Treze casos de viola e violeiros : do Baú do mestre Quilim da Braúna. Rio de janeiro: Escrita Fina, 2010.