Mês: janeiro 2016

História pra Contar:  O Corpo Seco
História pra Contar: O Corpo Seco

A lenda do corpo seco na versão dos pescadores de Aparecida do Norte

Maria de Lourdes Borges Pinheiro

A região de Aparecida do Norte foi povoada inicialmente por pescadores e ainda hoje muitos continuam na mesma labuta, às margens do Paraíba.  São piraquaras simples e bons, honestos e trabalhadores, resignados e piedosos, que conhecem as manhas das águas e dos peixes, procurando superá-las com habilidade e destreza. Para isso, dispõem de perícia, de pertences que fabricam com as próprias mãos e de uma paciência como poucos possuem neste mundo de Deus. Nada os atemoriza, nem a noite escura, nem as tempestades. Só a rede vazia os entristece.

Vivem eles na atmosfera da magia e, religiosos que sejam, se movem entre crendices e superstições.

Entre as suas lendas — lendas para nós, para eles mitos, pois lhes determinam o comportamento — a mais conhecida é a do corpo seco, duende que vive na mata densa e fechada, à margem esquerda do Paraíba, lugar pitoresco denominado Caaparabá.

Várias foram as histórias que ouvi de pescadores, velhos ou jovens, sobre o corpo seco — “a coisa mais horrorosa, horrive, que se pode vê”, como me afirmou Eduardo Rodrigues, que tem 65 anos e nunca mentiu e só fala a verdade.

Na sua linguagem simples, o velho Eduardo me descreveu fielmente o que é o corpo seco, mantendo os característicos essenciais a todas as descrições que outros já me tinham feito. “É sempre o corpo de pessoa ruim, principarmente quem martratô ou desresoeitô pai e mãe. É um corpo tão sem graça que nem a terra não qué. Rejeita. Então o corpo seca. A ropa gruda que fica rente co’a pele. Uma situação só. As unha cresce. A pacoera e as tripa fica tudo numa bolota só. E chacoaia de todo lado. Quando chega o tempo de revirá a sepurtura pra desocupá lugá é que descobrem isso. Então o coveiro avisa o padre do lugá que tem um corpo seco. Então o padre trata de vê quem tem corage e escolhe dois home. Faz suas rezas, seus benzimento forte, mas só de noite então, ali pela meia-noite, nem antes nem depois, um dos home [vira] pro companheiro que tá de costa, co os braço erguido pra trás. E ele fica nesta pusição assim, costa com costa, nem o corpo seco óia pra frente nem quem carrega óia pra trás. Daí caminha os dois home até o mato e ao corpo seco tem que sê jogado de costas, mar joga já tem que saí andando e sem oiá pra trás, se oiá ele munta cavalo e vem. Lá no mato, despois que o pessoá vem simbora, le mesmo por si se esconde. Fica encostado num pau, toma conta dum capoeirão inteirinho. Pois foi o que acunteceu cumigo quando um dia fui lenhá. Chegue no capoeirão dele e isso ninguém tem orde de fazê. Premero, pra avisá a gente da presença dele, ele dá uma tontura na gente; Se teimá, daí ele tira a idéia. Ninguém tem força de arregisti. Ele, eu não vi, só ouvi os estralos no mato, mas quem viu contô, é da artura duma pessoa mesmo, no lugá do zóio tem dois vuracão. Uma cara medonha de feio…”

O capoeirão do corpo seco

A lenda é assim conhecida nesta região, mas os casos que contam e as histórias que surgem variam grandemente; uns, amedrontados, largam no capoeirão a lenha que colheram e os peixes que pegaram e fogem espavoridos; outros, com uma coragem que talvez lhes advenha depois de passado o susto, que os “estralos no mato” metem medo de verdade, incentam suas histórias e se tornam conhecidos como destemerosos, valentes e ousados. Mas… só na prosa mesmo, que caminho pequeno, estradinha à toa, atalho de todo o dia, quando corrido com pernas bambas se transforma em uma légua sem fim…

Pelas redondezas da cidade está o Caaparapá, onde a galharia cerra tanto lá no alto que em certos pontos, não se avista o céu. Enormes aranhas tecem suas teias fortes entre os ramos onde florescem orquídeas das mais belas. A mata se estende por onze alqueires, chegando quase à beira do rio, cujas águas entram por um valão e formam uma lagoa enorme, quase transformando o Caaparapá numa grande ilha. O lagoão é bonito e cheio de árvores que nasceram não se sabe quando, pois que os avós contam que seus avós contavam.

Mas desde quando o Caaparapá se tornou capoeirão do corpo seco, todo mundo sabe, porque ainda vivem alguns dos que o conheceram em vida, lá pelos fins do século XIX, antes de condenado a cumprir sina e sabiam que, “embora não aparecesse divulgado para ninguém”, sempre aparecia à gente dele, vinha à casa do filho, pedindo para cortar-lhe as unhas e fazer-lhe a barba e pedindo coisas também: roupa, chapéu, calçado, que ele precisa de tudo que a gente usa também. E contam, que de todos os seus, era o Pissidone quem mais o presenteava, por ser quem mais tinha dó do coitado. Daí o Pissidone ir ao Caaparapá e colocar tudo perto de uma árvore grande que nunca acabava. O chapéu era de pirizinho e muitos sabiam da altura do corpo seco porque viam os sinais de suas passadas e os estralos lá em cima, onde o chapeuzinho roçava.

Condenado ao capoeirão, dele nunca podendo retirar-se, tem como seu tudo quanto nele se encontra: as árvores do chão, os pássaros do ar e os peixes das águas. Quem vai lenhar e se embrenha na mata, ou volta abobado ou larga o feixinho e sai correndo, quando não passa a noite toda como que encantado, sem poder arredar pé do lugar; quem vai pescar e se distrai na beira da água, quase morre de susto quando ouve a voz soturno: “largue o peixe aí…” E caçador que enverede pelos trilhos apertados à procura do paturi, do frango d’água, não sabe mais voltar, precisa rezar o Creio em Deus Padre. Assim é o corpo seco, dono de quanto tenha vida em seu domicílio e de nada querendo se separar.

Um acordo com o duende

Porém, tudo depende de jeito, como disse o nosso velho amigo Agapito Pamplona da Corte Real Espíndola, piraquara de 64 anos, sempre lidando com redes e remos, e canoas e botes. Agapito me disse que ia contar um caso para provar que o “sujeito” (não gosta de falar “corpo seco”, tem medo…) não é tão ruim assim como se diz, vai do modo de se lidar com ele, porque com bom trato até nós somos bons, mas que nos queiram tirar as coisas à força… E aqui a história que ouvi de um acordo feito entre Agapito e o corpo seco do Caaparapá, com amplos poderes para a pescaria no lagoão, pelo tempo que lhe aprouvesse pescar.

“Tava uma miséria de peixe aqui na Parecida e não tinha peixe nenhum. O Gerardo (filho dele) foi e disse: “cumé, pai, bamo venturá? Bamo no Caaparapá pra nóis pescá”, que lá tinha muito peixe. Então eu disse: “cumé que nóis bamo fazê… Sá? eu vou pensá um modo e nóis bamo lá pescá”. Mandei ele comprá uma vela na venda, meia garrafinha de cachaça e saí com ele, de tardezinha, regulando no primeiro dia de pesca mais de oito hora. Fomo cedo nesse dia. Cheguemo na lagoa, custô pra nóis travessá, quase que a água dava pra molhá nóis. Lagoá funda. Eu levei junto co’a vela um vidrinho de cachaça com guiné e arruda também. Deixei ele na bera do poço e a rede e fui lá pro pé da figueira. “Óia, nóis bamo pescá agora neste poço, mas eu quero que me ajude porque nós não conhece o poço. Depois da pescaria nóis mata o bicho”. Eu disse assim. Não tinha ninguém. Cheguemo na boca do poço, demo suas redada e saiu carga de peixe que quase não pidemo carregá. Saímo no caminho. O Gerardo disse pra mim: “Ê pai, cumé agora pra nós travessá a lagoa?” O peso era muto. Eu fui disse assim: não é nada, rapaiz, o amigo aqui ajuda nóis passá pra lá e carrega o peixe”. Eu peguei a rede, pus nas costa e ele ergueu o balaio de peixe na cacunda. Eu disse: “siga na frente que eu vou atrais”. Ele embarcô na lagoa e eu também. Ele co’a carga de peixe, não chegô a batê água no joeio. E eu, co’a rede e a água deu só no tornozelo do pé. Um tremedá temeroso que dava para cobrir um home se escapasse. Cheguemo pra cá da lagoa, larguemo a rede, o peixe, e eu disse pro Gerardo: “bamo tomá uma pinguinha”. Eu deu o vinho prele, ele bebeu um gole e me deu o vidro, e eu bebi também e virei o vidro pro lado da lagoa e disse: “Isso é vosso”. Não vi buia de nada e quando peguei a oiá o vidro já estava sequinho. Tornei a pôr a rede nas costa e ele ergueu o jacá de peixe. E eu disse: “Bão, amanhã nóis vortamo, pode ir embora, obrigado, Deus que ajude, pode ser sempre assim e bamo embora vendê o peixe”. E assim seguimo. Pesquemo mês e meio dessa maneira assim. Úrtima veiz, cheguei no poço, sortemo a rede, enganchou num aramaço colosso de arame farpado. O Gerardo respondeu: “E, pai, perdemo a rede”. Eu disse: “não é nada”. Eu vi uma buinha que vinha vindo pro mato e nesse dia nóis não tinha levado a vela nem a pinga. Aí eu disse: “isso é arte desse sujeito, ele ficô com raiva, mas tem razão, porque nóis fomo curpado. Trato é trato”. E falei pro Gerardo: “afaste pra trais e estique a rede”; E chamei: “ó, amigo, você conhece a arte de sair daqui, me sorte a rede, que nois no pode pescá”. Deu um xaquaio muito grande na rede e sortou. Nóis puxemo, enrolemo e eu disse: “agora nóis num pesca mais hoje. Bamo embora”. Daí o Gerardo disse assim: “eu vô tirá aquele arame, pai, tirá pra fora, deixá limpo”. Entrô no poço, foi tirando aqueles pacote de arame farpado, cruzeta de pau, tuso feito, e muntuô em cima do guapesa. Daí saímo pra vim embora, ele sai atrais dele, co’o a rede. Quando passemo em frente a figueira, o sujeito avançô a mão na rede e soquetrô pra tirá a rede de mim. E eu expriquei pra ele: “Hoje nóis não queremo pescá mais, fica pra amanhã, amanhã nóis vorta”. E não pesquemo. Notro dia, o Gerardo, que é muito curioso, saiu bem cedo e foi lá zoiá o arame pra aproveitá argum e não achô nada… Continuemo a pescaria quando nóis quisemo, nada estorvô nóis, num tinha enrosco, num tinha nada. E terminô nisso aí…”

Câmara Cascudo registrou o mito em São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Nordeste e diz ser da tradição portuguesa. Aliás, almas penadas, com suas aparições proteiformes, correm por toda parte. Existe também em vários lugares do Brasil uma outra lenda, de que quem bate em pai ou mãe fica com a mão seca, cujo tema central é o mesmo portanto. Não sei, porém, se se corporifica em forma lendária ou aparece apenas em crendice, embora o povo não acredite nunca em abstrato, acredita porque lhe citam provas que a tradição conserva intangíveis.

(Pinheiro, Maria de Lourdes Borges. “A lenda do corpo seco na versão dos pescadores de Aparecida do Norte”. Paratodos. Rio de Janeiro; São Paulo, nº 2, novembro de 1957)
Fonte: Jangada Brasil
O Diabo Brasileiro nos Contos Populares
O Diabo Brasileiro nos Contos Populares

Luís Santa Cruz

Confesso que me tem causado as mais agradáveis surpresas as pesquisas que ando fazendo, no levantamento de material folclórico, literário, etnográfico e filológico, para um livro sobre demonologia brasileira. Não é que a nossa diabologia possa competir, em riqueza literária e artística, com as mais valiosas, substanciais e clássicas do mundo; tem-se surpreendido, porém, os processos de abrasileiramento, de amaciamento e familiarização do diabo em nosso país.

Talvez, porque em minha mocidade não houvesse participado muito da religiosidade provinciana de minha terra, muito supersticiosa mas também intimista com o demo e houvesse logo me integrado no movimento teológico e litúrgico da Renascença Católica que dos países europeus enviava as suas influências doutrinárias e ortodoxas sobretudo sobre as gerações mais jovens de meu país. E o diabo nessa catolicidade renascentista era mais encarado sob o ângulo metafísico e mais notadamente da teologia moral.

Talvez por isso, sempre desconfiei muito da demonologia brasileira, acreditando nada haver nela de original ou mesmo pitoresco, tornando-se assim de todo desinteressante para um estudioso dos assuntos de diabologia.

E hoje estou convencido de que foi muito bom que assim houvesse procedido, porque pude conhecer mais a fundo as demonologias asiáticas, européias, africanas, americanas e australianas, desde os demônios arianos, ou da pré-história aos da Índia, Pérsia, Japão, China, Babilônia, Egito, Grécia, Roma, até os mais recentes exus de nossas macumbas, em certos candomblés baianos como em Niterói, com uma espantosa sobrevivência de elementos de fetichismo védico das regiões de Pondichery e Madras, na velha Índia. Atravessando os séculos e as efervescências religiosas mas díspares, conseguiram tais elementos demonológicos subsistir nos interstícios das culturas ambientes, nas costas da África e daí até o Brasil, resistindo a todo o caos demográfico e confraternizando o moderno e o arcaico, num fenômeno de permanência que espanta e resiste à sumária e superficial explicação historiográfica.

Ou foi bom que preferisse aprofundar conhecimentos sobre os diabos soltos e furiosos do Novo Testamento, somente dignos de confronto, em número e fúria malfazeja, com as famosas e quase epidêmicas manifestações diabólicas e satanistas do século XV na Europa, com os seus casos surpreendentes de possessões e de feiticeiros e feiticeiras levados aos tribunais do Santo Ofício. Processos esses que até fins do século passado ainda transitavam nos tribunais civis e religiosos dos Estados Unidos.

Foi muito bom, sem dúvida, ter conhecido melhor todos esses diabos, arianos ou de cor, do Velho e do Novo Mundo, pois do contrário, não estaria, a essa altura, capacitado para avaliar melhor a admirável riqueza inventiva e interpretativa, a poderosa capacidade de aclimatação, de amaciamento e familiarização, numa palavra, de abrasileiramento do nosso diabo.

O diabo brasileiro não interessaria, por exemplo, ao especialista da demonologia médica, a um Thorndike, ou mesmo a um J. G. Frazer e a seus estudos sobre magia, religião pouco haveria nele a arrolar que não fosse repetição dos elementos levantados em outras regiões do globo, desde os cultos dos demônios vegetais de Pondichery, no VI século anterior à nossa era, e desde os ritos da fecundidade vegetal e animal dravidianos e primitivos até certas práticas de macumba que entre nós, atraem malefícios.

Contudo, sob o ponto de vista da história literária, folclórica, etnográfica, religiosa e sociológica do diabo, que abundante riqueza de materiais anda por aí, à espera de quem se dedique com paciência e carinho a seu levantamento em primeira mão no Brasil!

Assim, a história comparativa de fraseologias e abusões lingüísticos sobre o diacho, em vez de diabo, herdados de Portugal e da demonologia lusitana (com imponderáveis ou bastante acentuadas influências hispânicas e moçárabes), o estudo crítico da evolução desses abusões conduzir-nos-ia a surpreendentes constatações do procedimento popular com relação ao diabo, quer nas regiões do Norte e do Nordeste, quer no centro e sul e mais surpreendentemente ainda no linguajar fronteiriço do Rio Grande do Sul. Só o levantamento desse material lingüístico é obra que requer pesquisas as mais laboriosas, dada a inexistência de bibliografia demonológica especializada em nosso país.

O nosso lendário demonológico popular é também um dos mais ricos do mundo, senão em gênio inventivo, em interpretação e variedade literária. Contos populares do ciclo do diabo, encontráveis em quase todas as literaturas universais, como é o caso do demônio da garrafa, de origens persas e bíblicas, que deu em francês os famosos romances e contos sobre le diable boiteux, inspirou escritores espanhóis, italianos, alemães, russos, norte-americanos e ingleses (um dos últimos é Stevesson); tais contos encontraram no Brasil interpretações e versões bem nossas, a maioria delas apresentando-nos um diabo tolo, danado ´por mulher, mas sempre enganado por ela; assim são os contos Nem o diabo as guarda, Foi buscar lã e saiu tosquiado, O diabo na garrafa (que inspirou, em Portugal, a Fialho de Almeida, O almocreve e o diabo), Os músicos prosas, Morreu mesmo, A caixa de ouro, todos eles colhidos por Lindolfo Gomes na Zona da Mata mineira.

No Nordeste, ou da Bahia para cima, é à poesia popular de feira que cabe o abrasileiramento literário do diabo. É o livreto do “homem que roubou a mulher do diabo”, do “noivo que tomou sua noiva”, de bate-papos do padre Cícero repreendendo o demo, discussão entre eles e Antônio Silvino, de suas partes com Lampião, onde se encontram, já de todo aportuguesadas e abrasileiradas, as famosas conjuras do Grinomoire ou doSanctum regnun de la Clavicule, repositórios rituais da pactuação satânica recolhidos por Bergier, no verbete “Legendes infernales“, de seu Dictionnaire théologique.

Em toda essa poesia popular aparece sempre o diabo brasileiro, como o de Marlowe, o prestígio para angariar o amor de uma mulher para os seus afeiçoados, mas como o Asmodeu bíblico do Livro de Tobias, ele próprio sem nenhuma sorte em suas aventuras amorosas com outras mulheres que não as feiticeiras do século XV, horrendas megeras, solteironas feíssimas e dadas demais ai vinho, ou freiras supersticiosas e monasticamente relaxadas.

A demonologia brasileira é ainda rica de invenção na parte fantasmagóricas das assombrações praieiras e do interior. Ora o diabo aparece nelas sob a forma deslumbrante de uma barca-fantasma nas noites de lua do rio Amazonas, ora é a jangada-fantasma dos jangadeiros nordestinos, notadamente do Rio Grande do Norte e Paraíba, ora mil e uma outras formas mal-assombradas, desde o clássico bode preto dos sacrifícios rituais asiáticos e africanos, da Austrália e Antilhas já europeizadas, aclimatando-se no Brasil sob a forma das assombrações.

O diabo brasileiro é rito de títulos no patrocínio dos sete pecados capitais. O capeta, encurtamento lingüístico de capa preta, é entre nós, de uma vaidade feminina: prometem-lhe os seus afeiçoados, sobretudo, dentes de ouro. Ou então, numa reviviscência dos cardápios satânicos nos famosos banquetes do sabbat (reuniões noturnas de demônios, feiticeiros e feiticeiras, para orgias infernais), em vez de carne de rãs ou de enforcados, a famosa galinha preta das demonologias indianas, dadas porém, a demônios mais enfurecidos que vaidosos e amigos de obsequiosidades gratuitas, e que típico da nossa diabologia.

Até com dinheiro (Mestre Leonardo, o rei do sabbat, o oferecia sempre aos feiticeiros e feiticeiras, em suas orgias cobervilianas!…), até com dinheiro, os seus aficionados brasileiros tentam ao diabo; com botijas de moedas de ouro e prata; quando não com um menos custoso pé de pato, para reforçar o estoque do sapateiro do inferno.

Tipicamente nosso, e o mais original de todos é, porém, o diabo banqueiro do jogo de bicho. Ao diabo bicheiro implora-se que revele às escondidas “a milhar do tigre”. Ao diabo músico pede-se que ensine melodia e letra de samba ou embolada, a fim de o ruim cantador ou cantor dizer, com boa voz, ao violão, toda “a quentura” de amor pela bem-amada, as Zefas, Rosinhas e Doras, nossas Margaridas popularescas, objetos de paixão dos nossos Faustos brasileiros, brancos, cafuzos, mulatos ou negros. Essa demonologia alcoviteira e trapaceira, de loterias, roletas ou jogo de bicho, não se encontrará, com suas intimidades e processos de conjuras satânicas, em nenhuma outra demonologia de nenhum país do mundo.

No conto do ciclo do diabo, Nem tudo que se vê se diz, aparece o demo antropomórfico, como uma menina do Sion, doido por um baile, bancando o galã apaixonado atrás das moças, mas com enorme botina de bico fino que logo chamou a atenção de um menino no sereno de uma dança. Descoberto o diabo mulherengo, foi expulso do baile e obrigado a curtir a sua ressaca de amor nas canículas das profundas do inferno.

Os nossos Faustos brasileiros também pedem ao diabo, para conquistar suas Margaridas (Conceições e Antônias), com botina branca, terno preto, palhetas alvadios, implorando-lhe receitas de mandingas para derrear-lhes o coração e as feições. Quando não é o diabo transformado em mensageiro alcoviteiro de namorados, moleque de recados de iaiás dengosas e mandonas dos maridos, ou criado de quarto de maridos ciumentos, pequenos eunucos das camarinhas botando sentido nas suas mulheres, enquanto eles iam ao roçado, à cidade (ou rua), à feira ou ao vigário.

Assim como a religiosidade popular fez do Menino Jesus um santo familiar, espécie de caçula da casa, sempre vestido de sedas e fitas, nos braços das Nossas Senhoras brasileiras, em oratórios domésticos ou altares das matrizes e capelas das cidades e do interior, também o diabo, durante o dia, era transformado em moleque de criação para recados, trapaças e mandingas. De noite, era o mal-assombrado, o lobisomem, as mulas-de-padre, a caipora, com suas gargalhadas infernais na escuridão das matas, com seus gritos que eram guinchos de animais, pois não sabendo falar e não podendo rir, o demônio procura como pode macaquear o homem e não somente a Deus, ele, “um deus traído pela sorte”, como o denominou com tanta felicidade o poeta de Litania a satã, Charles Baudelaire.

Mil e um outros aspectos há ainda a registrar na multifacetada demonologia brasileira, em suas manifestações folclóricas, etnográficas, sociológicas, literárias e históricas. Mas o assunto é vasto demais e só mesmo num volumoso livro se poderia senão esgotá-lo, apreciá-lo melhor e mais documentadamente. Realizar tal obra não seria apenas versas um aspecto ainda por estudar na história religiosa e social brasileira, mas obra cuja leitura de certo muitas contribuições preciosas prestaria às teologias pastoral e moral.

(Santa Cruz, Luís. “O diabo brasileiro”. Jornal do Commercio. Rio de Janeiro, 02 de novembro de 1957)
História pra Contar: Do tempo que Jesus andava aqui na terra
História pra Contar: Do tempo que Jesus andava aqui na terra

Onde comem dois, comem três

Lindolfo Gomes

Vai um dia, no tempo em que Nosso Senhor andava pelo mundo, por uma noite de muita chuva e muito frio, alta hora, um pobre lavrador, carregado de sua família, ouviu bater à porta de seu rancho.

— Ó de casa!

— Ó de fora! — respondeu.

Abriu a porta e deu com dois “pelingrinos” que lhe pediram pousada e junta.

Mandou preparar a ceia com o que havia e os dois pelingrinos, um velho e outro moço, aturaram-se a ela com vontade.

Vai daí, ouviu-se bater de novo à porta. O lavrador foi abrir e apresentou-se outro pelingrino em tudo semelhante aos outros. Pediu-lhe pousada e de comer.

O lavrador hesitou. Os pratos estavam quase vazios e em casa não havia mias nada.

— Mande entrar, — disse o mais velho dos viandantes. — Onde comem dois, comem três.

O que chegou tomou assento à mesa e pôs-se a comer também.

Passado um instante, outro a bater, e depois outro, mais outro. Assim, dentro em pouco, tinham chegado doze, que eram os apóstolos e mais Nosso Senhor Jesus Cristo em pessoa, em trajes de pedinte, numa pobreza nunca vista.

No dia seguinte, no “arraiar” da primeira luz, despediram-se todos muito agradecidos, e o velho, que não era senão São Pedro, disse ao lavrador que pedisse alguma coisa a Nosso Senhor, que não lhe havia de negar.

O lavrador, que era inclinado ao jogo, pediu a Nosso Senhor que lhe desse meios e modos de ganhar sempre pela certa.

Dito e feito. Aparece logo ali por milagre, um baralho com aquela virtude.

O lavrador começou, então, a desabusar todos os parceiros e a fama correu.

Mas, não levou muito tempo, morreu o homem e, no caminho de prestar contas, encontrou-se com dois diabos que levavam a alma de um escrivão, seguros com ela pelos cabelos. Era uma ventania de levar tudo para os quintos.

O lavrador teve pena da alma e ainda porque devia umas certas obrigações ao escrivão, propôs aos coisa-ruim o resgate daquela alma numa partida de jogo. Se ele ganhasse, estaria salvo o escrivão; se perdesse, já os diabos, em vez de uma, levariam duas almas. Ele tinha confiança no baralho que lhe dera Nosso Senhor Jesus Cristo.

Os diabos aceitaram. O lavrador sacou do baralho, ganhou pela certa e lá se foi com a alma do escrivão para o céu. Bateu à porta. Veio São Pedro.

— Então, que quer?

— Quero entrar. Ora, se quero.

— Entre.

— E levo o companheiro.

— Isso não. Você já viu, homem de Deus, escrivão entrar no céu?

— Pois será esta a primeira vez. Então V.S. não me conhece mais? Sou o homem do baralho, aquele que deu de dormir e de jantar a Nosso Senhor Jesus Cristo, a V.S. e aos santos apóstolos.

— E daí? Já não vai entrar?

— Daí é que palavra de rei não volta atrás, pois V.S. foi o mesmo que disse que onde comem dois, comem três…

São Pedro não teve nada que responder e ficou a coçar a barba, e lá se foram os dois entrando no céu, onde até então não constava haver entrado alma de escrivão.

(Gomes, Lindolfo. “São Pedro, escrivães e advogados”. Folha de Minas. Belo Horizonte, 30 de setembro de 1956)
História pra Contar: A velha e o Saci
História pra Contar: A velha e o Saci

Era uma vez uma velha de mais de 70 anos de idade, que costumava fumar três cachimbadas toda a noite.

O último cachimbo ela deixava cheio, em cima do fogão, para fumar mais tarde.

Mas aconteceu que o tal cachimbo aparecia só com um pouquinho de fumo. Alguma tentação estava se associando, de certo, no cachimbo da velha.

Uma noite, a velha ficou sentada. Veio o danadinho, olhou pelo buraco da chave, entrou, sentou no fogão e acendeu o cachimbo, fumando à vontade.

Ah! é o saci! — disse a velha consigo. Amanhã ele me paga.

Quando foi na outra noite, ela pôs pólvora no cachimbo e só em cima da pólvora um pouco de fumo.

O saci veio. Acendeu o cachimbo e começou a fumar. De repente: poque! foi aquele estrupício. O saci levou um susto, saiu pulando, errou a porta, homem! passou mal o talzinho para se escapar.

E nunca mais voltou a “tentar” a velha.

Contou Elze Rodrigues de Lima. Rodeio, Itapetininga.

 

(Recolhido pelo cônego Luís Castanho de Almeida, em 1958)

(Em Soares, Doralécio. “Contos populares”. O Estado. Florianópolis, 15 de junho de 1969)
História pra Contar: Mula-sem-cabeça
História pra Contar: Mula-sem-cabeça

“Ainda hai a mula sem cabeça; custa muito, mas porém hai. Essas cousas de Deus unfum!… ninguém deve marmurá. Mamãe veio sabê, ô dispois muito tempo, qu’essas gente são iscomungado…”
(Manuel Ambrósio. Brasil interior)

* * *

A transformação em mula é o castigo recebido pela mulher que se entrega sexualmente a um padre. Nas noites de quinta para sexta-feira, ou de acordo com a lua, ou de sete em sete anos, ou na quaresma, enfim — os períodos variam de região para região — a concubina transforma-se e parte em galope desvairado, pisoteando tudo o que encontra pela frente. Seus cascos, afiadíssimos, ferem como navalhas. Quando retorna à casa, readquire a forma humana, porém está machucada, abatida, cheia de escoriações. Na próxima noite fatídica, tudo acontece novamente.

Para que a manceba não se transforme, o padre deve amaldiçoá-la antes de celebrar cada missa. Segundo Pereira da Costa, isso deve ser feito antes de tocar a hóstia, no momento da consagração. Ao encontrar uma mula, é preciso esconder as unhas a fim de não atrair a sua ira. Aquele que tiver a coragem extrema de retirar-lhe o freio de ferro da boca, quebrará o encanto. Em alguns lugares, basta causar-lhe um ferimento, tirando-lhe sangue.

A mula-sem-cabeça, burrinha-de-padre ou burrinha é mito de origem ibérica e ocorre em toda a América. No México, é chamada malora; na Argentina, mula anima. Também é chamada alma mula, mula sin cabeza, mujer mula e mala mula. Segundo Luís da Câmara Cascudo, apesar de algumas variações, sempre é a punição recebida pela “manceba” do padre. Viriato Corrêa a chama de cavalacanga.

Existem inúmeras variações sobre a sua forma: uma mula sem cabeça, com um relincho apavorante; um animal preto com uma cruz de pêlos brancos na cabeça; olhos de fogo; geme como gente; relincha; tem um facho luminoso na ponta da cauda; ninguém a vê, só se ouve o tropel; uma burra com uma listra branca no pescoço…

Gustavo Barroso explica que a escolha da mula, ou burrinha, como a punição da mulher do padre, deve-se ao fato que desde mais ou menos meados da Idade Média, as mulas foram as montarias mais utilizadas pelos padres, por serem dóceis, resistentes e seguras. Animais incansáveis e bastante próximos da pessoa do padre, inclusive fisicamente.

Para saber mais sobre a mula-sem-cabeça:

Amaral, Amadeu. O dialeto caipira. 4ª ed. São Paulo, Editora Hucitec, 1982, p.156

Ambrósio, Manuel. “A onça Borges”. Brasil interior; palestras populares, folclore das margens do São Francisco: Januária, Minas Gerais, 1912. v.1,  São Paulo, Nelson Benjamin Monção, 1934, p.50-53

Barroso, Gustavo. O sertão e o mundo. Rio de Janeiro, Livraria Leite Ribeiro, 1923, p.181-186

Cascudo, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, 1954 | 9ª edição: Rio de Janeiro, Ediouro, sd | Geografia dos mitos brasileiros. 2ª ed. São Paulo, Global Editora, 2002, p.191-195

Gouveia, Daniel. Folclore brasileiro. Rio de Janeiro, 1926, p.46-47

Lopes Neto, João Simões. Lendas do sul. Pelotas, p.91

Pires, Cornélio. Conversas ao pé do fogo. 3ª ed. São Paulo, 1927, p.155

Sanches, Rafael Jijena; Jacovella, Bruno. Las supersticiones. Buenos Aires, Edições Buenos Aires, 1939, p.148

fonte: Jangada Brasil