Mês: janeiro 2016

História pra Contar: O Homem que queria laçar Deus
História pra Contar: O Homem que queria laçar Deus

Havia um homem que era muito pobre e com muita família. No lugar em que morava, havia uma estrada muito grande e se dizia que por ali passava Deus e o mundo. Ouvindo dizer isto o homem, e querendo saber a razão por que Deus o tinha feito tão pobre, armou um laço e assentou-se na estrada à espera de Deus.

Levou assim muito tempo, e todos que passavam perguntavam o que estava ali fazendo. Ele respondia que queria pegar Deus. Afinal, estando já desenganado de que nada fazia, já ia para casa, quando apareceu-lhe um velhinho e deu-lhe quatro vinténs, dizendo que só comprasse um objeto que custasse aqueles quatro vinténs. Nem mais barato, nem mais caro.

O homem foi para casa muito contente, imaginando no que havia de comprar com aquele dinheiro. Lembrou-se de um compadre negociante rico que tinha, o qual estava para fazer viagem a buscar sortimentos para sua loja. Dirigiu-se o compadre pobre para a casa do compadre rico e pediu-lhe que comprasse qualquer coisa que custasse aqueles quatro vinténs.

Fez o compadre a sua viagem e chegando na cidade não encontrou nada por aquele preço. Foi ao mercado e ainda nada. Só encontrava objetos por três vinténs, um tostão, meia pataca, dois mil réis, três, etc.

Ia já para casa, quando ouviu um menino mercar: “Quem quer comprar um gato? Custa quatro vinténs.” O homem ficou muito contente e comprou o gato. Era um animal raro naquele lugar. Chegando o negociante em casa do amigo onde estava hospedado, e que também era do comércio, este ficou desejoso de possuir aquele animal e pediu ao amigo para deixar o gato passar a noite na loja, onde havia muito rato, que lhe davam um grande prejuízo.

No outro dia quando abriram a casa, tinha uma quantidade tão grande de ratos mortos que causou admiração. Aí o negociante dono da casa ofereceu uma grande soma de dinheiro ao amigo pelo gato.

Este recusou, dizendo ser o gato de um seu compadre muito pobre, que o tinha encarregado de comprar um objeto qualquer com quatro vinténs. Instou muito o negociante e afinal ofereceu tanto dinheiro que o amigo não pôde recusar e vendeu o gato. Voltou o compadre rico de sua viagem, mas chegando em casa teve tanta pena de dar o dinheiro ao compadre, que o enganou com uma peça de chita, muito ordinária, dizendo ter comprado aquilo com os quatro vinténs.

O compadre pobre ficou muito contente e, chegando em casa, a mulher desmanchou logo a fazenda em camisas para os filhos. Mas como Deus não quer nada mal feito, assim que o compadre saiu com a peça de chita, o rico caiu com uns ataques muito fortes e já para morrer. A mulher o aconselhou a que se confessasse, que ele estava muito mal, e chegando o padre e sabendo do segredo, mandou-o restituir todo o dinheiro do compadre pobre. Este veio a chamado do rico, que logo melhorou, só com a presença dele.

Mas o ricaço, não tendo coragem de entregar o dinheiro, ainda enganou o outro com outra peça de fazenda ordinária.

O pobre não cabia de si de contente, e mal tinha saído, já o rico estava outra vez morre não morre. É chamado de novo a toda pressa o compadre pobre, sendo ainda uma vez enganado com outra peça de fazenda, mas desta vez o rico já estava quase expirando, e não teve outro remédio senão declarar ao companheiro que aquelas barricas que ali estavam eram dele com todo o dinheiro que continham.

Ouvindo isto, o pobre quase que não se segurava em pé, tal foi o choque que sentiu, e como louco correu a dar novas à família, que não sabia como explicar tamanha felicidade. Houve oito dias de festas e o pobre ficou logo cercado de muitos amigos, entre eles o rico que ficou bom da moléstia esquisita, assim que entregou o dinheiro.

(ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro; cantos e contos populares do Brasil. 3 v. Rio de Janeiro, Livraria José Olímpio Editora, 1954. Coleção Documentos Brasileiros)

História pra Contar: A camisa do homem feliz
História pra Contar: A camisa do homem feliz

Gravemente enfermo, caíra prostrado numa cama o poderoso sultão Abou-Malek. De todas as partes vieram remédios, sábios e curandeiros; fizeram-se preces públicas; prometeram-se honras e fortunas a quem o salvasse.

Apareceu um dia no palácio uma velhinha, declarando que o sultão só se restabeleceria, ficando radicalmente curado, se vestisse a camisa de um homem feliz.

Imediatamente partiram mensageiros a procurar esse homem feliz, com ordem de lhe comprar a camisa por qualquer preço, ou arrancá-la à força, se ele a não quisesse ceder.

Principiando pela capital do reino, os emissários foram bater nos palácios dos ricos; depois dirigiram-se aos remediados; falaram por último com os pobres.

Seguiram, então, pelas pequenas cidades e aldeias, conversando com os camponeses. Passaram por todas as vilas, esquadrinharam todos os lugares.

Em parte alguma encontraram um só homem feliz.

Os ricos queriam se mais ricos ainda; os pobres desejavam fortuna; os doentes queriam saúde; soldados, oficiais, padres, operários, lavradores — todos tinham ambições e desejos.

Os mensageiros, inteiramente desanimados, regressaram para a capital.

Uma tarde, passando por uma vasta campina, encontraram um pastor sentado à sombra de uma copada árvore, tocando flauta. Ao longe, o rebanho pastava tranqüilamente.

A fisionomia do pastorzinho respirava honestidade, calma e contentamento.

Um deles lembrou-se de lhe dirigir a palavra:

— Vejo-o sentado aí, tão a seu gosto, que sou capaz de apostar que você nada mais deseja, camarada.

— E se o senhor apostasse, ganharia pela certa, respondeu o pastor.

— Como? tornou o outro admirado. Então, você nada ambiciona? nada quer?

— Nada.

— Não desejaria ser rico? Ser nobre? Viver num palácio? Morar na corte?

— Nada disso dá a felicidade que gozo!

— Mas você é verdadeiramente feliz? insistiu o mensageiro.

— Já lhe disse: sou feliz e nada quero.

— Então há de me fazer um favor: preciso muito da sua camisa.

— Minha camisa? perguntou o pastorzinho, admirado.

— Sim, sua camisa.

— Ah! isso é coisa que lhe não posso dar.

— Pois compro-a.

— Também não posso vender.

— Faça preço; e, por mais absurda que seja a quantia, nós lhe pagaremos.

— Mas se eu já lhe disse que não posso dar nem vender a minha camisa!… falou o pastorzinho.

— Será, então, à força…, disse o mensageiro.

E ele e os outros, atiraram-se sobre o pastor e arrancaram-lhe o paletó.

— Ah!… O homem feliz não tinha camisa, e por isso não podia vendê-la nem dá-la!…

(Pimentel, Figueiredo. Histórias da baratinha. Rio de Janeiro, Livraria Garnier, 1994, p.95-97)
História pra Contar: O Bicho Folharal
História pra Contar: O Bicho Folharal

Cansada de ser enganada pela raposa e de não poder segurá-la, a onça resolveu atraí-la à sua furna. Fez para esse efeito correr a notícia de que tinha morrido e deitou-se no meio da sua caverna, fingindo-se cadáver. Todos os bichos vieram olhar o seu corpo, contentíssimos. A raposa também veio, mas prudentemente de longe. E por trás de outros animais gritou:

– Minha avó, quando morreu, espirrou três vezes. Espirrar é o sinal verdadeiro da morte.

A onça, para mostrar que estava morta de verdade, espirrou três vezes. A raposa fugiu, às gargalhadas.

Furiosa, a onça resolveu apanhá-la ao beber água. Havia seca no sertão e somente uma cacimba ao pé duma serra tinha ainda um pouco de água. Todos os animais selvagens eram obrigados a beber ali. A onça ficou à espera da adversária, junto da cacimba, dia e noite.

Nunca a raposa curtiu tanta sede. Ao fim de três dias já não agüentava mais. Resolveu ir beber, usando duma astúcia qualquer. Achou um cortiço de abelhas, furou-o e com o mel que dele escorreu untou todo o seu corpo. Depois, espojou-se num monte de folhas secas, que se pregaram aos seus pêlos e cobriram-na toda.

Ao lusco-fusco, foi à cacimba. A onça olhou-a bem e perguntou-lhe:

– Que bicho és tu que eu não conheço, que eu nunca vi?

Respondeu cinicamente:

– Sou o bicho folharal.

– Podes beber.

Desceu a rampa do bebedouro, meteu-se na água, sorvendo-a com delícia e a onça lá em cima, desconfiada, vendo-a beber demais, como quem trazia sede de vários dias, murmurava:

– Quanto bebes, folharal!

Mas a água amoleceu o mel e as folhas foram caindo às porções. Quando fartara as entranhas ressequidas, a última folha caíra, a onça reconhecera a inimiga esperta e pulara ferozmente sobre ela, mas a raposa conseguira fugir.

(BARROSO, Gustavo. Ao som da viola. Rio de Janeiro, 1921. In CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil)

História pra Contar: Lobisomem
História pra Contar: Lobisomem

Franklin J. Cascaes

(Recolhida em Santo Antonio de Lisboa, e narrada pelo sr. L. G.)

Contou-me o narrador desta história que seus antepassados acreditavam que a origem do lobisomem e da bruxa, eram idênticas.

Quanto às suas atividades, acreditavam serem diferentes. Consideravam o lobisomem um personagem feroz e muito agressivo, principalmente, quando apanhado praticando as suas estrepolias demoníacas.

E continuou narrando-me o sr. L. G., que um seu parente que era pescador, certa ocasião foi assaltado por um enorme cachorro, ao ter chegado na praia, quando voltava de uma pescaria, à noite.

Para defender-se do agressivo animal, seu parente apanhou um remo da canoa e deu-lhe uma lambada, ferindo-o.

O cachorro ao ser ferido transformou-se numa criatura humana. Seu parente assistiu emocionado a transformação daquele animal feroz em uma criatura humana, na qual ele reconheceu a pessoa do seu compadre que era muito descorado e preguiçoso.

O ex-lobisomem, fingidamente, caiu de joelhos aos pés do seu parente e agradeceu-lhe muito contrito, o grande favor que ele lhe tinha prestado naquele momento, curando-lhe o maldito fardo que o acompanhava por muitos anos, desde o tempo da sua meninice.

Ao terminar o falso agradecimento, ergueu-se e disse o seguinte para o seu benfeitor: Compadre, em sinal de gratidão por este ato humano que praticaste para comigo, vou presentear-lhe com um lindo objeto de estimação que possuo há muitos anos.

Para isto, peço-te que esperes um momentinho aqui na praia, enquanto eu vou em casa buscá-lo.

Disse-me o sr. L. G., que o seu parente conhecia muito bem as astúcias daquela espécie de gente descorada e lorpa, que transformava-se em animais irracionais, de acordo com as leis do reino do capeta.

Por esta razão, quando o ex-lobisomem dirigiu-se para casa, seu parente tomou umas peças de roupas, molhadas que tinha na canoa, e com elas armou um judas na praia.

Em seguida, escondeu-se dentro de uma macegas perto do local da tragédia e ficou na expectativa.

Mas, como é com a morte que os lobisomem costumam recompensar às pessoas que arrancam-lhes o terrível fardo demoníaco, seu parente viu-o surgir na praia, ostentando uma espingarda e com ela alvejar o judas até prostrá-lo por terra, pensando que fosse o seu benfeitor.

Os vizinhos que foram acordados com os estampidos da arma de fogo, correram espavoridos em direção ao local da tragédia.

Quando chegaram na praia encontraram o ex-lobisomem de arma em punho gritando em altas vozes que tinha abatido a tiros o maior inimigo que possuía neste mundo.

Depois de terem escutado as palavras do ex-lobisomem, dirigiram-se para o local onde a vítima estava abatida.

Para surpresa de todos e do lobisomem, o homem que encontraram era o judas que seu parente tinha armado com as peças de roupa molhadas, e com o remo da canoa.

Por intermédio daquela armadilha, todas as pessoas que achavam-se ali presente naquele momento ficaram sabendo que o assassino de judas era um autêntico lobisomem, e que tinha sido apanhado, inteligentemente, pelo seu parente.

(Cascaes, Franklin J. “O lobishomem”. A Gazeta. Florianópolis, 06 de dezembro de 1957)
77 Parlendas tradicionais brasileiras em Áudio
77 Parlendas tradicionais brasileiras em Áudio
A Parlendas  são versinhos com temática infantil que são recitados em brincadeiras de crianças. Muitas parlendas são muito antigas e, algunas delas, foram criadas, há décadas. Elas fazem parte do folclore brasileiro e representam uma importante tradição cultural do nosso povo.
Nós somos apaixonados pela cultura oral brasileira, você também é? Então pode entrar que essa casa é sua! <3
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