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Tag: narrativas orais

Josiane Geroldi e Paulo Freire apresentam espetáculo “Imagina Só”
Josiane Geroldi e Paulo Freire apresentam espetáculo “Imagina Só”

 

Parceria dos contadores reúne causos, viola e contos populares

Se há algo em comum no trabalho da contadora de histórias Josiane Geroldi e do violeiro Paulo Freire é o encantamento pelo imaginário popular. Há quem diga, inclusive, que imaginário é somente um palavra, pois lobisomem e saci existem. E dessa parceria entre os contadores, surgiu o espetáculo de narrativas “Imagina Só”.

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Os dois se apresentaram pela primeira vez juntos em 2016, durante o Encontro Internacional de Contadores de Histórias (Boca do Céu), em São Paulo. A parceria deu certo e ambos decidiram reunir os causos novamente. O repertório é baseado em causos  e mitos populares brasileiros e une a narração de Josiane com a viola e os causos de Paulo Freire, ou melhor, Dona Jo e Nhô Paulo.

Como lembra Josiane, “tradicionalmente, as histórias eram contadas em rodas de fogueira ou acompanhadas de música, viola caipira, nos serões ou junto à família”. E a intenção é justamente esta, levar às pessoas experiências e sentimentos, seja o humor, o medo, a alegria. “Em especial, queremos aproximar o público da identidade cultural e do folclore através das narrativas orais”, afirma a contadora.

Paulo Freire é escritor, músico e contador de histórias com mais de 20 anos de experiência. Sua carreira solo como compositor e cantor começou em 1995. Ao longo dos anos, Paulo contribuiu e produziu outros discos e trabalhos para a televisão, cinema e séries. Já publicou seis livros autorais e colaborou com outras duas publicações. Seu repertório como contador passeia entre os causos caipiras, folclóricos e contos da oralidade popular brasileira.

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Quem conta um conto…

“Imagina Só” é um convite para fechar os olhos e se sentir no voo dos papagaios, desde as Veredas do Urucuia “inté” as barrancas do Rio Uruguai, brincam os contadores. E quem se programar, terá a chance de vê-los juntos. A partir do dia 06 de agosto, o espetáculo circulará em oito cidades de Santa Catarina. A circulação é uma parceria entre os contadores de histórias e as unidades do Sesc no estado. Veja abaixo a programação ou acompanhe no site do Sesc os locais das apresentações.

Programação

06/08 – Sesc São Miguel do Oeste

07/08 – Sesc Concórdia

08/08 – Sesc Xanxerê

10/08 – Sesc Chapecó

12/08 – Sesc Joaçaba

13/08 – Sesc Lages

14/08 – Sesc Blumenau

16/08 – Feira do Livro de Pouso Redondo (Sesc Rio do Sul)

 

Fotos: Pedro Napolitano Prata

Livros sobre narrativas orais, histórias e ofício do contador
Livros sobre narrativas orais, histórias e ofício do contador

 

Dia 25 de julho é conhecido como o Dia Nacional do Escritor. A data foi criada a partir do 1º Festival do Escritor Brasileiro, organizado ainda na década de 1960 por João Peregrino Júnior e por Jorge Amado, um dos principais ícones da literatura brasileira.

Como todos somos escritores, leitores e ouvidores, separamos algumas indicações de livros sobre a arte da narrativa oral. Alguns títulos possuem versão em PDF, outros somente versão impressa. Desse modo, você pode ampliar suas referências bibliográficas ou compartilhar às demais pessoas.

Lembre de comentar e dizer o que você achou da seleção.

Boa leitura!

 


 

BENJAMIN, Walter. O narrador. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1986. (baixe o PDF)

Bettelheim, Bruno. A psicanalise dos contos de fadas. São Paulo: Paz e Terra.1990. (baixe o PDF)

ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com lobos. Rio de Janeiro: Rocco,1994. (baixe o PDF)

BEDRAN, Bia. A arte de cantar e contar histórias – narrativas orais e processos criativos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.

BUSATTO, Cléo. Contar e encantar: pequenos segredos da narrativa. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2004.

CASCUDO, Luís da Câmara. Literatura oral no Brasil. 3. ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984.

COELHO, Betty. Contar histórias: uma arte sem idade. São Paulo, 1994.

GIRARDELLO, Gilka; FOX, Geoff. Baús e Chaves da Narração de Histórias. Florianópolis ( SESC): Milbocas, 2004.

LIMA, Nei Clara de. Narrativas orais: uma poética da vida social. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2003.

LISBOA, Marcia. Para Contar histórias – teoria e prática. Rio de Janeiro: Wak editora, 2010.

MACHADO, Ana Maria. Contando Histórias, formando leitores. Campinas, SP: Papirus 7 Mares, 2011.

MACHADO, Regina. Acordais: fundamentos teóricos-poéticos da arte de contar histórias. São Paulo: DCL, 2004.

MATOS, Gislayne Avelar. O ofício do contador de histórias: perguntas e respostas, exercícios práticos e um repertório para encantar. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009.

MELLON, Nancy. A arte de contar histórias. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.

MORAES, Fabiano. GOMES, Lenice. A arte de encantar- o contador de histórias contemporâneo e seus olhares. São Paulo: Cortez, 2012.

SISTO, Celso. Textos e pretextos sobre a arte de contar histórias. Chapecó: Argos, 2001.

TIERNO, Giuliano. A arte de contar histórias – Abordagens poética, literária e performática. São Paulo: Ícone, 2010.

TURCHI, Maria Zaira. Literatura e Antropologia do Imaginário. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 2003

ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção e leitura. São Paulo. Cosac Naify,2007.

ZUMTHOR, Paul. Introdução à poesia oral. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.

ContaCausos apresenta Puravida no ‘Ensaio Aberto’, nesta sexta-feira
ContaCausos apresenta Puravida no ‘Ensaio Aberto’, nesta sexta-feira

 

Foi através da leitura, e inspirada por histórias e contos sobre feminilidade e sabedorias femininas, que a atriz e contadora de histórias Josiane Geroldi, criou um novo espetáculo de narrativas da Cia ContaCausos: o Puravida. A ideia surgiu após um convite para uma sessão de contos em uma exposição sobre a violência contra a mulher, realizada pelo Gapa, no início do ano. Há alguns anos, Josiane vinha fazendo leituras sobre acerca da sabedoria e ancestralidade femininas. Acabou que “uma coisa levou à outra” e ela decidiu, então, pela montagem do espetáculo.

“Eu sinto a necessidade de fazer com que as pessoas também se encontrem através das histórias, assim como eu tenho o feito”

Esta será a segunda vez que a contadora apresenta “Puravida”, ainda em processo de concepção e pesquisa. A intenção do “Ensaio Aberto”, promovido pelo Sesc, é possibilitar aos artistas oportunidades de explorar novas propostas cênicas, musicais e visuais, como forma de experimentação do trabalho criativo. O espetáculo será apresentado na sexta-feira (14), às 19h30, no Teatro do Sesc, em Chapecó.

02 Puravida - Angélica Lüersen

“As histórias apresentadas me tocam de forma muito profunda, muito singular. E eu senti a necessidade de fazer com que as pessoas também se encontrassem através dessas narrativas, assim como eu tenho o feito”, revela Josiane, idealizadora da ContaCausos. Isso porque, ela tem vivido um processo de entendimento como contadora de histórias e mulher, de procurar quem ela é o que quer dizer enquanto artista.

Velha, Bruxa, Sábia…

São várias as narrativas que compõem “Puravida”, todas sobre mulheres empoderadas, estabelecendo a figura feminina como protagonista da ação, onde ela resolve situações de sua comunidade e é detentora de conhecimentos. Ou seja, distanciando a mulher do papel fantasiado em que ela espera pelo príncipe. Além do trabalho de pesquisa, este condensa experiências pessoais, como lembra a atriz. “Eu senti a necessidade de fazer com que as pessoas também se encontrem através das histórias, assim como eu tenho o feito”.

O Teatro do Sesc fica na rua Brasília, 475D, no bairro Jardim Itália. A classificação do espetáculo é de 10 anos e os ingressos (limitados – 40 lugares) serão distribuídos meia hora antes do evento, com entrada franca.

 

Fotos: Angélica Lüersen

Histórias Pra Contar: O Sal e o Rei
Histórias Pra Contar: O Sal e o Rei

Num reino nem tão distante, havia um velho rei que tinha três filhas muito belas. Certo dia, o rei perguntou a cada uma delas:
– Quanto você ama seu pai?

A mais velha foi a primeira a responder:
– Quero mais a meu pai do que a luz do Sol.

Em seguida, a irmã do meio respondeu:
– Gosto mais do meu pai do que de mim mesma.

A mais jovem foi a última a responder:
– Quero-lhe tanto como a comida quer o sal, meu pai!

O rei achou estranho aquela resposta. E entendeu que sua filha mais nova não lhe amava quanto as demais. Decidiu que ela deveria ir embora, que não poderia morar com eles, e expulsou a menina do palácio.

A jovem princesa ficou muito triste e nem pôde se despedir das irmãs. Andou por muitos caminhos e riachos, até chegar ao castelo de outro rei. Chegando lá, pediu um lugar para morar e em troca seria a cozinheira do palácio. O rei aceitou e assim ela continuou, cozinhando e morando novo castelo.

Num dia, chegou à mesa uma grande panela de guisado, muito bem feito. O serviu-se e quando levou a colher à boca quase engoliu um anel de ouro. Irritado, perguntou a todas as damas da corte de quem era aquele anel. Todas as mulheres tentaram colocar a joia no dedo, mas não servia em nenhuma delas. Chamaram a princesa cozinheira e nela o anel encaixou.

O príncipe se apaixonou pela jovem e notou que aquela joia só poderia ser de alguém da realeza. Imaginou que a moça era de família nobre. O príncipe passou a espiar a princesa, porque a jovem cozinhava somente às escondidas. Foi quando ele a viu vestida em trajes nobres e soube que ela era princesa. Chamou o rei, seu pai, para que ele também visse. O príncipe pediu a mão da jovem em casamento e o rei deu licença para os dois casarem. A princesa impôs uma condição: ela queria cozinhar o jantar da festa de noivado. O rei disse que tudo bem e assim aconteceu.

No dia do noivado, muitos rainhas e reis foram convidados. O pai da menina, que a expulsou de casa, e suas irmãs também foram à festa. Na hora do jantar, todos estavam servidos e comendo à mesa. Mas a princesa decidiu não colocar sal no prato de seu pai. Os convidados se esbanjavam com o banquete, mas somente o pai da princesa não comia. O pai do príncipe estranhou e pediu:
– Rei amigo, por que sua alteza não está comendo conosco?

O rei respondeu, sem saber que se tratava do casamento da filha:
– É porque a comida não tem sal, caro amigo.

O pai do noivo ficou furioso e pediu que a cozinheira viesse explicar por que o prato do Rei amigo não estava salgado.

Veio, então, a jovem princesa. Quando seu pai a viu, reconheceu a filha e logo confessou sua culpa, muito arrependido do que havia feito. Ele pediu desculpas por não ter percebido quanto era amado pela sua filha. Lembrou que a moça lhe tinha dito que lhe amava tanto como a comida quer o sal. E redimiu-se em frente de todos.

Ilustração: Helena Heleno

Versão adaptada do conto original escrito por Teófilo Braga (Contos Tradicionais do Povo Português, 1883), recorrente desde a colonização portuguesa.
História Pra Contar: Os Compadres Corcundas
História Pra Contar: Os Compadres Corcundas

Era uma vez, dois compadres corcundas, um Rico outro Pobre. O povo do lugar vivia zombando da corcunda do Pobre e não reparava no Rico. A situação do Pobre, que era caçador, andava meio mal.

Certo dia, sem conseguir caçar nada, já tardinha, sem querer voltar para casa, o Pobre resolveu dormir ali mesmo no mato.

Quando já ia pegando no sono ouviu uma cantiga ao longe, como se muita gente cantasse ao mesmo tempo.

Saiu andando e andando no rumo da cantiga que não parava. Depois de muito andar, chegou numa clareira iluminada pelo luar e viu uma roda de gente esquisita, vestida de diamantes que brilhavam com a lua. Velhos, rapazes, meninos, todos cantavam e dançavam de mãos dadas, o mesmo verso, sem mudar:

– “Segunda, Terça-feira, Vai, vem! Segunda, Terça-feira, Vai, vem!”

Tremendo de medo, escondeu-se numa moita e ficou assistindo aquela cantoria que era sempre a mesma durante horas e horas.

Depois ficou mais calmo e foi se animando. E como era metido a improvisador, entrou no meio da cantoria entoando:

– “Segunda, Terça-feira, Vai, vem! E Quarta e Quinta-feira, Meu, bem!”

Imediatamente todos ficaram em silêncio, e o povo espalhou-se à procura de quem havia falado. Pegaram o corcunda e o levaram para o meio da roda. Um velhão, então, perguntou com voz delicada:

– Foi você quem cantou o verso novo da cantiga?

– Sim, fui eu, Senhor!

– Quer vender o verso? – perguntou o Velhão.

– Olha, meu senhor, não a vendo. Melhor, dou-lhes de presente, porque gostei demais do baile animado.

O Velho achou graça e todo aquele povo esquisito riu também.

– Pois bem – disse o Velhão – uma mão lava a outra. Em troca do verso eu te tiro essa corcunda e esse povo te dá um Bisaco novo!

O Velho passou a mão nas costas do caçador Pobre e a corcunda , como numa mágica, sumiu. As pessoas lhe deram um Bisaco novo e disseram que ele deveria abrir somente quando o sol nascesse.

O Caçador meteu-se na estrada e foi embora. Assim que o sol nasceu abriu o bisaco e o encontrou cheio de pedras preciosas e moedas de ouro.

No outro dia comprou uma casa com todos os móveis, comprou uma roupa nova e foi à missa porque era domingo. Lá na igreja encontrou o compadre Rico, também corcunda. Ele quase caiu de costas, ficou muito surpreso com a mudança. Mais espantado ficou quando o compadre, antes pobre e agora rico, contou tudo que aconteceu ao compadre Rico.

Cheio de ganância, o Rico resolveu arranjar ainda mais dinheiro e livrar-se da corcunda nas costas.

Esperou uns dias e depois se meteu no meio do mato. Tanto fez que ouviu a cantoria e foi na direção da toada. Achou o povo esquisito dançando numa roda e cantando:

– “Segunda, Terça-feira, Vai, vem!

Quarta e quinta-feira, Meu, bem!”

O Rico não se conteve. Abriu o par de queixos e foi logo berrando:

– “Sexta, Sábado e Domingo, Também!”

Como antes, todos ficaram em silêncio. O povo esquisito voou para cima do homem atrevido e o levaram para o meio da roda onde estava o Velhão. Esse gritou, furioso:

– Quem mandou se meter onde não é chamado, seu corcunda besta? Você não sabe que gente encantada não quer saber de Sexta-Feira, dia em que morreu o filho do alto?!

O corcunda Rico olhou sem reação e nada disse. O Velhão continuou exclamando em voz alta:

– Gente encantada não quer saber de Sábado, o dia em que morreu o filho do pecado, e nem de Domingo, dia em que ressuscitou quem nunca morre! Não sabia disso? Pois fique sabendo! E para que não se esqueça da lição, leve a corcunda que deixaram aqui e suma-se da minha vista, senão acabo com seu couro!

O Velhão passou a mão no peito do corcunda Rico e deixou ali a corcunda do compadre Pobre. Depois, deram uma carreira no homem, que ele não sabe como chegou em casa.

E assim viveu o resto de sua vida: Rico, mas com duas corcundas, uma na frente e outra atrás. As corcundas tornaram-se seu fardo, para ele deixar de ser ambicioso.

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