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Tag: Conto Popular

Livros sobre narrativas orais, histórias e ofício do contador
Livros sobre narrativas orais, histórias e ofício do contador

 

Dia 25 de julho é conhecido como o Dia Nacional do Escritor. A data foi criada a partir do 1º Festival do Escritor Brasileiro, organizado ainda na década de 1960 por João Peregrino Júnior e por Jorge Amado, um dos principais ícones da literatura brasileira.

Como todos somos escritores, leitores e ouvidores, separamos algumas indicações de livros sobre a arte da narrativa oral. Alguns títulos possuem versão em PDF, outros somente versão impressa. Desse modo, você pode ampliar suas referências bibliográficas ou compartilhar às demais pessoas.

Lembre de comentar e dizer o que você achou da seleção.

Boa leitura!

 


 

BENJAMIN, Walter. O narrador. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1986. (baixe o PDF)

Bettelheim, Bruno. A psicanalise dos contos de fadas. São Paulo: Paz e Terra.1990. (baixe o PDF)

ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com lobos. Rio de Janeiro: Rocco,1994. (baixe o PDF)

BEDRAN, Bia. A arte de cantar e contar histórias – narrativas orais e processos criativos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.

BUSATTO, Cléo. Contar e encantar: pequenos segredos da narrativa. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2004.

CASCUDO, Luís da Câmara. Literatura oral no Brasil. 3. ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984.

COELHO, Betty. Contar histórias: uma arte sem idade. São Paulo, 1994.

GIRARDELLO, Gilka; FOX, Geoff. Baús e Chaves da Narração de Histórias. Florianópolis ( SESC): Milbocas, 2004.

LIMA, Nei Clara de. Narrativas orais: uma poética da vida social. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2003.

LISBOA, Marcia. Para Contar histórias – teoria e prática. Rio de Janeiro: Wak editora, 2010.

MACHADO, Ana Maria. Contando Histórias, formando leitores. Campinas, SP: Papirus 7 Mares, 2011.

MACHADO, Regina. Acordais: fundamentos teóricos-poéticos da arte de contar histórias. São Paulo: DCL, 2004.

MATOS, Gislayne Avelar. O ofício do contador de histórias: perguntas e respostas, exercícios práticos e um repertório para encantar. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009.

MELLON, Nancy. A arte de contar histórias. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.

MORAES, Fabiano. GOMES, Lenice. A arte de encantar- o contador de histórias contemporâneo e seus olhares. São Paulo: Cortez, 2012.

SISTO, Celso. Textos e pretextos sobre a arte de contar histórias. Chapecó: Argos, 2001.

TIERNO, Giuliano. A arte de contar histórias – Abordagens poética, literária e performática. São Paulo: Ícone, 2010.

TURCHI, Maria Zaira. Literatura e Antropologia do Imaginário. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 2003

ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção e leitura. São Paulo. Cosac Naify,2007.

ZUMTHOR, Paul. Introdução à poesia oral. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.

Pinhalzinho recebe espetáculo “Esticando as Canelas”, da Cia ContaCausos
Pinhalzinho recebe espetáculo “Esticando as Canelas”, da Cia ContaCausos

Bem-humorada, sessão de contos apresenta as tradições e crenças sobre a morte

Quem gosta de ouvir boas histórias tem um motivo a mais para sair de casa neste fim de semana. A Cia ContaCausos apresentará o espetáculo “Esticando as Canelas” no Centro de Arte Paola Zonta, em Pinhalzinho. Seja adulto ou criança, os causos cativam todos os públicos, por isso é melhor se programar e comprar seu ingresso com antecedência.

esticando as canelas 02

Contar histórias, compartilhar a sabedoria popular e dar voz à cultura oral brasileira são os objetivos da Cia ContaCausos. Há sete anos, a idealizadora do projeto, Josiane Geroldi, se propõe a pesquisar, registrar e difundir a arte da narrativa oral. O trabalho da Cia, que já levou alguns espetáculos para importantes eventos no Brasil, como o Boca do Céu – Encontro Internacional de Contadores de Histórias, resulta em apresentações artísticas, oficinas e mapeamento dos saberes tradicionais.

“Cada vez mais eu tenho identificado que as histórias, de fato, são universais. Mesmo quando utilizamos expressões regionais ou contamos causos específicos de uma localidade, o imaginário social e as experiências humanas são muito comuns, e isso acaba tornando a história uma linguagem universalizada”, afirma Josiane.

Vozes e memórias

Muito familiarizada com as narrativas do Oeste catarinense, a ContaCausos desempenha uma função essencial para a cultura popular e, especialmente, a cabocla. Várias histórias do acervo de Josiane derivam das experiências vividas pelos povos tradicionais. “A Cia sempre teve certa inclinação a essas comunidades, tanto pelo trabalho de pesquisa com os caboclos quanto pela própria literatura oral”, acrescenta a contadora.

Na próxima sexta-feira, dia 7, é dia de conhecer as histórias de Zé Malandro, que tenta enganar a Dona Morte em “Esticando as Canelas”. Humoradas, as narrativas lembram as malandrices do moço, ao tentar escapar da Morte. A apresentação, com classificação indicativa de 6 anos, será às 19h, no Centro de Arte Paola Zonta, na avenida Capitão Anísio, 601, Centro. O ingresso custa R$ 10,00 e pode ser adquirido diretamente no Centro ou através do telefone (49) 3199-2057.

 

Fotos: Augusto Zeiser

História Pra Contar: Os Compadres Corcundas
História Pra Contar: Os Compadres Corcundas

Era uma vez, dois compadres corcundas, um Rico outro Pobre. O povo do lugar vivia zombando da corcunda do Pobre e não reparava no Rico. A situação do Pobre, que era caçador, andava meio mal.

Certo dia, sem conseguir caçar nada, já tardinha, sem querer voltar para casa, o Pobre resolveu dormir ali mesmo no mato.

Quando já ia pegando no sono ouviu uma cantiga ao longe, como se muita gente cantasse ao mesmo tempo.

Saiu andando e andando no rumo da cantiga que não parava. Depois de muito andar, chegou numa clareira iluminada pelo luar e viu uma roda de gente esquisita, vestida de diamantes que brilhavam com a lua. Velhos, rapazes, meninos, todos cantavam e dançavam de mãos dadas, o mesmo verso, sem mudar:

– “Segunda, Terça-feira, Vai, vem! Segunda, Terça-feira, Vai, vem!”

Tremendo de medo, escondeu-se numa moita e ficou assistindo aquela cantoria que era sempre a mesma durante horas e horas.

Depois ficou mais calmo e foi se animando. E como era metido a improvisador, entrou no meio da cantoria entoando:

– “Segunda, Terça-feira, Vai, vem! E Quarta e Quinta-feira, Meu, bem!”

Imediatamente todos ficaram em silêncio, e o povo espalhou-se à procura de quem havia falado. Pegaram o corcunda e o levaram para o meio da roda. Um velhão, então, perguntou com voz delicada:

– Foi você quem cantou o verso novo da cantiga?

– Sim, fui eu, Senhor!

– Quer vender o verso? – perguntou o Velhão.

– Olha, meu senhor, não a vendo. Melhor, dou-lhes de presente, porque gostei demais do baile animado.

O Velho achou graça e todo aquele povo esquisito riu também.

– Pois bem – disse o Velhão – uma mão lava a outra. Em troca do verso eu te tiro essa corcunda e esse povo te dá um Bisaco novo!

O Velho passou a mão nas costas do caçador Pobre e a corcunda , como numa mágica, sumiu. As pessoas lhe deram um Bisaco novo e disseram que ele deveria abrir somente quando o sol nascesse.

O Caçador meteu-se na estrada e foi embora. Assim que o sol nasceu abriu o bisaco e o encontrou cheio de pedras preciosas e moedas de ouro.

No outro dia comprou uma casa com todos os móveis, comprou uma roupa nova e foi à missa porque era domingo. Lá na igreja encontrou o compadre Rico, também corcunda. Ele quase caiu de costas, ficou muito surpreso com a mudança. Mais espantado ficou quando o compadre, antes pobre e agora rico, contou tudo que aconteceu ao compadre Rico.

Cheio de ganância, o Rico resolveu arranjar ainda mais dinheiro e livrar-se da corcunda nas costas.

Esperou uns dias e depois se meteu no meio do mato. Tanto fez que ouviu a cantoria e foi na direção da toada. Achou o povo esquisito dançando numa roda e cantando:

– “Segunda, Terça-feira, Vai, vem!

Quarta e quinta-feira, Meu, bem!”

O Rico não se conteve. Abriu o par de queixos e foi logo berrando:

– “Sexta, Sábado e Domingo, Também!”

Como antes, todos ficaram em silêncio. O povo esquisito voou para cima do homem atrevido e o levaram para o meio da roda onde estava o Velhão. Esse gritou, furioso:

– Quem mandou se meter onde não é chamado, seu corcunda besta? Você não sabe que gente encantada não quer saber de Sexta-Feira, dia em que morreu o filho do alto?!

O corcunda Rico olhou sem reação e nada disse. O Velhão continuou exclamando em voz alta:

– Gente encantada não quer saber de Sábado, o dia em que morreu o filho do pecado, e nem de Domingo, dia em que ressuscitou quem nunca morre! Não sabia disso? Pois fique sabendo! E para que não se esqueça da lição, leve a corcunda que deixaram aqui e suma-se da minha vista, senão acabo com seu couro!

O Velhão passou a mão no peito do corcunda Rico e deixou ali a corcunda do compadre Pobre. Depois, deram uma carreira no homem, que ele não sabe como chegou em casa.

E assim viveu o resto de sua vida: Rico, mas com duas corcundas, uma na frente e outra atrás. As corcundas tornaram-se seu fardo, para ele deixar de ser ambicioso.

História Pra Contar: A onça e o veado
História Pra Contar: A onça e o veado

 

‘Tá’ aí uma história muito divertida! Está entre as mais antigas e mais populares das nossas narrativas de tradição oral. Causo que ainda hoje é passado de avô pra neto e assim por diante. Já foi muito publicada, e cada escritor, folclorista e contador de histórias dá a ela uma versão, aquele floreio bonito, o arremate, o exagero que encanta. Aqui na ContaCausos a gente gosta muito de juntar várias versões, por beleza e força de imagens na narrativa.

Borá encher o embornal?

 

A onça e o veado (Conto Popular de origem africana)

Os animais sempre viveram na floresta, abrigando-se em tocos de árvores, cavernas, embaixo de pedras em buracos na terra e na copa das árvores.

Um belo dia o veado resolveu construir sua casa. “Vou arranjar um belo lugar para construir a minha casa” disse ele.

Escolheu um lugar bonito, verdinho, florido, na beira do rio.

A onça também se decidiu –“Vou escolher um lugar bem bonito e vou fazer uma bela casa”.

Saiu para escolher o lugar, sem saber, resolveu construir sua casa no mesmo lugar que o veado.

No dia seguinte, o veado foi ao terreno, limpou o mato, capinou, retirou o lixo e foi embora descansar.

Quando a onça chegou e viu o terreno todo limpo disse. –“É deus que está me ajudando!”. Enfiou quatro estacas no chão e ergueu as paredes. No dia seguinte o veado quando chegou ficou muito feliz. –“deus está me ajudando!”. Trabalhou o dia inteiro e cobriu a casa, depois foi dormir morto de cansaço. Parecia até que a onça e o veado tinham combinado, quando um estava trabalhando, o outro estava descansando.

Um dia a casa ficou pronta e a onça mudou-se e ocupou um quarto. No dia seguinte à tardinha, chegou o veado com a sua mudança e ocupou o outro quarto.

De manhã os dois se encontraram. “Então era você que estava me ajudando”?

Depois de muita discussão resolveram morar juntos, cada um na sua.

Combinaram as tarefas, quem buscava água, quem limpava a casa e quem saía para caçar e quem cozinhava.

A onça saiu para caçar e trouxe um veado muito grande e deixou na porta.

O veado ficou muito apreensivo, mas conforme combinado, tratou e cozinhou o veado, mas não comeu.

No dia seguinte era a vez do veado caçar. Na floresta ele viu uma onça dormindo e um tamanduá caçando formigas. O veado disse ao tamanduá. –“Está vendo que aquela onça? Ela vive dizendo que vai comer você.” O tamanduá ficou muito irritado, aproveitou que a onça estava dormindo, deu-lhe um abraço pelas costas e matou-a.

O veado arrastou a onça até a porta da casa e disse “Hoje é seu dia de cozinhar”.

A onça ficou com medo do veado, tratou, assou a carne, mas não comeu.

O veado vigiava a onça e a onça vigiava o veado. Passavam os dias e as noites de guarda, uma noite o sono traiu o veado que caiu e bateu a cabeça numa madeira fazendo zoada, com medo da reação da onça fugiu e bateu a porta. A onça que também dormia assustou–se com o barulho, e com medo do veado fugiu para floresta sem olhar pra traz.

Nunca mais voltaram, ficando a casa abandonada.
Fonte: Cirandando Brasil

Histórias pra Contar: Um encontro fantástico
Histórias pra Contar: Um encontro fantástico

Todos os anos eles se reuniam na floresta, à beira de um rio, para ver a quantas andava a sua fama. Eram criaturas fantásticas e cada uma vinha de um canto do Brasil. O Saci-Pererê chegou primeiro. Moleque pretinho, de uma perna só, barrete vermelho na cabeça, veio manquitolando, sentou-se numa pedra e acendeu seu cachimbo. Logo apontou no céu a Serpente Emplumada e aterrissou aos seus pés. Do meio das folhagens, saltou o Lobisomem, a cara toda peluda, os dentes afiados, enormes. Não tardou, o tropel de um cavalo anunciou o Negrinho do Pastoreio montado em pelo no seu baio.

– Só falta o Boto – disse o Saci, impaciente.

– Se tivesse alguma moça aqui, ele já teria chegado para seduzi-la – comentou a Serpente Emplumada.

– Também acho – concordou o Lobisomem. – Só que eu já a teria apavorado.

Ouviram nesse instante um rumor à margem do rio. Era o Boto saindo das águas na forma de um belo rapaz.

– Agora estamos todos – disse o Negrinho do Pastoreio.

– E então? – perguntou o Boto, saudando o grupo. – Como estão as coisas?

– Difíceis – respondeu o Saci e soltou uma baforada. – Não assustei muita gente nesta temporada.

– Eu também não – emendou a Serpente Emplumada. – Parece que as pessoas lá no Nordeste não têm mais tanto medo de mim.

– Lá no Norte se dá o mesmo – disse o Boto. – Em alguns locais, ainda atraio as mulheres, mas em outros elas nem ligam.

– Comigo acontece igual – disse o Negrinho do Pastoreio. – Vivo a achar coisas que as pessoas perdem no Sul. Mas não atendi muitos pedidos este ano.

– Seu caso é diferente – disse o Lobisomem. – Você não é assustador como eu, o Saci e a Serpente Emplumada. Você é um herói.

– Mas a dificuldade é a mesma – discordou o Negrinho do Pastoreio.

– Acho que é a concorrência – disse o Boto. – Andam aparecendo muitos heróis e vilões novos.

– Pois é – resmungou a Serpente Emplumada. – Até bruxas andam importando. Tem monstros demais por aí…

– São todos produzidos por homens de negócios – disse o Saci. – É moda. Vai passar…

– Espero – disse o Lobisomem. – Bons aqueles tempos em que eu reinava no país inteiro, não só no cerrado.

– A diferença é que somos autênticos – disse o Negrinho do Pastoreio. – Nós nascemos do povo.

– É verdade – disse o Boto. – Mas temos de refrescar a sua memória.

– Se pegarmos no pé de uns escritores, a coisa pode melhorar – disse a Serpente Emplumada.

– Eu conheço um – disse o Saci. – Vamos juntos atrás dele! – E foi o primeiro a se mandar, a mil por hora, em uma perna só.

 

Conto de João Anzanello Carrascoza

Fonte: Revista Nova Escola 

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