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Relato da ContaCausos inspira ilustração do Lobisomem
Relato da ContaCausos inspira ilustração do Lobisomem

Trabalho criado por estudante de Design faz parte de um livro

Foi depois de um encontro por acaso que a estudante de Design Maria Augusta Scopel Bohner, 19 anos, acabou ilustrando um dos personagens folclóricos brasileiros mais conhecidos: o Lobisomem. Maria assistiu ao espetáculo de “Visagem”, da ContaCausos, e após a sessão acabou se inteirando mais sobre os figuras recorrentes na tradição oral do Oeste catarinense em uma conversa com a contadora de histórias Josiane Geroldi.

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Ilustração do Lobisomem criada por Maria Augusta, a partir de relatos e pesquisas (Crédito: Maria Augusta Scopel Bohner/SG Arte Visual)

“Visagem” é resultado da pesquisa da Cia que iniciou em 2008. O espetáculo reúne narrativas, experiências, causos e crenças da região Oeste compilados através de entrevistas com comunidades tradições do interior das cidades. Maria havia sido provocada pelo curso (em fase de conclusão) a ilustrar uma história ou conto regional e a experiência do espetáculo acabou lhe inspirando. A jovem procurou no site da Cia contos sobre o Lobisomem e, ao encontrar referências, criou esse trabalho incrível.

“Achei muito interessante [o conto do Lobisomem], amo conhecer mais sobre cultura e folclore. Às vezes, vivemos imersos em um ambiente muito influenciado pelas culturas estrangeiras, que acabamos nos esquecendo da riqueza cultural próxima a nós. Sou apaixonada pela iniciativa da Cia ContaCausos, especialmente por resgatar as histórias regionais”, explica Maria, que é chapecoense, mas estuda em Florianópolis e que conta ter sido a primeira vez que ouvir histórias do personagem ilustrado aqui na região.

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História Pra Contar: Causo de Lobisomem

No fim do ano passado, a ilustração de Maria e de outros colegas foram publicadas no livro “Lendas”, organizado pelo artista e ilustrador chapecoense  Samicler Gonçalves, proprietário da SG Arte Visual, escola onde Maria conclui os trabalhos. A obra reúne narrativas autorais, adaptações e releituras de narrativas regionais que instigam o leitor a participar do universo literário criativo. “A proposta é fomentar a cultura local e incentivar os elementos que compõem a região em que estamos inseridos”, explica Samicler. Aos interessados, o livro pode ser adquirido na livraria da SG Arte Visual, localizada na Galeria Zandonai, sala 09, Avenida Nereu Ramos, 247-E, Centro de Chapecó.

Quer saber mais sobre o trabalho de Maria? Acompanhe as redes sociais da ilustradora:

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História pra Contar: Causo de Lobisomem
História pra Contar: Causo de Lobisomem

Esse Causo bão barbaridade quem nos contou foi o seu João Amará, morador de uma comunidade do interior de Chapecó/SC chamada Linha Almeida. Seu João é um contador de causo de primeira, só conta fato acontecido, verídico, experiência vivida e comprovada. Segundo o que ele nos contou, antigamente existia muito lobisomem. Acontece que as famílias eram maiores, o povo tinha muitos filhos e vez ou outra dava o azar de nascer 7 meninos encarreirados, o último rebento carregava o “fardo”, a maldição, só tinha um jeito de escapar, o filho mais velho tinha que batizar o mais novo nas águas santas, tinha que colocar o nome do caçula de Bento. E pronto, resolvia o problema. O transtorno vinha quando o povo esquecia do procedimento. A pessoa garrava o fardo e seguia assim até o fim da vida.

Senta que lá vem o causo, tal qual nos contou o seu João:

” Lobisome? Sim, Tinha. Uma vez tinha um meu compadre. Agora já é morto, compadre Pacífico.

E tinha uma noite lá que tinha uma cachorrada que não deixava a gente dormi e daí eu pensei: – vo pegar essa espingardinha de pressão e vo dá um susto nesses bicho. Mas eu sabia que se tivesse lobisome no meio não prestava matá, porque  diz que se matá vira na coisa mais feia do mundo, então eu ia atirá só pra assustá. Passei a mão naquela espoletinha bem pequenininha, bem fininha mesmo, daí trepei anssim numa área e fiquei esperando, esperando, espiando na beradinha da porta e de repente comecei a ouvir  aquela cachorrada e vi que eles vinham passando assim… e no meio daqueles cachorro  guaipeca  eu vi que tinha um cachorrão, grandão anssim, uns orelhão grande anssim, dai esperei quando ele passou eu atirei e com o estoro  aquele bicho saltô metro e se foi pro mato, só que de repente ficou tudo quieto. A cachorrada voltaram tudo pra traz e ficaram quieto. Dai eu pensei, será que eu matei? e dai me faltou coragem pra ir lá olhar. esperei o outro dia quando clareou e fui espiá, dai tinha só as pegada arrastada no chão. Fico por isso.

Dali três dias eu fui lá na casa de um vizinho, compadre meu pra tomá caldo de cana, e quando cheguei lá esse vivente tava lá, o Pacífico, e ele me olhou assim atravessado e  disse:”- ahhh você… eu tenho uma coisa pra você ali na minha sacola. E eu vi que tinha um facão assim guardado daí eu disse:  “- pra quê compadre?, sempre se demo tão bem! o que foi que eu te fiz?” dai ele mostrou, ergueu a calça anssim e mostro, era uma ferida na perna  – eu tenho essa ferida na perna que não sara. A perna dele tava anssim toda furada de chumbinho bem fininho.

Ele era lobisomem né? dai ele saiu dali e eu nunca mais vi. Mas isso aí aconteceu! eu dei um tiro no lobisomem.”

 Valeu seu João!!!! A sua experiência enriquece o nosso imaginário, já contamos o seu causo pras crianças da região e eles adoram ouvir os causos acontecidos na nossa terra. O senhor nos conta e a gente vai passando adiante. Gratidão!

História pra Contar: Lobisomem
História pra Contar: Lobisomem

Franklin J. Cascaes

(Recolhida em Santo Antonio de Lisboa, e narrada pelo sr. L. G.)

Contou-me o narrador desta história que seus antepassados acreditavam que a origem do lobisomem e da bruxa, eram idênticas.

Quanto às suas atividades, acreditavam serem diferentes. Consideravam o lobisomem um personagem feroz e muito agressivo, principalmente, quando apanhado praticando as suas estrepolias demoníacas.

E continuou narrando-me o sr. L. G., que um seu parente que era pescador, certa ocasião foi assaltado por um enorme cachorro, ao ter chegado na praia, quando voltava de uma pescaria, à noite.

Para defender-se do agressivo animal, seu parente apanhou um remo da canoa e deu-lhe uma lambada, ferindo-o.

O cachorro ao ser ferido transformou-se numa criatura humana. Seu parente assistiu emocionado a transformação daquele animal feroz em uma criatura humana, na qual ele reconheceu a pessoa do seu compadre que era muito descorado e preguiçoso.

O ex-lobisomem, fingidamente, caiu de joelhos aos pés do seu parente e agradeceu-lhe muito contrito, o grande favor que ele lhe tinha prestado naquele momento, curando-lhe o maldito fardo que o acompanhava por muitos anos, desde o tempo da sua meninice.

Ao terminar o falso agradecimento, ergueu-se e disse o seguinte para o seu benfeitor: Compadre, em sinal de gratidão por este ato humano que praticaste para comigo, vou presentear-lhe com um lindo objeto de estimação que possuo há muitos anos.

Para isto, peço-te que esperes um momentinho aqui na praia, enquanto eu vou em casa buscá-lo.

Disse-me o sr. L. G., que o seu parente conhecia muito bem as astúcias daquela espécie de gente descorada e lorpa, que transformava-se em animais irracionais, de acordo com as leis do reino do capeta.

Por esta razão, quando o ex-lobisomem dirigiu-se para casa, seu parente tomou umas peças de roupas, molhadas que tinha na canoa, e com elas armou um judas na praia.

Em seguida, escondeu-se dentro de uma macegas perto do local da tragédia e ficou na expectativa.

Mas, como é com a morte que os lobisomem costumam recompensar às pessoas que arrancam-lhes o terrível fardo demoníaco, seu parente viu-o surgir na praia, ostentando uma espingarda e com ela alvejar o judas até prostrá-lo por terra, pensando que fosse o seu benfeitor.

Os vizinhos que foram acordados com os estampidos da arma de fogo, correram espavoridos em direção ao local da tragédia.

Quando chegaram na praia encontraram o ex-lobisomem de arma em punho gritando em altas vozes que tinha abatido a tiros o maior inimigo que possuía neste mundo.

Depois de terem escutado as palavras do ex-lobisomem, dirigiram-se para o local onde a vítima estava abatida.

Para surpresa de todos e do lobisomem, o homem que encontraram era o judas que seu parente tinha armado com as peças de roupa molhadas, e com o remo da canoa.

Por intermédio daquela armadilha, todas as pessoas que achavam-se ali presente naquele momento ficaram sabendo que o assassino de judas era um autêntico lobisomem, e que tinha sido apanhado, inteligentemente, pelo seu parente.

(Cascaes, Franklin J. “O lobishomem”. A Gazeta. Florianópolis, 06 de dezembro de 1957)
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